Letícia nunca dormia com as janelas fechadas. Gostava de sentir a luz do sol assim que abria os olhos de manhã.
Era o seu dia preferido da semana: domingo. Apesar de ter ficado na igreja no sábado quase a noite inteira, ela se sentia energizada para mais um domingo na casa de Deus.
Ela se levantou rapidamente e começou a se arrumar para ir. Havia separado uma calça jeans azul clara e uma camisa amarela que expressava a sua alegria.
Sendo uma cristã de berço e tendo crescido em uma família bastante ativa, Letícia sentia que sua igreja era sua segunda casa. Sempre queria participar de tudo. Não era por menos que ela estava no ministério de música, na liderança dos jovens, e era professora das crianças e, de vez em quando, se arriscava nas ministrações de culto. Não havia “atividades demais” para Letícia.
Tanto era que, naquele ano, ela resolveu abraçar mais um ministério: o da sonoplastia.
Ok, Letícia não sabia nada sobre mexer com equipamentos de som, mas sentia que o Espírito Santo estava lhe direcionando para aquele lugar agora. Ela gostava de resolver problemas, de dar ideias, de improvisar, e sentia que o ministério dos “bastidores” precisava aparecer um pouco mais. Quando ela pediu para entrar, recebeu logo o apoio do conselheiro Silas, que liderava o departamento de multimídia da igreja.
Seria seu primeiro dia e ela estava animada. Pegou o celular pela milésima vez naquela manhã para confirmar quem estava na escala com ela. Seu olhar perdeu um pouco do brilho ao ver o nome dele.
Isaac — Escrito incorretamente na planilha como Isaque.
Ele era um rapaz educado, gentil. Os dois praticamente cresceram juntos naquela igreja. Mas ele era muito… recluso. Introspectivo. Parecia ser a única pessoa da qual ela não conseguia se aproximar. Por mais que se conhecessem há muitos anos, ela não sabia nada sobre ele, além de que ele era muito inteligente, estudioso e, bom… tímido. Ele nunca participava de nada, ia embora assim que os cultos terminavam e não interagia nos grupos deliberadamente.
Mas ele sempre cumprimentava a todos (que iam cumprimentá-lo) e abraçava — rapidamente — os irmãos que queriam abraçá-lo. Ele sorria alegremente, respeitava os mais velhos e cantava todos os louvores e hinos do banco de onde estava sentado durante os cultos (que era sempre o mesmo banco: quarta fileira do meio), junto do restante da congregação. Nos últimos tempos, Letícia só havia escutado a voz dele quando ele lia os textos das lições de EBD da Juventude (e ele lia muito bem). Era o oposto de seu irmão mais novo, Ismael (a propósito, ela amava a referência bíblica no nome dos dois irmãos), que tinha apenas 17 — quase 18 — anos, mas participava de tudo que podia, assim como ela, e dificilmente parava de falar.
Por isso ela se perguntava: por que alguém que lê tanto e é tão inteligente nunca quer falar?
Bom… naquela manhã ela pretendia descobrir.
* * *
A Igreja Luz que Fica era uma igreja antiga da cidade de Porto Claridade, mas que não se manteve presa no tempo. Eles mantinham um equilíbrio perfeito entre tradição e inovação e, por esse motivo, conseguiam ter ministérios tão engajados.
Letícia se atrasou um pouco para chegar em tempo para a escola bíblica dominical, pois descobriu que sua moto estava sem combustível e precisou chamar um carro de aplicativo que demorou muito para chegar. Mas ela lidava com essas intercorrências da forma mais leve possível, sendo sempre grata a Deus, independentemente da situação.
Assim que chegou à igreja, foi rapidamente até a sala onde os jovens se reuniam para a escola bíblica. Naquele dia, em especial, os jovens adultos estavam tendo aula em conjunto com os adolescentes. Letícia entrou discretamente na sala e se sentou em uma cadeira vazia mais ao fundo, ao lado de Ismael, que, como sempre, estava perto do irmão mais velho.
— Oi, “patriarcas” — ela os cumprimentou baixinho, com o apelido que dera aos dois. Isaac sorriu levemente e acenou com a cabeça, enquanto Ismael começou a falar.
— Oi, Letícia, chegou bem a tempo. Estamos em Juízes 2.
Ela grunhiu levemente. Juízes foi um dos livros que quase arruinou o seu plano de leitura bíblica anual. Letícia o considerava um livro quase tão difícil de ler quanto as Crônicas. Abriu o aplicativo da Bíblia no celular e começou a acompanhar a leitura.
— Nós já vimos isso algumas vezes, mas eu preciso perguntar… — O professor fez um pequeno suspense. — Vocês sabem explicar qual é a diferença entre os anjos normais e o Anjo do Senhor que aparece aqui? Um de cada vez, por favor! — ele brincou quando os alunos se mostraram hesitantes.
Letícia ouviu um pequeno suspiro, seguido da voz de Isaac.
— Muitos estudiosos afirmam que o Anjo do Senhor é uma Cristofania. Que Ele foi uma manifestação de Cristo antes do nascimento de Jesus.
— Excelente, Isaac! E você acredita nisso?
— Eu? Bom… sim. Existem alguns… sinais, na própria Bíblia. Ele tem uma autoridade que os outros anjos não têm, ele é sempre “O” Anjo, com A maiúsculo, e ele não aparece no Novo Testamento… Acho que é por aí.
Ele ajustou os óculos como se estivesse nervoso e não olhou para ninguém enquanto respondia. Olhava apenas para as Escrituras abertas em seu colo.
— E você está certo, Isaac, obrigado pela participação. Pessoal, o Anjo do Senhor…
Mas Letícia parou de prestar atenção quando viu Isaac se levantar discretamente e sair da sala. Como ele estava escalado para o som, talvez precisasse sair antes, o que era compreensível. E… ela também estava escalada para aquele domingo, e quem deveria ensiná-la a mexer no som era ele.
Então, Letícia também se levantou e o seguiu.
Quatro anos de curso de teologia e mais de 200 episódios de podcast gravados, mas Isaac ainda não conseguia falar com confiança dentro de sua própria igreja.
O Anjo do Senhor… uma coisa tão simples e ele veio com “acho que”.
— Ansiedade, essa hora não… — Isaac sussurrou consigo mesmo e caminhou em direção aos corredores que levavam ao seu aquário. Ele foi confirmar a escala do dia e fechou os olhos em frustração.
Slides: Rodrigo
Transmissão ao vivo: Clara
Microfones da congregação: Silas.
Microfones do palco: Juliana
Mesa de som: Isaque (treinar Letícia).
Primeira coisa: ele havia esquecido que teria que ensinar Letícia a mexer na mesa de som.
Segunda coisa: seu nome estava escrito errado de novo.
Silas definitivamente tinha algo contra ele, porque ele sabia que o nome do rapaz era Isaac, não Isaque, mas insistia em escrever errado, e ainda reclamava quando Isaac tentava corrigi-lo. Dizia que “na época dele não tinha essas frescuras” e que “o certo era Isaque, afinal o irmão dele não se chamava Ishmael”.
Se ele tivesse coragem de usar a língua afiada que usava em seu podcast na vida real, ele também diria que “na época de Silas” era considerado falta de educação falar demais (o que talvez não fosse verdade, mas ele provavelmente levaria para o lado pessoal).
Isaac respirou fundo de novo. Ele sabia o que era aquilo. Era uma das “graças” de ser introvertido. Ele processava todos os seus pensamentos para dentro, então sabia muito bem quando seu espírito estava sob ataque. Seu inimigo espiritual com certeza o odiava muito por sua resistência inabalável.
Assim que chegou ao aquário e fechou a porta, começou a ligar a mesa de som e verificar a regulagem de todos os microfones. Colocou também os fones de ouvido e verificou os retornos. Estava tão concentrado que não ouviu a porta do aquário sendo aberta.
— Izaquias!
Ele pulou de susto quando ouviu a voz de Letícia. Sabia que era ela, não só porque ela sempre falava alto, mas porque era a única que o chamava assim. Quando eram crianças, ela tinha dois anos e ele tinha quatro. Letícia estava aprendendo a falar e memorizar os nomes das pessoas, mas, por algum motivo, ela não conseguia falar “Isaac”. Na primeira tentativa, saiu “Izaquias”, e o apelido acabou ficando… mesmo quando eles já estavam crescidos, Isaac com 25 e Letícia com 23.
— Oi, Letícia. Tudo bem? — ele tirou um dos fones e sorriu educadamente, apertando a mão dela, mesmo sabendo que ela normalmente abraçava as pessoas.
— Então esse é o seu cubículo — disse, olhando ao redor.
— Sim. Eu vou te ensinar a mexer aqui hoje, mas, nos próximos domingos, provavelmente o Silas vai te colocar para aprender a usar os outros equipamentos antes de te fixar em algum.
— Sem problemas.
Isaac assentiu e começou a ensinar Letícia a usar a mesa de som. Ela aprendeu rápido e ele deixou o comando da mesa nas mãos dela durante aquele culto, enquanto ele supervisionava. Mas não precisou corrigir muita coisa, pois ela se adaptou rápido.
Durante o sermão, quando o som e os microfones estavam estabilizados, Isaac se recostou na cadeira e ficou ouvindo o pastor falar. Mas Letícia não aguentou muito tempo calada.
— Por que você não veio ontem?
Isaac ajustou os óculos no rosto e cruzou os braços.
— O que teve ontem?
— Teve encontro de jovens aqui. Você não viu as mensagens no grupo?
— Não. Eu estava ocupado. É cansado. Cheguei em casa e não peguei mais no celular.
Letícia assentiu como se não acreditasse, mas era a verdade. Isaac trabalhava de segunda a sábado no Skyline English Centre. Sua agenda estava sempre cheia, mas, em compensação, seu bolso também. Seus alunos particulares o pagavam muito bem e, quando o expediente acabava, ele gravava os episódios de seu podcast em sua sala antes de ir para casa.
Muita gente sabia que Isaac era professor de inglês, mas ninguém, além de sua família, sabia do podcast. E só não sabiam porque Isaac foi muito claro com seus pais e seu irmão de que ninguém poderia saber sobre aquilo. Ele não queria ser visto por seus conhecidos como a imagem por trás daquela voz.
Quando estava concluindo a faculdade de teologia, Isaac sentiu que precisava compartilhar mais com as pessoas. Ele ouviu o chamado de Deus e obedeceu, mas, para atender a esse chamado, ele precisava ficar anônimo. Não era por vergonha, mas por causa da mensagem. A mensagem era o foco, não a pessoa. Deus queria alguém que transmitisse a mensagem de maneira clara e assertiva, e não necessariamente um rosto amigável. E Isaac era a pessoa ideal para isso. Sabia falar bem, mas nunca falava. Era inteligente, mas não se expressava com confiança. Poucos (talvez ninguém) reconheceriam sua voz, mas todos ouviriam a mensagem. Por isso, ele aceitou o chamado, mas manteve a boca fechada sobre aquilo.
Muitas vezes, Isaac se diminuía na presença de Deus, mas não por “charme”, e sim porque era como ele se sentia. Suas conquistas não eram sobre quem ele era, mas sobre quem Deus o tornou. Por isso, se recusava a se orgulhar de seus méritos. Afinal, não eram só dele. Nunca foram.
— Além disso — Isaac continuou —, eu já expliquei que moro longe. Vocês só se reúnem à noite, e é impossível enxergar o trânsito a essa hora.
— Ah, entendi… Eu pensei que você ainda morava na casa dos seus pais.
— Não. Eu moro no centro, perto do Skyline — respondeu com um pequeno sorriso.
Isaac era simpático e genuinamente educado. Mas não era uma pessoa convidativa. A maioria respeitava isso.
Mas, para alguns… isso era motivo o bastante para perseguição, tanto dentro da igreja como fora dela.
* * *
Quando o culto terminou, Isaac mal começara a desligar os equipamentos quando ouviu Silas abrir a porta do aquário.
Ele viu a expressão rígida do conselheiro se desfazer quando percebeu que Letícia também estava lá.
— Letícia, querida! Como foi seu primeiro dia? Ele te ensinou direito?
— Sim, irmão. Foi mais fácil do que imaginei!
— Eu sabia que você se sairia bem.
Os dois conversavam enquanto Isaac guardava os equipamentos e desligava tudo.
— À noite eu chego cedo e organizo, ok? Até mais tarde. — Ele não olhou para ninguém em especial e já saiu do aquário.
A entrada da igreja estava apinhada de gente. Ele cumprimentou alguns irmãos, mas se apressou para chegar até a saída, quando foi parado por Ismael.
— Isaac! A mãe quer saber se você quer almoçar com a gente hoje.
Isaac se reteve. Almoçar “com a gente” nem sempre era almoço de família. Na maioria das vezes, era almoço coletivo, em que ela convidava muitas pessoas que faziam perguntas demais.
— Eu não posso, Ismael, desculpa. Eu tenho um episódio para gravar.
Não era mentira. Isaac tinha, sim, episódios para gravar. Ele só não precisava gravar naquela tarde.
— Ok… — disse Ismael, um pouco desapontado. — Até mais tarde, maninho.
— Até.
Isaac quase correu em direção ao seu carro, enquanto arrumava a gravata e os óculos no rosto.
* * *
— Pessoal, essa semana estive bastante imerso no livro de Êxodo e não pude deixar de notar como ele repete a frase “Deus endureceu o coração do Faraó”. Ou até mesmo em 1 Samuel, quando vemos “O espírito maligno enviado por Deus”, confunde muito as pessoas e, de certa forma, incomoda muitos cristãos. Mas me diga, caro ouvinte… o que está te incomodando exatamente? O que para você é difícil de compreender? (Pausa). Recebi alguns comentários com essa dúvida. Vou ler um deles:
— “Caro semeador da verdade… o que essa referência realmente quis dizer? Deus enviou um espírito maligno para atormentar o rei Saul, ou é uma maneira de falar?”
— Vamos ser didáticos aqui. Deus não “enviou” um espírito, no sentido de olhar para os demônios e dizer “vá você atormentar Saul, quero castigá-lo”. Ele pode fazer isso? Claro que pode. Mas não foi isso que ele fez, embora o texto, creio eu, te faça imaginar algo semelhante.
— Existe uma justificativa para todos esses cenários em que parece que Deus instigou algo mal, que eu chamo de princípio da ausência. Isso explica muitas “contradições”.
— O rei Saul estava distante de Deus. Quem se distancia cria ausência, e na ausência o caos reina. Deus é a ordem, e ele não se mistura ao caos. Quando Saul o abandonou, a presença de Deus saiu de perto dele. E essa ausência trouxe espíritos malignos para a vida de Saul. Os espíritos malignos não eram demônios vermelhos e barulhentos. Eram fraquezas. Pânico, ansiedade, loucura, depressão. Essas fraquezas eram contidas por meio da música de Davi, não por causa da música, mas porque Davi não estava distante de Deus.
— Não havia ausência em Davi, então Deus operava por meio dele. Mas como Ele iria trabalhar dentro de Saul, se ele estava deliberadamente abraçando o caos? É uma questão de escolha, assim como foi no Éden. Deus poderia nos poupar de muita coisa, mas Ele nos ama tanto que nos deixa escolher. O nosso problema é que sempre escolhemos errado.
— Outra dúvida frequente é relacionada ao endurecimento do coração do Faraó. Até entendo por que essa passagem é tão complexa para tanta gente. Para alguns, parece que Deus estava dificultando de propósito a Moisés conseguir permissão do faraó para sair do Egito. Mas não era isso.
— O Faraó não era um homem de Deus. Ele era um homem orgulhoso e de coração duro. Ele já era uma pessoa ruim, por escolha. Se ele fosse bonzinho, o povo não teria sido escravo no Egito, teria? A própria forma de governo já mostrava que ele não era uma boa pessoa.
— O coração dele já estava endurecido quando Moisés pedia para que ele os deixasse sair. E Deus sabia disso. Ele sempre sabe. Então, quando leio essa passagem, eu imagino Deus falando: “Moisés vai pedir, mas o Faraó não vai deixar… Já que ele não vai deixar, vamos mostrar uma coisa a ele e ao povo. Isso vai se repetir umas dez vezes até ele aprender.”
— É simples assim. Deus sabia o que Faraó iria fazer, e Ele usou isso para mostrar o poder dEle. Isso, caro ouvinte, se chama soberania.
— Não importa o quanto tentassem, ou quantas escolhas possíveis existissem, todas levariam ao mesmo desfecho, que era a saída do povo do Egito. Ele poderia mandar vinte, trinta, quarenta pragas, mas o povo seria libertado.
— Mas não confundam a soberania com pré-destinação. Deus não fechou os nossos destinos. Ele os deixou abertos. Existe um único caminho que nos leva até Ele, e existem muitos caminhos que nos afastam d’Ele. O que determina o desfecho são os meios. Mais uma vez, são as nossas escolhas.
— E esse foi o episódio de hoje do Semeando a Verdade. Eu sou o semeador e vejo você no próximo episódio.
Quando Isaac terminou a gravação, editou o áudio e programou a postagem. Ele fechou sua bíblia e olhou para o céu.
— Obrigado, Senhor. Mantém-me firme e não permitas que eu me desvie da Tua vontade. Em nome de Jesus, Amém.
No culto da noite, Isaac deixou que Letícia tomasse a frente da mesa de som. Afinal, ela realmente estava se saindo bem e se adaptando rápido. Então seu trabalho foi apenas ficar por perto caso ela precisasse de algo. E, dificilmente, ela precisaria.
— Izaquias, vai fazer o que no sábado? A gente vai assistir a um filme na casa do Mateus — Letícia perguntou.
— Que horas? — Isaac perguntou de volta, mas sem olhar para ela.
— Ele disse para chegar lá umas 19:00.
— É a hora que eu saio do Skyline. Não dá para ir, desculpa.
Letícia resmungou levemente.
— Nossa… você trabalha muito.
— É… não tenho muita escolha.
As poucas palavras dele incomodavam Letícia de uma forma absurda.
— Você virou mesmo um homem de poucas palavras.
Isaac deu de ombros.
— Não gosto de ficar ouvindo minha própria voz.
— Mas, quando a gente era criança, você falava pelos cotovelos.
Isaac acompanhou o riso de Letícia.
— As crianças sempre são expansivas e querem fazer tudo. Alguns adultos continuam assim depois que crescem.
Letícia ergueu uma sobrancelha.
— Isso não é algo bom?
— Nem sempre.
— Jesus disse que aqueles que forem como crianças herdarão o reino dos céus.
— Ele falava de pureza, doçura e inocência, não de expansividade.
Ela deu de ombros com um suspiro.
— Sei que você é ocupado, mas realmente acho que você deveria participar mais, principalmente falar mais.
— Que engraçado, eu sempre escuto isso de pessoas que falam demais e escutam de menos. Eu falo quando é preciso, Letícia. Se eu me forço a falar, estarei pecando e sendo mentiroso.
Letícia pressionou os lábios e assentiu.
— Desculpa, é que… eu sinto sua falta, sabe? De quando a gente era mais próximo. Quando você e a sua família foram para o Kansas, perdemos o contato. Aí vocês voltaram para Porto Claridade e você se afastou.
Isaac ficou um tempo em silêncio antes de murmurar.
— Eu não queria voltar. Nunca quis.
Antes que Letícia pudesse argumentar, o culto acabou, Isaac desligou a mesa de som e saiu rapidamente. A garota viu o rapaz passando direto por Silas, sem dizer uma só palavra.
— Garoto estranho! — Silas disse, um pouco alto demais, quando foi cumprimentar Letícia. — E aí? Vai ficar no som mesmo?
— Sim! É realmente melhor do que imaginei!
— É… poderia ser melhor ainda se não tivéssemos que lidar com pessoas tão complicadas.
Letícia suspirou. Sabia que ele falava de Isaac.
— Ele só é tímido, irmão Silas. É reservado.
— Mas isso precisa ser trabalhado. Ele nunca vai conseguir uma boa posição no ministério se ficar em silêncio sempre. E o galardão… — Silas balançou a cabeça em reprovação.
O comentário dele incomodou muito a Letícia, mas ela não queria discordar de um dos membros mais antigos e influentes da igreja. Ela detestava entrar em conflito, principalmente com os mais velhos.
— Bom, eu preciso ir agora! Boa noite, irmão!
— Boa noite, querida! Que Deus te abençoe!
Era início de ano eclesiástico, e os ministérios precisavam ser fechados pelo conselho titular. O presidente desse conselho era o pastor David, pai de Letícia, e o vice-presidente era Silas.
— Qual é o próximo ponto, Silas? — David perguntou durante a reunião, logo após eles fecharem quem seriam os novos professores do ministério infantil.
— O ministério jornalístico. Ainda precisamos de um novo editor-chefe para liderar, mas ninguém se autoindicou.
— Sim, é claro… — David assentiu, quase como se tivesse esquecido desse ministério.
— Se me permite uma opinião, acho que sua filha poderia…
— Não — David interrompeu. — Chega de ministérios para a Letícia; ela está sobrecarregada.
— Mas, pastor…
— A Letícia se envolve em mais de 5 ministérios diferentes. Ela já faz muito, e com muito prazer, graças a Deus, mas conheço a minha filha. Esse ministério não é para ela.
— Você tem razão — disse Débora, que também fazia parte do conselho. — Letícia é uma jovem maravilhosa, mas, além de estar muito sobrecarregada, esse cargo requer uma pessoa mais… ousada. Que não tenha medo de falar, de se expressar.
— Alguém que escreva bem, principalmente — Marcos, líder dos missionários, complementou, e Anna, líder do ministério de louvor, falou em seguida.
— Alguém como o Semeador da Verdade.
Silas franziu a testa.
— Quem?
— É um podcaster anônimo. Ele tem a essência que a nossa igreja precisa. Aqui, escutem.
Anna pegou o celular e colocou um trecho do podcast.
“… Preste atenção, caro ouvinte. Deus ama você, mas Ele não ama o que você é fora dEle. A sua natureza, os seus instintos, viraram a desculpa que o mundo aceita, mas Deus não. Se seguir o coração e os instintos fosse o certo, por que Jesus mandou que nos negássemos para que pudéssemos segui-lo?”
Ela pausou o episódio, e o pastor David estava de queixo caído.
— É isso! Precisamos de alguém assim, alguém com essa segurança, essa ousadia…
— Eu concordo — disse Silas —, mas quem tem tudo isso? Os nossos jovens são engajados, mas eles não demonstram tanta segurança teológica para um cargo como esse, e os membros que têm essa segurança estão servindo em outros ministérios.
Ninguém do conselho sabia o que dizer. O Semeador parecia ser único e não parecia com ninguém da igreja.
— Eu já sei! Como não pensei nisso antes? — disse David.
— Quem o senhor vai indicar? — Silas perguntou.
— Não é óbvio? — David já estava escrevendo o nome na cédula — o editor-chefe será o filho do pastor Alexander.
Silas engoliu em seco.
— É… Ismael?
— Não. Isaac.
Nenhum dos membros do conselho disse coisa alguma; afinal, nenhuma das indicações do pastor David era questionada. Ele sempre acertava nas pessoas que escolhia.
Mas, daquela vez, foi diferente.
— O Isaque? — perguntou Silas. — Com todo o respeito, pastor, mas ele não tem condição alguma de liderar esse ministério.
David ergueu uma sobrancelha.
— Por que não? Para mim, é óbvio que ele é a escolha ideal.
