No mês de Junho, celebramos o mês do Orgulho LGBTQIAPN+, uma data que nasceu da coragem de pessoas que decidiram reivindicar o direito mais básico de todos: o de existir, viver e ocupar espaços sendo quem são.
Mais de cinco décadas depois, essa luta continua presente em diferentes formas. Ela também acontece nos ambientes de trabalho, quando cada pessoa pode desenvolver seu potencial sem precisar esconder sua identidade para ser respeitada, ouvida e reconhecida.
Neste especial do Orgulho de Ser Proescker, conversamos com Denilson Vendramini, ou simplesmente Deni, Gerente de Suporte, e Zay Santiago, Analista de Customer Success.
Deni se apresenta como "todo bom paulista" que prefere ser chamado pelo apelido e compartilha sua vivência como homem cis gay, refletindo sobre como sua identidade influenciou sua trajetória profissional e sua forma de liderar pessoas.
Já Zay, que acaba de completar um ano de Proesc, é uma pessoa trans não binária, utiliza os pronomes elu e ela e compartilha como sua jornada foi marcada por desafios, recomeços e pela importância de encontrar um ambiente onde pudesse ser reconhecide pelo seu trabalho e respeitade por quem é
Vamos conhecer essas histórias mais a fundo?
Como foi a sua trajetória profissional até chegar aqui? Sua identidade influenciou esse caminho de alguma forma?
Deni:
Trabalho desde os 15 anos e já passei por diferentes áreas. Fui ajudante de jardineiro, trabalhei com panfletagem e também sou ator formado. Acho que foi no teatro que comecei a desenvolver essa sensibilidade para olhar o outro e entender melhor as pessoas.
Depois, trabalhei em um banco, primeiro em uma área de apoio aos colaboradores e, mais tarde, em escolas de idiomas e em uma faculdade. Foi no atendimento que encontrei minha vocação. Percebi que atender alguém vai muito além de oferecer um serviço: é entender os sonhos, as necessidades e os objetivos daquela pessoa.
Com o tempo, comecei a assumir responsabilidades de liderança e segui minha carreira como supervisor de suporte em um banco digital e, depois, em uma empresa de logística, onde também implantei a área de Qualidade do atendimento. Foi ali que aprofundei meu olhar sobre comunicação, processos e experiência do cliente.
Hoje estou na Proesc. Entrei como Gerente de Sucesso do Cliente da rede particular, depois assumi também a rede pública e, atualmente, atuo como Gerente de Suporte.
Minha identidade influenciou toda essa trajetória. Como homem gay, cresci aprendendo que precisava estar sempre preparado para enfrentar julgamentos e possíveis situações de preconceito. Isso fez com que eu desenvolvesse o hábito de estar sempre um passo à frente, buscando evoluir e me preparar cada vez mais.
Durante muito tempo, principalmente no ambiente de trabalho, eu me perguntava se as pessoas estavam enxergando o profissional ou julgando quem eu era. Com o tempo, convivendo mais com a comunidade LGBTQIAPN+ e entendendo o verdadeiro significado do orgulho, percebi que não havia nada de errado comigo. O problema nunca esteve em quem eu sou, mas no preconceito. Por isso, o Mês do Orgulho representa a liberdade de viver a própria identidade sem vergonha e com a certeza de que ser quem somos nunca deve ser motivo de limitação.
Zay:
Sou formade em Medicina Veterinária pela UNB, mas seguir carreira na área não fazia sentido para minha realidade financeira naquele momento. Eu precisava me sustentar sozinha, então comecei a trabalhar no shopping enquanto estudava Customer Success por conta própria, fazia alguns freelas e buscava minha primeira oportunidade na área, consegui minha primeira oportunidade em uma consultoria de Recrutamento e Seleção, depois em uma plataforma de Employee Experience.
