(vídeoinstalação + slide | mini-dv transferido para ficheiro digital, cor, s/ som, 6 min | texto em slide)
A acção deste vídeo decorre numa escola onde trabalhei como professor. Colocam-se questões às crianças e estas vão pondo os dedos no ar para responder, de acordo com os códigos escolares. Uma vez que o vídeo não tem som, desconhecem-se as perguntas, assim como as respostas.
Como artista procurei capturar expressões de desejo e ansiedade (nos movimentos ascendentes dos braços das crianças) e expressões de frustração / desilusão (com a consequente queda dos mesmos). No processo conceptual, teve grande influência o livro “A condição humana” de Hannah Arendt.
Ao trabalho foi colocado o título de “Reflexos”. Reflexo enquanto reacção motriz dos músculos e reflexo enquanto imagem devolvida por um espelho ou superfície reflectora. O vídeo foi projetado sobre uma tela e por trás, numa outra superfície, foi projectado o seguinte texto em slide:
“REFLEXOS
Em 3 sentidos: no sentido do professor para as crianças e posterior reflexo para o professor; no sentido das crianças para o professor e posterior reflexo para as crianças; no sentido de cada criança escolhida para o colectivo da turma e posterior reflexo para a criança escolhida.
No sentido do professor para as crianças, a acção dos corpos dessas mesmas crianças surge em resposta às questões do artista, num reflexo – coreográfico e metafórico – das dúvidas e inquietudes deste.
No sentido das crianças para o professor, este funciona como entidade cuja a atenção as crianças procuram. Ao escolher a que há-de responder, o professor permite-lhes exprimir uma individualidade além da uniformidade do grupo, devolvendo a essa criança o reflexo que lhe comprova a sua existência.
No sentido de cada criança escolhida para o colectivo da turma, cada uma procura destacar-se na esfera pública dos seus pares e visa que lhe seja devolvida uma imagem que reflicta status por ter sido escolhida pelo professor. Por poder dar a resposta.
Por trás da urgência nas respostas, o reflexo da ansiedade do eu, o reflexo da necessidade do olhar do outro como factor de reconhecimento desse mesmo eu reflectido. Reflectido no mundo. É a efemeridade ou ausência de reflexo que leva as crianças a baixar as mãos em atitudes de revolta, desistência ou frustração.
Para de seguida as voltarem a levantar.”