Milágrimas
Quantas lágrimas cabem dentro de um copo?
De um corpo?
Daquilo que não se quantifica, daquilo que não cabe
Transborda
Iniciamos uma trajetória de pesquisa, circular ascendente, pontos que se conectam e expandem para produzir narrativas de tortura? De resistência?
Ao fundo depoimento de Cecília Coimbra sobre sessões de tortura às quais foi submetida no DOI-CODI/RJ. Atravessando a sala, performer-professora e performer-aluna carregando seus instrumentos de tortura. A performer-professora com bacia de aluminio contendo copos de vidro vazios, a performer-aluna com balde cheio d’água passam diante de todos e se posicionam preparando o cenário. Duas mulheres, dois tempos, Cecília-madura colhe lágrimas, Cecília-jovem as derrama vertendo água do balde na impossível tarefa de encher pequenos copos de vidro sem derramar. Agaixada repito o fazer para desfazer que intermitente interrompo e direciono olhares para quem de lá acompanha. O depoimento termina. O áudio silencia. Sessão encerrada. Ao me levantar, diante dela, que esteve todo o tempo ali, encontro lágrimas que não supunha e me tocam também. Essas duas mulheres-corpo-em-cena dão as mãos e unidas em punho, se retiram. O que disto emergirá? É tempo de composições.
Esses últimos foram dias muito intensos, viver o impensado deixou agitado este pobre coração. E como estou bem. Há muitos afectos querendo encontrar vias de escape e não mais posso atravancar seus caminhos. Quero criar! Tenho ânsia por criar e criar junto sempre foi mais que prazeroso, surpreendente, talvez daí essa dificuldade com essa atividade que envolve momentos a sós que é a escrita. Hay que domar o cavalo. Preciso devir-amazona. Amazona é minoritário? É menor? É molecular? Não sei, mas com papel ou tela e teclas quero me arriscar nas escritas possíveis. Não nas melhores, mas nas que derem e aos poucos tentarei aprimorar.
Pensando na escrita me recordo de como esta me acompanha com relação à autocompreensão. Existe auto? Essa minha incansável ilusão de individualidade. Mas vamos pensar em singularidades, no modo singular como a escrita se apresenta como modo de expressão de afetos que me atravessam ao longo do espaço-tempo. Os diários nos quais queria regisrar para no futuro saber como me sentia ao passar pelas situações que passava. Nos momentos de muitas angustias e muitos e muitos pensamentos distintos pululando a escrita favorecia a orientar os rumos dos cada quais. As decisões a tomar, as ponderações a considerar. São rememorações que me fazem reconciliar com a escrita e não quere-la tão distante. Há uma escrita mais solta, esta, mais a vontade onde os pensamentos e brevidades passam pelos dedos, mas há aquela mais ardida, essa me doi um tanto, é preciso dechavar esta dor, escrever com sangue, mas escrever. Uma escrita responsável, mais simétrica, mas me encanta a escrita que percebo mais poética na divulgação científica que gostaria de empreender. Exige mais leitura e tanto mais dedicação. Vamos tentar!
Madrugada do primeiro dia.
Ainda gostaria de alguma forma buscar modos de expressão para o vivido neste último mês. Surpresas boas, encontros alegres, encontros a la Spinoza, encontros de amor tal qual Margaret nos propõe a pensar, um amor distinto e distante do amor chato platônico, um amor que se faz dos afectos alegres. Caberá um excerto dela aqui!
[ Qual é o maior risco: viver de acordo com um roteiro que não inclui o que vivenciamos, onde forçosamente tentamos fazer caber nele as nossas idealizações, ou viver o encontro tal como acontece? Em outras palavras, o que fazer com o nosso modo de escutar, ver e sentir? Há no encontro amoroso a possibilidade de viver o que acontece. Talvez seja do amor privilegiar, não o indivíduo, cada um de nós separadamente, mas o próprio encontro. [...] Sustentar que o amor é algo que não pertence nem a um, nem a outro, e sim um sentimento produzido no encontro entre as pessoas envolvidas é afirmar que o amor se dá na materialidade do encontro, é produzido na experiência. Uma experiência que não se refere à experiência adquirida, mas a uma atitude que faz do encontro uma experiência ativa. Um jeito de estar juntos que exige uma abertura para perceber os sons, os gestos, as palavras, os silêncios, os olhares, modos de expressão situados além das ideias e das opiniões. Um jeito de estar juntos que pode levar ou não a experimentação de ser juntos. Pois, um encontro pode abrir mundos, pode nos levar a sentir sensações totalmente diferentes, a perceber aquilo que jamais havíamos sequer notado. Além do mais, cada encontro é diferente um do outro – um encontro jamais se repete, não existe garantia nenhuma que tanto nós como o outro queiramos retornar e experimentar ser juntos da mesma maneira. Num momento podemos querer caminhar no parque, em outro tomar café, em outro ficamos em silêncio. As possibilidades de encontro são inúmeras. Há de considerar, ainda, o fato de estarmos a todo o momento tendo uma infinidade de outros encontros, os quais não dizem só respeito a um outro amado: uma poesia lida, a vivência de uma situação inconveniente no trânsito, uma conversa com um amigo, situações de trabalho, são todos encontros que produzem outras sensações, abrem ou não para novos mundos. A questão é se os encontros aumentam a nossa potência, favorecem a expansão do nosso modo de ser ou, ao contrário, destroem partes de nós, diminuem a nossa potência. ]
(Margaret Maria Chillemi - A alegria não cabe no amor platônico)
Quero cultivar esse modo de amar, outro modo possível de viver o amor eo encontro amoroso.
