Esse espaço é dedicado a algumas reflexões gerais minhas sobre temas, textos ou autores, já postados e publicados em outros lugares.
Não há produto na análise, talvez somente resto.
A análise não é um serviço que oferece um produto. Embora o psicanalista ocupe esse lugar, a relação que se estabelece ali é uma operação que justamente problematiza a oferta e a demanda. Há uma expectativa que se cria em torno desse espaço que deve passar por um escrutínio avaliativo, e recíproco, do que uma analise por propôr. Do lado de quem escuta, recomenda-se que saiba qual a finalidade de uma análise. E espera-se que já tenha feito alguma gramática com seus fantasmas.
Uma psicanálise como abordagem ou método deve encarar a angústia como o afeto que não mente e tê-la como mensageira. Escutar sua manifestação é fundamental na compreensão daquilo que paralisa e traz prejuízo, mas leva tempo. A psicanálise acaba por ser pintada como obtusa frente à subjetividade instantânea instaurada pelo viés da produtividade constante e instiga justamente a intolerância ao tempo que se leva para poder encarar e digerir as formas como a angústia pode dar as caras. Não é por outro motivo que a psicanálise é tão mal dita.
Aposta-se no reconhecimento daquilo que não se sabe e que está na coxia do sofrimento e do sintoma, mesmo que ainda não existam seus nomes. A narrativa sobre a própria história precisa primeiramente ser vista, contada e falada. A assimilação decanta primeiro para eventual compreensão, para quiçá se renomeie o que não foi criado de forma espontânea, mas que é fruto de uma alienação constituinte do tornar-se pessoa: absorver desejos. Estuda-se vastamente que nossos sintomas se estruturam pela linguagem e na relação histórica com o corpo. Ambos encenam essas dores, uma vez que essa dimensão inconsciente é atemporal e não funciona como na realidade do aqui e agora. A racionalidade vislumbra e tem as razões das repetições; entretanto, nada pode fazer contra elas. Freud já dizia que o Ego não é senhor na sua própria casa.
Por isso, uma psicanálise inverte a lógica impregnada na troca com outro ser humano para além do que está contido na sua especialidade. O corporativismo ligado à indústria da saúde instiga essa hiperespecialização, que nos é bastante conveniente e cara. O sintoma manifestado em um órgão requer o especialista, mas pode sim atuar como a parte pelo todo, numa relação metonímica. E não vai ser reavivando o eletrochoque ou fazendo o rebranding de anestésico de equinos em laboratório — como medidas válidas cientificamente — que o absurdo da coisa se torne menos relevante como tratamento para eliminar a angústia.
A construção da "aliança terapêutica" se contorce justamente por não atender à demanda e por compreender aquele indivíduo, e seu sofrimento, já como produtos que vêm de operações anteriores. Que nasceu, que teve ou não família, que sofre por ser rico, por lidar com a escassez que sempre houve, que não consegue ter prazer em nada, que é incapaz de se organizar para qualquer coisa, que não se comunica e se obstina em adivinhação, que procrastina, que não produz. São gamas de infinitas problemáticas irredutivelmente individuais. Por isso, também, radicalmente se decompõem em tratamentos absolutamente singulares. Não há uma análise como a que um outro sujeito teve. Se a psicanálise já é impossível, imagine a sua reprodutibilidade, mesmo entre pares.
E, por fim, é válido encarar essa decomposição como na química. Decompor um produto, uma substância, em outras diferentes para que se possa analisar. O que disso que é quebrado ainda pode despertar interesse na investigação, criar novas questões, problemas ou soluções. Todavia, a polissemia da decomposição nos diversos campos em que é utilizada, talvez forçosamente ou pela insistência de uma associação livre, leva a pensar no resto, seja no sentido matemático, bio-ecológico ou figurado. Aquilo que resta de um produto pode conter e contar o quê mais?
O ser humano, autointitulado dono do mundo, produz restos incessantemente. Os lixões são problemas históricos. No Brasil, temos os sambaquis pré-históricos ao longo do litoral, montes com restos de comida, conchas e ossos, lixo sobre o qual os arqueólogos hoje se debruçam. Nossos exames de análise são sempre feitos com restos: sangue, urina, fezes. Devemos olhar para os restos antes de qualquer coisa. Para que não se tornem toxinas.
