Referência bibliográfica:
MONGELLI, Lênia Márcia de M. A Literatura Portuguesa em Perspectiva. Vol.1. São Paulo: Atlas, 1992. (p.25-54)
A poesia lírica trovadoresca, escrita em galego-português, não ficou restrita apenas à Península Ibérica. Poetas de outros lugares adotaram a mesma língua para compor suas poesias; afinal, aquela região, hoje conhecida como Europa, estava em processo constante de formação histórica e sócio-cultural. Assim, fica incerto afirmar a data da origem dessas poesias, até mesmo porque não era costume da época fazer registros bibliográficos dos autores.
No entanto, existe uma data reconhecida como o provável nascimento da poesia galego-portuguesa: no último decênio do Sec. XII, com o registro das obras de D. Sancho I, Joam Soares de Paiva, Gil Sanches, entre outros. Mais adiante surge o centro poético localizado na corte do rei português D. Dinis, com registro de várias cantigas de amor e de amigo. A morte de D. Dinis em 1325 encerra o período do lirismo trovadoresco galego-português.
A poesia galego-portuguesa por vezes está relacionada com a poesia trovadoresca provençal, que surge no sul da França em fins do Sec. XI. Esta, por sua vez, menos aristocrática e marcada por sua maneira de amar elaborada, baseia-se em um código de comportamento chamado de “fin'amors” (conhecido também por “amor cortês”).
Diferentemente da poesia provençal na França, houve pouco interesse cultural e filosófico na Península Ibérica para que se preocupasse com a conservação, estudo e transmissão de poesias galego-portuguesas. Entretanto, três coletâneas manuscritas conseguiram reunir parte significativa dessas poesias:
Cancioneiro da Ajuda – inclui miniaturas e pautas musicais incompletas das cantigas de amor dos poetas mais antigos, exceto da corte de D. Dinis.
Cancioneiro da Vaticana – inclui cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer de trovadores, incluindo D. Dinis e seus contemporâneos.
Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa – é o mais completo dos cancioneiros, inclui um pequeno tratado de poética trovadoresca e instrui nas questões básicas relacionadas aos poemas nele contidos.
O critério básico para determinar os gêneros de cada cantiga trovadoresca, segundo estudiosos, é de acordo com o gênero do Eu lírico:
Cantiga de amor – nele o homem expressa o amor pela sua amada (senhor), pelo código do amor cortês proveniente da poesia provençal. Na poesia galego-portuguesa, enfatiza-se a renúncia e o sofrimento (coita) por parte do vassalo diante de um amor quase impossível.
Cantiga de amigo – a mulher expressa sentimento por seu amigo (por alguém ou até um elemento da natureza). Além disso, caracteriza-se pelo paralelismo, que é o uso de repetições literais, estruturais e semânticas.
Por último, é apresentado outro gênero de cantiga trovadoresca:
Cantiga de escárnio e maldizer – possui um caráter satírico, obsceno, cômico, carnavalesco e com exaltação dos prazeres carnais; porém, com grande teor crítico, moral e político. Todos esses elementos representaram uma nova ideia de transformação da sociedade, do contato físico com o mundo material.