— Tente entender, eu trabalho com o Isaac na sonoplastia. Ele é obtuso demais, quieto demais. Se ele der um “bom dia”, já foi o bastante! — Silas começou a falar um pouco mais alto — Ele nunca fez nada por essa igreja, nem se batizou aqui! Como podemos confiar um cargo tão importante a alguém que a congregação nem percebe?
— Por que você está nervoso? — David perguntou, calmamente. — Silas, esse ministério, e qualquer outro, exige pessoas que sirvam, não pessoas que sejam vistas. Isaac é um bom comunicador, exatamente por ser calado. Temos que dar voz a ele.
— Mas…
— Quer saber, eu concordo — disse Marcos. O Isaac comunica muito no silêncio dele.
— O que você quer dizer com isso? — Silas cruzou os braços.
— Estou dizendo que ele pode ser muito mais do que ele mostra. Pessoas como ele, que não se apressam em mostrar que sabem algo para que outros vejam, são especiais. Talvez ele só não saiba ainda o quanto.
— Ele não me passa segurança — Silas tornou a argumentar. — Alguém que se afasta tanto dos outros deve ter algum segredo! Quando ele conseguiu um emprego temporário na escola da irmã Rute, ela disse que ele desaparecia depois do expediente e não fez o menor esforço para se manter lá.
— Pelo que me contaram… — Anna interveio — Ele já estava sendo sondado por aquele curso particular.
— Eu não sei no que isso importa — David interrompeu —, mas não volto na minha decisão. Vamos entregar o ministério de jornalismo ao Isaac, e é você, Silas, quem vai avisá-lo.
— Por que eu?
— Você é o líder da sonoplastia. Você o encontrará com mais facilidade.
Silas ergueu os braços em rendição.
— Tá bom. Que seja!
Mas ele não estava conformado com isso e torcia para que Isaac negasse. Isso obrigaria o conselho a escolher outro líder.
Durante a semana, as provações de Isaac eram outras.
O Skyline English Center era sua fonte de renda mais descartável. Ele recebia quase o dobro do salário com os anúncios do podcast e com seus materiais de estudo pagos. Mas não podia largar o emprego de professor. Ainda não. Precisava da ocupação semanal para evitar suspeitas.
O Skyline dificilmente poderia ser chamado de “curso de inglês”. Aquele lugar estava mais para um centro bilíngue de aprendizagem especializada. Os alunos não estudavam juntos; cada professor ministrava um tema, e os alunos tinham que agendar os horários para as aulas particulares, de acordo com seus interesses. Era lá onde Isaac ensinava teologia bilíngue para alunos que não sabiam inglês, e era um dos cursos com mais procura.
Alguns dias ele ficava praticamente sozinho lá e aproveitava para usar o estúdio e gravar seu podcast. Mas aquele não era um desses dias.
Quando concluiu suas aulas da manhã, Isaac foi para a sala dos professores, já com os fones em seu ouvido. Seus colegas de trabalho falavam muito alto e nunca diziam nada interessante.
Enquanto ouvia música, ele organizava alguns documentos até sentir uma mão em seu braço. Isaac se afastou imediatamente e suspirou.
— O que foi? — perguntou calmamente, tirando um dos fones, mas sem olhar para a mulher loira de pé ao seu lado. Ela dificultava muito para Isaac seguir o mandamento de “amar ao próximo”.
— Eu preciso dos relatórios dos seus alunos para levar à direção — ela disse de forma altiva.
— Eu já entreguei, Tatiana. Estão com a Sabrina e ela disse que já levou para a direção.
— Mas… o seu bloco é responsabilidade minha! Não era para você ter entregado a ela!
Isaac suspirou de novo quando a voz da mulher começou a ficar estridente.
— Você não estava no dia, então o diretor mandou que ela levasse os meus com os do bloco dela.
— Eu estava doente, Isaac.
— Por que está se justificando? Eu não perguntei nada, só disse que meus relatórios já foram entregues.
A loira arregalou os olhos quando Isaac colocou os fones de volta. Ele era uma das poucas pessoas naquele ambiente que ela não conseguia ter na palma da mão, e por isso o perseguia sempre que tinha chance. Ela sabia que os relatórios dele já estavam com a direção.
Era óbvio que Isaac não queria conversa, mas Tatiana insistiu.
— Já colocou o nome na lista da confraternização de aniversário do Skyline?
— Não, eu não vou.
— Por que não?
— Compromisso na igreja.
Tatiana revirou os olhos.
— Sempre um compromisso na igreja… Você nunca se diverte? Sei lá, sair com o pessoal, se enturmar é bom, sabia?
— Desculpa, mas, além de já ter compromisso, essas saídas para beber não me interessam.
— Quem disse que vamos sair para beber?
— Não precisam dizer. Vocês chegarem de manhã sob efeito de ressaca já diz bastante. Com licença — Isaac se levantou, cansado daquela conversa vazia — Diego! Vem na minha sala daqui a pouco? Preciso de ajuda com as planilhas.
Diego, um rapaz de 19 anos que estagiava na Skyline, olhou para Isaac e entendeu na hora que ele estava tentando fugir da interação forçada com a coordenadora do bloco 4.
Ele também era a única pessoa fora da família que sabia o segredo de Isaac.
O jovem rapaz ruivo seguiu Isaac assim que ele saiu da sala dos professores. Diego olhou ao redor antes de perguntar:
— Vai gravar hoje?
— Não, eu gravei os últimos episódios em casa — Isaac sussurrou enquanto caminhavam para a sua sala. Só voltou a falar quando a porta estava trancada: — É sobre isso que quero falar. Eu preciso que você tire todos os equipamentos do estúdio e leve para o meu prédio.
Diego franziu o cenho.
— Tá… posso perguntar o porquê?
— Eu aluguei outro apartamento e vou montar o estúdio lá. Fica na frente do meu.
Diego parecia surpreso demais para expressar qualquer coisa.
— Você alugou outro apartamento?
Isaac ergueu uma sobrancelha.
— Sim… eu recebi um bom patrocínio, só isso. Eu estava juntando há um tempo. Acho mais seguro deixar meu estúdio perto de mim. Mas prefiro um espaço fora do meu apartamento, por causa da mobília. Você sabe que o som sai melhor quando tem menos objetos no espaço.
— Você tem toda a razão, cara. E, para ser sincero, estava ficando um pouco difícil essa coisa de montar e desmontar o estúdio todos os dias sem que alguém percebesse.
Isaac sorriu levemente e apertou o ombro de Diego.
— Obrigado, meu amigo. Eu vou levar uma parte das coisas comigo e te passo o endereço no final de semana para você me ajudar com o restante.
— Sem problemas. Mas confesso que vou sentir falta de ajudar a guardar o segredo do meu podcaster favorito.
— Ah, não, Diego, seu trabalho não acaba aqui. Eu preciso de um social media de confiança.
— Então eu fui promovido? — o garoto perguntou, seus olhos brilhando de entusiasmo. — Show!
— Sim, mas isso exige bem mais cautela, ok? Você precisa ser discreto.
— Relaxa, cara, discrição é comigo mesmo.
— Ótimo. A gente se fala. Meu expediente acabou; é melhor eu ir antes que aquela mulher venha encher meus ouvidos de novo.
— Beleza, cara. Vai com Deus!
Isaac acenou para o jovem colega e deixou o prédio.
Naquele mesmo dia, Letícia estava trabalhando na floricultura perto da sua casa. Embora fosse formada em Direito, quando estava na reta final do curso, decidiu que não queria exercer a profissão de advogada, mesmo que tivesse tido uma das melhores notas no exame da ordem. Havia coisas mais importantes do que uma carreira estrondosa, e a jovem sabia que, espiritualmente, sua graduação não lhe fez bem. A rotina intensa de estudos se tornou um ídolo, e ela não conseguiu encontrar equilíbrio. Foi uma grande tempestade.
Trabalhar em uma floricultura tinha um significado especial para ela. Quando era criança, seu pai sempre lhe trazia flores, e isso a deixava mais feliz do que quando ele levava doces ou brinquedos. Letícia gostava de ver o sorriso no rosto dos clientes quando eles saíam de lá com um buquê de rosas, uma orquídea ou simples sementes de girassol.
— Letícia, querida, pode atender aquele casal que acabou de entrar? — pediu Eliza, sua chefe, que estava organizando alguns arranjos para a vitrine. Letícia assentiu e caminhou até o casal.
— Olá! Posso ajudá-los… Ah…
Letícia se aproximou dos clientes com o entusiasmo de sempre, mas não estava preparada para rever seus antigos colegas da faculdade.
— Ah, meu Deus! Letícia, é você?
— Sim, Luiza. Quanto tempo.
— E não é? — Luiza deu um sorriso falso para Letícia enquanto segurava com mais força o braço do rapaz que estava com ela. Letícia sabia exatamente o que ela estava fazendo.
— Ricardo, você lembra da Letícia? Ela estudou com a gente na faculdade.
É óbvio que ele lembrava. Ricardo foi noivo de Letícia, até ela descobrir o que suas aulas particulares para calouros realmente eram. Luiza se insinuava para Ricardo desde que entrou no curso, mas Letícia nunca achou que ele fosse trair sua confiança daquela forma.
Ricardo massageou o cabelo, um pouco tenso.
— E aí, Letícia, tudo bem?
— Então, o que estão procurando? — ela perguntou, sem respondê-lo.
— Ah, só estamos procurando arranjos para o nosso casamento. Não sei se sabe, mas estamos noivos.
Luiza ostentou o anel de diamantes, e Letícia queria ter ignorado, mas sua língua grande não resistiu.
— Nossa… é igualzinho ao anel de noivado que ele tinha me dado… até a lasquinha no canto do aço. Ricardo, se eu não o conhecesse bem, diria até que esse foi o meu anel de noivado. Não sabia que gostava de reciclar.
O comentário azedo de Letícia pesou o clima sobre o casal. Ela poderia cortar a tensão com uma faca, mas não faria isso.
— Bom, fiquem à vontade e qualquer coisa podem me chamar. Ah, Luiza, se ele sugerir margaridas para o arranjo, não concorde. Foram as flores que ele sugeriu quando estávamos juntos também. Isso pode criar memórias ruins.
Só depois desse último comentário que Letícia se afastou deles.
Ela já havia superado a traição e não sentia saudades de Ricardo. Ainda assim, vê-lo noivo da pessoa com quem ele a traiu causou uma reação que ela não esperava sentir.
Nunca admitiu, mas Letícia sentia falta de ter alguém. Mas, sempre que se sentia assim, respirava fundo e se lembrava de que não precisava de um namorado para estar feliz. Ela tinha família, amigos e tinha Jesus, que era o mais importante. Ela não estava sozinha.
De repente, Letícia sentiu o celular vibrando e viu que era uma mensagem de Ismael.
Ismael: — Ouvi sem querer uma conversa dos meus pais.
Letícia: — Se for alguma fofoca, não quero saber.
Ismael: — Não é fofoca, e o seu pai provavelmente vai te contar.
Letícia: — Tá… o que é?
Ismael: — O Isaac vai liderar um ministério, alguma coisa assim.
Letícia encarou a mensagem por alguns segundos, sem saber o que dizer.
Letícia: — O Isaac? Tem certeza?
Ismael: Sim! Parece que o seu pai fez questão; eu só não sei qual é o ministério.
Letícia: — E o seu irmão já sabe?
Ismael: — Não sei. Acho que não. Mas estou orando para ele aceitar.
Letícia: — Estarei em oração também. Se eu descobrir qual é o ministério, te digo! Agora preciso ir, estou trabalhando.
Letícia colocou o celular no bolso e foi atender duas senhoras que tinham acabado de entrar na loja. Mas, durante todo o seu expediente, não conseguiu não pensar no que Ismael dissera.
Qual ministério seu pai fazia tanta questão que fosse liderado por uma pessoa reservada como Isaac?
O domingo veio rápido, e como não era escala de Isaac, ele caminhava em direção ao seu lugar de sempre, quando Silas o parou no meio do caminho.
— Isaque, tem um minuto? Olha, como membro do conselho titular, vim aqui para dizer que o pastor David o indicou para a liderança do ministério jornalístico. Pois é, eu tentei dizer que talvez devêssemos ver outra pessoa, mas ele fez questão. Você sabe que a decisão final é sua de qualquer maneira, mas eu preciso levar sua resposta o quanto antes, então…?
— Eu aceito — Isaac respondeu com um suspiro, após conseguir registrar todas as palavras de Silas.
— É… o-o quê? — o mais velho parecia ter sido pego de surpresa. — Você disse que sim?
— Disse. A sonoplastia tem gente o bastante.
— Mas… você sabe que esse ministério exige uma pessoa comunicativa, antenada, ativa para liderar, não é?
Isaac riu levemente.
— Sim, mas também sei que não é um ministério de um homem só. Pode dizer ao pastor David que eu aceito a liderança. Com licença, por favor.
Isaac se apressou para entrar no templo, deixando Silas sem reação.
O homem não se conformava. O que havia acontecido com Isaac?
* * *
Isaac sabia que aquilo iria acontecer. Ele já estava sentindo, havia algum tempo, que o colocariam em outro ministério. Passou noites em claro, ruminando a possibilidade, até orar ao Senhor e pedir que o desse forças para dizer “sim”, caso isso estivesse nos planos dEle.
Bom, já estava feito.
— Oi, Isaac! Vem aqui!
Era o pastor David que o chamou, sentado um pouco mais para a frente. Os dois se cumprimentaram com um breve aperto de mão.
— Fiquei feliz por ter aceitado liderar o ministério jornalístico. Mas eu não tinha dúvidas de que diria sim.
— Eu vou onde Deus me mandar. Quando Ele não me quiser mais lá, Ele tira.
David assentiu.
— Você sempre se mostrou um servo fiel, e eu não fui o único que percebeu.
— É, eu… nunca esperei que alguém percebesse, na verdade — Isaac ajustou os óculos, um pouco desajeitado. — Mas eu darei o meu melhor, senhor.
David assentiu e sorriu.
— Ótimo. No próximo domingo você já começa. Como líder, você vai delegar algumas tarefas, mas a sua palavra será a final. Você ficará livre para decidir as pautas das nossas revistas bimestrais, as notícias sobre o evangelho aqui e lá fora, e definir os convidados das entrevistas que saem em nossas revistas. Eu sei que parece muito, mas vai se adaptar rápido, e eu também vou te ajudar.
— Bom… eu agradeço de verdade. Mas agora eu tenho que ir; preciso falar com os meus pais.
— Pode ir, meu filho.
Letícia se aproximou na mesma hora em que Isaac estava de saída. Ele apenas murmurou um “olá” e continuou andando.
David beijou a testa da filha quando ela se sentou ao seu lado.
— A mamãe ainda está com as crianças? — Letícia perguntou.
— Está. Cá entre nós, ouvi uma baita gritaria quando saí do gabinete. Com certeza estão entediadas — disse David com uma ironia que Letícia conhecia muito bem e que sempre a fazia rir.
Ela ficou um pouco em silêncio antes de mudar de assunto.
— O que estava falando com o Isaac, pai?
— Digamos que eu o tirei dos bastidores. Eu o indiquei para liderar o ministério de jornalismo.
— E ele aceitou? — Ela não escondeu sua surpresa.
— Aceitou sim.
— Pai… longe de mim questionar suas decisões, mas por que ele?
David fez uma pausa, como se estivesse considerando suas palavras.
— Não sei dizer. Só sei que precisa ser ele. Sabemos como Isaac é. Se não fosse o chamado dele, ele não aceitaria.
Letícia assentiu, mas, por dentro, ela se perguntava se Isaac sabia realmente qual era o seu chamado. Afinal, ele nunca se voluntariava para nada e não participava de nada. Como alguém poderia ter certeza sobre o próprio chamado e nunca compartilhá-lo com os outros?
— Filha, você não vai dirigir o louvor hoje?
— Ai! Meu Deus, estava quase esquecendo. Obrigada, pai.
Ela se levantou com pressa do banco e foi até o estúdio para se encontrar com o grupo de louvor.
Família Diaz
Isaac: — Vocês sabiam?
Alexander: — Sabia de quê?
Isaac: — Da minha “promoção”. Algum de vocês teve dedo nisso?
Raquel: — A gente sabia, filho, mas não fomos nós que falamos com David.
Alexander: — É verdade, parece que ele decidiu sozinho.
Ismael: — Vocês não me contam nada.
Isaac: — Você tem a língua grande.
Ismael: — Ei!
Isaac: — Olha, eu não tenho problemas quanto a assumir esse ministério, mas eu preciso saber se David suspeita de alguma coisa.
Alexander: — Ele não tem motivos para suspeitar. Quem mais sabe além de nós e seu assistente?
Raquel: — Acho que você não deve se preocupar com isso, Isaac. Apenas faça o seu trabalho e confie em Deus. Vai dar tudo certo!
Isaac: — Amém.
O estúdio de Isaac ficou pronto em algumas semanas, e ele logo iniciou as gravações no novo espaço. O apartamento que alugara para servir de estúdio tinha espaço o suficiente para ele se levantar e andar pelo cômodo enquanto gravava. Detestava ficar parado por horas no mesmo lugar, precisava do movimento.
— Pessoal, antes de finalizar esse episódio, permitam-me dizer umas palavras… aliás, não precisam permitir, o programa é meu (risos). Bom, eu recebo muitos comentários nas minhas redes de vocês com questionamentos, dúvidas e inseguranças. E é sempre um prazer respondê-los. (Pausa).
— Quando comecei esse podcast, eu era um rapaz com muitos medos e inseguranças, e Deus me encontrou exatamente onde eu estava e me transformou nessa pessoa que hoje fala com vocês. Ele pode te achar onde quer que você esteja e te transformar em algo que você nunca imaginou que pudesse ser. Mas você precisa deixá-lo entrar. Por que estou dizendo isso? Porque é a verdade, e eu estou aqui para dizer a verdade.
— E também porque eu tenho recebido muitos comentários de pessoas me chamando de covarde por não revelar quem eu sou, ou de intolerante e hipócrita por falar abertamente da minha fé. Não me revelar é uma escolha, mas não é só pela minha vontade, e sim pela vontade d’Aquele que me chamou. Quando Ele disser que é hora de sair do anonimato, eu sairei. Até lá, eu não preciso convencer ninguém de nada, e isso inclui os ateus e agnósticos que vêm até os meus perfis tentar me convencer de que estou errado e eles certos.
— Por que eu perderia meu tempo tentando convencê-los, quando, apesar de suas convicções, eles estão ouvindo a mensagem, mesmo que só para me criticar? (Pausa longa).
— Essa é a reflexão que deixo a vocês, caros ouvintes. Que Deus os abençoe nessa bela noite.
Quando Isaac terminou a gravação, Diego bateu palmas.
— Cara, isso foi… bizarro.
Isaac riu, organizando os equipamentos.
— Não sei se “bizarro” é uma palavra apropriada, mas agradeço.
— Não… eu quero dizer que… parece até outra pessoa falando. Eu já ouvi seus outros episódios, mas nunca tinha te visto falar. É quase um superpoder que você está escondendo! Você é tipo… o Superman cristão!
— É uma boa comparação. Obrigado.
— Por nada — Diego colocou os microfones para carregar. — Isaac, você e sua família moraram no Kansas, não foi?
Os batimentos de Isaac aceleraram, mas ele se conteve. Não gostava de ficar voltando ao passado.
— Já. Foi onde me apaixonei por teologia.
— Desculpa a curiosidade, mas o que te fez voltar?
— Meus pais. Ismael estava com algumas dificuldades, e eles acharam que voltar faria bem a ele. Mas eu queria ficar — Isaac suspirou. — Um dos meus professores ia me dar uma bolsa integral para o curso de teologia quando eu terminasse a escola, mas tivemos que voltar. E meus pais não iriam me deixar sozinho lá. — ele deu de ombros.
— É, uma pena.
— Mas eu superei. Lá no Kansas, talvez eu nunca tivesse criado meu podcast ou me formado em inglês. Deus sabe o que faz, garoto.
Isaac pegou o celular e viu a hora. Era quase 17:00.
— Eu preciso ir, é aniversário do Ismael e combinamos um jantar em família. Fecha o estúdio para mim?
— Claro. Nos vemos amanhã no Skyline — Diego fez uma pausa —, isso é, se a dinoana não me ocupar até o talo com o trabalho que ela deveria fazer.
Isaac conteve uma risada. Diego chamava Tatiana de “dinoana” quando ela não estava ouvindo, porque ela fez um preenchimento que a deixou com “cara de dinossauro”. Diego dizia que ela “mirou na Taylor Swift e acertou em um T-rex”, e, por mais que achasse graça, Isaac preferia não dar corda para a zombaria.
— Quer uma sugestão? Esconda-se na biblioteca até o início do seu expediente. Ela não pode te ocupar enquanto estiver trabalhando.
Após dizer isso, Isaac se despediu e deixou o estúdio particular.
Isaac precisou ir para a igreja na sexta, pois combinou com David que era melhor conhecer onde trabalharia com antecedência. Ele nunca tinha percebido que a sala do jornalismo ficava no mesmo corredor que o miniestúdio.
— Então, Isaac, como você será o editor-chefe, você vai definir e finalizar as matérias. Outras pessoas da equipe vão cuidar da produção, mas você…
— Eu vou supervisionar e dar a palavra final. Não se preocupe, pastor, eu entendi perfeitamente — ele deu um pequeno sorriso.
— Ótimo, rapaz, eu sabia que entenderia! — David sorriu, como um pai orgulhoso — Com a prática, você vai se acostumar rapidinho. Revisar as matérias e gravar as notícias são coisas que você pode fazer em um final de semana.
Isaac paralisou e engoliu em seco.
— G-gravar as notícias?
— Sim! Não sei se você se lembra, mas nossa última líder gravava as notícias que eram transmitidas nos cultos todos os domingos. Bom, isso até ela mudar de cidade e ficarmos um tempo sem esse recurso… Você está bem?
Não. Obviamente Isaac não estava bem. Seu coração acelerou e certamente ele estava empalidecendo, mas fez de tudo para manter-se sob controle.
Isaac podia liderar esse ministério, com certeza. Mas ele não podia, em hipótese alguma, ser repórter. Conversar com as pessoas era uma coisa — uma que ele evitava o máximo possível —, mas ter sua imagem e voz gravadas e transmitidas repetidamente na igreja e nas redes sociais da igreja poderia colocar sua identidade como Semeador em risco. E esse era um risco que ele não podia correr.
— Ahn, pastor… tio David — Isaac tentou suavizar, chamando-o da mesma forma que fazia na infância. — Como o novo líder, eu posso dar uma sugestão?
— Claro que pode.
— E se, em vez de o editor-chefe transmitir as notícias, não tivéssemos um repórter? Sabe, tem muita gente que fala bem, o Ismael, por exemplo. Eu sempre digo que ele tem a língua grande; falar não seria problema…
— Calma, Isaac — David riu, e só então Isaac percebeu que estava falando muito rápido. — Bom, se o Ismael gosta de falar e quiser, não vejo problema. Que coisa, nunca tivemos um repórter. Mal começou e já está fazendo isso aqui crescer. Eu sabia que não iria decepcionar.
Isaac sorriu amarelo, aliviado por se livrar daquela bomba, mas ainda sentindo um grande peso nos ombros, por algum motivo.
* * *
— Como assim você não pode?! — Isaac exclamou quando estava ao telefone com seu irmão.
— Eu tenho pré-vestibular no fim de semana, Isaac, eu fico ocupado o dia inteiro. Não dá para ir gravar.
