Em 1258, D. João Peres de Aboim, homem de confiança do Rei D. Afonso III, seu fiel companheiro de armas, desde a juventude, terá doado o Mosteiro de Marmelar com todas as suas pertenças e possessões à Ordem de São João de Jerusalém ou do Hospital, na figura de Frei Afonso Pires Farinha. Essa doação destinava-se à fundação de um novo estabelecimento monástico, que garantiria a presença de uma ordem militar no território que lhe havia sido concedido pelo concelho de Évora e que veio a constituir o Senhorio de Portel, génese do actual município. Favorecido sucessivamente pelos monarcas da primeira dinastia, cedo o mosteiro hospitalário de Marmelar tornou-se uma das comendas mais importantes que a Ordem do Hospital (designada de Malta, a partir de 1530) teve em Portugal.
A designação “Vera Cruz” só surge tardiamente, a partir do reinado do Rei Afonso IV, e está aparentemente rela cionada com o facto de ter sido a relíquia do Santo Lenho que se guarda e ainda hoje se cultua nesta igreja a mesma que este monarca e D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Hospital e pai de D. Nuno Álvares Pereira, terão levado à Batalha do Salado (1340), e a cuja presença se atribui a vitória milagrosa dos cristãos sobre os “mouros”. Desde esse acontecimento, os hospitalários assumiram-se como os guardiães da sagrada relíquia e guardaram-na na igreja de São Pedro de Marmelar, que passou a ser designada, tal como o local, por Vera Cruz, numa alusão directa à crença de que se trata de um pedaço do lenho no qual foi Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado.
O conjunto arquitectónico subsistente da extinta co- menda de Vera Cruz de Marmelar é composto pela igre- ja, classificada Imóvel de Interesse Público em 1939, e o antigo paço dos comendadores de Vera Cruz que lhe está anexo a nascente, actualmente em ruínas. A construção da igreja hospitalária (segunda metade do século XIII) foi promovida por D. João Peres de Aboim e Frei Afonso Peres Farinha, os quais a escolheram para seu locus sepulcral.
Na sua edificação aproveitaram-se estruturas do mos- teiro primitivo de Marmelar, nomeadamente os dois espa- ços que vieram a formar as capelas colaterais da cabeceira da nova igreja e cuja cronologia se tem vindo a situar no período visigótico (séc. VII), constituindo um património extraordinário no contexto da arquitectura da Alta Idade Média na Península Ibérica. O espaço entre estas capelas foi destinado a capela-mor da igreja hospitalária, entaipa- da posteriormente com a construção de um altar à face, tendo sido aqui, no local mais nobre da igreja (hoje trans- formado em sacristia), que se gravou a famosa inscrição referente à obra hospitalária e ao seu fundador, Afonso Peres Farinha.
No domínio do património móvel, a paróquia de Vera Cruz é proprietária de várias peças de pintura, escultura, ourivesaria, mobiliário e paramentaria, que restaram de um universo rico e variado de objectos de uso litúrgico e devocional, herança da presença secular dos hospitalários neste sítio e prova da cultura e modernidade, capacidade económica e internacionalidade dos seus comendadores. Para além da estauroteca, o cofre-relicário medieval onde se guarda a relíquia do Santo Lenho, peça única no contexto europeu, assinalam-se, em particular, a pintura flamenga do Pentecostes (século XVI) e as pinturas que pertenceram ao antigo retábulo-mor da igreja, representando, a primeira, A Rainha Santa Helena e o milagre do Reconhecimento da Vera Cruz perante o Impera- dor Constantino e o seu séquito, obra do pintor bejense António de Oliveira (1548), encomendada pelo comenda- dor D. Diogo da Cunha, e a outra que, em 1671, conforme encomenda do bailio Pedro Barriga Barreto, veio substi- tuir a anterior, com a representação do Milagre do Reco- nhecimento da Santa Cruz, da autoria do pintor eborense Francisco Nunes Varela. Merecem também referência, a compor os alçados da nave da igreja, a série de beatos e freires-guerreiros da Ordem do Hospital, pintura espanhola do século XVII.
Dra Ana Pagará
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