A educação antirracista pode ser definida como uma postura ética, estética e política que ativamente combate toda e qualquer expressão de racismo na escola e no território, reconhece e valoriza as diversas formas de experimentar o mundo e os saberes cultivados pelos povos africanos, indígenas e tantos outros que não se enquadram na doutrina colonial eurocêntrica.
Significa reconhecer que o racismo também existe no espaço escolar. Isso porque a escola não é imune e apartada da sociedade — a escola é constituída e reproduz as mesmas estruturas sociais.
Outro ponto é o educador reconhecer o seu lugar dentro dessa lógica. Se posicionar racialmente, compreender privilégios e, constantemente, discutí-los.
Promover a educação antirracista também passa por rever o Projeto Político Pedagógico, o currículo, o material didático, brinquedos e as práticas pedagógicas, trazendo referências negras e indígenas nos elementos culturais apresentados, não como um desvio no currículo, mas como estruturante deste.
As culturas afro-indígenas nos ensinam que a sabedoria não se encontra apenas nos livros, nem nos delírios totalizantes e monorracionais da tradição colonial europeia. Os saberes estão nas pedrinhas, nas folhas, nos quintais, nas formigas, nas águas, nas histórias contadas pelos mais velhos, na ginga da capoeira, no toque dos tambores...
Ignorante é quem negligencia isso!
Sugestão de leitura: "Vence-demanda: educação e descolonização" de Luiz Rufino
Exu é o orixá da palavra e do movimento, senhor dos caminhos e encruzilhadas, é aquele que matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje.
Exu tem múltiplas faces na cultura afro-religiosa da diáspora, uma delas, talvez a mais importante, é a face educadora.
Um aforismo do Ifá diz que Exu faz o acerto virar erro e o erro virar acerto. Dessa forma transforma o estático em dinâmico ao apresentar os dois lados da mesma coisa, mostrando um jeito diferente de ver as coisas ele reflete a beleza de educar: denunciar e lutar contra a reprodução ideológica dominante.
Por mais que sejamos indivíduos, unos, a filosofia exuística nos ensina que nossos atos devem ser orientados por uma responsabilidade com o outro, ou seja, somos um no mundo e devemos saber ler o mundo e agir de maneira justa para com o outro.
Essa lógica é o que mais aproxima Exu e Freire. Quando Freire afirma que existe uma intencionalidade na ação e que a ação educadora não pode ser neutra diante das opressões, ele nos convoca para essa responsabilidade.
O educador, como já dizia Paulo Freire, deve ser um pólo de diálogo, já que somos sujeitos em construção, em constante movimento. Por isso, somos convidados a transgredir os padrões que se instalaram na nossa educação.
"Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os seres humanos se educam entre si mediatizados pelo mundo"
Coincidentemente, Exu e Freire foram demonizados por uma lógica colonial e um pensamento monorracional que ocupa o imaginário de muitos brasileiros.
Pois bem, nossa missão não pode ser outra que não libertar Exu e Freire dessas amarras coloniais e, assim, inventar um mundo outro.
Laroyê Exu
Viva Paulo Freire