— Ismael, você não entende, eu preciso de um repórter. A minha identidade está em risco; eu não posso ser repórter!
— Cara, já tem três anos que você tá nessa de anonimato. Qual seria o problema das pessoas descobrirem que você é o Semeador? Isaac, o seu podcast transformou a vida de tanta gente! Deixa eles saberem que é você.
Isaac suspirou.
— Não é sobre mim, Ismael. As pessoas precisam das palavras do Semeador, não das palavras do Isaac. Acha que toda essa gente me ouviria da mesma forma se visse o meu rosto? — ele fez uma pausa. — O evangelho está cheio de rostos bonitos e vozes fracas. Deus precisa de uma voz firme, uma voz real que não precisa ser vista ou ovacionada ou elogiada em público, porque não é sobre quem fala, e sim o que e para quem. Por isso, Ismael, as pessoas não podem nem suspeitar.
Ismael ficou em silêncio antes de responder.
— Olha, eu entendo. Entendo de verdade. Mas o que parece para mim é que você está tentando controlar demais essa situação. Pense nisso com carinho, e, se precisar mesmo de um repórter, tem muita gente na juventude que tem o sábado livre.
— Ok… vou ver o que posso fazer. Boa noite, Ismael.
— Boa noite, Isaac.
Quando Isaac desligou o telefone, jogou-se em sua cama e massageou as têmporas.
— Pai… o que eu faço? — ele murmurou de olhos fechados e ficou naquela posição por quase 5 minutos.
De repente, ele se sentou com uma ideia gritando em sua mente.
Tinha que falar com Letícia.
Isaac: — Bom dia, Letícia. Eu preciso da sua ajuda.
Letícia: — Bom dia, Isaac! O que foi?
Isaac: — Você já sabe que o seu pai me colocou como editor-chefe e líder do jornalismo, certo?
Letícia: — Sim, eu soube.
Isaac: — Vou direto ao ponto. Eu preciso de alguém para ser repórter. Você pode?
Letícia: — Eu adoraria! Mas meus pais não vão deixar. O irmão Silas disse que sugeriu na reunião do conselho que ele me colocasse no jornalismo, mas ele não quis porque estou em ministérios demais.
Isaac: — Bom, ele não está errado. Mas o jornalismo realmente precisa de um repórter. Por que, em vez de se dividir tanto, você não foca suas energias em um lugar só?
Letícia: — Você quer dizer largar o que faço para ir para o jornalismo? Izaquias, eu não sou mulher de um ministério só kkkkkkkk.
Isaac: — É, você deixa bem claro que gosta do ruído. Letícia, eu não sei por que você faz tantas coisas de uma vez, mas a qualidade do serviço cristão não tem a ver com o quanto você faz.
Letícia: — Para você é fácil falar. Você sempre foca em uma coisa só e nunca faz além.
(10 minutos depois)
Letícia: O meu pai disse que você não aceitaria algo que não fosse seu chamado. Mas como você sabe o que é esse chamado quando você não experimenta nada? Quando não mostra aos outros quem é de verdade?
(5 minutos depois)
Isaac: — Eu admito, eu tenho problemas com as pessoas no geral. E isso me incomoda, por mais que não pareça. Mas saber o que Deus quer de mim não depende de estar com os outros ou de experimentar tudo. Eu não consigo ouvi-lo no ruído, mas consigo ouvi-lo no silêncio. Por isso, mesmo que não seja muito, quando aceito algo, é porque tenho certeza de que é a direção certa a seguir.
Isaac: — Eu ainda preciso de um repórter. Se você não puder, ao menos me ajude a encontrar alguém, por favor.
(5 minutos depois)
Letícia: — Eu vou conversar com meus pais e te dou um retorno, pode ser? Prometo que não demoro.
Isaac: — Claro, sem problemas.
Letícia: — Você escreve bem.
Isaac: Obrigado…?
Letícia: — Foi aleatório, eu sei. Mas é que você nunca fala tanto pessoalmente.
Isaac: — Não É como eu disse, não gosto de ouvir minha voz. Mas, de vez em quando, gosto de ler minhas palavras.
(Isaac está offline)
Letícia estava em um impasse. Se comprometera com tantas coisas na igreja que até entendia por que o pai não permitira que ela aceitasse mais nada depois da sonoplastia. Mas agora era diferente. Isaac — que não pedia nada para ninguém — estava pedindo que ela entrasse no ministério que ele acabara de assumir. Isso não era do feitio dele.
Ela leu e releu a mensagem do rapaz várias vezes. Havia algo nas palavras dele que fazia o espírito dela tremer. Isaac não conseguia ouvir a Deus no ruído.
Ruído. Até essa palavra soava estranha. Para Letícia, ruído era o estado em que sua mente entrava quando exposta tempo demais ao silêncio. Era quando memórias ruins de seu passado, palavras que não deveriam ter sido ditas, ações que não deviam ter sido tomadas, voltavam à sua mente e não iam embora, a menos que ela ouvisse música alta ou se ocupasse. E que ocupação seria melhor do que fazer todas as atividades possíveis na igreja?
Em seu quarto, Letícia se deitou e pegou novamente o celular em sua mesa de cabeceira. Havia uma mensagem do seu pai com um link para um episódio de podcast. Ela nem sabia que seu pai ouvia podcasts. Assim que abriu o link, já iniciou a música de abertura e o apresentador começou a falar.
“Sejam todos bem-vindos ao Semeando a Verdade Eu sou o Semeador, aquele que você não conhece, mas que dirá o que precisa ouvir.”
A introdução logo atraiu o interesse de Letícia. Enquanto o ouvia, procurou os perfis dele nas redes sociais e começou a segui-lo.
Uma coisa já havia ficado clara nesse primeiro contato: ela nunca descobriria quem ele era. Não tinha nada nos perfis do Semeador que transmitisse que aquilo pertencia a alguém. Era como se a voz por trás daquelas palavras não tivesse família, amigos, relacionamentos ou uma vida pessoal. Somente uma Bíblia, um posicionamento firme e talvez uma formação teológica. Nem isso ela conseguiu deduzir. O Semeador era um pastor, um professor de teologia ou só alguém apaixonado pela palavra de Deus? Ele era uma incógnita, e Letícia não gostava de incógnitas.
— Parte do público que me escuta está na adolescência ou no início da juventude. Bom, pelo menos é isso que os números me informam (risos). Eu sei que não é um momento muito fácil, por mais que possam dizer o contrário.
— Vocês passam por crises internas, lutam para pertencer a ambientes onde não se encaixam e muitas vezes se esforçam para silenciar o barulho constante das suas mentes com ainda mais barulho. Talvez você tenha começado a fazer terapia, mas não levou nada do que o seu terapeuta disse a sério, porque se lamentar da sua auto-sabotagem é o que seus amigos fazem e acham graça. (Pausa).
— Eu já fui esse garoto e preciso deixar uma coisa clara desde já. Ser salvo não me fez parar imediatamente de ser esse garoto. Já fiz coisas de que me arrependi no passado, e quem sabe? Talvez eu ainda repita alguns erros, porque eu sou humano! Todos nós somos humanos, e é impossível sermos perfeitos. Nós nascemos quebrados e condenados. É isso que somos, e é por isso que Cristo veio. Ele veio para nos salvar, porque não podemos salvar a nós mesmos. (Pausa).
— Ninguém vai para o céu só porque é uma boa pessoa. Isso é uma mentira. Quem vai para o céu é quem é salvo. Existem muitas pessoas boas que não são salvas. Então você me pergunta: “Semeador, quem é salvo de verdade?” É quem sabe que é imperfeito, mas acorda todos os dias disposto a ser o melhor possível, não porque é o certo ou porque o mundo merece, mas porque sabe que Cristo deu a própria vida de uma forma humilhante para que você tivesse essa chance, e isso é o mínimo que você pode fazer. É ter a certeza de que, quando você cair, Ele vai te reerguer, enquanto o mundo e o Satanás apontarem o dedo para te acusar. Isso, meus amigos, não tem nada a ver com ser bonzinho e mostrar para os outros. (Pausa longa).
— Mas você não precisa silenciar esse ruído sozinho. Você precisa buscar a Deus apesar desse ruído. Quando fizer isso, Ele vai te achar, não importa onde você esteja. E Ele nunca vai te acusar, porque a misericórdia dEle vai além da sua fraqueza e da sua necessidade.
— Por isso, caro ouvinte, se a sua mente estiver barulhenta, busque a Ele, siga-o, e não tenha medo. Assim como Paulo escreveu em Romanos 8:1, não há condenação para os que estão em Cristo Jesus (pausa).
— Bom, eu fico por aqui. Desejo a todos um dia abençoado, e que Deus cuide de cada um de vocês. Até o próximo episódio.
Só quando o episódio acabou é que Letícia percebeu que estava chorando. Quem quer que fosse aquele Semeador, era de fato uma pessoa movida pelo Espírito Santo, e aquelas palavras pareceram chegar exatamente no momento certo. Ela se lembrou novamente da mensagem de Isaac.
Ele ouvia a Deus no silêncio. Talvez Letícia precisasse transformar o seu ruído em silêncio.
Não se lembrava da última vez que havia orado sozinha. Sempre orava em público e em voz alta. As palavras fluíam com facilidade. Sozinha, no entanto, ela se sentia… minúscula diante do Senhor. Mas tinha certeza de que Ele a observava. Tão certo como o céu era azul, Letícia sabia que Deus olhava para ela.
— Oi, pai Sou eu…
Orar sozinha trouxe uma paz ao coração de Letícia que ela não sentia havia muito tempo. Também lhe trouxe uma clareza quase instantânea. Um pensamento que surgiu de repente. Ela já sabia o que fazer. Conseguiu falar com seu pai dos céus.
Agora, precisava falar com seu pai na Terra.
Letícia saiu do quarto e foi para a sala de estar, onde encontrou a mãe, Marta, assistindo TV.
— Mãe, cadê o meu pai? Eu precisava falar com ele.
— Ele foi à casa da Raquel e do Alexander — Marta tirou os olhos da TV e notou a expressão de ansiedade no rosto da filha. — O que quer conversar com ele? Talvez eu possa ajudar.
Letícia deu de ombros e se sentou ao lado da mãe.
— O Isaac me perguntou se eu queria ser a repórter do jornal lá da igreja. E eu queria muito, mas me lembrei de que o papai não ia me deixar entrar em mais nenhum ministério esse ano porque estou em muitos.
— Sim… ele não está errado, filha, você sabe como estamos preocupados com você.
— Eu sei e… acho que agora entendi — ela suspirou. — O Isaac é de poucas palavras, mas, quando fala, consegue ser bem direto.
— O que ele disse?
— Ele questionou o porquê de eu fazer tanta coisa de uma vez. As palavras dele me fizeram ter uma reflexão incômoda e… um podcast que o papai me mandou confirmou tudo que eu estava pensando. Ou melhor, o que Deus estava tentando me dizer e eu não quis ouvir.
— E o que foi isso?
— Desde que eu terminei a faculdade e o meu relacionamento com Ricardo, eu comecei a trabalhar e trabalhar nas coisas da igreja para silenciar um ruído sozinha, ao invés de conversar com o meu Pai e entregar esse ruído a Ele.
Letícia respirou fundo, contendo as lágrimas prestes a cair.
— Eu nunca consegui entender o Isaac depois que ele voltou do Kansas. Não entendia por que sempre estava em silêncio, até ele dizer que não conseguia ouvir a Deus no ruído, mas no silêncio. Depois de pensar em tudo isso, perguntei-me se talvez eu também devesse tentar ouvir a Deus no silêncio. Isso faz sentido?
— Faz sim, meu amor — Marta acariciou o cabelo da filha. — Você estava tentando lidar com o seu incômodo sozinha. Não significa que tudo o que você fez para o Senhor foi em vão, mas Ele sabia que, por trás de toda a sua boa vontade, havia um coração que precisava de cura.
Letícia assentiu veementemente.
— Exatamente! E eu quero recomeçar isso. Por isso queria falar com o papai — ela suspirou. — Eu quero sair dos outros ministérios e ir para o jornalismo. Vou continuar participando das atividades, mas prometo que não vou me sobrecarregar. Eu quero ir onde Deus me mandar, e não onde eu quiser participar.
Marta sorriu, orgulhosa.
— Bom… a minha permissão você já tem. Se você contar tudo isso que me contou a ele, ele também vai concordar.
— Tem certeza?
— Absoluta! Não se preocupe com isso. E, só entre nós duas — Marta se aproximou como se fosse contar um segredo —, seu pai vai gostar de ver você e Isaac próximos de novo. Ele nunca vai admitir, mas David considera Isaac o filho que ele não teve.
— Ah, com certeza. Mas estar no mesmo ministério não nos fará mais próximos. Ele é muito fechado.
Marta ergueu uma sobrancelha.
— É… mas, mesmo assim, ele te chamou. E sabemos que o Isaac não pede nada para alguém sem confiar.
As palavras de Marta ficaram no ar, enquanto ela ligava novamente a TV para continuar o reality show que estava assistindo.
Letícia ficou na sala com a mãe, assistindo ao programa e aguardando a volta de seu pai.
David realmente estava na casa de Alexander — assistindo ao futebol com ele e Ismael.
Na verdade, ele nem tinha ido lá para isso, e sim para saber o que Alexander achava da série de sermões que ele havia pensado para o mês e, claro, saber se, e quando o amigo gostaria de pregar. David gostava de ver tudo isso com antecedência, o que era um diferencial naquele espaço tão cheio de procrastinação.
— E o Isaac? Está em casa?
— Sim — disse Alexander — na casa dele.
David franziu o cenho.
— Ah, ele mora sozinho? Não sabia há quanto tempo?
— Tem alguns anos. O apartamento dele fica mais perto do curso em que ele trabalha.
— Entendi… É tão longe, e mesmo assim ele é muito assíduo nos cultos.
— Os cultos de domingo sempre foram prioridade para o meu irmão — comentou Ismael —, mas a privacidade também. Por isso ele não diz onde mora, a menos que o perguntem.
David deu de ombros.
— É um rapaz de poucas palavras. Ontem à tarde ele foi à igreja para conversarmos sobre a nova posição dele, e ele ficou um pouco nervoso quando eu mencionei que ele teria que gravar as notícias. Mas ele sugeriu procurar um repórter e achei uma ideia excelente. Ele tem uma boa visão, só precisava se soltar mais.
David não viu o olhar que Alexander e Ismael trocaram. Alexander não gostava de ter que guardar segredo. Ele e Raquel tinham muito orgulho de Isaac, sempre diziam aos amigos como ele era inteligente e capacitado… até Isaac começar a estudar teologia e quase implorar para que os pais parassem de falar sobre ele para os outros. E isso se aplicava a tudo, desde sua formação extensa até o seu próprio ministério online por meio do podcast, que era seu segredo mais precioso.
Eles sentiam que, quanto mais capacitado Isaac se tornava, mais ele se diminuía para se esconder na fachada de professor de inglês e não ser visto por quem o conhecia. Alexander, especialmente, temia que seu filho estivesse ficando arrogante, enquanto Raquel se preocupava que Isaac, talvez, não se achasse digno dos dons que tinha — e assim corresse o risco de perdê-los. A verdade era que os próprios pais estavam com dificuldade de entender o filho e não sabiam como contornar isso.
— É o jeito dele — disse Alexander, finalmente —. Ele vai se sentir mais à vontade conforme for trabalhando. Também foi assim na sonoplastia.
David concordou com a cabeça e de repente sentiu o celular vibrando com uma mensagem da esposa, perguntando quando ele chegaria em casa, pois ela e Letícia tinham novidades. Ele respondeu rapidamente, dizendo que voltaria em alguns minutos.
Logo, a porta da casa foi aberta, revelando Isaac todo engravatado, cabelo penteado e óculos caindo no nariz. Ele se organizou e viu que sua família tinha visita.
— Pastor David, como vai? — ele apertou a mão do mais velho, sorrindo levemente. Então olhou para Ismael, esparramado no sofá, e lhe deu um peteleco na cabeça: — Você tem cinco minutos para se arrumar, se ainda quiser carona. Estou contando.
— Mas o jogo não acabou!
— Assiste ao replay mais tarde, vai logo, Ismael!
O adolescente bufou e foi até seu quarto se arrumar. Enquanto esperava, Isaac ficou na sala com o pai e com David.
— Está indo trabalhar?
— Sim. Só passei para pegar Ismael e deixá-lo no cursinho.
Isaac ficou em silêncio novamente, até sua mãe aparecer na sala de estar.
— Isaac, meu filho! Que ótima surpresa! — ela o abraçou e Isaac beijou-lhe a testa. — Se soubesse que viria, teria feito alguma coisa para você comer!
— Mamãe, não se preocupe, eu comi antes de vir aqui.
— Você está se alimentando direito, meu filho? Parece ter perdido peso. Está indo ao médico? Você trabalha tanto, precisa descansar…
— Raquel, querida — Alexander segurou um riso —. Deixe o garoto respirar, ele está bem.
— Ah, Alexander, só estou com saudades do nosso filho!
— Mamãe, eu garanto que estou bem, e você sabe disso, já que sempre entra em contato.
— Mas pelo celular é diferente. Você pode estar omitindo.
— Desde quando eu… — Isaac estava rindo, mas percebeu que a mãe disse “omitindo”, não “mentindo”. Imediatamente fingiu ter se engasgado com a saliva. Quando terminou de tossir, apontou para si mesmo — Viu? Estou ótimo.
Ele olhou seu relógio e passaram os cinco minutos que deu a Ismael, mas seu irmão mais novo já havia descido as escadas com a mochila nas costas.
— Finalmente! Vamos, irmão? — Isaac beijou a testa da mãe mais uma vez e acenou para o pai e para David. — Tenham um bom dia, senhores.
Assim que ele saiu, David ergueu uma sobrancelha para Alexander.
— Senhores?
— É, às vezes ele fica falando assim — Alexander disse com um meio sorriso.
David viu Isaac tão brevemente que nem conseguiu conversar com o rapaz sobre o podcast do Semeador. Tinha certeza de que Isaac aproveitaria muito aquele conteúdo. Mas teria outras oportunidades.
Assim que o jogo acabou, David se despediu de seus amigos e voltou para casa, perguntando-se o que sua esposa e filha tinham para contar.
No domingo, Isaac estava aliviado por não estar com os holofotes sobre si. Ao final do culto, toda a atenção que seria dada a ele foi direcionada a Letícia, sua repórter. Ainda não sabia exatamente como ela convenceu o pai, mas o que importava era que ela estava lá para ser o rosto e a voz do ministério, enquanto Isaac continuava se escondendo.
As pessoas do jornalismo eram muito agradáveis, e todos eram bastante focados em seus trabalhos.
— Isso está excelente, Ester — disse ele a uma das redatoras. — Envia esse artigo para o e-mail do jornalismo e pede para o Jonas enviar as fotos que tirou. Vou trabalhar no próximo volume da revista e tentar adiantar as próximas matérias.
— Sem problema, Isaac. Temos algumas matérias escritas que não foram impressas. Estão no nosso site, mas nem todos os irmãos acessam.
— Melhor ainda. Vamos republicar algumas delas nas próximas edições, e, sempre que tivermos algo novo para o site, ajustamos para a revista. Kevin, vem aqui! — Isaac chamou o rapaz que estava editando o vídeo que seria exibido no culto da noite.
— Sim, Isaac? A propósito, já estou concluindo a edição e combinei com a Letícia que faríamos apenas um voiceover.
— Perfeito. Olha, durante a semana vou te enviar um e-mail com o modelo da nova diagramação da revista. Você edita e me manda de volta para eu conseguir imprimir a tempo na gráfica.
— Claro, eu faço isso rapidinho.
— Obrigado — ele sorriu para Ester e Kevin —. Desculpem se está tudo muito rápido, ainda estou aprendendo.
— Nada disso! — disse Ester. — Precisávamos acelerar as coisas aqui, fica muito difícil sem um líder.
— É. O pastor David tinha muitos afazeres, não dava para ele ficar sempre nos orientando, e acabávamos ficando perdidos. Você é uma bênção nesse ministério, Isaac. — Kevin deu um tapinha nas costas de Isaac, que sorriu em agradecimento.
— A gente se comunica durante o dia. Com licença.
Ele se despediu e saiu apressadamente pelos corredores até esbarrar em Letícia.
— Como foi? — perguntou ela, com seus olhos brilhantes e curiosos.
— Tudo bem. E com você? Vi que foi bombardeada lá fora.
— Aquilo não foi nada, só vieram me dar parabéns, elogiar o vídeo, essas coisas.
Isaac assentiu com um leve sorriso, enquanto apertava a bíblia debaixo do braço. Parecia agoniado para sair dali.
— Você se saiu bem, Letícia. A câmera gosta de você.
— Ela gostaria de você também.
— Talvez — deu de ombros — com licença…
— Quer vir almoçar comigo? — ela perguntou, colocando-se na frente dele, impedindo-o de escapar — Prometo que não vou chamar ninguém. Só quero conversar com um amigo que escute mais do que fale.
Os ombros de Isaac relaxaram, e ele viu os olhos dela suplicando por um amigo. Igual ela fazia quando eram crianças.
— Claro, Letícia. Você está de moto?
— Não… passei o fim de semana na casa dos meus pais.
— Ok. Eu te dou uma carona. Me encontra no estacionamento; eu vou sair pela porta de trás.
O sorriso de Letícia murchou um pouco, mas ela entendia. Isaac não queria ser parado na recepção e obrigado a conversar.
— Claro. Te vejo lá.
Isaac dirigiu até o restaurante que Letícia recomendou, que não era tão longe da igreja. Assim que acharam um bom lugar, fizeram seus pedidos.
— O que achou de ser repórter? — Isaac perguntou.
— Eu gostei. Tenho até algumas ideias de como deixar ainda melhor, mas estou buscando treinar a paciência. Quero ir com calma.
Isaac assentiu.
— Isso é ótimo. Eu sabia que você iria se adaptar rápido. Por isso quis te chamar quando o Ismael rejeitou.
— Você chamou seu irmão primeiro? — ela riu, levemente. — Ele é extrovertido, mas não parece o tipo jornalista. — Letícia estreitou os olhos e disse como se estivesse contando um segredo. — A menos que ele seja do tipo misterioso igual você. Nesse caso, ele poderia ser qualquer coisa.
Isaac negou com a cabeça.
— Qual é… Eu não sou misterioso.
— Se você não é misterioso, então o meu nome não é Letícia.
O rapaz riu e tomou um gole de água.
— Como convenceu seu pai a te deixar entrar para o jornalismo?
— Eu disse a ele que sairia de todos os ministérios e me dedicaria exclusivamente ao jornalismo.
Isaac arregalou os olhos.
— Sério? Nossa, isso pareceu… extremo.
Ele se sentiu culpado, pensando que sua mensagem naquele dia tivesse sido dura demais, e que Letícia tivesse se sentido pressionada a entrar no jornalismo a qualquer custo.
— Não foi extremo. Foi exatamente o que eu precisava… e era exatamente onde Deus queria que eu estivesse.
Isaac sorriu, aliviado.
— Fico feliz em saber disso.
Quando o almoço deles foi servido, Isaac enrolou o macarrão no garfo e encheu a boca. Estava faminto.
— Você já escutou o Semeador da Verdade?
Perfeito. Bastou isso para ele engasgar.
— É… já. Escuto bastante — ele disse após se recompor e beber um pouco de água.
