Trabalho apresentado na disciplina de Teoria da Literatura, com o objetivo de desenvolver um conto lúdico com explicação e uso das figuras de linguagem:
POLÍTICA DAS FIGURAS, por Rafael Teixeira de Souza
Quer saber como foi o golpe contra Dilma? Tudo bem, mas vou contar-lhe do meu jeito. Era 17 de abril de 2016. A madame Antonomásia comemorava a votação do impeachment nas ruas de “Sampa”, como ela costumava chamar sua cidade natal. Aliás, Antonomásia gosta de dar apelido a tudo que vê pela frente! Na TV, a jornalista Metonímia anunciava o resultado da votação: “A Câmara votou hoje expressivamente pelo afastamento do governo”. Mas afinal, quais deputados votaram a favor? Metonímia emprega sempre um termo no lugar do outro, de estreita afinidade. Em minha opinião, ela generalizou demais.
Disfemismo, o presidente da Câmara, tentava pôr ordem na casa com exagero e ignorância, usando de suas muitas expressões vulgares: “Por favor, senhores. Está um fuzuê danado. Não consigo falar, com vocês tagarelando ao mesmo tempo.”
Durante a transmissão ao vivo pela mídia, o deputado Polissíndeto discursava sempre repetindo a conjunção entre os termos: “Pela minha família e pelos meus filhos e pelos meus vizinhos… e eu voto SIM!”. Prosopopeia, que se achava uma verdadeira poetisa, personificava em seu discurso: “O Brasil sem o PT volta a ser feliz, nosso céu mostrará sua face mais bela e sorridente!”
A deputada Hipérbole exagerava em seu discurso, com o objetivo de influenciar o voto dos indecisos: “O povo brasileiro chora rios de lágrimas por culpa da crise provocada por esse governo. Convido-lhes a votar SIM, ou nos arrependeremos pela eternidade.” Ironia, deputada de esquerda, criticou logo de maneira bem sarcástica: “Que votação democrática, deputada Hipérbole, não sabe nem respeitar o voto do outro. Grite mais alto, eu agradeço!”
Já a deputada Antítese sempre se contradizia: “Eu digo NÃO a essa votação conduzida por esse presidente autoritário e manipulador! Por isso meu voto é SIM, atendendo à imposição do meu partido.” Mas Eufemismo, aliado do presidente da Câmara, tentava sempre defendê-lo com palavras suavizadas: “Caros senhores, Disfemismo é um homem público e muito respeitado por alguns. O que ele está conduzindo é sim um processo de afastamento; ainda que por posicionamento intencional, pouco vai interferir no resultado dos votos.”
O discurso ficou mais radical quando Analepse passou a criticar o presente, deslocando-se para o passado: “Ontem foi o golpe de 1964, hoje é mais um golpe institucional contra a democracia.” Já sua companheira de partido, a deputada Prolepse, profetizava um futuro terrível para a democracia brasileira - cada vez mais próximo da realidade! Na TV, a comentarista Gradação explicava passo a passo: “Entenda o rito de impeachment. Primeiro o projeto passa pela votação na Câmara, depois vai para o Senado, logo após a presidente pode ficar afastada e por último, aguardando o julgamento definitivo.”
“A mídia é mesmo golpista a respeito do golpe. Ela manipula a informação sobre o golpe para que o povo não entenda que se trata de um golpe mesmo!” – criticou Pleonasmo, o homem sentado na lanchonete cuja palavra GOLPE era o assunto do momento. Mas havia também aqueles que não se posicionavam contra o impeachment. Metáfora, a garçonete, sempre fazia comparação de sua neutralidade política com outra coisa terrivelmente parecida: “Minha boca é um verdadeiro túmulo. Não discuto política.”
Os movimentos sociais se reuniram na praça; assistiam pela TV Brasil com indignação e ao mesmo tempo protestavam. Anacoluto, líder do movimento social, fazia o grito de guerra sem se preocupar com a construção sintática de suas frases: “Democracia, nada pode vencê-la. Coragem, seja ela nossa força. Lutar, criar, poder popular!” Logo após, foi a vez de Anáfora repetir e reforçar suas palavras: “Ousar lutar, Ousar vencer! Não vai ter golpe, vai ter luta! Para o povo e pelo povo, fica querida!”
Quer saber o que aconteceu com a presidente Dilma? “Após a votação no Senado, aguarda julgamento final.” – comentou minha professora Elipse. Ela nem precisou explicar, já entendi completamente o que ela quis dizer.
Esperança, tu ainda não morrestes... não é mesmo? De acordo com a perícia, não houve “pedaladas fiscais”, principal fundamento do impeachment. Por favor, Dilma, volte para nós! Os movimentos sociais, vou contar, será a base de apoio muito importante para a presidente Dilma. E finalmente verás, Oh! minha gente, um novo governo progressista e muito mais à esquerda!
Atenciosamente, Sr. Apóstrofe.