abeatrizpd22@gmail.com
Senti a raiz que não podia se firmar em solo profundo. Machuca quem se aproxima, por puro instinto. Floriam espinhos. Transmitia a dureza do que se é viver, a adaptação ao não ter. Assim, aquele cacto no copo de plástico estava sendo vendido por aquele alto rapaz no sinal. Ele tinha nome: Marcelo. Fazia desta forma a vida. Encontrar com ele foi como encontrar comigo. Onde eu estava hoje ? Em lugar nenhum, apenas passava a pé de saída da faculdade pela oportunidade que eu tive e, talvez, ele não. Puro sadismo do destino? Desconfio. Destino e suas sutilezas de relembrar de onde somos. Senti sua alma boa. Dinheiro eu não tinha. Mencionei em lhe fazer um pix, mas ele nem acesso ao celular vinha ao caso. Que estupidez a minha. Ele ainda me retribuiu com um ingênuo sorriso de gratidão. Eu não o merecia. Era covarde demais para apenas sentar ali, embora quisesse aproveitar aquele final de noite e poder sentir, escutar, sem pressa. Nem sei seu nome. Nem sei meu nome. Não existimos. Inventei esse nome para fugir da minha incompetência em seguir meu coração. Fui covarde, a ponto de tornar aquela situação o combustível para estudar mediocridades quando chegasse em casa, queria vencer na vida. Poder fazer diferente daquilo. Fica sempre para o futuro, o que hoje “já tardia” no peito. Desconfio de quando chegar a tal hora esteja entregue ao vício de deixar sempre para o amanhã. Talvez já nem arda tanto assim. O que é mesmo vencer na vida?
isabel.mendes@usp.br
Teve um dia que eu estava saindo de casa para ir até a padaria do outro lado da rua, na esquina, e um homem me parou e me abordou, perguntando se eu sabia que horas eram.
— Não sei. — Eu disse.
E o homem, de camiseta vermelha, bermuda e chinelo de dedo, seguiu e continuou andando. No caminho, enquanto eu esperava para atravessar a rua, outro menino parou para me perguntar se eu tinha dinheiro para dar.
— Não tenho. — Eu disse.
E o menino, também de camiseta vermelha, mas de bermuda branca e cabelo tigelinha loiro escuro, virou de costas para falar com outra pessoa que também estava ali esperando o sinal abrir (Ou fechar?).
O sinal abriu (Para nós, pedestres. Para os carros, fechou.) e eu atravessei a rua, tropeçando no meio da faixa porque um pedaço de adesivo tinha grudado no meu pé. Ou melhor, na sola do meu calçado, não no pé propriamente dito.
Chegando do outro lado da calçada, notei que a porta da padaria estava fechada, mas tinha gente lá dentro. O outro lado, virando a esquina, estava aberto. Entrei. Do lado de dentro, estava tudo branco. As paredes, o teto, as portas e janelas, o chão. Todas as pessoas estavam de branco, vestindo máscaras brancas. A única coisa não-branca era um painel que anunciava, em letras vermelhas, o número de uma senha. De repente me dei conta de que não tinha entrado na padaria, mas no postinho de saúde.
Olhei para o papel na minha mão e vi que estava escrito que eu tinha marcado uma consulta com o neurologista.
Eu estava vendo a mulher de blusa branca e boné já a alguns metros. Foi quando comecei a pensar de que modo eu passaria por ela. Precisava de uma distância suficiente para não ser abordada. Cheiro de construção, poeira e chão molhado, duas pessoas ao meu lado esquerdo andando na mesma velocidade que eu em um estreito corredor debaixo do andaime da Rua dos Pinheiros. À minha frente, um bolo de pessoas que caminhavam quase que sem ar entre os ombros na passarela de concreto barrento e cheio de pequenas poças que se acumulavam nos sulcos da calçada não alisada.
Não deu outra, no intervalo de poucos versos de Carmem Miranda tocando no meu fone de ouvido e depois de tentativas falhas de traçar uma estratégia de desvio, eu estava do lado da mulher de boné e camiseta branca. Me lembrei que, logo antes disso, estava andando e pensando sobre uma curiosa mania minha de usar as calçadas quase que em ziguezague ultrapassando todos aqueles que eu julgo “lentos”. O molhado do chão e os guarda-chuvas na altura dos meus olhos atrapalhavam minha dinâmica urbana.
Mas bom, a mulher do meu lado. Eu olhei para a mão dela antes de olhar nos seus olhos. Já previa mais uma repetição do gesto que sua mão direita estava fazendo desde o começo da manhã. Vi aneis pratas, folhetos e unhas pintadas de branco. Eu não me lembro de seus olhos.
Sem meditar em sua face, respondi “obrigada” ao gesto da mão. Depois de uma passada larga e já sem ela ao meu lado, escutei que ela havia me dito “bom dia”. Eu já estava longe para que ela pudesse escutar minha resposta.
Guardei o “bom dia” em pensamento.
Entrei na estação Fradique Coutinho com vontade de sair. De voltar e cruzar com a mulher de boné e blusa branca e lhe pedir desculpas por não ter lhe desejado um dia bom de volta. Estava atrasada, não dava.