— Naquele dia em que você falou sobre ruído, o meu pai me mandou um episódio para eu escutar. Eu conectei as palavras do Semeador com o que você disse, sabe?
— Hmm… é mesmo?
— Sim! E eu escutei outros episódios dele. Ele é… incrível. As palavras dele são muito poderosas.
Isaac assentiu.
— Sim, claro, mas… as palavras não são dele. São… dEle — Isaac apontou para o céu. — Ele foi inspirado e usado por Deus para fazer algo maravilhoso, mas não acho que ele goste de receber o crédito.
Letícia assentiu.
— Provavelmente é por isso que ele não quer se mostrar. Eu nunca vi esse nível de submissão.
Isaac não disse nada. Apenas voltou a comer, desejando que ela parasse de falar sobre o Semeador.
Quando eles ficaram alguns minutos em silêncio, Isaac ouviu a voz.
“Diga a ela, meu filho.”
Ele começou a tremer, mas conseguiu disfarçar.
“Não posso, pai O segredo…”
“Não estou falando do podcast, Isaac.”
“O quê?”
— Isaac? — Letícia o chamou, sem fazer ideia da “conversa” que ele estava tendo.
— Oi? Estou ouvindo.
— Eu queria te perguntar… por que você não consegue ouvir a Deus no… “ruído”? Não estou julgando, é só uma pergunta.
Isaac sabia que, com “ruído”, Letícia se referia ao fato de ele não se sentir próximo de Deus em momentos sociais.
— É difícil explicar… É como se, quando eu estou com as pessoas, eu não fosse eu mesmo. Fico muito vigilante, quase como se não me sentisse seguro. E, antes que você pergunte, eu já faço tratamento para isso, ok?
— Ah… entendi — ela disse, arrependida por nunca saber quando parar de se meter na vida das pessoas.
— Desculpa, eu só… não gosto de falar sobre isso. Mas eu vou responder a sua pergunta — ele fez uma pausa e suspirou — Eu só consigo sentir a paz inexplicável de Deus quando estou sozinho com Ele, porque é o único momento em que eu me sinto realmente seguro, apesar de saber que Ele sempre está cuidando de mim. Eu peço perdão a Ele todas as noites por não conseguir ser melhor do que isso, e peço força todas as manhãs para enfrentar meus dias de cabeça erguida. Às vezes fico tão cansado da semana que eu simplesmente desligo — ele riu, mas não era uma risada de humor. — Cara, isso é um baita espinho na carne.
O que mais surpreendeu Letícia foi Isaac dizer tudo aquilo e não derramar uma lágrima. Ele estava se contendo, enquanto os olhos dela marejavam. Assim que Isaac percebeu a reação, colocou a mão sobre a dela. Normalmente, não faria isso, mas sabia que Letícia gostava de contato físico.
— Ei, não chora. Eu estou bem, é sério.
— Eu… eu não sabia que você…
Ela não conseguia nem pronunciar. Isaac era tão julgado e ninguém sabia a verdade.
— É… eu não tinha intenção de contar. É muito fácil para os outros dizerem que eu preciso me esforçar mais e interagir mais, mas eu não preciso ficar ouvindo isso. Já tem muito nas minhas costas.
Letícia tomou um pouco de água.
— Quando isso começou? Não precisa responder se não quiser; eu só quero te ouvir, não te julgar.
— Eu não sei — Isaac massageou as têmporas. — Talvez sempre tenha estado ali em algum nível, mas eu não me importo, Letícia. A graça de Deus já me basta.
Quando Isaac sorriu, Letícia sentiu o coração transbordar. Ela, que sempre achou que precisava mostrar aos outros sua fé e seu serviço para ser validada e aceita, estava diante de alguém que fazia o oposto, enquanto lidava com uma tempestade que ela jamais poderia prever. E, apesar da tempestade, ela via Jesus agindo nele. A calma, a serenidade, o silêncio e a fé inabalável de Isaac superaram tudo o que ela antes pensava sobre o rapaz. Finalmente, ela o via com outros olhos.
— Obrigada por confiar em mim. Eu prometo que não vou contar a ninguém.
Isaac assentiu.
— Eu sei que não vai.
No decorrer das semanas, Letícia e Isaac se reaproximaram. Isaac se sentiu estranhamente à vontade com a amizade dela após a conversa que tiveram naquele almoço. Ele evitava falar sobre sua situação com os outros, porque era sempre algo diminuído, ou algo que as pessoas queriam “curar”, forçando-o a mais interações sociais vazias.
Quanto à Letícia, ela conseguia entender melhor quando Isaac de repente ficava em silêncio ou quando suas respostas eram curtas demais para o padrão comunicativo de Porto Claridade. Mas, por causa do respeito que ela vinha demonstrando nas últimas semanas, Isaac não a repelia mais por sua personalidade “solar”.
Um dia, após o culto da manhã, Letícia e Isaac saíram juntos da sala de jornalismo, conversando sobre livros de investigação, um tópico sobre o qual os dois tinham conversado por mensagem dias antes.
— Como você nunca leu Sherlock Holmes? — Isaac perguntou, abismado. — Eles são minúsculos, você lê em menos de uma tarde.
— Eu já li uma vez! — Letícia se defendeu. — No ensino médio… aquele dos cachorros.
Isaac ergueu uma sobrancelha.
— O cão dos Baskerville, Letícia. Você pelo menos lembra o que aconteceu no final? — perguntou com divertimento.
— Não exija tanto de mim — ela bateu levemente no ombro dele, fazendo-o rir.
— Eu preciso ir, tenho um compromisso. Te vejo à noite.
Ele acenou e foi embora. Letícia quase quis perguntar qual era o compromisso, mas se conteve. Não era da conta dela.
— Você e o Isaac, hein?
Letícia se virou e viu o irmão Silas indo até ela com sua esposa, Leia. Letícia os cumprimentou educadamente.
— Quem diria, você conseguiu fazer ele soltar a língua — Silas comentou, com aquela simpatia forçada que começava a irritar Letícia.
— O Isaac sabe conversar, Silas. Ele só não se dá o trabalho quando não vale a pena. — Ela deu de ombros e Silas ficou sério.
— Pode ser, mas isso não é muito educado, ou cristão da parte dele. Eu teria cuidado.
— Ora, por que, Silas? — perguntou Leia. — Ele parece um bom rapaz, e você já viu como ficam lindos juntos?
Letícia ruborizou. Tinha esquecido que, como Leia não tinha filhos, ela se achava no direito de dar palpite na vida de todas as moças solteiras da igreja.
— Isaac é só um amigo, e pode acreditar, ele não tem o menor interesse nesse tipo de comprometimento.
Logo se arrependeu de fazer aquele comentário, porque agora a mulher só queria saber o motivo.
— Bom, isso não é comum nos rapazes da idade dele — disse Leia. — Mas não se preocupe, querida, vou descobrir com os pais dele qual é o problema. — A mulher deu uma piscadela e disparou para longe deles antes que Letícia dissesse que não precisava. Ela suspirou e olhou para Silas.
— Com todo o respeito, não quero sua esposa se metendo na minha vida pessoal, nem na do Isaac.
Silas assentiu.
— Eu vou falar com ela, não se preocupe. Até a noite!
Letícia acenou para ele e suspirou quando ele se foi, sentindo uma exaustão por dentro.
“É assim que ele se sente.”
Ela ouviu e estremeceu, uma rajada de compreensão lhe preenchendo até a alma.
Letícia se despediu de mais algumas pessoas, antes de pegar sua moto no estacionamento e ir para casa.
— Como está indo o jornalismo? — Diego perguntou em uma manhã no Skyline, enquanto ajudava Isaac com alguns papéis.
— Tudo dentro do esperado, graças a Deus.
— Então, por que você parece mais rabugento do que o normal?
Isaac olhou para Diego, com o semblante sério.
— Não estou rabugento.
— Está sim.
— Não… é só o cansaço.
— Amigo, eu sei a diferença entre você estar cansado e rabugento.
Isaac revirou os olhos. Será que Diego não podia só ignorar o mau humor dele, pelo menos uma vez?
— É a Letícia. Ela gostou muito de ouvir o Semeador e quer que a gente o entreviste para o jornal da igreja.
Ele ainda se lembrava do entusiasmo dela no culto da noite anterior.
* * *
— E se a gente entrevistasse o semeador? Podemos entrar em contato com ele e, se ele concordar, seremos os primeiros!
Isaac paralisou com aquela ideia.
— Não. Não é uma boa ideia. Ele não vai querer.
— Como sabe disso? Não é como se ele precisasse aparecer; podíamos fazer por telefone…
— Não, Letícia — disse com mais firmeza. — As matérias das próximas semanas já foram programadas. Mesmo que o Semeador quisesse, não tem espaço. Esquece isso.
* * *
— Deixa eu adivinhar — disse Diego, após ouvir o relato de Isaac —. Ela não esqueceu?
— Não. Está mandando mensagem a manhã inteira, mas não respondi nenhuma — ele massageou as têmporas — Parece que até o David quer tentar me convencer disso agora.
Diego ficou uns minutos em silêncio, pensando nas palavras certas para dizer ao amigo.
— Será que… seria tão ruim assim se você revelasse? Tipo… o seu ministério já está enorme, ninguém vai se importar quando virem quem está por trás do microfone. Talvez até gostem mais ainda de você!
Isaac balançou a cabeça; sua própria voz ecoava em sua mente.
“Não, não, não, eu não posso.”
— Diego, o Semeador é uma voz, não um rosto. Eu… eu não posso fazer isso.
— Mas tem um rosto por trás da voz, Isaac! — Diego exclamou. — Você não pode ficar fugindo assim. Eles precisam de você, não só da sua voz.
— Ninguém precisa de mim. Eu já tive essa conversa com o Ismael; as pessoas precisam das palavras, não de mim.
Diego assentiu.
— Isaac, eu entendo você. De verdade, eu entendo que esse foi o seu chamado, e faz todo o sentido que Deus tenha escolhido você para ser uma voz, e não só outro rosto carismático que diz o que as pessoas querem, ao invés do que precisam — ele suspirou. — Mas você nunca pensou que um dia Ele pode querer a sua voz fora de um estúdio?
Isaac não entendeu. Sua mente estava embaralhada enquanto seu coração batia mais rápido. Ele controlava o exterior muito bem, mas não conseguia esconder a palidez que vinha com a ansiedade.
— Eu não posso. Ainda não.
Vendo que ele não estava bem, Diego assentiu e tornou a mexer na papelada, mas Isaac o fez parar.
— Pode ir, Diego. Deixa que eu termino isso.
O garoto se sentiu um pouco triste, já sabendo que, quando Isaac agia daquela forma, ele estava rejeitando e se afastando. Diego assentiu e o deixou sozinho.
“Eu não te dei um espírito de covardia.”
Isaac suspirou.
— Não entendo… O Senhor me tirou do único lugar onde eu conseguia ser normal, me trouxe de volta para essa cidade barulhenta e disse para eu construir meu ministério de forma anônima, prometendo-me que eu não seria consumido de novo por esse ruído… E agora quer que eu volte para ele? Por quê?
Mas Isaac não ouviu a resposta. Deus estava em silêncio.
— Por favor, me responde!
Isaac continuou sem conseguir ouvir.
Assim que terminou de organizar a papelada de suas aulas, ele pegou o celular para responder a uma mensagem, quando recebeu uma notificação do seu app de Bíblia, com a seguinte mensagem: “Há tempo de calar e tempo de falar.” (Eclesiastes 3:7)
Isaac guardou o celular e olhou para o céu.
— Faz a Tua vontade, Pai… mas não me obriga a ter que falar.
Ele achou que era um pedido inocente, mas não contava com a resposta que receberia em breve.
LQF News
Isaac: Bom dia, pessoal.
Isaac: — É o seguinte, eu resolvi pensar sobre a ideia de entrevistar o Semeador, e talvez dê para encaixar na revista do mês de julho.
Isaac: O Semeador aceita, na condição de ser escrita, no máximo gravada por telefone. Ele não faz ao vivo.
Letícia: — Falou com ele? Como conseguiu?
Isaac: Por e-mail. Ele não olha as redes sociais, aparentemente.
Ester: Podemos fazer algo misto nesse caso. Gravamos a entrevista e colocamos apenas um trecho dela na revista; assim, as pessoas acessam a plataforma para ouvir. A quantidade de ouvintes eventualmente vai recomendar nosso conteúdo para outras pessoas.
Jonas: — A gente vai ter que assinar algum contrato de sigilo; a marca desse cara é muito grande. Ele não vai correr um risco assim.
Letícia: — É um ministério, não uma marca. Se a entrevista for assíncrona mesmo, ele não corre risco nenhum.
Letícia: — Mas não tem problema; se ele quiser um contrato, eu mesma reviso para garantir que nosso ministério não corra riscos jurídicos.
Isaac: — Não acho que precisa de tudo isso, mas eu vou intermediar a comunicação até o dia da entrevista.
Isaac: — Até lá, não comentem com ninguém sobre isso.
Kevin: — Quem vai entrevistar?
Letícia: — A repórter, naturalmente.
Isaac: — Na verdade, ainda estou decidindo isso.
Letícia: — O quê É sério?
Isaac: — Estamos nos antecipando. Quando eu retomar o contato, ele pode trazer mais condições. Vamos ver isso com calma.
Letícia: — Tá… tudo bem.
Isaac: — Ótimo E, por favor, não se esqueçam: é sigiloso.
(Isaac está offline)
Em uma sexta-feira, às cinco horas da manhã, Letícia combinou de encontrar Isaac na igreja para que eles realizassem a entrevista. Ela estava tremendo de tão nervosa, porque, enquanto Isaac estaria ocupado em outra sala transcrevendo a entrevista em tempo real, Letícia estaria sozinha ao telefone com o Semeador.
Quando a data da entrevista foi marcada, ela perguntou a Isaac por que tão cedo.
— A agenda dele é bem lotada, e nesse horário a igreja está vazia. Não vai ter nenhuma interrupção e a acústica do miniestúdio é ideal para isso.
Ela estacionou a moto na frente do prédio, bem na hora em que Isaac estacionou o carro. Ele acenou para ela com um breve sorriso e destrancou o portão com as chaves que conseguira com o pai.
— Eu estou bem nervosa — admitiu Letícia, quebrando o silêncio.
— Não precisa ficar. Será algo breve, e você se preparou. Vai dar tudo certo.
— Tem certeza de que não quer ficar no miniestúdio? Você pode fazer a transcrição depois…
— Não, o Semeador foi bem claro, ele só quer uma pessoa na sala de entrevista, para evitar vazamentos. Se ele souber que estou aqui, pode até cancelar.
Letícia arregalou os olhos.
— Nossa, ele parece… exigente.
A verdade era que ela não queria dizer a palavra que lhe veio à cabeça, mas Isaac pareceu entender.
— Vou para o gabinete do seu pai fazer a transcrição. Conectei meu celular no seu para conseguir ouvir a chamada em tempo real, ok?
Letícia concordou com a cabeça.
— Ótimo. Assim que ele atender à chamada, eu começo a gravação.
Isaac terminou de organizar os aparelhos de gravação e, antes de sair do miniestúdio, olhou para Letícia com um leve sorriso.
— Não tenha medo. Só… finja que está falando com um amigo. Você consegue.
* * *
O gabinete de David era longe o suficiente do estúdio. Isaac conectou os fones de ouvido no celular para impedir que a ligação vazasse pelo alto-falante. Então, pegou seu celular de trabalho e esperou que Letícia o ligasse.
Isaac também tremia de nervoso, mas tentou se regular. Sua voz não podia ficar trêmula na ligação.
“Ajude-me, Pai…”
O telefone vibrou. Isaac respirou fundo e atendeu.
— Aqui é o Semeador da verdade. A quem devo o prazer?
— Oi! Semeador, aqui é a Letícia Silva, repórter do jornal da Igreja Luz que Fica. O nosso editor-chefe entrou em contato com o senhor para marcar essa entrevista.
Isaac sorriu. Ele conseguia sentir a luz irradiando de Letícia só pela voz dela.
— Claro! O Isaac Diaz?
— Sim, ele mesmo! Acredito que ele avisou que a entrevista seria gravada, mas que não há risco algum para a sua privacidade.
— Fui avisado sim, Letícia. Não se preocupe.
— Ótimo. Eu já vou iniciar a gravação. Se em algum momento o senhor disser algo que não deve ir a público, você diz, tudo bem?
— Perfeitamente entendido. Comece quando desejar.
Ele soube que a gravação foi iniciada quando ela começou a dar boas-vindas aos ouvintes e apresentar o Semeador.
— Olá a todos, é um prazer estar aqui — disse ele, sentindo-se mais confiante.
— É um prazer recebê-lo, Semeador. Todos ficamos muito felizes quando aceitou nosso convite. Sabemos que é algo incomum.
— De fato, eu não costumo participar de entrevistas, principalmente porque sempre vira uma desculpa para alguém tentar descobrir minha identidade. Foi uma surpresa receber uma oportunidade de falar por telefone.
— Talvez agora você receba muitas outras — Letícia riu e fez uma breve pausa antes de continuar —. Semeador, você se tornou uma voz e uma referência para jovens cristãos em todo o país. Você esperava todo esse reconhecimento e sucesso quando iniciou seu podcast?
— Sinceramente, não — respondeu sem hesitar. — Na verdade, eu nem sabia direito o que estava fazendo. Não sou uma pessoa muito comunicativa, mas chegou um momento, quando estava terminando a faculdade de teologia, em que eu me senti… sozinho Perdido. Eu tinha tanto conhecimento que me aproximava do Senhor, mas não sabia o que fazer com ele. Eu queria colocar para fora, e então iniciei o podcast. Mas não achava que fosse crescer, só quis atender ao chamado.
— E foi um lindo chamado. Como teve certeza de que era um chamado de Deus, e não um desejo do seu coração? Muita gente tem essa dúvida.
— É compreensível — ele sorriu levemente, e o tom de sua risada foi ouvido do outro lado da linha. — Não dá para generalizar, mas Deus dá muitos sinais. Tudo depende de como a pessoa vai recebê-los. Às vezes, Ele é bem sutil, mas, de outras vezes… Ele faz o seu mundo inteiro estremecer e você consegue sentir Ele dizendo: “Eu te avisei” — ele fez uma pausa e falou com mais seriedade.
— Mas, como eu disse, não dá para generalizar. Comigo, foi aquela ideia inicial de fazer um podcast. Uma ideia repentina, que eu jamais consideraria. Então veio a minha insegurança de imagem. Eu senti medo… E então pensei no anonimato, mas a parte mais importante, que, ao menos para mim, me revelou que nada daquilo era uma ideia minha, foi que, mesmo com a solução, eu continuei com medo. Mas eu fiz, mesmo com medo, porque tive a certeza de que todo aquele projeto não era sobre mim. Nunca foi, nunca será. Essa convicção só o Espírito Santo consegue proporcionar, porque é muito mais forte do que a insegurança do ser humano.
Letícia estava emocionada, e Isaac percebeu isso na voz dela quando fez a próxima pergunta.
— E… você perdeu essa insegurança e esse medo?
— Não. Essas coisas não vão embora; são parte da nossa natureza quebrada. Nós, cristãos, precisamos ter o discernimento e a disciplina para acordar todos os dias e negar a nossa natureza. A voz do Espírito Santo precisa falar mais alto do que nossas inseguranças, nossas opiniões, e mais alto do que qualquer coisa que faça parte de nós, porque nós nascemos quebrados, condenados e não somos dignos de nada que Deus nos dá… E mesmo assim, Ele fez o que fez por nós — Isaac respirou fundo — Como eu posso dar voz a algo tão insignificante como a minha natureza, quando Jesus passou por algo tão humilhante para que eu pudesse viver?
— Tem razão — Letícia suspirou. — Temos que lembrar da nossa fraqueza, não é?
— Exato. Mas lembrar é diferente de se entregar. Sabe, todos os dias vamos ter algo para nos lembrar das nossas fraquezas, mas não podemos sucumbir a elas. Não quando sabemos que Jesus enfrentou algo muito pior, e que Deus não nos dá um fardo maior do que podemos carregar — ele riu levemente — e, sendo bem curto e grosso, eu acho que um cristão não tem direito nenhum de reclamar… Mesmo que eu ainda reclame. Bastante.
O comentário leve fez Letícia rir do outro lado da linha.
— A gente tenta, não é? E persiste.
— Persistir é uma boa palavra. Um versículo que me ajuda a reclamar menos é Mateus 6:34. “Basta a cada dia o seu mal.” Vamos viver um dia de cada vez. O futuro não é garantido, então precisamos aproveitar o hoje, alegrando-nos no Senhor e enfrentando nossas batalhas com Ele ao nosso lado. E, se for para reclamar, fale com Ele, e não com o seu vizinho. Fica a dica.
Letícia estava se divertindo com os comentários engraçados, mas profundos, do Semeador. Alguns minutos de conversa a fizeram sentir como se o conhecesse há muito tempo.
De repente, ela se perguntou como Isasc estava indo com a transcrição e resolveu ligar as câmeras enquanto ainda conversava com o Semeador.
— Mas, acho que todos querem saber: como foi sua experiência no curso de teologia? Você sempre quis estudar teologia?
— Sempre é uma palavra muito forte — ele respondeu. — Meu pai é pastor, e, por mais que eu o admire muito, nunca tive essa aspiração. Mas… eu tive outros mentores na minha caminhada, que, como meu pai, me fizeram despertar uma paixão pela Bíblia e pela teologia que me fez desejar um estudo mais formal. Quando entrei no curso de teologia, eu já tinha lido a Bíblia inteira umas sete vezes, em ordens diferentes, e ainda assim tinha mais e mais a descobrir a cada releitura. Não me tornei pastor, mas me tornei teólogo, e isso me faz muito feliz.
Letícia ainda o ouvia com atenção, mas o fluxo das suas perguntas se perdeu quando ela ligou as câmeras do estúdio para ver Isaac. Sim, ele estava no gabinete de David, mas não transcrevia nada. O rapaz estava, no entanto, com um celular no ouvido, falando ao mesmo tempo que o Semeador a respondia.
“Não pode ser…”, ela pensou.
— E… Alguém sabe quem você é, Semeador? — ela perguntou com a voz trêmula, os olhos fixos na câmera.
— Sim. Minha família e meu assistente. Eles tiveram que assinar um contrato de confidencialidade.
— Mesmo? — A voz dela ainda estava trêmula, mas um pouco mais segura. — Isso é interessante. Quer dizer que não dá mesmo para adivinhar quem você é?
— Não. — Ele riu e Letícia reconheceu o ritmo da risada de Isaac. “Meu Deus…” — Eu sou invisível, Letícia. Esse sempre foi o propósito. É um chamado silencioso.
Letícia assentiu.
— Com certeza. Mas é um belo chamado.
Ela não tinha mais perguntas a fazer, então se despediu do Semeador e encerrou a gravação. Em seguida, correu até o gabinete do pai, a tempo de flagrar Isaac em pé, com o celular na mão.
O rapaz paralisou quando a viu parada ali, menos de 1 minuto após a entrevista acabar.
— Há quanto tempo está aí?! — perguntou alarmado, desviando o olhar.
— Eu cheguei agora — ela hesitou, nem sabendo por onde começar. — E a transcrição?
— Não consegui fazer — ele respondeu, muito rápido — Tive um contratempo…
— Eu te vi, Isaac. Você é o Semeador.
Isaac estava parado como uma estátua, mas tinha certeza de que Letícia conseguia ouvir as batidas descompassadas de seu coração.