É lindo e duro. Tenho pensado nisso já há algum tempo. Em como para nós mulheres as subjetivações sobre o modo naturalizado mulher-casar-ter-filhos-conciliar-com-a-carreira-profissional-bem-sucedida me parece cada dia mais enfadonha, mas quando diante de outras possibilidades a força das diferentes linhas é exercida - aquela que puxa para colar nessa sequencia citada e a outra de inventar o que será a partir dos encontros que vierem, e colar parece mais fácil - seria lindo encontrar a-pessoa-ideal e criar juntos um outro jeito de se relacionar possível, mas ainda assim colando porque seria o-ideal - Mas como gorar Suely? se abrir para as vibrações dos encontros e compreender sua curta duração, numa boa, mesmo, de verdade. Como gorar sem se desmanchar? Ou desterritorializando, mas não ao ponto da ruptura.
“Não cultivo conexões com o real” rs
E essa vontade de partir, não consigo dissuadir desse desejo, mas também não sei quando virá. Amiga do tempo sem a ele me render.
Nota de leitura a partir do artigo: Anthropocene, Capitalocene, Plantationocene, Chthulucene: Making Kin. Donna Haraway
Thaísa Soares Silva
Donna Haraway discute em seu artigo as implicações em referirmos ao período atual da Terra como Antropoceno. A proposição de Antropoceno, acaba por responsabilizar a espécie humana pelas condições atuais do planeta, já bastante alteradas se comparadas ao Holoceno, implicando questões relativas ao Capitalismo, uma “criação” humana que, por suas relações produtivas, impulsionou tal modo de relação com os recursos do planeta que os leva ao quase esgotamento. Para Haraway, esta perspectiva pode limitar certas discussões, se considerarmos, por exemplo, que com as afirmações anteriores admitiríamos que toda pessoa do planeta é um “agente” do capital. Estaríamos ainda desconsiderando toda complexa dinâmica ecológica envolvida na composição biótica do nosso planeta.
Com as proposições de Anna Tsing de que o Holoceno teria sido um período em que a composição biótica e abiótica do planeta possibilitava a existência de verdadeiros refúgios para a grande diversidade de espécies até então desenvolvidas e de que o Antropoceno se refere à destruição desses refúgios. Haraway considera ser mais profícuo pensar o Antropoceno como “um evento de limite do que um período/uma época”, pensar que o Antropoceno pode ser uma narrativa que produza efeitos urgentes de passagem e não que remeta a uma imobilização incontornável. A autora acredita que seu papel, junto com todos aqueles que fazemos história, que criamos narrativas sobre nossos arranjos sociais, temporais, culturais… etc… seja o de criar possibilidades para que o Antropoceno seja assim percebido como um evento de passagem, mas o que será possível criando junto, criando uns com os outros alternativas possíveis para repor estes refúgios solapados.
Haraway concorda com a importância de nomeramos este momentdo singular que o planeta esta vivendo. Ela lembra que temos milhares de humanos refugiados e de humanos e também não humanos sem refúgio. Donna H. acredita que com intenso compromisso entre os terranos e ricas correlaçoes entre espécies possamos alcançar um trabalho colaborativo de recomposição. No entanto, ela considera uma temporalidade que envolva presente, passado e futuro o que nos distancia de uma perspectiva naturalista de que voltaríamos às mesmas condições de algum passado considerado ideal.
“Proponho que nos intitulemos...” Chthuluceno pensando uma temporalidade que envolva passado, presente e o que está vindo/a vir/ por vir (?), “um real e possível espaço-tempo”. A referência literária busca abarcar nesse nome a complexidade e diversidade de espacialidades e temporalidades e mais ainda, mais que humanos, outros humanos, não humanos, humanidades, deseumanidades, inclusive subvertendo o sentido de humano que pensa como humus, como adubo, criando fabulações espetulativas, científicas, que em rede, em teias possam produzir histórias, conceitos que nos permitam e impulsionem a pensar e que sejam grandes o suficiente para abarcar as complexidades que extistem e que estão por ser produzidas. Fazer teorias e fazer história e que histórias queremos contar? e as histórias que contamos produzirão que realidades? Como produzir histórias que produzam realidades inventivas como saídas possíveis ao Antropoceno, para que não estejamos paralizados nesse capitalismo devastador?