Henrique - 08/2026
Em "O futuro de uma ilusão" (1927) Freud explora a natureza da religião como uma “ilusão consoladora”. O autor argumenta que a religião surge da necessidade humana de enfrentar a incerteza e a fragilidade da vida. A fé religiosa oferece conforto e segurança psicológica, mas também pode representar uma forma de defesa psíquica muito rígida frente à realidade.
A reflexão de Freud destaca a importância de encarar a realidade de uma forma mais verdadeira, lidando com as frustrações inerentes ao entorno, com objetivo de possibilitar saídas, deslocamentos, de forma individualizada, no caso a caso, daquilo que gera prejuízos e sofrimento. A crença pessoal de cada um não é necessáriamente um problema, desde que isso não se torne uma ilusão que aliena o sujeito de afetos e experiências. Não só as religões ou seitas podem reprimir ou proibir afetos, comportamentos, sentimentos ou personalidade, mas também o contexto social, as instituições, a política e tudo aquilo que interfere na sociabilidade. Atender ao que é esperado com uma demanda que vêm de fora pode parecer um conforto de pertenciamento, mas a um custo muito alto: de uma rigidez da mente que se volta contra o próprio individuo. Muitas pessoas vivem vidas duplas, uma com umas máscara social e outra na própria cabeça. Esse é o conflito que pode vir a ser um sintoma. Reconhecer a complexidade da existência e cultivar a resiliência emocional são passos fundamentais para lidar consigo mesmo e com os desafios crescentes que a humanidade está imersa.
Ao entrar numa empreitada de pôr as ilusões que moldam nossa psique à prova, a aposta é de que essa jornada em direção algo além da repetição, da compulsão e dos sintomas que podem nos atormentar, possa-se passar a sentir e viver de outra maneira. Sem expectativas mágicas, mas se responsabilizando por uma escolha de como quer viver. Olhar para o sintoma e nomeá-lo é uma forma de endereçá-lo pra outra função. Uma mente desassistida pode ser perigosa!
Texto originalmente escrito para o IEPP na categoria “Fala Sócio” em 20 de novembro de 2019.
No dia 29/05/2020, a Comissão de Pesquisa do IEPP trouxe questões e reflexões sobre o atual foco do grupo: uma visão psicanalítica sobre a intolerância. Para pensar sobre isso, usamos um fenômeno que tem ganhado espaço na internet – a cultura do cancelamento, uma vez que a internet é um campo fértil para fenômenos que transbordam o virtual, geram sofrimento e reproduzem discursos que favorecem a intolerância. É um tema relevante, ainda mais durante esse período de isolamento social, onde nossas relações vivem, primordialmente no mundo virtual. A cultura do cancelamento foi escolhida como a expressão do ano em 2019, definida como atitudes dentro de uma comunidade que provocam a retirada de apoio de uma figura pública, geralmente em resposta a uma acusação de uma ação/discurso socialmente inaceitável. Esse embargo extravasa a virtualidade, atingindo as pessoas de forma intrapsíquica e também socialmente. Aguardamos vocês para refletir e discutir sobre o tema junto com os convidados do grupo de pesquisa Eduarda Duarte de Barcellos (Mestre em Psicologia – UNISINOS, Sócia Graduada e Coordenadora da Comissão de Pesquisa – IEPP)
Caroline Hildebrando de Freitas (Psicóloga, Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica)
Henrique Pereira (Psicólogo Clínico e Sócio Aspirante do IEPP)
Betina Czermainski de Oliveira (Psicóloga, Sócia graduada do IEPP, Mestranda em Psicanálise: clínica e cultura – UFRGS)
Bruna Bayer (Psicóloga, Psicoterapeuta, sócia graduada do IEPP e mestranda em Psicanálise: Clínica e Cultura)
Elisa Loureiro (Psicóloga, Psicoterapeuta e Sócia Graduada do IEPP)
Gicela N. Hansen (Psicóloga e Psicoterapeuta, Sócia Graduada do IEPP)
Nicolle Codorniz (Psicóloga e Sócia Aspirante do IEPP)
Rosana Rossatto (Psicóloga Clínica e Sócia aspirante do IEPP).