Sempre que tentava suprimir suas fraquezas, seu rosto empalidecia e lhe dava um aspecto de doente. Isso não passou despercebido por Letícia.
“Letícia… por que logo ela?”
— Você não vai dizer nada? Não vai negar?
— Não — Isaac admitiu secamente — Jamais negaria. Você viu, não foi?
Ele tentou se afastar, mas Letícia segurou o braço dele.
— Isaac…
— Olha, eu não quero falar sobre isso, Letícia. Já que você descobriu, eu vou precisar de outro contrato…
— Espera, você vai mesmo me fazer assinar um contrato de sigilo?! Realmente fez isso com a sua própria família? Ou foi outra mentira?
— Nada do que eu disse na entrevista era mentira! — ele exclamou. — É tudo verdade, Letícia.
A garota soltou o braço de Isaac, ainda processando toda aquela revelação. Tudo o que conhecia de seu amigo era fabricado? O que era real?
— Você consegue falar e se expressar com confiança, você tem formação teológica e fica se escondendo atrás de um microfone, enquanto tudo o que as pessoas ao seu redor recebem é uma mentira sobre quem você é?
Isaac percebeu que ela estava muito decepcionada, e isso o afetou mais do que ele gostaria de admitir. Mesmo assim, ele ficou na defensiva.
— Eu não estava mentindo.
— Estava sim — ela o cortou. — Você mentiu para proteger sua identidade e continua mentindo para as pessoas e para si mesmo quando finge ser alguém que não é…
— Eu não estou fingindo! — gritou. — Quem eu sou na sua frente, na frente dessa congregação, na frente da minha família, é tudo o que eu consigo ser! Mesmo que eu deixe alguém entrar na minha vida, essa pessoa nunca vai conseguir ir além, porque é assim que eu sou diante das pessoas. E eu me neguei todos os dias, tentei não dar importância à minha fraqueza e deixar o Espírito me guiar, mas não é fácil — ele deu de ombros. — Essa é a cruz que eu tenho que carregar desde que eu e minha família voltamos do Kansas… Depois que almoçamos juntos, eu pensei que você me entendia. Mas a sua reação só confirma que o Semeador precisa ser um segredo.
Letícia engoliu seco e tentou se aproximar com mais calma.
— Me desculpe… Não queria que sentisse que eu não o entendo.
— Mas você não entende — ele suavizou a voz. — A menos que viva isso na pele, você não vai entender o que é se sentir inadequado, estranho ou ser chamado de antissocial no lugar onde as pessoas deveriam te acolher e te respeitar.
Letícia pressionou os lábios para evitar dizer algo por impulso. Ela segurou a mão de Isaac e, para a sua surpresa, ele não a afastou.
— Você tem razão. Eu não consigo entender — ela admitiu. — Quando chego nos lugares, eu fico tão feliz de encontrar as pessoas, de perguntar como elas estão, de abraçar… Isso me deixa energizada pelo resto do dia. É natural que eu não compreenda como alguém pode se sentir drenado por esse calor e essa energia. Talvez por isso eu acredite que, se as pessoas conhecessem esse outro lado seu, elas não iriam te ver diferente. Elas iriam te admirar, talvez até ficassem um pouco intimidadas.
Ela viu uma sombra de um sorriso no rosto de Isaac e percebeu que estava no caminho certo.
— Isso acabaria me deixando arrogante — confessou Isaac. — Eu não quero isso, já cometo muitos erros.
Letícia apertou a mão dele com mais força, e ele a encarou, finalmente.
— Talvez esse seja o seu medo — ela refletiu. — O Semeador é uma persona. Ele tem seguidores, fãs, haters e muito sucesso. Você lida com isso porque ninguém sabe que é você, mas se você for exposto, toda a popularidade será do Isaac Diaz, não do Semeador da Verdade. E você não tem certeza se conseguiria lidar com isso sem se perder no caminho.
Ele não respondeu, mas seu silêncio comunicou exatamente o que Letícia precisava saber.
— Não vou te fazer assinar nada — Isaac disse, finalmente —, mas não posso contar isso aos outros. Ainda não.
Ela assentiu.
— Eu entendo…
— Ainda assim — interrompeu — você não faz ideia de como é difícil para mim confiar apenas nas suas palavras e nos seus gestos. Não quero me arrepender disso, Letícia.
— Você não vai — ela garantiu, com determinação na voz —. E eu sei que, no momento certo, o Semeador não será mais um segredo. Mas… mesmo que você não conte aos outros, eu acho que devia mostrar mais esse seu lado. Não porque os outros mereçam, longe disso! Mas para você se libertar um pouco. Seja mais firme, seguro, assertivo, como você é no podcast.
Isaac se limitou a um aceno de cabeça enquanto olhava para a amiga. Eles tinham a mesma cor de cabelo e a mesma cor de olhos. Quando eram crianças, muitas pessoas, à primeira vista, pensavam que eles fossem parentes. Não era por menos. A mesma pergunta era frequentemente direcionada a Alexander e David, muito parecidos, mas nem um pouco aparentados.
— Obrigado, Letícia. E… me desculpe — ele deu de ombros, timidamente.
— Não tem por que se desculpar, Izaquias.
Ouvi-la chamar pelo apelido o deixou mais tranquilo, enquanto ele a observava afastar-se em direção à moto.
De repente, sentiu-se enjoado e cerrou os punhos, balançando a cabeça como se isso pudesse impedir a avalanche de emoções prestes a consumi-lo.
— Recomponha-se… — sussurrou para si mesmo, antes de pegar as chaves do carro e sair da igreja.
Quando Isaac terminou suas aulas em uma segunda-feira qualquer, Diego o seguiu antes que ele alcançasse a sala dos professores.
— Cara, o episódio de ontem foi muito bom! — o rapaz exclamou em um sussurro empolgado. — Eu nunca tinha visto a metáfora das palmeiras! Quer dizer, já ouvi alguns pastores falando do deserto, mas não tinha feito a associação com as palmeiras crescendo no deserto.
Isaac riu com o entusiasmo do amigo.
— Eu estava pensando em fazer uma série de episódios desmembrando os salmos. Acho que finalmente estou conseguindo entender melhor as metáforas.
Eles pararam na porta da sala, mas não entraram logo.
— E a entrevista, como foi?
Isaac suspirou e tirou os óculos. Não aguentava mais aquele peso em seu rosto.
— Pois é… a Letícia descobriu.
— Que?! É sério? Como ela descobriu?
Antes que Isaac respondesse, Tatiana surgiu de repente de dentro da sala.
— Quem descobriu o quê? Estão de segredo? — perguntou com o olhar impertinente. Diego gaguejou um pouco, claramente pego de surpresa, mas Isaac tomou as rédeas.
— Com todo o respeito, não te interessa.
Isaac sabia que Tatiana estava acostumada a levar foras como aquele, mas não de Isaac. Ele mal falava, e, quando falava, costumava ser curto e direto, mas não grosseiro — embora, em sua opinião, a resposta não tivesse sido nada grosseira.
Ainda assim, Tatiana forçou a barra.
— Ora, Isaac, somos todos amigos aqui! Sabe que não existem segredos.
— Que engraçado, isso não estava no meu contrato de trabalho — disse ele, ácido. — É um assunto pessoal.
— Mas está contando ao Diego. Parece que você o transformou em um antissocial como você.
Aquela palavra fazia os nervos de Isaac doerem.
— Não sou antissocial… — ele disse calmamente.
— Bom, isso não importa! — ela aumentou o tom de voz, sem necessidade. — Você está prejudicando as oportunidades do Diego aqui, arrastando-o para todo lado e impedindo-o de criar uma rede de relacionamentos!
— Estou? — Isaac perguntou, de forma sarcástica.
— Ele está? — Diego perguntou ao mesmo tempo, da mesma forma. — Até onde eu sei, aquele que anda com os sábios será cada vez mais sábio.
Isaac assentiu em aprovação.
— Muito bom, Diego — Isaac olhou mais uma vez para Tatiana, com firmeza — Se nos dá licença.
Então os dois passaram por ela e entraram na sala.
— Nunca te vi falar com tanta firmeza fora do podcast! — Diego sussurrou. — Mandou bem, cara, mas agora ela te odeia mais ainda.
Isaac deu de ombros e suspirou, quase como se estivesse entediado.
— Não tem problema. Afinal, eu tenho que ser uma palmeira, não é?
* * *
O movimento na floricultura estava grande, e Letícia se sentia como um furacão, atendendo a todas aquelas pessoas ao mesmo tempo. Felizmente, ela tinha energia para atender vários clientes de uma vez e manter um sorriso no rosto mesmo com tanto trabalho.
Porto Claridade era uma cidade pequena, então era natural que ela encontrasse um conhecido a cada esquina. Mas isso estava acontecendo com uma frequência estranha em seu local de trabalho. Coincidentemente, desde que vira Ricardo e Luiza. Não pôde evitar pensar que a informação de que “a gênia engravatada” da UPC estava trabalhando em uma floricultura, e não nos renomados escritórios das grandes cidades, havia se espalhado.
Letícia odiava ser objeto de fofoca, mas não se envergonhava de sua decisão. Ela não devia satisfação a nenhum de seus antigos professores ou colegas.
Naquele dia, ela atendia seu antigo grupo de estudos, e, pelo comportamento das garotas, ela teve certeza de que não estavam lá para comprar flores, e sim para confirmar com os próprios olhos a informação passada por Ricardo e Luiza.
Amanda, Rebeca e Naomi não mudaram muito desde a conclusão do curso, mas claramente estavam em uma situação social melhor que Letícia.
— Então, o que tem feito? — Amanda perguntou, enquanto Letícia podava algumas árvores bonsai. — Eu imaginei que estivesse em algum escritório grande de São Paulo, talvez até trabalhando para uma pessoa pública.
— Deus me livre… — disse, concentrada na árvore, não nas colegas. Aquelas garotas não eram suas amigas. Disso ela tinha plena convicção.
Era vantajoso estar próximo de Letícia na faculdade, mas ela percebeu todas as vezes que tentaram sabotá-la em projetos em grupo. Apenas fingia que não.
“Não tem nada que uma pessoa má odeie mais do que saber que está sendo vista, mas não saber o que vai acontecer quando a farsa acabar.” Era o que seu pai sempre dizia.
— Você tinha tantas ambições na faculdade, o que aconteceu? — Rebeca perguntou, mexendo nas pétalas de um miosótis.
— Não encosta nos miosótis, essas flores não são sintéticas — Letícia pediu, ainda sem tirar os olhos da árvore.
— Está se desviando da pergunta. Você fazia isso quando ficava nervosa — Naomi cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha. — Vamos, o que aconteceu?
— Nada demais — ela terminou a bonsai e pegou o cartão com instruções para o cliente que havia comprado. — Só não quis mais seguir a carreira. Não pareceu o certo para mim.
As três garotas pareciam insatisfeitas por não terem conseguido uma história mais interessante, mas Letícia não podia se importar menos.
— Bom, foi ótimo vê-las, mas o movimento está grande, então, com licença.
Letícia pegou a árvore e a levou até o senhor simpático que havia feito a encomenda.
Assim que o cliente saiu, outro rosto familiar entrou na loja. Felizmente, não era ninguém desagradável.
— Oi, Ismael! — ela cumprimentou o amigo com um sorriso. — O que o traz aqui?
— Planejaram uma festa de aniversário surpresa para a professora do cursinho, e eu esqueci de comprar um presente. Felizmente, ela gosta de flores.
— E quem não gosta?
— A mamãe. Porque as flores morrem logo.
Letícia não tinha visto Isaac entrar na loja com Ismael, mas devia ter imaginado. Ismael não sabia dirigir.
Isaac olhava para tipos diferentes de flores expostas, como se fosse uma tática para evitar contato visual com os outros.
— É mesmo? — Letícia perguntou, e Isaac assentiu levemente, sem olhar para ela. Letícia deu de ombros e decidiu ajudar Ismael.
— Você pode levar girassóis. Ninguém ficaria triste com um buquê de girassóis.
Ismael concordou.
— É, acho que vai ser isso. Obrigado pela sugestão!
Letícia pediu para uma de suas colegas preparar as flores para Ismael e aproveitou para falar com Isaac.
— Está tudo bem? Parece chateado.
— Meu irmão me ligou na hora da minha folga, e ai de mim se eu não atendê-lo imediatamente — Isaac olhou para Ismael do outro lado da loja — Seja grata por não ter que conviver com as prioridades de um irmão caçula.
Certo, aquilo foi… estranho. Letícia nunca sentiu que houvesse alguma tensão entre os dois irmãos. Eles sempre pareceram unidos… ou talvez ela nunca tivesse prestado atenção.
Nem ela, nem Ismael, pelo visto. Ele sempre estava sorridente, nada nunca o incomodava. Nunca parecia estar desconfortável.
— Vocês estão de boa? — ela perguntou com hesitação. — Tipo, aconteceu alguma coisa?
Isaac deu um suspiro longo antes de responder.
— Estamos de boa, sim. Por que não estaríamos? Afinal, nunca brigamos.
De novo aquele tom estranho. O que Isaac estava escondendo?
Ela achava que, depois de ter descoberto o segredo dele, ele se abriria mais. No entanto, ele continuava fechado, cheio de segredos.
— Terminou? — Isaac perguntou quando Ismael chegou com as flores. O rapaz assentiu animado. — Ótimo. Estou atrasado.
Os dois caminharam em direção ao carro e Letícia os observava.
Ismael nem percebeu que Isaac estava incomodado com alguma coisa. Ela, por outro lado, sentiu diretamente o peso das emoções contidas dele,
“Deus, o que ele tem?”
Letícia: — Será que a gente pode conversar?
Isaac: Claro. O que quer conversar?
Letícia: — Hoje, mais cedo, na floricultura, você não parecia bem.
Isaac: — Como assim?
Letícia: — Você e o Ismael. Tem algum problema entre vocês, não é?
Isaac: — Não, Letícia. Ele é meu irmão… e é um adolescente; é esperado que eu não tenha paciência com os imediatismos dele.
Letícia: — Não foi isso que eu vi hoje, Isaac.
(5 minutos depois)
Letícia: — Converse comigo, por favor.
Letícia: — Achei que você estava começando a confiar em mim.
Isaac: — E eu confio. Mas você está assumindo muitas conclusões com poucos sinais. Eu e meu irmão estamos bem, e isso é tudo o que importa.
Letícia: Tem certeza? Você já se mostrou muito bom em guardar segredos dos outros.
Isaac: Tem razão. Mas tem coisas sobre a minha relação com o meu irmão que não valem a pena discutir. Até porque ele não tem culpa de nada.
Letícia: Do que ele poderia ter culpa? Eu não entendo, Isaac, por favor, me explica. Eu só quero ajudar.
(Isaac está offline)
(20 minutos depois)
Letícia: — Me desculpe. Não queria ser invasiva. Mas saiba que pode contar comigo quando precisar.
Isaac: — Sei disso. Obrigado.
O retiro da juventude seria em alguns meses, e Ismael estava tentando gerenciar tudo enquanto equilibrava com os estudos do cursinho. Desde que recebera a liderança, estava mais agitado do que de costume.
— Tem gente demais se inscrevendo, será que vão ter quartos o bastante? — ele perguntou aos pais, enquanto organizava os formulários e conferia os comprovantes para repassar para a tesouraria.
— O espaço que conseguimos tem muitos quartos e área externa grande para barracas — disse Raquel, ajudando o filho com as listas. — Vai ter espaço de sobra.
— É, mas eu preciso ir lá antes para falar com os caseiros. Vou ver se a Letícia pode ir junto também. Pai, pode me levar lá?
— Pede para o seu irmão — disse Alexander, como se tivesse acabado de ter aquela ideia. — Quem sabe assim você o convence a se inscrever e ir também.
Ismael suspirou. Não queria entrar de novo naquele assunto.
— O Isaac não gosta desses retiros. Não adianta tentar convencê-lo; ele não vai.
— Ele não pode continuar assim, Ismael — Raquel suspirou. — Ele está perdendo a melhor fase da vida para se envolver nessas coisas e formar vínculos. Já perdeu isso na adolescência, e logo não vai poder fazer mais nada!
— Não acho que ele considere essa a melhor fase da vida dele.
E era por isso que Isaac o chamava de “língua grande”. Ele às vezes não se segurava.
— Como assim? — Alexander perguntou. — Ele não tem motivos para reclamar. Sempre estudou em boas escolas, tem um ótimo emprego, duas graduações e um podcast famoso. É mais do que muitos jovens têm.
— E ele é grato por tudo isso, mas vocês nunca repararam que tem algo nele… que, sei lá — ele hesitou —, ele não parece feliz?
Isaac pensava que não, mas Ismael percebia, e não era algo recente.
Sete anos de diferença, mas Ismael percebeu, apesar da pouca idade que tinha na época, como as coisas mudaram quando a família voltou para Porto Claridade. Isaac estava diferente. Não recuperou as amizades que tinha antes, e também não fez novas. Era um aluno modelo na escola, mas não gostava dos professores, nem dos colegas. Na igreja, era mais comunicativo, mas nunca o que aquela comunidade considerava suficiente. Ele tomou as decisões sobre a faculdade e o podcast sozinho e se mantinha mais contido a cada dia que passava.
Ismael não era cego. Ele sabia que a mudança em Isaac não foi uma coincidência, e sim uma consequência direta da saída da família do Kansas.
Uma mudança que não teria acontecido se não fosse por Ismael.
* * *
Anos atrás…
Estado do Kansas, EUA.
Ismael não conseguiu conter sua empolgação quando os pais disseram que eles voltariam para Porto Claridade. Ele gostava muito do Kansas, de morar na fazenda e dos dias de neve, mas era tudo muito… quieto. Ele sentia muita saudade de casa, de seus amigos, de sua antiga escola… Estava ansioso para voltar. Por mais legal que fosse morar em um lugar que nevava de vez em quando, ele sentia saudade de brincar com as crianças do seu bairro e da facilidade que tinha em fazer amigos. Quando soube que voltariam em algumas semanas, correu para o quarto para decidir o que iria levar. Porto Claridade fazia calor; será que ele precisaria de tantos casacos?
Ismael desceu as escadas para falar com os pais quando os ouviu conversando com seu irmão, Isaac.
— Como assim vamos voltar?
Isaac não parecia empolgado. Por que não estava empolgado?
— Isaac, meu filho — Raquel começou, com a voz suave —, Deus nos abençoou com muita coisa aqui, mas eu e seu pai pensamos… nós vimos que aqui não parece o melhor lugar para o Ismael crescer.
— Mas por que não? Ele está infeliz?
— Não, Isaac, ele parece feliz. Mas…
— Mas o quê?
Raquel hesitou e Alexander tomou a frente.
— Ele não está conseguindo fazer muitos amigos aqui. A identidade dele está fragmentada. Ele sente falta de onde veio e precisa dessas raízes para crescer.
— Eu não entendo… — Isaac murmurou, sua voz levemente rouca. — Ele ainda está crescendo, vai se adaptar assim como eu me adaptei. É só uma questão de tempo.
— Mas você é diferente, filho. Sabe disso — Alexander disse calmamente, mas isso não ajudou. — Você é mais velho, se adapta com facilidade. Seu irmão, nem tanto.
— Acha que eu me adapto com facilidade? — Isaac assumiu uma postura defensiva. — Eu passei pela mesma mudança que o Ismael está passando, mas vocês preferem voltar porque acham que ele não vai conseguir se adaptar? E quanto a mim: E tudo o que construímos aqui? — Ele fez uma pausa. — Deus nos trouxe aqui para expandir nosso ministério, e você quer jogar tudo fora porque meu irmão ainda está formando a identidade dele?
— Isaac, o tempo que passamos aqui foi uma bênção, mas Deus não nos quer mais aqui — disse Raquel, tentando consolar o filho, mas não adiantou.
— Por que está colocando a decisão de vocês na conta dEle?
— Isso não é verdade, Isaac — Alexander o repreendeu. — Seja mais compreensivo.
— Eu não quero voltar. Eu… — Isaac hesitou. — Eu ganhei uma bolsa para o seminário, mas preciso fazer o ensino médio aqui, ou ela será invalidada. E, além disso, tem o nosso ministério! Começamos algo importante aqui; conseguimos unir as comunidades que estavam divididas. Não podemos abandonar isso.
— Nosso trabalho não será abandonado, Isaac, tem pessoas aqui para darem prosseguimento. Nós começamos, mas é hora de seguir em frente. — Alexander fez uma pausa — E quanto ao seminário… você pode fazer isso em Porto Claridade, ou até em uma cidade grande! Não precisa limitar seu chamado a um só lugar.
— Mas, pai…
— Nós vamos nos mudar, Isaac. Por favor, pense no seu irmão.
* * *
“Pense no seu irmão.”
Ismael sabia que não devia ter ouvido a conversa atrás da porta, mas, na época, não pôde evitar. Não teve dúvidas de que Isaac estava sacrificando muito por ele.
E isso se confirmou com o retorno deles. A igreja os reapresentou para a congregação, e domingo após domingo Isaac parecia mais tenso com cada toque que recebia e cada interação que participava. Ismael viu as olheiras no rosto do irmão mais velho, evidências da dificuldade que ele estava tendo para dormir por causa dos barulhos da cidade.
Acompanhou a fase em que Isaac precisou começar a tomar remédios para regular seus neurotransmissores, para conseguir ao menos suportar o ruído dos lugares que frequentava. E, apesar de tudo isso, ele nunca abandonou a Deus. Nunca se revoltou contra Ele, nunca O culpou por aquele destino.
Quando Isaac desistiu do seminário, Alexander e Raquel se decepcionaram, até descobrirem que, enquanto se formava em inglês, Isaac optou pela graduação formal em teologia e, em seguida, iniciou seu próprio ministério.
O sucesso do podcast fez Ismael refletir que, quando a família deixou o Kansas, deixou para trás o ministério deles. E agora, Isaac colhia os frutos de algo de que sua família simplesmente não fazia parte. Ele ainda se lembrava de como o podcast havia iniciado.
“Quem sou eu? Bom, isso não importa (risos), mas eu sou alguém que enfrentou uma tempestade difícil até chegar aqui. Mas o Senhor me mostrou o arco-íris que fez tudo valer a pena. A cruz que eu carrego não se compara ao prazer que tenho em seguir esse chamado por Ele. Eu sou o Semeador da Verdade. E isso é tudo o que importa.”
— Como seu irmão não é feliz, Ismael? — Raquel perguntou.
— Talvez eu tenha me expressado errado — ele se corrigiu. — Ele é feliz do jeito dele. Ele fica feliz quando grava o podcast, quando estuda a Bíblia, quando escreve e quando interage com pessoas específicas, como o pastor David, a Letícia, o Diego, até as pessoas do jornalismo… mas ele não fica exatamente feliz quando está, bom… com a gente, ou com outras pessoas. Ele não fica infeliz também; ele só… não é ele mesmo.
Alexander franziu o cenho.
— Isso não faz muito sentido. Somos a família dele. Além disso, sempre que tentávamos conversar, ele dizia que estava tudo bem.
— Talvez porque ele não… confiasse o bastante em nós? — Ismael fez uma pausa, e as palavras que vieram a seguir, nem ele mesmo esperava dizer. — Vocês sempre disseram que o Isaac não estava comprometido o bastante. Agora, ele está tão comprometido com o ministério que construiu que parece que realmente ele ama mais a Deus do que a nós. — Ele deu de ombros. — Isaac não se cansa da nossa insistência, porque ele não vai nos ouvir. Ele não confia em nós, só em Deus. Para ele… somos ruído. E quanto mais insistimos que ele deve fazer o que não está disposto a fazer, mais ele se afasta. E isso é péssimo, mas eu acho que não tem como mudar isso.
