O Rito Antropofágico nasce do entrecruzamento de espiritualidade popular, crítica social e ancestralidade viva. Seu fundamento está no entendimento de que as tradições não são estáticas, mas são raízes vivas, e, por isso, em constante e pulsante movimento.
Esses saberes, na medida em que são passados adiante e assimilados, são ressignificados. Incorporam práticas distintas, atravessam outras cosmologias, geram novas formas de expressão espiritual — e, assim, fazem da tradição um campo fértil de reinvenção e ressignificação.
No nosso entendimento, a chave de leitura para compreender esse processo está na categoria filosófica da suprassunção (Aufhebung, na filosofia alemã), um conceito do pensamento dialético que nos orienta a ver o passado não como algo estático ou inerte, mas como matéria viva a ser transformada. A suprassunção ocorre em três movimentos simultâneos:
Negação: algo é superado, transformado, deixa de ser como era;
Preservação: ao mesmo tempo, sua essência é mantida;
Transcendência: o que foi superado e preservado ressurge em um nível superior, mais complexo e integrado.
Como no trigo que vira pão: o grão é moído, ou seja, destruído (negação); sua substância é conservada e assimilada na massa (preservação); e no calor do forno se transforma em algo superior, o pão (transcendência).
É de maneira análoga que operamos no Rito Antropofágico:
Negamos as formas esvaziadas e dogmáticas.
Preservamos o que tem valor simbólico, afetivo e espiritual.
Transcendemos ao recriar uma espiritualidade orgânica, crítica e integrada ao aqui e agora.
Nossos fundamentos estão enraizados na escuta da Terra, na ancestralidade dos povos originários, africanos e camponeses, e na prática viva da magia popular. Entendemos que:
A tradição é um fio que permeia o tempo, e não uma estátua imóvel e sem vida.
A espiritualidade é prática concreta, situada e vivida no corpo e no mundo.
O conhecimento é coletivo, construído e em constante disputa.
A autonomia espiritual caminha lado a lado com a transformação social.
Por isso, os fundamentos do Rito Antropofágico não são um ponto final — são impulso, raiz e movimento. São o chão onde se pisa e o horizonte que nos chama. Aqui, tradição e transformação caminham juntas.
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