Haraway nos convida a juntar forças, morrer e viver bem sem negligenciar um dito passado de perdas e devastações irreversíveis, mas não nos paralizarmos nessa dor, mas supera-la criando juntos novas redes de relações inter-espécies. Elanão acredita em narrativas de mortalidades absolutas nem mesmo em imortalidades salvacionistas, prefere antes um composto, uma composição, somo adubo para o que virá. Convica uma ciência feminista para compor esta história e acredita que o feminismo tem muito a contribuir pelas alianças que já tem realizado e com as quais foram possíveis muitas de suas conquistas. Mulheres que somos e podemos contribuir com novas relações e composições entre todos os entes ligados à Terra, composições que favoreçam a continuidade da possibilidade de vida no planeta, mas sem nos entendermos como espécie redentora.
Como saída possível pensa e nos convida à compor relações de parentesco que não envolvam necessariamente relações consanguíneas, que não envolvam relações com os da mesma espécie apenas, mas também. Compreende esta espécie de chamado a compor relações de parentalidade, independente da relação de espécie, como um certo slogan que talvez, e ciente disso, possibilite uma melhor forma de viver enquanto estamos neste planeta, enquanto aqui passamos, enquanto por aqui estamos junto com os demais, uma passagem, não um fim. Para uma melhor estadia, sejamos parentes.
As discussões que Vigotski desenvolve acerca das relações entre imaginação e realidade confluem com suas idéias sobre a relação entre Arte e vida, e dedica uma importante publicação a este assunto, o livro Psicologia da Arte (PRESTES, 2010; WEDEKIN & ZANELLA, 2013). O modo como Vigotski compreende a Arte difere sobremaneira das perspectivas a ele contemporâneas, posto que para o autor a Arte seja um fenômeno complexo e de difícil definição, pois agrega processos humanos sociais, históricos, biológicos, cognitivos, volitivos, emocionais, que são ao mesmo tempo distintos e interligados (WEDEKIN & ZANELLA, 2013). A Psicologia da Arte desenvolvida por Vigotski apresenta contribuições inegáveis ao contexto modernista e que permanecem como referência para o cenário contemporâneo, sobretudo sua compreensão da Arte como atividade humana, de sua função na sociedade e na vida e das relações entre a obra de arte e os sujeitos (WEDEKIN & ZANELLA, 2013; PRESTES, 2010; BARROCO & SUPERTI, 2014).
O estudo da Psicologia da Arte empreendido por Vigotski evidencia a significativa relação entre este produto cultural e o desenvolvimento humano (PRESTES, 2010; BARROCO & SUPERTI, 2014). Prestes (2010) relata que para o autor “a arte tem a função de superação do sentimento individual e o aspecto criativo da arte está no fato de ela possibilitar a transferência de uma vivência comum” (p. 117). Investigando esta importante referência, Barroco & Superti (2014) explicitam a intrínseca relação entre arte e vida, ou seja, entre arte e os contextos sócio-culturais de onde os elementos que a compõem são extraídos, nunca como meras cópias e sim como “algo novo, fruto de ação criativa que se transforma em produto cultural” (p. 23). Os autores dão destaque à capacidade da arte em promover o desenvolvimento, o que se relaciona tanto a seu processo criativo quanto aos efeitos que tenciona:
“Ela é capaz de provocar alterações no psiquismo dos sujeitos. Ela propicia-lhe nova organização psíquica [...] Neste sentido a arte pode ser entendida como produto cultural, mediador entre o indivíduo e o gênero humano. Ou seja, quem a produz nela cristaliza complexas atividades mentais, as quais podem ser apropriadas pelos demais seres humanos. [...] Assim, ao se produzir arte e ao dela se apropriar, funções psicológicas dos sujeitos são formadas e desenvolvidas.” (BARROCO & SUPERTI, 2014 p. 23)
Barroco & Superti (2014) lembram que a apropriação de conteúdos culturais não ocorre senão mediada pelas relações sociais e propõem que diferentes atores sociais tomem parte no planejamento e realização destas mediações.
O uso da arte é sugerido por Barroco & Superti (2014) como ferramenta para os profissionais da psicologia na promoção do desenvolvimento de diferentes funções psíquicas por oportunizar a vivência indireta de relações sociais.
“Isto porque a arte opera também por meio de signos e significados, sobretudo a literatura, os quais são os principais mediadores, agentes, entre o social e o psíquico, componentes e organizadores da consciência. Por isso a apropriação da obra de arte suscita transformações qualitativas na totalidade do ser, alterando, por exemplo, as funções de percepção e consciência de si e do mundo.” (BARROCO & SUPERTI, 2014 p. 31)
Os autores enfocam a arte literária por esta mediar, para o sujeito que com ela se relaciona, a vivência de experiências alheias que não seriam possíveis em sua própria vida o que enriquece seu repertório, visão de mundo e humanidade (BARROCO & SUPERTI).