Antes de chegar à Proesc, vivi um período muito difícil pois estava sem emprego. Enfrentei muitas recusas em processos seletivos. Com o fim do seguro-desemprego, precisei aceitar empregos no comércio para conseguir pagar as contas. Trabalhei em uma padaria, depois trabalhei em um açougue — sendo vegetariane (risos). Foi nesse momento que a Proesc apareceu. Claro que houve mérito em estudar, participar de processos seletivos e conquistar a vaga, mas receber essa oportunidade mudou completamente minha realidade. Ela me tirou de um lugar em que eu jamais imaginei estar aos 26 anos, mesmo tendo experiência e qualificação.
Hoje entendo que minha identidade também influenciou esse caminho. O mercado de trabalho ainda é muito desigual para pessoas LGBTQIAPN+, e muitas vezes precisamos provar nossa competência o tempo todo para conquistar oportunidades que outras pessoas alcançam com mais facilidade.
Apesar dos desafios, esse período me trouxe maturidade e fortaleceu minha relação com a minha identidade. Hoje, estar na Proesc também representa isso: ocupar espaços com dignidade e mostrar que talento, dedicação e capacidade sempre devem falar mais alto do que qualquer preconceito.
O que mais te motiva?
Deni:
Acho que é sempre ter um próximo sonho, um próximo objetivo. Acabei desenvolvendo esse traço de estar sempre olhando para frente, e levei isso também para o ambiente de trabalho. Gosto de ter novos projetos, novos desafios e acompanhar cada etapa até ver o resultado acontecer.
O que me motiva é justamente essa sensação de evolução constante. Não gosto de simplesmente acordar para cumprir mais um dia de trabalho. Gosto de pensar em algo maior, de construir novos caminhos e alcançar novos sonhos, tanto na vida profissional quanto na pessoal.
Zay:
Hoje, o que mais me motiva é saber que, além de fazer um trabalho com um propósito tão bonito quanto o que fazemos na Proesc, eu também posso ser referência para outras pessoas que compartilham vivências parecidas com as minhas.
Poder mostrar que é possível trabalhar em um ambiente onde te respeitam, reconhecem pelo seu trabalho e você pode crescer profissionalmente, independentemente de quem você é, tem um significado muito grande para mim.
Quais fatores contribuem para que você se sinta acolhido no ambiente de trabalho como pessoa LGBTQIAPN+?
Deni:
Acho que o principal é quando percebemos que podemos ser vulneráveis porque o outro também é. Quando vejo que as pessoas compartilham suas dificuldades, traumas e experiências, entendo que não sou o único a enfrentar desafios.
É muito importante quando converso, por exemplo, com uma pessoa preta que compartilha situações de preconceito que viveu, ou com alguém que enfrentou dificuldades por causa da sua condição social. Quando percebemos que cada pessoa carrega sua própria história e está disposta a falar sobre isso, criamos um ambiente muito mais humano.
Para mim, é justamente aí que está o acolhimento: quando existe espaço para que todos possam mostrar suas vulnerabilidades sem medo de julgamento.
Zay:
Na Proesc, o principal fator foi perceber que a minha identidade nunca foi tratada como uma questão.
Quando entrei, nem cheguei a falar sobre meu gênero ou sobre pronomes. Eu precisava muito daquela oportunidade, vinha de um período em que havia recebido muitos "nãos", então meu foco era mostrar meu trabalho.
Naturalmente, as pessoas perguntaram qual pronome eu utilizava e, a partir dali, fui respeitade. Não precisei fazer uma grande apresentação para toda a empresa explicando que sou uma pessoa trans ou justificar quem eu era para ser tratada com respeito.
Isso nunca tinha acontecido comigo antes. Em outras empresas sentia que as pessoas ficavam pisando em ovos, ou que eu era vista apenas como um símbolo de diversidade.
Aqui foi diferente. Todo esse respeito aconteceu de forma muito natural. Hoje me sinto confortável para ser quem eu sou, e gosto do fato de que minha identidade não é o centro das interações. As pessoas me conhecem primeiro pelo meu trabalho, e isso faz toda a diferença.
O que o Orgulho LGBT representa para você? Que mensagem você gostaria de deixar para outras pessoas da comunidade LGBTQIA+ que estão construindo suas carreiras?
