------ Sílvia Pereira e Sónia Alves (Psicólogas no Agrupamento) ------
O impacto emocional e as necessidades sentidas durante pandemia Covid -19 levaram a um aumento exponencial dos pedidos de ajuda psicológica e psiquiátrica e colocaram a temática da SAÚDE MENTAL na ordem do dia. A tal não foi alheia a crescente divulgação de informação científica e clínica através dos meios de comunicação e redes sociais, promovendo debates com especialistas e divulgando as mais recentes investigações feitas na área. Existe hoje uma maior consciencialização sobre a necessidade de combater o preconceito, o estigma no que concerne à SAÚDE MENTAL e promover uma maior literacia emocional.
Mas afinal o que é isso de ter uma boa SAÚDE MENTAL? É claramente redutor encarar a SAÚDE MENTAL como a ausência de doença mental; é antes um estado de equilíbrio e bem-estar emocional, psicológico e social que permite que uma pessoa viva de forma plena e saudável. Envolve a capacidade de lidar com os desafios diários da vida, trabalhar de forma produtiva, ter relacionamentos saudáveis e contribuir para a sociedade.
Os estudos epidemiológicos recentes, que avaliam a incidência e prevalência de perturbações psicológicas dizem-nos que:
· cerca de 13% da população geral e 14% dos adolescentes, em todo o mundo, apresenta pelo menos uma perturbação psicológica.
· estimou-se ainda, entre 2000 e 2019, uma taxa de crescimento de 25% de perturbações psicológicas em geral.
· um 2020, devido à pandemia da COVID-19, o crescimento foi ainda superior, tendo havido um aumento de 28% de perturbações depressivas e de 26% de perturbações de ansiedade nesse ano.
· um estudo recente feito em Portugal com representatividade nacional, revelou que 21% dos adolescentes com idades compreendidas entre os 11 e os 15 anos se sentem nervosos, 15,8% irritados ou de mau humor e 11,6% tristes quase todos os dias.
Estes dados não podem ser negligenciados e alertam-nos para a necessidade de uma maior atenção às questões da saúde mental na população em geral e em particular na adolescência.
A adolescência (10-19 anos) assume-se como uma fase de desenvolvimento única e desafiante, em que o jovem atravessa uma série de mudanças físicas, emocionais e sociais que o moldarão para a vida adulta. Este é, portanto, um período crucial para o desenvolvimento e manutenção de hábitos sociais e emocionais importantes para o bem-estar mental.
Diante de todos os desafios e descobertas que a adolescência aporta, é imperativo estarmos atentos aos sintomas de sofrimento mental que os nossos jovens possam apresentar. A escola e a família assumem-se como espaços seguros e locais privilegiados para ajudar os adolescentes a lidar com as suas vulnerabilidades e com os desafios que enfrentam nesta fase da vida. Para além do trabalho direto a realizar com os adolescentes, é igualmente relevante informar e treinar as pessoas que interagem de forma significativa com eles nos seus contextos próximos de ação. Pais e professores assumem-se como parte ativa e cooperante na promoção de bem-estar mental dos adolescentes.
Existem alguns hábitos e rotinas que parecem favorecer a nossa SAÚDE MENTAL...
· Estabelecer rotinas;
· Adoção de padrões de sono saudáveis;
· Fazer exercício físico regular;
· Manter uma alimentação saudável;
· Ter uma boa rede de suporte na família, escola e comunidade;
· Aprender a gerir o tempo;
· Fazer coisas que se gosta;
· Reforçar ligações de amizade;
· Procurar ajuda de um profissional quando necessário.
Nos últimos anos temos assistido à implementação e desenvolvimento de várias investigações e projetos de intervenção em contexto escolar na área da SAÚDE MENTAL, dirigidos aos alunos, mas também a pais e professores, que têm como objetivo normalizar a experiência das emoções, mesmo as mais desagradáveis, promovendo na escola um ambiente mais empático, de aceitação e não julgamento, que facilite a partilha e a discussão acerca do tema. Os conteúdos trabalhados no âmbito desses programas são encarados como competências que todos podemos treinar e desenvolver para cuidarmos melhor do nosso bem-estar mental, através da expressão e partilha de vulnerabilidades e dificuldades pessoais, no sentido de ultrapassar preconceitos e tabus e diminuir a vergonha associada à expressão das nossas fragilidades. Desenvolver um espírito empático, tendo presente que todos nós, em algum momento da nossa vida, podemos ter dificuldades emocionais e eventualmente necessitar de ajuda de um profissional.
Pesem embora os avanços realizados, na área do bem-estar e SAÚDE MENTAL continuam a ser reportados baixos níveis de literacia emocional no nosso país, onde esta temática não é ainda encarada por muitos como uma área prioritária. Os recursos e instituições públicas de apoio encontram-se claramente subdimensionados face à necessidade crescente da população em geral e dos adolescentes em particular, sobretudo na zona geográfica onde nos encontramos, onde o défice no concerne à saúde mental infantojuvenil é gritante. A falta de visão e investimento a longo prazo por parte do poder político tem colocado sérios entraves ao desenvolvimento e implementação de uma verdadeira política publica de SAÚDE MENTAL, pondo em causa a qualidade de vida e bem-estar das pessoas, a sua produtividade e relacionamentos interpessoais, hipotecando a construção de uma sociedade mais saudável e inclusiva.
Bibliografia
· https://www.zurich.com.pt/pt-pt/mundo-z/articles/daniel-rijo-um-elevado-bem-estar-mental-significa-conseguirmos-gerir-as-emocoes
· https://www.cativarnaescola.pt/2015/10/literacia-emocional-alguns-apontamentos.html
· https://cuboup.com/conteudo/saude-mental/
· https://www.unicef.org/brazil/media/16126/file/saude-mental-de-adolescentes-e-jovens.pdf
· https://www.paho.org/pt/topicos/saude-mental-dos-adolescentes
· https://www.zurich.com.pt/pt-pt/mundo-z/articles/daniel-rijo-um-elevado-bem-estar-mental-significa-conseguirmos-gerir-as-emocoes
· https://ipdj.gov.pt/o-programa
· https://biblioteca.sns.gov.pt/artigo/video-sobre-saude-mental-nos-jovens/
· https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/parecer_opp_programa_mais_contigo.pdf