Jéssica Borges e Laís Araújo
Segundo o Conselho Nacional para os Refugiados (CONARE), há atualmente 10.145 refugiados reconhecidos no Brasil, os dados são do final de 2017. A maioria são de países como Síria, Colômbia e Angola. Em Goiânia, há uma grande comunidade de senegaleses, que são de um país marcado pela alta taxa de mortalidade infantil, baixa expectativa de vida e outros diversos problemas socioeconômicos. Muitos desses refugiados trabalham como vendedores ambulantes.
Basta chegar nas ruas do centro da capital que encontramos muitos deles. Os estrangeiros que são ambulantes em Goiânia são, em sua maioria, de países da África e tem um padrão de produtos a serem comercializados. Eles vendem óculos escuros, relógios e alguns até se dedicam ao vestuário.
Normalmente, trabalham em conjunto com colegas do mesmo país, pessoas que compartilham da mesma experiência e mesmo objetivo de vida. Nas principais ruas de comércio do centro da cidade, como: avenida Anhanguera, rua 44 e imediações, os imigrantes podem ser vistos entrosados com ambulantes locais. Mas, longe do seu país de origem, eles não se abrem fácil.
Nas proximidades da Rodoviária de Goiânia, uma barraca solitária chama atenção. Prestativo, Mustafa logo mostra os produtos, óculos vendidos a 25 reais ou, sem muita insistência, o preço é baixado para 20 reais. Mas, bastou uma aproximação mais incisiva para o olhar inquieto do jovem demonstrar que ele estava se sentindo ameaçado.
Anteriormente, o jovem de 32 anos que é natural do Senegal, tinha seu posto de trabalho localizado na avenida Anhanguera, mas por problemas com a fiscalização, Mustafa teve que procurar outro local para vender os óculos. “Aqui, rapa, fiscal não deixa trabalhar na rua. Tá difícil pra trabalhar”, afirmou o ambulante que vive em Goiânia há dois anos depois de ter ficado o mesmo tempo em São Paulo, totalizando quatro anos no Brasil.
A realidade vivida por todos os comerciantes de rua é a mesma. “O fiscal não deixa nós trabalhar de boa. Sempre eles vem atrás de nós pegar nossas mercadorias, depois você paga multa. Muito difícil mesmo”, contou Bamba, jovem de 24 anos que também veio do Senegal ao Brasil para construir sua vida "o mais rápido possível". Ele já morou em Caxias do Sul, Anápolis e, atualmente, mora sozinho em Goiânia onde paga um aluguel de 500 reais.
Mesmo tendo escolhido o Brasil para viver, os estrangeiros encontram algumas dificuldades dentro do mercado. Bamba conseguiu sua carteira de trabalho para trabalhar legalmente no Brasil, mas disse que com carteira assinada ele ganha muito pouco, sendo impossível sobreviver. Além das despesas com refeição e transporte. Assim buscou refúgio no meio informal como vendedor ambulante.
Assim como é para os senegaleses Bamba e Mustafa, para todos os outros estrangeiros que vem para Goiânia para melhorar de vida, as dificuldades ultrapassam as questões profissionais e financeiras. A maioria deles tem que lidar com a distância da família que ficou em seu país de origem. Bamba contou que se conseguisse o visto permanente, poderia ir ao Senegal visitar seus parentes e retornar ao Brasil novamente. Ele pretende ficar mais 5 anos em Goiânia para depois voltar ao Senegal e melhorar a qualidade de vida de sua família.
Apesar de terem deixado pais e irmãos em seu país, os senegaleses que vivem na capital não estão sozinhos. Eles construíram uma nova família aqui, uma associação do Senegal dentro de Goiânia. A associação promove reuniões mensais, ajuda financeira e acolhe uns aos outros.
A presidente do Comitê Intersetorial de Políticas Públicas para Migração no Estado de Goiás (CIPEMIGRA), Fabíola Santana, disse que atualmente não há estudo ou estatísticas relacionados a refugiados e imigrantes no estado de Goiás, com exceção da pesquisa Panorama do Imigrante em Goiás, feito pelo Instituto Mauro Borges de Estatísticas e estudos socioeconômicos de 2014. Segundo ela, já foi fechada uma parceria do CIPEMIGRA com o Instituto para ter uma atualização desse estudo e, atualmente, trabalham juntos no mapeamento dos imigrantes em Goiás e na criação do Banco de Dados com haitianos que residem no Jardim Guanabara e no Setor Expansul em Aparecida de Goiânia. Ainda não há pesquisa voltada aos refugiados do Senegal.
Enquanto isso, é no apoio dos conterrâneos, no trabalho e nos laços construídos com os brasileiros que eles se amparam para não desistir. “Eu gostar muito do Brasil, quero investir aqui também.”