Toda revista nasce de uma necessidade. No caso da Quadros-Chave, nasce do desejo de tornar visível aquilo que já pulsa nas salas de aula, nos laboratórios, nos ateliês e nas telas do Curso de Cinema de Animação e Artes Digitais da UFMG: a pesquisa como prática viva, o pensamento como movimento e a criação como forma de investigação.
Publicação do CAAD da Escola de Belas Artes da UFMG, a Quadros-Chave assume, desde seu primeiro volume, um compromisso claro: articular ensino, pesquisa, extensão e produção artística no campo do Cinema de Animação e das Artes Digitais. Inspirada na noção dos quadros-chave que estruturam o movimento animado, a revista busca destacar pontos de inflexão — ideias, experimentações e reflexões que definem direções e impulsionam novos deslocamentos.
Com volumes digitais de acesso aberto, fluxo contínuo de submissões e avaliação editorial com pareceristas externos, a revista estabelece um espaço de rigor acadêmico aliado à vitalidade criativa que caracteriza a animação como campo híbrido entre arte, técnica e pensamento.
Neste primeiro volume, reunimos cinco artigos e uma entrevista que, juntos, compõem um panorama plural de abordagens — do design de personagem à produção, da cor ao ritmo narrativo, do conceito de apelo à prática profissional.
O artigo Design de personagem e memória afetiva: estudo de caso dos personagens da série Irmão do Jorel analisa como escolhas formais podem evocar respostas emocionais no público. Ao investigar a relação entre design e memória afetiva na série “Irmão do Jorel” (2014), o estudo propõe uma reflexão sobre o potencial do personagem animado como mediador entre experiência estética e reconhecimento emocional.
Em Um estudo do ritmo da ação e da não verbalidade em “Primal”, de Genndy Tartakovsky, o autor examina como a ausência de diálogos e a temporização da ação constroem potência narrativa na série “Primal” (2019), criada por Genndy Tartakovsky. A partir da análise de cenas, o artigo discute o papel do ritmo e do silêncio na imersão do espectador, articulando história da animação televisiva e linguagem audiovisual.
O texto Coordenando a produção de um curta estudantil: estratégias de organização para controle estético apresenta um estudo de caso sobre o curta-metragem “Enquadro” (2022), refletindo sobre metodologias de produção aplicadas ao contexto universitário. Ao dialogar com a obra Producing Animation, o artigo destaca a importância da documentação, da pré-visualização e do planejamento como ferramentas fundamentais para a consolidação de resultados estéticos consistentes.
Já em O potencial narrativo da cor no cinema de animação: uma análise do color script de “Wolfwalkers” (2020), investiga-se a função dramatúrgica da cor na construção narrativa. A análise do color script do longa “Wolfwalkers” (2020), dirigido por Tomm Moore e Ross Stewart, é articulada a fundamentos teóricos como os apresentados por Johann Wolfgang von Goethe em “Theory of Colors” (1810), evidenciando como escolhas cromáticas estruturam atmosferas, tensões e sentidos.
O artigo O apelo nos designs de personagem de Shiyoon Kim retoma um dos princípios clássicos da animação — o Apelo — apresentado por Frank Thomas e Ollie Johnston em “The Illusion of Life” (1981), para analisar os projetos visuais do artista Shiyoon Kim. Dialogando com teorias da Gestalt e com proposições de Stephen Silver em “The Silver Way” (2017), o estudo articula análise conceitual e experimentação prática, aproximando reflexão acadêmica e processo criativo.
O volume se completa com a entrevista com Deco Daviola, que oferece um olhar direto sobre a prática profissional, os desafios do mercado e os atravessamentos entre autoria, indústria e formação. A conversa amplia o escopo da revista ao inserir a experiência viva do fazer animado no debate teórico.
Esta primeira edição reafirma o caráter extensionista da Quadros-Chave: um espaço aberto a estudantes, docentes e profissionais, dentro e fora da UFMG, interessados em compartilhar investigações, processos e inquietações. Mais do que reunir textos, a revista propõe conexões — entre teoria e prática, entre universidade e sociedade, entre memória e invenção.
Se os quadros-chave determinam extremos de um movimento, esta edição marca o primeiro deles. Que os próximos sejam múltiplos, diversos e contínuos.
Boa leitura.
Dr. Luhan Dias
Editor