Escrever é procurar entender, procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador.
Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada. (LISPECTOR, 1999, p. 134).
Escrever é procurar entender, procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador.
Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada. (LISPECTOR, 1999, p. 134).
Se fere a escuta, pode ferir a psicóloga? Os enlaces entre transferência e violência.
A construção desta pesquisa de mestrado foi motivada tanto por minha vivência quanto pelos atravessamentos da escuta ao longo da prática clínica e das supervisões. Neste estudo, foram analisadas as repercussões de linguagens e ações violentas direcionadas à figura feminina que se encontram presentes na sociedade e que se manifestam por meio da transferência na clínica exercida por mulheres. Trabalhei com o pressuposto de que a heteronorma e o falologocentrismo atravessam os discursos e as práticas presentes na sociedade, os quais, por sua vez, atravessam a transferência na prática clínica realizada por mulheres. Com o método da pesquisa em psicanálise, por meio da escuta flutuante, da associação livre e da transferência, realizei entrevistas on-line com mulheres analistas, a fim de obter suas percepções acerca dos entrelaçamentos entre transferência e violências. Essas reflexões se fazem relevantes para os campos da psicanálise, da psicologia, dos estudos de gênero e outros, pois visam a aproximar o diálogo entre esses campos e a releitura de conceitos já consolidados historicamente, além de problematizar os atravessadores do falologocentrismo e da heteronorma na prática clínica. Para isso, analisei autores que promovem esse diálogo, como Sigmund Freud, Judith Butler, Jurandir Freire Costa e Jean Laplanche, entre outros.
A complexidade da relação que se estabelece entre as teorias de gênero e a psicanálise, assim como se apresentam na sociedade falologocentrada e heteronormativa, atravessam o viver, o relacionar, o psicanalisar e o clinicar. As vivências recontadas e depositadas nesse espaço dizem respeito ao singular do sujeito que ali se apresenta, mas também ao social que o constrói. Compreender os enlaces do social com a transferência é necessário, assim como problematizar o desejo e a rede simbólica de práticas e de linguagens que atravessam a vida humana e que estão presentes no campo analítico.