Alexander e Raquel ficaram sem palavras. Nenhum pai e nenhuma mãe gostariam de ouvir que são um ruído na vida do próprio filho. Quando aquilo havia acontecido?
Normalmente, os pais culpariam influências externas, mas conheciam o filho bem o bastante para saberem que Isaac não escutava ninguém. Ele nunca se deixava influenciar por pessoas; sua identidade sempre foi muito firme.
Isaac os amava, eles não tinham dúvidas, mas nunca imaginaram que o filho se afastou deles porque precisava de silêncio. Não apenas o silêncio físico. Silêncio mental. Espaço para sinceridade.
Isaac estava se mascarando com sua própria família, e o mais perto que eles chegaram de ouvir o filho sendo 100% sincero foram as poucas vezes em que ouviram o Semeador da Verdade.
— Meu Deus… — Raquel suspirou. — O que devemos fazer?
Ismael balançou a cabeça.
— Não sei, mas não quero mais pressioná-lo. Sempre que fazemos isso, recebemos uma versão do meu irmão que não é ele… e eu não quero mais que ele sinta que precisa se mascarar. Pelo menos, não comigo.
Ele organizou a papelada e se levantou.
— Vou falar com a Letícia e ver o que o Isaac acha de ao menos conhecer o lugar.
Então, saiu da sala de estar, deixando os pais lá, pensativos.
Ismael: — Tá ocupado, maninho?
(10 minutos depois)
Isaac: — Desculpa, estava terminando um episódio.
Isaac: — Ainda precisa de mim?
Ismael: De boa. Eu queria perguntar se você pode levar eu e a Letícia ao sítio onde vamos fazer o retiro da juventude.
Ismael: — Eu preciso ver o lugar com antecedência e… bom, eu preciso de carona, é meio longe.
Ismael: Acha que dá? Se não puder não tem problema, eu dou um jeito.
Isaac: É quando? Um dos meus alunos está com catapora, vou ficar de folga nas próximas quintas e sextas.
Ismael: Pode ser qualquer um desses dias. A gente se comunica.
Isaac: — Certo Vou chamar o Diego; ele disse que se inscreveu para o retiro, mas não sabe onde é… Adolescentes.
Ismael: Está revirando os olhos?
Isaac: — Talvez eu esteja.
Isaac: — Ok, nós vamos combinando.
Ismael: — Obrigado, irmão.
Isaac: — Disponha.
(Isaac está offline)
(Ismael está offline)
(20 minutos depois)
Ismael: Aliás, me desculpa.
Isaac: Por quê?
Ismael: O dia na floricultura. Eu sei que atrapalhei sua rotina e ainda te pressionei a ir ao retiro; não queria te chatear.
Isaac: — Está tudo bem, eu só estava um pouco desregulado. Não se preocupe.
Ismael: — Então, a gente vai se falando.
Isaac: — Até mais.
— Vocês sempre fazem os retiros em sítios isolados da cidade? — Diego perguntou, entrando no banco do carona do carro de Isaac e colocando o cinto.
— Não, isso foi ideia do Ismael. Geralmente fazem o retiro em uma casa grande do irmão Silas, o que significa que ele sempre fica por lá. Não dessa vez, pelo visto — respondeu Isaac. — Vou passar para pegar o Ismael e a Letícia, e então seguimos a viagem. Não é tão longe assim, mas é difícil de chegar, por isso Ismael precisa da carona.
Isaac conhecia o lugar. Assim que tirou sua CNH, dirigiu por quase toda a cidade sem GPS, até encontrar aquele sítio. Era calmo e tranquilo, praticamente sem trânsito. Os caseiros tinham alguns animais no estábulo, mas o terreno era bem menor do que o de uma fazenda. Fez Isaac lembrar muito da casa de sua família no Kansas.
— Talvez os caseiros até deixem a gente acampar por lá se chegarmos muito tarde.
— Sério? — perguntou Diego, entusiasmado. — Você conhece o lugar?
— Estive lá algumas vezes. Mas não achei que Ismael conhecia.
Enquanto dirigia até a casa dos pais, Isaac refletiu mais ainda sobre essa questão. Era a primeira vez que Ismael organizava um evento da juventude, e, contra todas as probabilidades, escolhera justamente o lugar que Isaac mais gostava, e que nunca havia mostrado a ninguém ou falado sobre.
Não podia dirigir no Brasil antes dos dezoito, então, quando finalmente atingiu essa idade, ele já estava passando menos tempo em casa, passando horas na universidade, estudando para as duas graduações. Mas, quando não precisava ficar na faculdade, ia para esse sítio estudar. A dona da casa, uma senhora chamada Diana, fazia bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro sempre que Isaac os visitava, e o marido dela, Tiago, praticamente obrigava Isaac a parar de estudar por pelo menos 15 minutos para dirigir pelo terreno na caminhonete ou andar a cavalo.
Aquele lugar era um refúgio, mas agora todos na Luz que Fica saberiam que ele existia.
— Tem certeza de que vai ficar bem nesse retiro? Você não é da nossa igreja e não conhece ninguém de lá.
— Eu conheço o Ismael. Bom… vagamente, mas isso basta. Minha igreja nunca faz eventos assim, eu só senti vontade de participar, sabe? — Diego fez uma pausa. — Mas e você? Não vai mesmo? Você conhece o lugar e os caseiros, pensei que…
— Não dessa vez, Diego. Vai ter gente demais, caixas de som e música alta, dinâmicas de quebra-gelo… — Isaac começou a divagar — abraços, perguntas, brincadeiras, noites sem dormir, todos os espaços ocupados, não dá para ir ao banheiro sem alguém te parar no corredor para iniciar uma conversa vazia… E a comida, por que tem que ter comida em todos os intervalos?
— Isaac?
— Que?
— Tá fazendo aquilo de novo.
Isaac continuou com os olhos na pista, mas com uma expressão confusa.
— Você estava… divagando em voz alta.
— Ah… desculpe.
— Tudo bem, cara. Mas, só de curiosidade, você já foi a algum desses retiros?
— Eu fui uma vez e tive uma febre delirante. Não pude participar de nada.
— Você ficou com febre? Como assim? O que houve?
Isaac conhecia o tom de voz de Diego e sabia que o amigo não fazia perguntas para ser enxerido. Ele se preocupava de verdade. Era fácil confiar nele, porque Diego era muito transparente, sempre foi.
— Eu tocava violão na época. Nunca fui muito bom; na verdade, eu era péssimo, mas era um bom exercício para me regular, de vez em quando. — Ele suspirou. — Mas meus pais achavam que tudo que eu fazia merecia palco, até mesmo o que eu não fazia direito. Eles tinham boa intenção, queriam encorajar, mas isso me sufocava, porque tinha coisas que eram só minhas, entende?
Diego assentiu.
— Deixa eu adivinhar… seus pais acharam que você tinha o dom e falaram com alguém que queria que você tocasse no retiro?
— É por aí.
— E você não disse nada?
— Eu disse! Mas tive que ir no retiro assim mesmo, sem saber tocar — Isaac deu de ombros. — Esse não foi o problema, o problema foi a febre. Nem eu sei o que causou, só sei que eu cheguei lá; Ismael e eu ficamos no mesmo quarto. Naquela primeira tarde, a gente devia descansar e as atividades começariam de noite. Mas, quando deu a hora e o Ismael foi me chamar, ele me disse que eu estava queimando de febre e falando inglês enquanto dormia.
— Eita! E o que aconteceu?
— O retiro foi na casa do Silas — Isaac suspirou, frustrado. — Ele achou que foi “deselegante” eu adoecer naquele momento e que, durante toda a semana lá na casa dele, ele sentiu que a minha presença era como um “vampiro”. Felizmente, David e Marta estavam lá e cuidaram de mim durante aqueles dias, até eu parar de delirar. Depois só ficou o resfriado.
— Nossa… — Diego ficou um tempo em silêncio, refletindo. — Ele parece não gostar de você, o que não faz nenhum sentido, já que quem é quieto não tem motivo para ter perseguidores.
— O problema não está em mim — Isaac fez uma curva e estacionou na frente da casa dos pais —. Sabe, cada vez que o Silas espalha alguma coisa sobre mim entre aquela gente, ele se expõe mais do que a mim. Alguns percebem, e outros não. O C. S. Lewis já mostrou que o Satanás não tem a intenção de tirar um cristão da igreja. Ele quer criar desordem lá dentro, mas o que controla essa desordem é a forma como reagimos. — Ele fez uma pausa. — Se a minha falta de reação incomoda tanto assim o caos, é melhor que eu permaneça assim, fazendo a minha parte. A igreja, como unidade, precisa sentir a permanência do ataque e lutar contra ele. Mas se a igreja não está unida de verdade, apesar de todo o discurso, a ordem precisa começar de algum lugar, mesmo que seja do silêncio.
— Parece um bom tema para um próximo episódio. Quer que eu coloque em sua agenda?
Isaac negou com a cabeça.
— Não, obrigado. Eu vou me lembrar — ele sorriu levemente para Diego, e, quando olhou para a frente, viu Letícia e Ismael saindo de dentro da casa com algumas bolsas. Isaac saiu do carro para abrir o porta-malas.
— Vai precisar de tudo isso? — ele perguntou ao irmão. — Achei que só queria conhecer o lugar.
— A gente vai ver se consegue já arrumar a fiação. Adianta parte do trabalho. — Letícia respondeu por Ismael — Ele disse que você conhece bem o lugar.
Isaac ergueu uma sobrancelha.
— Disse é?
— Bom, aquelas fotos que você postava no seu perfil privado quando devia estar na faculdade tinham que ser de algum lugar real, não é? — Ismael argumentou com um sorriso de canto. — Eu achei que parecia o lugar perfeito.
— É… perfeito. É como nossa casa no Kansas. Silencioso, verde, cavalos no estábulo, bolo de cenoura e as casas dos vizinhos ficam bem afastadas.
Ismael assentiu com um leve sorriso.
— Eu pensei em você quando escolhi o lugar. Mas, claro, não precisa ir se não quiser.
Isaac ficou em silêncio um tempo, enquanto pegava as bolsas de Letícia e de Ismael para colocar no porta-malas.
Quando todos entraram no carro, Isaac resolveu apresentá-los.
— Diego, essa é a Letícia. Letícia, esse é o meu assistente, Diego. E todos os três aqui já sabem quem eu sou, então podem conversar tranquilamente.
— A Letícia sabe?! — exclamou Ismael.
— Eu descobri, por acidente — ela se explicou, mas Isaac viu o sorrisinho dela no espelho retrovisor — mas foi um ótimo acidente.
— Eu já sabia que ela sabia — Diego se virou para olhar os dois no banco traseiro.
— Só eu não estava sabendo? — Ismael perguntou, parecendo quase ofendido.
— Não, eu só contei para o Diego mesmo. — Isaac continuou com os olhos na estrada.
— Eu nem tive que assinar um contrato de sigilo — Letícia disse orgulhosa, e os dois rapazes ficaram boquiabertos.
— Hm. Não parece muito justo, não é, irmão? —Ismael cruzou os braços, mas estava segurando um riso.
— O que não parece justo é eu estar dirigindo com as três pessoas mais tagarelas que conheço e elas não ficarem quietas por 2 segundos.
Mas Isaac também estava segurando o riso ao dizer isso, e seus amigos perceberam.
Era aquilo, Isaac refletiu, que ele considerava uma comunidade. Era ali que podia ser ele mesmo. E a sensação era ótima.
“Eu posso ter te escolhido para o silêncio, mas não te criei para estar só.
Isaac se arrepiou com aquela voz novamente, depois de tanto tempo. Ele respirou fundo, sentindo-se em paz, enquanto dirigia para o sítio.
Letícia achou que Isaac e Ismael estavam exagerando quando falavam do lugar, mas percebeu que estava enganada no instante em que colocou os pés para fora do carro. Não visitara muitos sítios em sua vida, mas se todos fossem como o que ela via naquele momento, ela com certeza adoraria viver em um lugar como aquele.
A primeira coisa que notou, naturalmente, foi o verde. O terreno era imenso e incrivelmente verde. Em seguida, notou o silêncio. Não tinha barulho de carro, nem de vizinhos falando alto, caixas de som no último volume… nada. Só o suave canto dos pássaros. Não era uma surpresa que aquele lugar fosse um refúgio para Isaac, que tanto apreciava o silêncio.
O cheiro também era diferente. Aquele lugar parecia intocado pela poluição, quase como se fosse externo ao restante da cidade.
Por um instante, sentiu-se mal em pensar que aquele lugar tão silencioso ia ficar cheio de pessoas e caixas de som durante uma semana inteira.
— Nossa, esse lugar é…
— Eu sei — Isaac disse, tirando os equipamentos de dentro do carro. — Pensei a mesma coisa quando vim aqui pela primeira vez.
— Como você achou esse lugar? — ela perguntou, e Isaac deu de ombros.
— Eu tinha saído da faculdade mais cedo e não quis ir logo para casa. Estava com habilitação fazia pouco tempo, então decidi dar uma volta de carro, mas sem usar o GPS. Eu só dirigi pela cidade, então atravessei a floresta e acabei chegando aqui. Eu não estava procurando esse lugar, só o encontrei.
— E nunca contou para ninguém sobre ele?
Ele negou com a cabeça.
— Não. Eu queria… manter algo preservado.
“O que?”, Letícia pensou em perguntar, mas hesitou. Na hora certa, ela descobriria.
— Vamos, vou apresentar vocês aos caseiros — Isaac sorriu levemente. — Talvez seja melhor vocês tirarem os sapatos.
— Por quê? — Ismael perguntou.
— O Bruce gosta de comer sapatos, especialmente quando ainda estão no pé.
O mais novo estava prestes a protestar, quando Isaac enfiou os dois dedos na boca e assobiou, bem alto e ritmado. Ismael não ouvia aquele barulho desde que se mudaram. Era assim que Isaac chamava qualquer animal rebelde que estivesse correndo pela fazenda. Pelo visto, o truque ainda funcionava.
Um enorme rottweiler correu até Isaac, latindo alto e balançando o rabo. Ismael, Diego e Letícia deram alguns passos para trás, ficando mais perto do carro, e tendo a certeza de que seus sapatos estavam bem longe dos pés.
— Oi, garoto! Lembra de mim? Você cresceu, hein? Que dentões você arrumou!
O cachorro latia sem parar, enquanto brincava com o Isaac.
— Ha! Isaac, o encantador dos cachorros agressivos. Algumas coisas nunca mudam — Ismael riu, enquanto observava o irmão mais velho.
— É, eu não sei se gosto muito de cachorros desse tamanho — Diego cruzou os braços, visivelmente tenso.
Mas, enquanto os garotos pareciam muito preocupados com a “fera” que Isaac estava domando, Letícia o olhava atenciosamente. Isaac tinha mais habilidades com animais do que com seres humanos. Especialmente animais grandes e possivelmente agressivos, considerando o que estava vendo.
— Gente, vamos? — Isaac despertou os três de seus devaneios. — O Bruce vai levar a gente para a propriedade. — Ele acariciou as orelhas do cachorro. — Estou doido para ver como estão os pais dele.
— Essa coisa ainda tem pais?! — Diego exclamou. — Tem certeza de que é seguro fazer o retiro aqui?
— Para de ser frouxo, é só um… filhote de rottweiler, nada demais — Ismael disse, inicialmente confiante, mas engoliu seco quando o filhote rosnou para ele.
— Garotos… — Letícia murmurou com um revirar de olhos. — Vamos entrar logo, eu quero conhecer o lugar. E os pais do Bruce, obviamente — ela acenou para o cachorro, que latiu de forma amigável para ela.
Assim que Bruce terminou suas demonstrações de afeto ruidosas e se acalmou ao lado de Isaac, o grupo começou a caminhar em direção à casa principal, deixando para trás o som metálico das portas do carro se fechando. Letícia sentia que cada passo a afastava mais do barulho constante de Porto Claridade, mergulhando em um silêncio que explicava, sem a necessidade de uma única palavra, por que Isaac escolhera aquele lugar como seu santuário particular. Enquanto Ismael e Diego ainda caminhavam com cautela, vigiando os próprios pés por causa do aviso de Isaac sobre o cão, o olhar de Letícia estava fixo na varanda à frente, onde o cheiro de mato e liberdade parecia anunciar que, naquele refúgio, as máscaras sociais não seriam necessárias.
— Eu sabia que era você! — eles ouviram a voz de uma senhora, e logo em seguida ela surgiu, descendo as escadas da casa. — Isaac, meu menino, estava com saudades!
Diana não era tão mais velha que os pais de Isaac e Ismael, mas era mais baixa e seus cabelos já estavam quase completamente grisalhos. A mulher deu um abraço forte no rapaz, que retribuiu.
— Oi, dona Diana. Também estava com saudades; desculpa não ter aparecido mais.
— Ah, não tem pra que pedir desculpas! Você é um rapaz ocupado. Ah, você trouxe seus amigos dessa vez? Que maravilha!
Isaac riu e apresentou a todos rapidamente.
— Na verdade, eu vim acompanhá-los. Meu irmão Ismael entrou em contato com vocês para o retiro dos jovens da nossa igreja.
Diana olhou para Ismael. Ele era quase a cópia do irmão mais velho, mas tinha cabelo liso mais claro e a pele um pouco mais bronzeada.
— Ora… eu não sabia que era o retiro da sua igreja, Isaac. Por favor, entrem todos e fiquem à vontade; vocês são de casa!
Letícia se sentiu quase constrangida com tanta hospitalidade, mas sorriu alegremente ao entrar na casa.
— Obrigada, dona Diana. É um prazer conhecer a senhora.
— Igualmente, minha querida.
* * *
Dentro da casa, era incrivelmente aconchegante. Assim que entraram, Tiago se aproximou deles e não parou de rasgar elogios a Isaac e a como ele parecia ainda mais alto do que da última vez que estiveram lá.
— Vocês tinham que ver, esse garoto chegava aqui com um fichário gigantesco, um computador, ia lá para cima e passava horas estudando. Eu tinha que tirá-lo de lá muitas vezes! — disse Tiago, enquanto todos se sentaram juntos para tomar um café e Diana assava o famoso bolo de cenoura com brigadeiro. — Mas, fazendo duas faculdades… era até esperado.
— E o que você faz agora, Isaac? — Diana perguntou.
— Eu sou professor de inglês. Não estou atuando ativamente na teologia no momento.
Quando Isaac disse isso, Letícia engasgou, e Ismael e Diego trocaram um olhar rápido. Todos pensavam a mesma coisa. Eles não sabiam sobre o Semeador e Isaac não pretendia contar.
Mas… por que não?
Aquele casal era quase sua segunda família. Por que estava escondendo?
— Não? — Tiago perguntou, surpreso com a resposta de Isaac.
Foi nesse momento que Isaac se sentiu angustiado com seu segredo e, pela primeira vez, não pensou muito antes de falar.
— É que… eu tenho um ministério online. Eu prego, ensino, converso por meio de um podcast… mas eu não apareço, ninguém sabe que sou eu.
Tiago assentiu.
— Entendi… Mas, então, você está ativamente na teologia. Só não está aparecendo. Isso é muito nobre; normalmente as pessoas hoje querem transformar tudo em dinheiro e se expõem além do necessário.
Isaac riu levemente.
— O podcast até me deu uma renda estável, mas foi uma consequência inesperada. Eu não estava buscando isso.
— Bom, nós estamos orgulhosos — disse Diana, afagando o cabelo de Isaac. — E vocês três? — ela olhou para Ismael, Diego e Letícia, que pareciam amar o bolo de cenoura. — Gostaram do bolo?
— O melhor que já comi! — Ismael disse com a boca cheia, e Isaac chutou a perna do irmão por debaixo da mesa.
— Está ótimo, dona Diana — Diego sorriu educadamente e bebeu um gole de café.
— Está mesmo. E… eu amei essa casa. Nunca estive em um sítio antes — Letícia olhou ao redor, ainda encantada com tudo. — Vocês têm certeza de que querem alugar o terreno e a casa para o nosso retiro? Pode ficar bem barulhento.
— Imagina! Eu e Tiago vamos viajar e queríamos alugar o espaço temporariamente. Será um prazer.
— Obrigado, dona Diana — disse Ismael. — Nós trouxemos alguns equipamentos de som; será que a gente poderia já deixar aqui? Talvez até instalar alguns, se não for incômodo.
— Claro que podem. Vou mostrar a vocês onde fica e podemos começar a ligar, se quiserem.
Ismael assentiu com um sorriso empolgado.
— Perfeito! Vamos, Diego, você me ajuda.
O rapaz ruivo se levantou e seguiu Ismael e Diana até o lado de fora para pegar os equipamentos. Tiago, Isaac e Letícia ficaram na cozinha.
— E você, mocinha? Conhece Isaac há muito tempo? — Tiago perguntou.
— Desde criança.
— Meu pai e o pai dela foram para o seminário juntos — Isaac explicou. — São melhores amigos.
— Isso é muito bom. E o que você faz, Letícia?
— Eu sou advogada, mas não exerço. Trabalho em uma floricultura.
— Uma boa escolha. Essa vida de engravatado não é para todo mundo. Mas, pelo menos, você estudou; se um dia mudar de ideia, já tem a formação — Tiago sorriu e Isaac o acompanhou.
De repente a casa se encheu de latidos. Dois rottweilers entraram no espaço, e eles eram maiores do que o “filhote”, Bruce.
— Fred e Daphne, o que eu já disse sobre correrem dentro de casa? — Tiago os repreendeu, enquanto Isaac acariciava atrás das orelhas de ambos.
— É que eles estavam com saudade, não estavam? — Isaac falou com eles, como alguém falaria com crianças. Letícia não sabia o que era mais surpreendente. A leveza de Isaac naquele ambiente descontraído, ou o fato de que o casal de rottweilers se chamava Fred e Daphne.
Quando os cachorros foram embora, Isaac se viu sentado à mesa, observando Letícia rir de uma piada de Tiago sobre suas antigas maratonas de estudo. Pela primeira vez em muito tempo, a palidez que costumava denunciar sua ansiedade social deu lugar a um brilho sereno no olhar.
Ele não precisava mais se esconder atrás de uma máscara ou do isolamento absoluto de seu estúdio. Ali, cercado por aqueles que protegiam sua identidade e respeitavam sua essência, Isaac finalmente compreendeu a verdade que o Espírito Santo sussurrara em seu coração durante a viagem: embora tivesse sido chamado para o silêncio, ele definitivamente não fora criado para estar só.
O Semeador estava em casa e, por um breve e precioso momento, o caos do mundo exterior parecia não ter permissão para entrar.
Embora Tiago e Diana tivessem — como Isaac havia dito antes — sugerido que os quatro acampassem lá, Letícia se lembrou que havia combinado de ir jantar com os pais naquela noite, e Alexander e Raquel não gostariam de que Ismael avisasse de última hora que não dormiria em casa. Portanto, cabia a Isaac deixar todos em casa, e Diego simplesmente aceitar — já que ele havia gostado muito do espaço e não queria ir embora.
Na volta, Ismael e Diego cochilaram no banco de trás, e Letícia ficou no banco da frente.
