— Como um(a) bom(a) leitor(a), você com certeza já deve ter percebido o enorme padrão convencional de personagens femininas na literatura.
Elas são sempre iguais: cabelos lisos, brancas, inocentes, virgens e puras, pobres e sonhadoras, existem para viver um romance de tirar o fôlego. Em alguns histórias, já voltadas para o público que deseja a diversidade, essas protagonistas podem ser negras, com seus belos cabelos crespos, ou plus size, podem até ter sua sexualidade muito bem resolvida. Mas, fora desse "padrão literário feminino"? Essa diversidade também não escapa.
Essas escolhas estão muito bem gravadas no fundo do nosso inconsciente, advindas de preconceitos de uma sociedade patriarcal, que proliferam que o feminino deve ser assim: virginal. Que hoje, viraram "clichês".
Como uma boa autora rebelde e uma leitora que procurava ler sobre mulheres fortes (e assassinas), sempre tomei a liberdade de escrevê-las selvagens e ariscas, como verdadeiras leoas. Essa principal característica minha, vem de muitos antes, quando ainda usava um dos meus primeiros pseudônimos e lançava o meu primeiro livro (inclusive, essa personagem linda volta muito em breve).
Apesar da minha primeira protagonista (Kyra De Luca) (re)escrita já sob o meu atual pseudônimo, ser uma mulher branca, aparentemente inocente. Kyra tem muito por baixo dessa fachada. Sua personalidade foi criado a base do medo e repressão, aprendeu a amar a dor e desejar o perigo. Sua mente não conhece mais a "pureza feminina" que o seu pai tanto insistiu em encaixá-la. Ela tem seus traumas que ainda vivem com força dentro dela, moldando suas escolhas ao longo de toda o seu livro.
Caminhando para Mavis, a minha personagem gótica, com o seu lindo cabelo cacheado cortado em um chanel de bico e dona de uma funerária. Ser amante do profano, dos mistérios da morte e de magias ocultas, é o que a alimenta. Sua personalidade peculiar e mórbida, com um estilo de moda que acompanha, a faz única.
Neste campo, adentramos a mente das minhas protagonistas mais perversas: Isis e Kelly.
Ambas compartilham de algo ainda mais incomum e inusitado para o mundo literário, além do gênero. Elas são sempre suprassumo da perversidade feminina que não vê nada além de insanidade e obessessão por seu conjungê, seja quem ele for.
Para escrevê-las, usei de pesquisas feitas sobre transtornos mentais, sem me apegar a qual gênero (masculino ou feminino) a porcentagem é maior. Explorei o Transtorno de Personalidade Antissocial, como principalmente componente para elas, caminhando para o extremo dele. Suas histórias não foram feitas para um divertimento saudável, como vemos em romances.
Foram criadas para o choque, o nojo e o medo.
Em Amante Cruel, temos Isis, uma personagem com TPA, hibristofilia, algolagnia, canibal, esquizofrenia, hipersexualidade e inúmeros outros "quadros clínicos". Ela é uma vilã, que nesse livro se dá bem e comete todos os atos ilícitos do começo ao fim, sem se importa com nada mais além dela e o seu parceiro. O enredo foi pensado por ela, escrito por ela, narrado por ela.
Isis é a idealização de uma personagem muito problemática que sempre almejei escrever.
Agora, Kelly? Você pode ouvir a minha risada maléfica aqui.
Kelly Alencar foi escrita para ser todos os pecados possíveis. Ser um horror encarnado. Todas as linhas foram pensadas para te fazer revirar o estômago com tamanha sujeira. Essa personagem é a maldade que usa da inocência para ser ainda mais cruel. Posso dizer que é uma versão mais descontrolada da Isis. Sua mente é composta pela Síndrome de Electra e Transtorno de Personalidade Histriônica, como partes principais da sua personalidade destrutiva.
Escrever personagens femininas fora do convencional, é a minha paixão. Gosto de pensar que elas são o gosto amargo e realístico do universo literário, o diferente que precisa existir para que tudo não seja apenas um único modo de criar.
Elas são os meus bebês sombrios do meu mundo e vou protegê-las como uma boa mamãe.
E eu sei que você está curioso(a) para vê-las. Eu deixo, mas apenas por um minuto.