Deni:
Para mim, o orgulho é justamente se permitir ser quem você é. É entender que aquilo que você é nunca pode te colocar para baixo. Pelo contrário, precisa te impulsionar para frente. Existe uma história, valores, uma família, amigos e toda uma trajetória que construíram quem você é hoje.
Não existe motivo para termos vergonha de ser quem somos ou de viver da forma que faz sentido para nós. O importante é saber que estamos fazendo bem para nós mesmos e não prejudicando ninguém. É nisso que acredito.
Quando falo de orgulho, também penso nas pessoas que caminham ao nosso lado. A comunidade LGBTQIA+ foi muito importante na minha trajetória de entendimento como homem gay. Foi ela que me acolheu e me mostrou que eu podia ter orgulho de quem eu era.
Hoje, fico feliz quando vejo um menino usando salto ou saia porque é assim que ele quer se expressar. Fico feliz quando vejo uma mulher trans podendo viver sua identidade livremente. Quando essas pessoas ocupam esses espaços, elas também me fortalecem. Da mesma forma, quando eu ando de mãos dadas com alguém na rua, não estou fortalecendo apenas a mim, mas também outras pessoas que talvez ainda não tenham conseguido viver isso.
É por isso que momentos como a Parada do Orgulho fazem tanto sentido. Eles representam esse encontro, esse fortalecimento coletivo e essa celebração da nossa existência. Durante muito tempo, a sociedade ensinou pessoas LGBTQIA+ a sentirem vergonha de quem eram. Hoje, escolhemos viver o contrário: ter orgulho de sermos exatamente quem somos.
Se eu pudesse deixar uma mensagem para outras pessoas da comunidade, seria justamente essa: não escondam quem vocês são. Quando deixamos nossa essência guardada por medo do julgamento dos outros, acabamos limitando o nosso próprio potencial.
Durante muito tempo eu tive vergonha de aparecer, de dar risada e de ocupar espaço. Tudo começou a mudar quando entendi o valor da vulnerabilidade. Hoje, levo isso também para a minha liderança.
Muitas vezes sigo em frente mesmo com medo, insegurança ou em dias difíceis. E tudo bem reconhecer isso. No fim, minha mensagem é: não tenha medo de ser quem você é. Tenha orgulho da sua essência. Todos nós estamos aprendendo a viver e crescendo um pouco a cada dia. Então permita-se viver sendo exatamente quem você é.
Zay:
Para mim, o orgulho é uma forma de mostrar que nós existimos, que ocupamos espaços e que também temos o direito de sermos vistos, de trabalhar, crescer e viver com dignidade.
Cada pessoa LGBTQIA+ que conquista um espaço amplia as possibilidades para quem vem depois. A representatividade não resolve tudo, mas faz muita diferença quando alguém consegue olhar para outra pessoa e perceber que também pode chegar lá.
Por isso, uma coisa que gosto muito de dizer é que, muitas vezes, precisamos abrir as nossas próprias portas. Busquem conhecimento, se especializem, aproveitem as oportunidades e façam o melhor trabalho que puderem.
Não é um caminho fácil. Ainda vivemos em uma sociedade bastante conservadora e, infelizmente, nem sempre o mérito, sozinho, é suficiente para superar todas as barreiras. Mas é importante não deixar que essas dificuldades façam você desistir, porque elas não definem quem você é.
Cada espaço que conquistamos ajuda a tornar o mercado mais aberto para quem vem depois. Isso também faz parte da transformação.
E, quando vocês encontrarem um ambiente onde possam ser quem realmente são, sem que isso seja um problema, valorizem esse espaço. Trabalhar com respeito, pertencimento e dignidade faz uma diferença enorme na nossa trajetória.
Hoje sou uma profissional muito diferente da que era antes justamente porque vivi experiências difíceis, mas também encontrei ambientes onde fui respeitada e acolhida, como acontece na Proesc. São essas experiências que mostram o quanto faz diferença poder trabalhar sendo, simplesmente, quem somos.