— Eu gostei muito de conhecer esse sítio. — ela disse baixo, para não acordar os garotos atrás.
— É um contraste gigante com a cidade, não é? E ainda tem gente que diz que cidade pequena é mais tranquilo.
— Não sei quem inventou isso, mas claramente estava errado.
Ela viu a sombra de um sorriso no rosto de Isaac. Ele parecia… calmo. De uma forma que ela nunca havia visto antes.
Letícia desviou o olhar rapidamente quando percebeu que estava olhando demais, e Isaac perceberia.
— Você… sabe sobre o meu ex-noivo?
— Sei.
— Mesmo?
— Bom, eu preferia não saber, mas a fofoca se espalhou — Isaac revirou os olhos —, O que acho uma grande falta de respeito.
— É… eu também acho. — Ela fez uma pausa. — Eu disse ao Ricardo uma vez que queria morar em um lugar mais tranquilo, como uma fazenda ou um sítio. Era uma idealização na época, já que eu nunca havia estado em um lugar assim.
— E o que ele disse?
— Ele preferia a cidade grande. Falou de oportunidades maiores, e que pessoas como nós não podiam ter o luxo de se isolarem… e que ele claramente não era o tipo “fazendeiro”.
Isaac suspirou.
— É… ele é um idiota.
Letícia riu com a escolha de palavras de Isaac, mas tinha que concordar.
— Com certeza… como uma pessoa pode estar disposta a abrir mão da paz pela fama?
— Eu não estava falando das escolhas de carreira dele, Letícia. Estou falando da forma como ele agiu com você.
— Ah… bom, não importa, já passou.
— Passou, mas não muda o fato de ele ter sido um idiota. Nenhuma mulher merece ser tratada assim. — Isaac continuou com os olhos fixos na estrada, mas Letícia o ouviu murmurar. — Eu jamais faria algo tão baixo assim.
Dessa vez, Letícia não se conteve. Ela precisou perguntar.
— Quando você e sua família saíram do Kansas… você deixou alguém lá?
— Que?
Letícia estranhou a reação dele. Ele parecia pego de surpresa com uma pergunta tão simples.
— Você tinha quinze anos, não era? Eu pensei que talvez… sei lá, você tivesse deixado algum relacionamento para trás, e que fosse por isso que você não gostou de voltar.
— Eu não deixei ninguém para trás, Letícia. Eu fiquei chateado porque perdi a chance de ir para o seminário.
Letícia suspirou. Será que chegaria o dia em que Isaac não a surpreenderia contando uma informação tão simples sobre a vida dele que ela sequer havia considerado?
— Espera, então… foi por isso?
Isaac ergueu uma sobrancelha.
— Foi. O pastor que me batizou e me discipulou enviou uma carta de recomendação a um seminário e eles me aceitariam com uma bolsa de 100%. Mas eu precisava cumprir os quatro anos de High School lá e ter um bom desempenho. Mas… — ele deu de ombros. — A bolsa acabou sendo invalidada porque eu não estaria mais residindo lá de forma fixa, e não teria o histórico do Ensino Médio que era aceito lá.
Letícia ficou em silêncio, seus pensamentos apenas interrompidos pelo ronco de um dos garotos. Ela não viu, mas tinha certeza de que era Diego.
— É… deve ter sido uma decepção para você.
— E foi.
— Mas você poderia ter ido ao seminário aqui. O seu pai podia ter te indicado ao mesmo que ele frequentou com o meu, e…
— Letícia, eu recusei — ele disse abruptamente. — Quando meu pai soube que eu queria ir ao seminário, ele achou que eu queria ser como ele. Mas não era isso que eu queria; nunca considerei me tornar pastor. Ele estava criando tantas expectativas em mim que eu disse que não queria mais o seminário. Escolhi a graduação em teologia e não me arrependo. Eu estou exatamente onde deveria estar.
— E você está feliz?
Isaac assentiu e sorriu, mais para si mesmo do que para Letícia.
— Estou. E… passar essa tarde hoje com vocês me fez perceber que eu não gosto realmente de estar só. Mas eu preciso das companhias certas. Nem sempre as mais óbvias são as certas, e acho que Deus estava tentando me mostrar isso há algum tempo.
— Bom… eu fico feliz que me considere uma boa companhia, Izaquias.
O rapaz revirou os olhos e balançou a cabeça ao ouvir o apelido.
— Olha aí… algumas coisas realmente nunca mudam.
Letícia deu de ombros e olhou para a estrada. Havia começado a chuviscar, e o limpador de para-brisa enxugava as gotas que caíam no carro.
Quando Isaac fez uma curva que levava exatamente ao bairro onde eles cresceram, Letícia percebeu que ele não parecia mais tão tranquilo. As mãos apertavam o volante com mais força, a mandíbula estava trancada, e uma veia de estresse apareceu em uma de suas têmporas.
O som das vozes de alguns vizinhos conversando era audível, mesmo com as janelas fechadas; afinal, as pessoas daquela cidade tinham mania de falar alto.
Instintivamente, ela diminuiu o volume da música que tocava no rádio, mas não pareceu ajudar muito. Afinal, Isaac continuava tenso.
— Está tudo bem? Quer que eu ligue de novo a música?
Ele negou com a cabeça.
— Não, vai ficar mais barulhento. Mas obrigado, eu estou bem. Vou deixar você em casa primeiro, pode ser? Não é tão longe.
Ela concordou.
— Claro. A casa dos meus pais fica na rua de trás.
Isaac chegou lá em cinco minutos e estacionou o carro na calçada oposta a casa.
— Está entregue.
— Obrigada, Isaac. — Letícia removeu o cinto de segurança e se virou para ele. — Nos falamos amanhã?
— Sim, pode ser. Manda lembranças aos seus pais?
— Mando sim.
Letícia estendeu a mão para Isaac e ele a apertou, mas seus olhos estavam nela. Ele viu os lábios dela tremendo por causa do frio, mas logo desviou o olhar.
— Tchau — Isaac disse de forma um pouco abrupta, então deu um pequeno sorriso. — Boa noite.
— Boa noite.
Após essa última despedida, Letícia saiu do carro e atravessou a rua em direção à casa dos pais. Isaac a observou pela janela, esperando que ela entrasse. Quando ela já estava segura dentro de casa, ele se virou para o banco de trás e bateu levemente no joelho de Diego.
— Acorda, você é o próximo. Vem pra frente.
— Que? — Diego ainda estava grogue de sono, então Isaac aumentou o volume do rádio bem na hora em que uma música do Michael Jackson havia começado a tocar. Tanto Diego como Ismael quase deram um pulo de susto, o que fez Isaac rir.
— Anda logo, tá chovendo e eu quero ir pra casa!
Se Isaac precisasse de qualquer sinal divino de que deveria fazer o que estava pensando, esse sinal era a insônia.
Bom, não necessariamente que ele deveria colocar o pensamento em prática, mas pelo menos que deveria orar sobre isso.
O problema não era que ele não tivesse recebido uma resposta. Ele recebeu. O problema é que essa resposta era muito óbvia e trazia seus pensamentos para a realidade:
“A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: “Eis-me aqui, envia-me a mim.”
Desde a tarde em que passou com os amigos no sítio, ele estava considerando ir ao retiro. Ao menos tentar. Talvez não fosse ruim… mas será que era mesmo uma boa ideia?
Isaac ficava enjoado só de imaginar um ambiente tão ruidoso. Se fosse, como iria se mascarar? Funcionava bem quando ele era mais jovem, mas agora ele não conseguia mais esconder o desconforto como fazia antes. Decidiu ignorar o pensamento, mas…
Os sermões que ouviu na igreja no último domingo foram sobre Isaías 6:8.
Seu app de Bíblia — que sempre enviava versículos diferentes todos os dias — enviou o mesmo versículo toda a semana.
Até mesmo o roteiro de podcast que Isaac havia arquivado para aquela semana era sobre isso!
Os sinais eram muito óbvios — mas ele estava com medo. E esse medo lhe tirava o sono.
— Pai, por favor, eu preciso dormir! Não se afaste de mim…
“Eu não me afastei de você, meu filho.”
Então, Isaac viu sua Bíblia na mesa de cabeceira e decidiu pegá-la. Acendeu o abajur, colocou os óculos e abriu em uma página aleatória.
Normalmente, sempre acabava abrindo no livro de Isaías, por ser um dos livros do meio, mas o peso da Bíblia e a falta de destreza de Isaac fizeram com que a Bíblia fechasse e criasse orelhas internas — coisa que ele detestava. Ao abrir o livro para desfazer as orelhas, os olhos dele pousaram imediatamente em outro versículo, mais para o início do Antigo Testamento:
“Não te mandei eu? Esforça-te e tem bom ânimo; não temas… porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares.”
Isaac leu o versículo de novo, e de novo.
Aquela era a resposta. Não o que ele ouviu a semana inteira, mas o que procurou em seu momento de angústia.
Ele pegou o celular e, apesar do horário, enviou uma mensagem para Ismael.
O retiro foi marcado para acontecer em meados de julho, para que todos os adolescentes e jovens adultos pudessem comparecer. Todas as circunstâncias foram perfeitas; o sítio era grande e espaçoso, Tiago e Diana iam viajar de férias e alugaram o espaço de bom grado, e boa parte dos jovens da Luz que Fica e igrejas próximas também confirmaram presença. Incluindo o “socialmente estranho”, Isaac Diaz.
Naturalmente, sendo Isaac, ele não fez questão de que sua decisão de ir fosse informada a todos, mas ele percebeu a surpresa de várias pessoas, que planejavam precisar dele naquela semana, quando dissera que não poderia ajudar, pois estaria no retiro.
Uma dessas pessoas foi Silas.
Assim que Isaac saiu da EBD, ele foi até a recepção pegar a última edição da revista, que havia feito com o ministério de jornalismo. Era naquela edição que estava a entrevista com o Semeador.
— Isaque! — Silas o chamou quando ele estava prestes a entrar no templo.
— Sim?
— Olha, eu vou precisar da sua ajuda com o som no próximo domingo. Com a juventude fora por causa do retiro, a equipe ficou desfalcada — Silas suspirou de um jeito performático. — Eles não quiseram usar a minha casa esse ano, então ninguém vai poder voltar a tempo dos cultos, então vou te colocar na escala…
— Eu vou para o retiro, Silas — Isaac disse, mas Silas não o ouviu.
— … Sei que você saiu da sonoplastia, mas não custa ajudar, afinal é para Deus…
— Eu vou para o retiro, Silas — Isaac disse, um pouco mais alto e com firmeza. — Sinto muito.
Silas ficou quase paralisado, os olhos esbugalhados como se estivesse vendo Isaac mudar de cor.
— O que foi? — Isaac perguntou. — Tem alguma coisa no meu dente? Minha gravata está manchada?
Silas piscou algumas vezes.
— Como assim você vai ao retiro?
Isaac deu de ombros.
— Eu tenho 25 anos, e, da última vez que verifiquei isso, ainda se enquadra no termo “jovem adulto”.
— Não, não. Tem alguma coisa aí — Silas levantou o dedo indicador — Já sei! Você está mentindo para não vir ajudar.
A forma como Silas falou aquilo fez o sangue de Isaac ferver.
“Palavras brandas, meu filho.”
O rapaz respirou fundo e colocou sua máscara de indiferença.
— Não é mentira. Mas, se você não acredita, é problema seu. Com licença.
Ele passou por Silas, entrando no templo. Deu uma olhada rápida pela congregação, que ainda estava chegando e socializando antes do início do culto. Antes de ir para o seu lugar de costume, Isaac avistou Letícia e acenou para ela.
Os olhos da garota brilharam ao vê-lo, e ela quase correu até ele. O sorriso no rosto de Letícia era tão radiante que Isaac sentiu como se a luz do sol estivesse batendo diretamente nele, esquentando-o da cabeça aos pés. A sensação era boa.
— O Ismael me contou! Eu fiquei tão feliz, Isaac.
Ele não pôde deixar de perceber que Letícia chegou com a mão estendida para cumprimentá-lo, e não de braços abertos como fazia com todos.
Isaac apertou a mão dela e, para a surpresa de ambos, a puxou para um abraço de lado, seu braço ao redor dos ombros da amiga.
— É, eu… decidi de última hora. Não sei como vai ser, mas garanto que não estou com medo dessa vez — ele disse, enquanto soltava Letícia lentamente para olhá-la de frente. — Acho que pode ser divertido.
— Bom, é o primeiro que o seu irmão organiza. A sua presença lá significa muito para ele e para os seus pais.
Isaac piscou algumas vezes.
— Meus pais também vão?
— Só em um dos dias — ela explicou — o seu pai vai pregar.
— Hum… Não fazia ideia.
Ele podia ver a curiosidade estampada nos olhos de Letícia. Ela sempre queria saber tudo, mas, ao menos com ele, estava respeitando o espaço que ele precisava.
— Então… — ele mudou de assunto. — Como foi a semana?
— Ah, foi o de sempre. O trabalho na floricultura não para, infelizmente, mas eu tirei as minhas férias justamente na semana do retiro!
— Olha, você foi bem esperta — ele lhe lançou um sorriso sincero. — Mesmo de férias, os coordenadores do Skyline não param de enviar mensagens no nosso grupo. Até no particular, a coordenadora do meu setor não parava de fazer solicitações — ele revirou os olhos.
— Não parava?
— É. Eu a bloqueei — Isaac deu de ombros e riu novamente —. Ela é muito intrometida. Tenta sempre arrancar alguma informação sobre a minha vida e, quando não consegue, decide encher a minha paciência.
— Acontece nas melhores famílias.
Isaac a olhou fixamente. Era admirável como Letícia foi assunto de fofocas no círculo social do qual fez parte, mas mantinha sua cabeça erguida e seu espírito tão firme que era como se nada tivesse acontecido.
“Ela é… incrível”, ele pensou consigo mesmo.
— Bom — ele ignorou seus pensamentos —, se eu me sentir sobrecarregado, ao menos eu tenho um quarto lá. — Ele sorriu. — Mas duvido que isso vá acontecer.
Logo, David e Marta se aproximaram dos dois, pois, como sempre, eles iriam sentar com Letícia.
— Olha, eles aí! Meus jornalistas preferidos! — David beijou a testa da filha e apertou a mão de Isaac.
— Que trabalho lindo vocês fizeram! — disse Marta, segurando o último volume da revista. — Mal posso esperar para ler a entrevista.
— Ah, não foi grande coisa — Letícia balançou a cabeça, mas Isaac a encarou com uma sobrancelha erguida.
— Como assim? Você foi ótima, parece até que nasceu para ser repórter!
— Você acha mesmo?
Isaac assentiu timidamente, ao lembrar que não estavam a sós.
— Claro. E tenho certeza de que seus pais vão concordar quando lerem a entrevista.
Letícia estreitou os olhos.
— Mas eles são suspeitos para falar — ela sorriu levemente e olhou para os pais. — Mas, sinceramente, os elogios não são o mais importante, e sim o motivo do nosso trabalho. — Ela se virou para Isaac. — Não é Izaquias?
“Maravilhosa”, a mente dele sussurrou de novo.
— Sim — ele respondeu abruptamente — É só isso que importa.
Letícia e Isaac não perceberam o olhar que Marta e David trocaram segundos antes de chamarem Isaac, quando este estava prestes a se dirigir ao seu local de costume.
— Isaac? — David chamou. — Quer sentar com a gente hoje?
— Ah… Eu não quero incomodar.
— Não vai — David garantiu com um sorriso sincero. — Vem aqui, quero te mostrar uma coisa. Essa semana o Semeador mencionou um comentário muito bom, e eu consegui comprar a versão digital. Gostaria que visse.
Isaac sorriu amarelo e foi se sentar com David e a família dele, estranhando não estar em seu banco de sempre. E, tecnicamente, ele não precisava ver aquele comentário, pois ele próprio já o possuía, mas pareceu a coisa educada a se fazer e não era algo desagradável, pelo contrário.
— Claro, tio David.
Para a sua surpresa, Isaac ficou lá durante todo o culto.
— Estou pensando seriamente em te chamar para fazer um sermão um dia.
Isaac quase cuspiu o café.
Na verdade, era uma surpresa que ele ainda estivesse na igreja, considerando que o culto havia acabado fazia uns 10 minutos e, a menos que ele tivesse alguma coisa do jornalismo para deixar resolvida para o culto da noite, ele nunca ficava confraternizando com os irmãos após o culto.
No entanto, ele havia se sentado com os pais de Letícia, e David começou a conversar com ele quando o culto acabou. Isaac havia se empolgado com a conversa sobre as diferenças de doutrinas em diferentes denominações, então concordou quando David o chamou para tomar café na recepção.
Mas o grupo ao redor de David foi crescendo e Isaac estava se sentindo desconfortável. Estava prestes a se despedir quando David disse aquilo.
— O quê? Por que eu?
— Você me surpreendeu hoje, Isaac — disse David, sorrindo orgulhoso. — Você fala muito bem, tem bons argumentos e conhece mais sobre a parte teórica da teologia do que qualquer jovem que já conheci. — Ele fez uma pausa. — Parece até um estudioso da área.
Isaac ficou calado. Era melhor não inventar nada naquele momento.
— É, eu… eu gosto muito de estudar, mas não gosto de falar em público. E eu acabo sendo muito direto; algumas pessoas precisam de algo mais mastigado para conseguirem entender. Mas, agradeço a consideração, David. — Aquela era a deixa para ele ir embora discretamente. — Eu tenho que ir agora, nos vemos à noite.
— Até mais tarde, Isaac — David apertou a mão do rapaz e o observou ir embora.
Assim que Isaac se foi, Silas se aproximou de David.
— Ficou sabendo que ele vai ao retiro dessa vez?
— Sim. Ele conhece os caseiros, a Letícia me contou. Eu acho excelente; está indo como eu imaginei.
Silas franziu o cenho.
— Como assim? O que você imaginou?
— Colocar o Isaac como líder de um ministério fez muito bem a ele. Ele está se destacando, fazendo amigos e ganhando espaço. Não achava justo um garoto talentoso como ele ficar sempre nos bastidores.
— Mas ele ainda fica nos bastidores, David. O rosto do ministério de jornalismo é a sua filha, não ele.
— Mas quem lidera o trabalho é ele. Eu o conheço desde que nasceu; Isaac não gosta de ficar recebendo louros por fazer um bom trabalho. É uma postura rara e muito nobre.
Silas balançou a cabeça, rindo de forma irônica, e seus olhos foram na direção de Isaac, que estava perto do carro, pronto para ir embora, mas havia parado para conversar com Letícia. A jovem riu de algo que ele disse e acenou para ele, despedindo-se antes de voltar para perto de suas amigas.
— Eu não sei… Ele parece ter outros interesses. Já percebeu como ele tem se aproximado da sua filha? Não é normal Isaac ter esse tipo de amizade… ou qualquer tipo. Se eu fosse você, diria à Letícia para ter cuidado.
David estranhou o jeito que Silas estava falando de Isaac. Ele sempre percebeu que o homem nunca gostou muito do comportamento recluso do rapaz, mas aquele comentário foi estranho e o deixou desconfortável. Não pela insinuação de que talvez Isaac estivesse interessado em Letícia, mas pela insinuação feita a respeito do caráter do rapaz.
— Bom, obrigado pelo conselho não solicitado, mas eu sei como criar a minha filha e o que dizer a ela sobre as pessoas de quem ela se aproxima.
Silas não levou a repreensão muito bem.
— David, é sério! O Isaac é estranho. Pessoas antissociais como ele…
— Ele não é antissocial — David o interrompeu com firmeza. — Eu não quero mais ouvi-lo falar assim dele, Silas. — Essa não é uma palavra que você deveria usar levianamente.
Silas deu de ombros.
— Como quiser. Mas você vai ver que eu estava certo quando Letícia voltar chorando para casa por causa desse rapaz.
— E você vai ver como estava errado quando isso não acontecer. Tenha um bom dia, Silas — David disse calmamente e foi embora.
“Pai, dá paciência e força ao Isaac para enfrentar essas perseguições com sabedoria.”
David orou silenciosamente enquanto caminhava para fora da igreja. Ele e a esposa se despediram da filha, e, enquanto dirigia de volta para casa, ouviu uma voz em seu coração, dizendo:
“Este meu servo é mais forte do que você imagina. Continue em oração por ele, meu filho.”
— Pegaram tudo? Tem certeza de que não esqueceram nada?
— Sim, mamãe — Ismael disse pela milésima vez, enquanto colocava as coisas no porta-malas do carro de Isaac. Raquel estava, como sempre, cumprindo o seu papel de mãe atenciosa.
Isaac fechou o porta-malas e olhou para a mãe.
— Não se preocupe, se o Ismael tiver esquecido alguma coisa, vocês podem levar na quarta. — Isaac deu uma piscadela para a mãe e sorriu. A mulher se aproximou do filho e beijou-lhe a testa.
— Não imagina como estou feliz sabendo que você vai. Meu Isaac… sempre tão teimoso!
— A quem será que ele puxou, não é, Raquel? — disse Alexander, aproximando-se do carro. — Isaac, meu filho, podemos conversar antes de vocês irem?
Isaac olhou para Ismael, silenciosamente perguntando se eles não estavam atrasados. Imediatamente, Ismael respondeu.
— A gente ainda tem tempo, isso é, se o Diego não se atrasar mais. A gente deveria ter deixado ele ir com a Letícia.
— Não deveríamos, não. Ela não ofereceu carona, nem sabemos se ela vai com os pais ou de moto.
— Mas…
— Só quem oferece carona é o dono do carro, Ismael. Isso é uma regra básica de como ser uma pessoa minimamente decente.
Alexander assentiu.
— Ele tem razão. Eu lembro quando seu irmão tirou a carteira; várias pessoas ficavam dizendo: “O Isaac está de carro, pega carona com ele”.
— E o que ele fazia?
Isaac sorriu com a lembrança.
— Eu chamava um carro de aplicativo e o papai levava o carro de volta para casa. Isso foi quando eu ainda morava com vocês… eram bons tempos.
De repente, o celular de Ismael tocou, e ele atendeu com uma expressão impaciente enquanto se afastava do pai e do irmão mais velho.
— Diego, sua mula, se você demorar mais um pouco…
Assim que Ismael se afastou, Raquel balançou a cabeça em reprovação.
— Esses adolescentes… bom, vou deixar os dois sozinhos e conferir mais uma vez se não esqueceram nada.
— Mamãe… — Isaac resmungou enquanto ela se retirava, mas Alexander segurou o braço do filho.
— Não discute, não. Experiência própria.
— Tem razão — ele suspirou. — O que você quer conversar, pai?
— Nada demais. É que na quarta, como você sabe, eu vou pregar, e eu gostaria de discutir alguns pontos com você.
Alexander entregou as anotações para Isaac, que leu tudo rapidamente. Era outro de seus talentos: ler e memorizar tudo muito rápido.
— Você vai falar sobre as palmeiras no deserto?
— Eu achei pertinente. Sabe, vocês são todos jovens e muitos podem encarar a vida como um deserto que vai matá-los… Dá para fazer uma boa aplicação, mas estou um pouco bloqueado. Não quero copiar tudo o que ouvi em seu episódio.
Isaac riu levemente e entregou as anotações para o pai.
— Eu acho que essa analogia fala por si mesma. Você não precisa se esforçar para deixar tudo perfeito. Só precisa transmitir essa mensagem da forma que ela falou com você.
Alexander deu de ombros, e foi a primeira vez que ele viu seu pai parecer inseguro, apesar de ser um pastor com anos de experiência e um arquivo imenso de sermões.
