Entre crenças, pensamentos e a forma como vivemos
Entre crenças, pensamentos e a forma como vivemos
Existem livros que defendem a ideia de que nossos pensamentos têm um poder quase magnético sobre a realidade. O Poder do Subconsciente, de Joseph Murphy, é um deles. A proposta é sedutora: aquilo que pensamos e acreditamos influenciaria diretamente o que vivemos.
Mas talvez a conversa mais interessante não esteja no poder de “atrair” coisas do lado de fora — e sim no poder silencioso das crenças que carregamos por dentro.
Na clínica, é muito comum perceber o quanto a maneira como alguém se enxerga foi sendo construída a partir de falas, olhares e experiências lá atrás. A criança que cresceu ouvindo que era “burra” pode não ter sido limitada em capacidade, mas aprendeu a se perceber assim. A que escutou repetidamente críticas ao próprio corpo pode ter internalizado a ideia de que há algo de errado com ela — não apenas com seu peso, mas com quem ela é.
Essas falas vão virando vozes internas. E, com o tempo, deixam de soar como opinião do outro e passam a parecer verdades sobre si.
Não é que exista uma força mística transformando pensamento em realidade. É que crenças moldam a forma como interpretamos o mundo, como nos posicionamos diante das situações e até quais oportunidades sentimos que “são para nós”.
Alguém que acredita profundamente que não é inteligente pode evitar desafios, desistir mais rápido, se expor menos — não por falta de capacidade, mas por já partir da certeza de que vai falhar. Quem se enxerga como inadequado pode interpretar pequenos erros como provas definitivas de que “nunca vai dar certo”.
A vida, então, vai sendo lida a partir dessas lentes.
E talvez seja aí que a reflexão proposta por livros como o de Murphy possa ganhar um novo sentido. Não como promessa de controle sobre o universo, mas como convite a olhar para dentro e perguntar: que ideias sobre mim eu venho tratando como fatos?
Porque, depois da infância, continuamos internalizando crenças — agora não só da família, mas da escola, do trabalho, das redes sociais, dos padrões de sucesso e beleza que nos cercam. Vamos juntando pequenas conclusões sobre quem somos: “não sou bom o bastante”, “não levo jeito pra isso”, “sempre estrago tudo”, “não sirvo para ser amado”.
E quase nunca paramos para questionar de onde vieram essas certezas.
Talvez o ponto não seja “pensar positivo” para que a vida mude magicamente, mas perceber que a forma como pensamos sobre nós mesmos influencia o modo como caminhamos pelo mundo. E, aos poucos, começar a diferenciar o que é fato do que é crença antiga, repetida tantas vezes que virou identidade.
Ler um livro é sempre um encontro entre o que o autor escreveu e o que a nossa história permite enxergar ali. Viver também é assim. A realidade não chega pronta: ela passa pela interpretação que fazemos dela.
E, às vezes, mudar a forma como nos vemos não transforma o universo inteiro — mas já muda, profundamente, a forma como existimos dentro dele.
Os textos desta página são todos autorais. Parte de reflexões próprias, atravessadas pelos livros que aprecio, minhas vivências no campo da psique humana e minha relação pessoal, individual e intransferível com o mundo. A utilização ou reprodução sem a devida referência de autoria constitui plágio, nos termos da legislação de direitos autorais. Maíra Barreto – Psicóloga
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