Tentei pensar seu pensamento.
Ela pode ter pensado que agradeci o “bom dia” e fui egoísta o bastante para não desejá-lo a ela. Ou, pode ter entendido o obrigada como uma recusa. Uma recusa ao panfleto, uma recusa ao bom dia - que, por sinal estava nublado e chovendo - uma recusa a reconhecer sua humanidade. Ela também pode ter me visto como massa corpórea na multidão de corpos e esqueceu de me olhar e me escutar e jamais pensará que estou pensando seu pensamento horas após a banalidade cotidiana.
Na estação, meu corpo escolheu, sem pensar, esperar o metrô na única porta vazia. Talvez para evitar de olhar mais gente sem dar nem receber um bom dia. Corpos sabem das coisas, dizem.
Fiquei sozinha. Esperando, agora, parada a multidão chegar em velocidade impressionante na máquina da linha amarela.
Levei comigo o desejo de que a moça dos panfletos realmente tivesse um dia bom.
Descendo de Ismália/Mas morro quando morre a marra
Eliote: o difícil de engolir da vida é que parte do frescor é sorte.
Meu corpo quase não sustenta a forma que o dá a cadeira e quer se espalhar. Eu não consigo pensar em nada, minha cuca está rachada mas eu me lembro do lindo poeta Hölderlin trancafiado em sua torre e travestido de outro nome e guardado pelos Zimmer (quarto, em alemão) reterritorializado na Grécia Antiga, sua grande força espiritual.
Meus cabelos negros minha fronte pede aconchego é um abismo quando eu sei disso e diante do mais infausto dos abismos o que me restou além do calmo espelho do banheiro foi muito, eu fui percebendo, quando um amigo que habita distâncias alhures disca c’o dedo meu número e a mim dirige suas lamentações de amor.
(eu partilhava meu reflexo com o vermelhão e o declínio.)
Acatracado eu escutando. Estatelado e esmorecido no chão como era a imagem da minha clausura masmórrea, cintilou com uma alvura desdita a ressonância humana da nossa fanhidez. Se ele dizia, eu dizia em silêncio e de volta: que diferente: — eu também.
A tudo o que dizia eu poderia replicar: exatamente como foi pra mim. Mas, à parte das palavras, impossível era mensurar a qualidade semântica sinônima parônima entre aquilo que, na história dele, eu escutava da minha. Meu corpo está ainda sobrepulso, sobrecarregado e formigante transbordando o efeito de tamanho conteúdo em nossos organismos que é a pastichização. O Mundo garante uma recorrência eterna ao frescor da reaparição dos enquadramentos. E nesse presente momento é que minha carne não difere em nada dos recursos estruturais, do acabamento, da superfície, da atmosfera e da aparição da Torre. Eu mesmo morro quando, com ela, à noite arrefeço.
Encarnar o mundo é integralmente excessivo; e a recursividade, um arremedo e uma estrelas perversas. Meu intento e prazer e prazer em ser dilacerado. Escória, escoriação, espúrio, esporo — nem fruto de uma vontade antecedente nem menos que um recorte do caos: o mundo abre-se ao corpo à carne do mundo com um arrebatamento animal.
Como me abate que isso é ser excessivo! Quando coramos as páginas do mundo, está sempre um espectro abaixo do mais rubro vermelho do sangue visível.
É uma religião quase zumbi, essa em que vibro: numa indistinção entre os estados todos os estados de todo diferenciais entre si nessa transbordância — daqui dentro da masmorra.
A Doze me recebeu de volta.
Estive por um tempo no ABC, morando em Santo André — uma cidade outra: paisagem industrial entre bairros residenciais, com forte sotaque imigrante. Era um lugar de empenas de silêncio, de música alta que cortava os ares aos domingos no Paço, e de uma neblina que baixava e engolia tudo em volta.
Morei na Figueiras (onde bares e restaurantes se enfileiravam na outra ponta) para depois me mudar para a Monte Casseros — num apartamento dos anos 1950, de sacada muito ensolarada, onde vivi uma profusão de experiências transformadoras.
Entre as duas, numa visita marcada com a corretora, conheci um edifício no centro que talvez tivesse sido o mais nobre de um período. O curioso anúncio mostrava fotos mobiliadas que eram uma cápsula do tempo. Entramos, e uma das proprietárias nos aguardava com um olhar apagado e mostrava a infinidade de cômodos que pareciam abandonados como em uma fuga.
— Aqui tomávamos o café da manhã — apontou para uma mesa na copa azulejada. Sobre os armários empoeirados, miniaturas dos móveis produzidos pela fábrica que lhes pertenceu. Num movimento brusco, viro para a janela de piso a teto e vejo, para além das linhas do trem, uma fábrica monolítica derramando uma nuvem de fumaça branca.
Mas, como os ventos, os caminhos por vezes nos levam e nos trazem de volta.
Quem me esperava desta vez — sorriso discreto, sobrancelhas desconfiadas por trás de um balcão, andar apressado entre sacolas nas calçadas e torres de tijolos das antigas olarias — era você, Doze.