Escuta e diálogo como bases fundamentais para a realização do jornalismo humanizado
Escuta e diálogo como bases fundamentais para a realização do jornalismo humanizado
“Acredito que mais importante do que saber perguntar é saber escutar a resposta. Não apenas para ser um bom jornalista, mas para ser uma boa pessoa. Escutar é mais do que ouvir” (Brum, 2009). Escutar o outro e estabelecer com ele um diálogo é sempre um desafio. No jornalismo somos ensinados a desempenhar nossa profissão de maneira objetiva e concisa, no entanto, o Jornalismo Humanizado nos apresenta uma outra forma de fazer jornalismo. Quando se busca uma produção humanizada, somos desafiados a ampliar nossas formas de enxergar o mundo, somos suscitados a nos aproximar do cotidiano deste outro, da realidade dessas outras comunidades e personagens, somos desafiados a escutar as histórias de vida, despidos de todos os nossos (pré) conceitos. Nesse sentido, a jornalista Eliane Brum afirma que:
“Antes de chegar em qualquer mundo, a gente pede licença. E a minha forma de pedir licença é fazer um processo de entrega, em que eu me esvazio. Eu só posso ser preenchida por aquela realidade se eu me esvaziar. E esse processo não é fácil, porque tu tem que ir para o mundo do outro, sem os teus preconceitos, sem os teus dogmas e, principalmente, sem as tuas certezas, com a coragem e o respeito de se arriscar a uma realidade que não é tua, e se espantar com essa realidade” (Brum, 2008, p.14).
O Jornalismo Humanizado, que tem em Eliane Brum uma das suas grandes referências, tem essa premissa de contar histórias humanas, guiadas por uma apuração jornalística atenta, sensível e dialógica, que busque compreender a complexidade social, uma vez que o cotidiano das pessoas é dinâmico e variado. Nesse sentido, Montipó aponta que “a produção jornalística é resultado de um mosaico de processos, vozes e estilos que obedece aos mesmos moldes da existência que busca retratar: a complexidade do mecanismo social” (Montipó, 2011, p. 2).
Nesse processo que vai se estabelecer durante a produção, a escuta se torna vital. É necessário que se possa estabelecer um diálogo com o personagem, pois no jornalismo humanizado o entrevistado não é apenas uma fonte, ele é um personagem detentor de uma história de vida, o jornalista precisa estar disposto a ouvir, de maneira sincera, despido de todas as suas verdades e certezas. Em vista disso, a jornalista e pesquisadora Cremilda Medina nos aponta que a entrevista, nesse sentido em que se busca ser mais humano, deve ser estabelecida através de um diálogo, quando o jornalista se dispõe a desempenhar essa comunicação humana.
Além do mais, Medina também aponta para o fato de que é preciso que se desenvolva uma sensibilidade dos gestos, do olhar e da atitude corporal. Outra questão que Medina considera como vital é a questão da subjetividade e a relação que se vai estabelecer.
“A relação que se estabelece deve ser sujeito-sujeito e não sujeito-objeto, como se houvesse algo a ser manipulado. Ou seja, o jornalista não emite uma opinião ‘subjetiva’, mas entra em relação com os protagonistas de sua matéria de uma maneira dialógica. O diálogo é fundamental, o jornalista transforma e é transformado” (Silva, 2010, p.18).
Dessa forma, pensar a narrativa humanizada é ter em mente que se deve ter uma perspectiva sensível em relação ao outro, que ao adentrar esse novo mundo, precisamos manifestar um respeito em relação à sua história de vida, ouvir-lhe atentamente, estar ali por completo, disposto a compreender a realidade que o outro vivencia. E, nessa busca por compreender o mundo de maneira mais ampla, intrincados de todas as suas complexas dinâmicas sociais:
“Reportar os movimentos da cidadania, perceber o protagonismo dos sujeitos, o contexto coletivo em que estão inseridos, as raízes histórico-culturais que os particularizam, sondar os diagnósticos-prognósticos daqueles que pesquisam saídas para os impasses da condição humana, eis a arte de tecer o presente, em que se criam as narrativas da contemporaneidade” (Medina, 2014, p.75).
Essas narrativas contemporâneas e humanas vão além da produção de textos mais amplos e aprofundados, que privilegiam o uso dos recursos literários que valorizam as histórias de vidas. O jornalismo humanizado é “mais que isso, leva a essência das ações humanas, é um olhar, uma perspectiva, um ponto de partida diferenciado”. (Alves; Sebrian, 2008, p. 2). Desenvolvê-las é desafiante, pois quando nós escutamos de verdade, dialogamos atentamente e compreendemos este outro mundo com respeito, estabelecemos uma troca, um aprendizado que, ao alcançarmos este outro ser humano, nos transforma. “Acredite: não há nada mais extraordinário do que alcançar um outro ser humano" (Brum, 2009).
Referências
ALVES, Fabiana Aline; SEBRIAN, Raphael Nunes Nicoletti. Jornalismo Humanizado: O Ser Humano Como Ponto de Partida e de Chegada do Fazer Jornalístico. Guarapoava: Intercom, 2008. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2008/resumos/R10-0540-1.pdf
BRUM, Eliane. O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real. São Paulo: Globo, 2008.
BRUM, Eliane. Por que as pessoas falam tanto?. Site Eliane Brum Desacontecimentos, 2009. Disponível em: http://bit.ly/1WXao7O
MEDINA, Cremilda. Atravessagem: reflexos e reflexões na memória do repórter. São Paulo: Summus, 2014.
MONTIPÓ, Criselli. Jornalismo, ética e humanização: reflexões sobre a tríplice tessitura. Intercom– Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação– Recife, PE– 2 a 6 de setembro de 2011. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2011/resumos/r6-1228-1.pdf
SILVA, Francilene de Oliveira. Protagonistas do Cotidiano na Revista Piauí. Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, São Bernardo do Campo - SP, 2010.