— É que… eu quero que a mensagem seja clara. Quero que seja aplicável e que ressoe no coração daqueles que talvez estejam ouvindo pela primeira vez.
Isaac cruzou os braços.
— O impacto da mensagem não depende de você, ou do quão perfeita seja a sua maneira de falar. Quando Jonas foi pregar em Nínive, o coração dele estava no lugar errado, a mensagem que ele pregou foi uma porcaria, e, mesmo assim, todo aquele povo se arrependeu e foi perdoado. Se Deus fez isso com um profeta de tanta má vontade, o que Ele não fará pelo senhor? — ele fez uma pausa — Não tenha medo.
Alexander ficou em silêncio, olhando para o filho e vendo algo que… Deus, como não havia visto antes?
— Você é um rapaz muito abençoado, meu filho — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
— Graças a Deus por isso.
Isaac ouviu um barulho vindo do estacionamento e sabia que Diego havia chegado.
— É melhor eu ir logo, antes que o Ismael esgane o meu assistente e eu precise dar o emprego para ele.
Quando chegaram ao sítio, o local estava muito, muito barulhento. As pessoas em Porto Claridade tinham o hábito de falar muito alto, e, com a quantidade de pessoas que tinham chegado, o ambiente estava uma grande cacofonia.
— Como líder dos jovens, consegui alguns privilégios — disse Ismael, saindo do carro com a mochila nas costas. — Nós três vamos ficar naquele quarto grande no final da propriedade. É um labirinto para chegar lá, então dificilmente seremos incomodados.
— Onde a Letícia vai ficar? — Isaac perguntou.
— No primeiro andar, com a Ester e mais duas meninas. Sinceramente, não lembro muito bem do mapeamento — Ismael coçou a cabeça —, mas vai dar tudo certo.
— Você chamou adultos para serem monitores? — Diego perguntou.
— Alguns pais se disponibilizaram para vir, mas a ideia é que os veteranos sejam monitores dessa vez.
A animação de Diego se desfez na hora.
— É sério? Eu vou ter que trabalhar?
— Não, você é visitante — Ismael explicou. — Os jovens que estão na liderança comigo vão coordenar as atividades com o restante do pessoal aqui.
Diego assentiu.
— Tá… e quanto à família de rottweilers?
— Enquanto Diana e Tiago viajam, eles deixam os cães com uns conhecidos. Eles não estão aqui — disse Isaac. — Ismael, não sei o que planejou para mim, mas quero ficar nos estábulos. Eu ensino os adolescentes a andarem a cavalo.
Ismael sorriu para o irmão, como se estivesse planejando alguma coisa.
— Mas foi exatamente isso que pensei quando incluí “aulas de montaria” na programação — Ismael se virou para Diego. — Isaac era o melhor cavaleiro do Kansas, é por isso que os braços dele são desse tamanho.
— Só pode ser palhaçada!
— Acredita em mim, cara!
— Garotos! — Isaac exclamou. — Parem de conversa, vamos entrar logo antes que eu fique surdo. — Ele colocou os fones de ouvido e começou a caminhar para longe dos garotos.
Isaac tinha a impressão de que a influência de Ismael transformaria Diego em outro “língua grande” na vida dele. Mas achou graça diante dessa possibilidade.
* * *
O culto de abertura seria somente à noite, o que significava que naquela tarde todos os jovens estavam descansando da longa viagem até o sítio.
Bom, todos, menos Isaac.
Como tudo havia sido organizado com antecedência, Ismael também foi dormir durante a tarde, então Isaac precisou lidar com o ronco alto de Diego e o chulé de Ismael, que dividia a cama maior com o irmão mais velho e não parava de se mexer.
Isaac queria empurrar o irmão espaçoso para fora da cama, mas o bom senso falou mais alto, então ele apenas se levantou. Era melhor aproveitar a tranquilidade do ambiente enquanto ainda podia.
Ele decidiu ir até o estábulo e ver os cavalos. Diana e Tiago tinham um cavalo preto chamado Hades e uma égua branca chamada Perséfone. Ele gostou muito da referência quando soube e pensava em qual nome o potro receberia quando nascesse. Como a égua estava prenha, Isaac teria que revezar as aulas de montaria somente com Hades.
Ao se aproximar do estábulo, Isaac ouviu os cavalos relinchando agitados e apressou o passo. Chegando lá, viu a última pessoa que esperava ver no estábulo, tentando acalmar os animais, mas sem sucesso.
— Letícia? O que está fazendo aqui?
Letícia tinha certeza de que Ismael havia perdido o juízo. Que ideia foi aquela de colocar logo ela como responsável pelos cavalos? Ela poderia estar descansando naquele momento, mas preferiu tentar se adiantar com os cavalos enquanto o retiro não começava oficialmente. Se era para passar vergonha, era melhor que fosse só diante de Deus e dos cavalos.
Mas, assim que entrou no estábulo, os cavalos a olharam estranho. Ela ficou tensa, sem saber como interagir, e começou a se mover muito devagar, sem tirar os olhos dos animais. A não ser por eles estarem acompanhando os movimentos dela, estava tudo bem…
Até ela tropeçar em um balde vazio e o grito de susto dela assustar os cavalos, que começaram a relinchar.
— Ai, pelo amor de Deus… — ela murmurou e correu em direção a eles para tentar acalmá-los, mas eles só relinchavam mais alto e não deixavam que ela os tocasse.
— Letícia? O que está fazendo aqui?
E ela quase tropeçou de novo; afinal, ela não era a única acordada.
— Izaquias! E aí? Eu só tava…
Isaac balançou a cabeça, poupando os dois da conversa fiada, e caminhou até os cavalos. Ele acariciou o nariz dos animais e Letícia os viu começarem a fazer silêncio.
— Shh… isso, rapaz. Bom menino. Você também, boa menina.
Os cavalos eram macho e fêmea, e Letícia não tinha percebido.
Novamente ela se perguntou: o que Ismael tinha na cabeça?
Quando Isaac, o encantador de cavalos, terminou de… bom, encantar os cavalos, ele se virou para Letícia.
— Você assustou o Hades e a Perséfone.
— Na verdade, eles me assustaram — ela se defendeu. — Começaram a relinchar do nada!
Isaac ergueu uma sobrancelha e viu o balde caído no chão.
— Uma estranha aparece no estábulo deles fazendo barulho e você espera que eles fiquem tranquilos?
— Em minha defesa, eu não conheço muitos cavalos.
Isaac assentiu.
— Você entrou muito tensa, e os cavalos sentiram isso e ficaram em alerta. Quando você derrubou o balde, eles levaram um susto. Vem aqui.
— Não sei se é uma boa ideia.
Ele estendeu a mão.
— Confie em mim e fique calma.
Letícia ainda estava um pouco tensa, mas se aproximou. Isaac continuou fazendo carinho nos cavalos, que quase começaram de novo a se agitar.
— Shh… isso, fiquem calmos — ele disse com uma voz suave. — Muito bem. Olha, essa é a Letícia. É uma amiga, não precisam ter medo.
Isaac pegou a mão de Letícia e colocou na crina de Perséfone, que aceitou o carinho.
— Oi, garota — Letícia tentou imitar o tom de voz de Isaac. — Prazer em conhecê-la.
A égua relinchou, como se estivesse se apresentando.
Isaac sentiu um calor subir ao peito ao ver Letícia interagindo com Perséfone. Lentamente, ela afastou a mão para se aproximar de Hades.
— Oi, rapaz! Que lindo alazão você é. Prazer em conhecê-lo.
Hades reagiu da mesma maneira que Perséfone, o que deixou Letícia feliz. Talvez ela não fosse tão ruim assim com cavalos.
Isaac segurou a mão dela mais uma vez.
— É melhor irmos. Os cavalos vão precisar de muito descanso. Principalmente Hades.
Letícia assentiu e os dois deixaram o estábulo, assim que Isaac teve certeza de que os animais estavam bem alimentados.
— A Perséfone vai parir em breve, não tem condição nenhuma de ter dois cavalos para a aula de montaria. Vou ter que falar com o meu irmão antes do culto de abertura.
— Espera, é você quem vai dar as aulas de montaria?
Isaac balançou a cabeça em afirmação.
— Sim, o que me lembra que você não me respondeu o que estava fazendo essa hora no estábulo.
— O seu irmão me colocou como responsável pelos cavalos. Por quê? Não faço ideia, mas acho que vamos trabalhar juntos. — ela deu um pulinho de empolgação, que fez Isaac rir.
— Parece ótimo.
Foi quando ele percebeu que ainda estava de mãos dadas com Letícia, e as soltou de forma desajeitada.
— Então… — ele desconversou. — Que tal a gente ir pescar?
Letícia se surpreendeu com o convite repentino.
— Pescar?
— O horário está bom — Isaac deu de ombros — e não tem nada para fazer agora, a menos que você queira dormir. Tenho certeza de que suas colegas de quarto não roncam alto, nem colocam. O pé na sua cara.
— Na verdade, eu estava inquieta com a ideia de cuidar dos cavalos e perdi o sono, mas aceito o convite.
Isaac não esperava ficar tão feliz com a aceitação de Letícia, mas ele ficou. Foi buscar os equipamentos de pesca no depósito e os dois seguiram para um lago um pouco mais afastado da propriedade.
* * *
— Como era lá no Kansas? — Letícia perguntou, observando a água se mexer enquanto ela segurava a vara de pesca. — Quero dizer, não a parte da fazenda e do silêncio, mas morar em outro país mesmo.
Isaac deu de ombros.
— Era normal. Não tem nada de glamuroso em viver nos Estados Unidos; isso é uma idealização bem mentirosa — ele explicou com sinceridade. — Graças a Deus, acabamos em uma comunidade acolhedora e com outras famílias bilíngues. E o Kansas era um estado melhor de se morar do que outros mais populares. Era estável e tranquilo, sabe?
Letícia concordou.
— É por isso que você gosta tanto desse sítio, não é? Sente falta da vida no interior.
— Sim. E, por mais que fosse interior, a gente não encontrava conhecidos a cada esquina e ninguém tentava saber tudo sobre a vida do outro. No fundo, eu não quero estar no lugar Kansas, mas em um lugar onde eu não tenha sempre que olhar por cima do ombro, ou ter cuidado sobre o que estou falando e com quem.
Letícia o entendia perfeitamente. Em Porto Claridade, qualquer conversa podia virar fofoca muito rápido. Ela se lembrava muito bem de quantas “amigas” confiou. E quantas “amigas” compartilhavam prints de conversas que, apesar de não serem segredos, não eram coisas que ela gostaria de compartilhar com várias pessoas. Se fosse o caso, ela contaria em um chat em grupo ou pessoalmente para todos ouvirem.
— Eu nunca saí daqui, então me acostumei com essa realidade. Apesar de não ser a ideal, era tudo que eu conhecia. Você conheceu algo diferente e, quando voltou, não conseguiu aceitar que esse era o “jeito certo” aqui. Agora, mesmo que eu ainda não tenha saído de Porto Claridade, sinto que conheço uma forma diferente de viver por sua causa. E eu acho que é assim que prefiro viver. Só não tinha percebido.
Isaac olhou profundamente nos olhos de Letícia, pensando em como se sentia diferente desde que permitiu que ela fizesse parte de sua vida e guardasse seu maior segredo.
— Posso dizer o mesmo a você — admitiu. — A sua amizade me fez perceber que nem tudo é ruído, e que deixar as pessoas se aproximarem não é um risco, mas uma oportunidade. Deus colocou as pessoas certas na minha vida, no momento certo. Você sempre foi uma delas, mas eu demorei pra perceber.
— Você não demorou — Letícia disse com rapidez. — Aconteceu no momento certo, assim como todas as coisas.
Isaac sorriu levemente e suspirou.
— Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu.
Os dois queriam passar mais tempo naquele lago, na companhia um do outro. Mas, ao assistirem ao pôr do sol, perceberam que era hora de voltar.
— Melhor irmos — disse Letícia. — Teremos uma longa semana pela frente.
A semana estava passando rápido, mas tanto Isaac como Letícia se ocupavam bastante. A rotina era previsível: acordar, estudo bíblico em grupo, café da manhã, culto, atividades ao ar livre — o que incluía as aulas de montaria —, almoço, descanso, estudos bíblicos guiados, mais atividades ao ar livre, culto noturno, encerramento e hora de dormir. Isaac estava gostando muito dos estudos guiados da tarde, pois quem estava ensinando os temas que Isaac escolheu aprender era David, e como a turma era pequena, Isaac se sentia mais à vontade para participar e debater.
Ter Letícia por perto também era um conforto para a sua alma, embora ele não gostasse muito de admitir isso. A maior dificuldade para ele era lidar com seus sentimentos de uma forma menos analítica. Qualquer sensação que ele não conseguisse explicar racionalmente era como se fosse uma pequena parte de seu “espinho” se manifestando. Isaac geralmente conseguia lidar com isso. Foi assim a vida toda, mas, no fundo, tudo o que queria era conseguir tratar esses momentos com naturalidade. Por que a presença de Letícia fazia aquilo com ele?
Na manhã de quarta-feira, Isaac foi até o estábulo para ver o potro recém-nascido. Ele acompanhou o parto na noite anterior, para ter certeza de que Perséfone estaria bem; afinal, a noite foi bem chuvosa. Apesar do dia ensolarado, ele ainda sentia o cheiro da chuva no ar.
“Senhor, traz os meus pais em segurança. Guarda-os na estrada, debaixo da Tua proteção. Em nome do meu melhor amigo e Salvador, Jesus Cristo. Amém.”
— Você acordou cedo.
Isaac a ouviu assim que terminou sua oração. Letícia estava encostada na porta do estábulo.
— Vim ver se o Dorian estava bem. A noite foi fria; eu fiquei preocupado.
— Dorian? Escolha interessante. Pensei que seria Thor ou Zeus.
— Acho que já deu de nomes mitológicos — Isaac sorri enquanto fazia carinho no filhote. — Mas ele está bem, e Perséfone teve um parto tranquilo. Já avisei ao Tiago e à Diana.
Letícia assentiu e se aproximou de Hades. Depois de ter ficado com eles nos últimos dias, eles já estavam bem habituados à presença dela.
— Por que não damos uma folga para o Hades hoje? Ele precisa descansar um pouco.
— Ele também precisa caminhar — Isaac explicou. — Mas eu suspendi a montaria de hoje, então ele vai poder descansar.
Isaac abriu o portão para o cavalo sair, mas, de repente, Ismael e Diego entraram correndo.
— Isaac! É urgente!
— Não gritem! — exclamou Letícia. — Vão assustar os cavalos!
— O que foi? — indagou Isaac, preocupado enquanto acalmava os animais.
Ismael engoliu em seco antes de responder.
— O papai desmaiou enquanto dirigia. Eles já estavam chegando, mas pararam no meio do caminho! A mamãe passou a localização por mensagem, mas é melhor a gente se apressar. A tempestade está se armando na direção de onde eles vieram.
Isaac quase perdeu a cor e olhou para Letícia.
— Fica de olho na Perséfone e no Dorian, por favor.
— Quer que eu peça ajuda? O meu pai deve estar acordado…
— Não. Eu mesmo vou.
Isaac guiou Hades para fora do estábulo e montou no cavalo.
— Espera, eu não dei a localização! — gritou Ismael, mas o irmão já estava cavalgando para longe. — Cara, como ele vai achar os nossos pais?
— Ele já conhece esse lugar — disse Diego. — Com certeza sabe onde pararam. Mas temos que avisar o que aconteceu para alguém. Se o pastor Alexander chegar desmaiado, podemos ter problemas.
— Então falem com os meus pais. Minha mãe é médica e meu pai sabe ser discreto. Eles vão ajudar.
Ismael suspirou, nervoso e preocupado com a situação do pai. Se algo acontecesse com Alexander, especialmente durante o retiro que Ismael planejou com tanto cuidado, ele se sentiria a pior pessoa do mundo.
— Certo, eu vou lá dentro — disse Diego, e em seguida olhou para Ismael. — Tenha calma, meu amigo. Deus está no controle.
Ismael assentiu, mas, assim que Diego foi embora, o adolescente estava prestes a desabar.
— Letícia, o meu pai… ele não pode…
— Ele não vai, Ismael.
A garota o abraçou enquanto orava silenciosamente, pedindo a Deus que tudo ficasse bem.
— Ele está bem, Ismael — disse Raquel, saindo do quarto onde Alexander descansava. Isaac o havia levado em segurança para a casa, e Marta e David o fizeram acordar.
— Bem? — Ismael ergueu uma sobrancelha, quase de uma forma irônica. — Ele desmaiou do nada enquanto dirigia e não consegue mais falar! Como ele pode estar bem?
— Bom, a começar por ele estar vivo — disse Isaac, segurando o ombro do irmão. — Dá para se acalmar? O papai desmaiou porque não tomou café antes de vir, o que foi uma péssima ideia — ele se virou para a mãe. — Você sempre o convence de tudo e não conseguiu dessa vez?
Raquel deu de ombros.
— É, não dessa vez. Ele estava fazendo jejum.
Isaac suspirou profundamente.
— Antes de uma viagem longa de carro? — ele fez uma pausa. — Ok, ok, tudo bem… Ele desmaiou e, graças a Deus, não teve nenhum acidente, e ele já acordou, mas quem é que vai pregar hoje? Afinal, ele veio aqui especificamente para isso.
— É… esse é meio que o problema — murmurou Ismael. — Como vamos substituí-lo assim de última hora?
— Será que o David não pode pregar? — Raquel sugeriu e Ismael deu de ombros.
— Parece ser a única opção. Vou ter que falar com ele. Ele só precisa das notas do sermão do papai e vai conseguir. Já fizeram isso antes.
Isaac concordou com a ideia.
— Ok, eu vou avisar ao papai. O David está lá dentro?
Raquel assentiu.
— Quem sabe eles já estejam combinando isso?
— Certo. Eu vou ajudá-lo; sei sobre o que o papai vai falar hoje. Ismael, fica tranquilo, o seu trabalho nesse retiro está sendo maravilhoso e esse imprevisto não vai arruinar nada. Deus é com você, meu irmão.
Ismael sorriu em gratidão.
— Obrigado, Isaac.
Então, o mais velho foi até o quarto onde o pai estava descansando.
* * *
— Você quer que eu faça o quê? — Isaac perguntou, seus olhos arregalados por baixo dos óculos. — Pai, o David já disse que pode!
Alexander ergueu uma sobrancelha e digitou rapidamente no celular, usando o conversor de texto para voz.
“Sim, ele pode. Mas acho que você deveria fazer.”
Nada explicava por que Alexander perdera a voz justamente no dia em que ele tinha que pregar. Isso nunca havia acontecido. Parecia quase uma brincadeira.
— Pai, eu não posso… não consigo fazer isso.
“Você faz isso há anos, meu filho. Você já pregou sobre essa mensagem?”
— Mas não para as pessoas… Elas vão me ver, elas vão me ouvir e…
— Isaac — disse David, colocando a mão no ombro do rapaz — por que está com tanto medo?
Isaac balançou a cabeça, evitando olhar para David.
— Eu não posso dizer. Mas o meu pai sabe o porquê. Tio David, por favor, pregue no lugar do meu pai.
— Você sabe que eu não teria problema em fazer isso, mas tem alguma coisa acontecendo aqui, não tem? — ele olhou de Alexander para Isaac, como se esperasse uma resposta. Alexander suspirou e digitou mais um texto para os dois presentes ouvirem.
“O Isaac é o Semeador da Verdade. E você seria a sexta pessoa a saber. Desculpe, Isaac, mas acho que David merece saber.”
Isaac apertou a ponte do nariz, ainda evitando o olhar de David.
— Tudo bem, pai.
Ele sentiu David encarando-o e não conseguiu olhar para ele, sentindo o peso da rejeição por causa de todo o segredo. Mesmo Letícia, que havia aceitado bem, teve um breve rompante de raiva por Isaac ter escondido aquilo dela. E com certeza David seria igual, considerando que logo ele saberia que sua própria filha também guardava esse segredo.
— Desculpa, eu realmente estou perplexo, preciso de um momento — David mexeu no cabelo e arrumou a gola da camisa antes de olhar novamente para Isaac. — Você é o Semeador?
— Sou — Isaac respondeu, encontrando o olhar do mais velho. — O podcast é meu.
David assentiu e ficou uns segundos em silêncio, o que foi torturante para Isaac.
— Você é o Semeador… e acha que não tem condição de pregar para uma plateia de jovens? Você, que levou pessoas do país inteiro a se encontrarem com Cristo? Tem ideia de quantas pessoas me disseram no meu gabinete que se converteram depois de ouvir um corte do seu podcast?
Isaac franziu o cenho.
— Eu nem faço cortes… e não fui eu que as converti, David, foi o Espírito Santo. Esse é o ponto! Você está me dando crédito por algo que não tem nada a ver comigo! Falar atrás de um microfone é uma coisa, mas falar para um público real… eu não consigo lidar com isso!
David suspirou.
— Isaac, eu entendo seu ponto de vista, mas você tem, sim, algo a ver com o impacto do podcast. Você é a voz que as pessoas escutam, você é o canal que fez as pessoas desejarem conhecer Jesus. O Espírito Santo fez o trabalho, sim, obviamente. Mas Ele te usou nesse trabalho. Muitas pessoas não teriam ouvido se o Senhor não colocasse essa missão na sua vida. Você não vê? Ele não precisava de você, mas te escolheu assim mesmo, porque você tem esse dom. Falar em um estúdio é diferente, sim. Eu entendo que você possa ter medo de que uma plateia o veja, ou até reconheça a sua voz, mas você não precisa ter esse medo.
— Como pode dizer isso?
David deu de ombros.
— É simples. Você não é duas pessoas. Você é uma pessoa só. Isaac Diaz, o Semeador da Verdade, um pregador que fala não porque quer ser ouvido, e sim porque Deus te mandou falar. Esse é quem você é, e não precisa esconder isso. Deixe que as pessoas te ouçam. E se reconhecerem e o seu anonimato acabar… aconteceu no tempo certo.
Isaac engoliu seco ao ouvir as palavras de David. Nos últimos dias, era como se essa reflexão sobre o tempo estivesse se repetindo. Novamente, Deus estava enviando a mesma mensagem para Isaac, várias vezes, e ele estava racionalizando demais em vez de simplesmente ouvir e confiar.
“Filho, você pode fazer isso”, Alexander digitou. “Não acha que foi por isso que Deus te trouxe a esse retiro e me deixou sem voz bem nessa hora?”
— Vocês estão me deixando confuso! — Isaac exclamou repentinamente. — Eu… eu preciso orar. Preciso da direção de Deus. Agradeço pelo ponto de vista, mas não é o bastante. Com licença, senhores.
Isaac saiu do quarto de Alexander imediatamente. Os dois amigos se olharam e David viu Alexander suspirar como se estivesse cansado.
“Um garoto muito especial, mas muito teimoso…”
— Não se preocupe, Alex — disse David com um sorriso reconfortante —. Isaac saberá o que fazer. Eu confio nele.
Isaac sabia muito bem o que aquela palpitação excessiva significava; ele estava à beira de um ataque de pânico.
A parte mais difícil era querer ignorar que aquela circunstância inteira foi desenhada por Deus para aquele momento específico. Isaac nunca iria para um retiro, mas foi para esse. Seu pai nunca perdia a voz e não fazia jejum nas semanas em que ele tinha compromissos marcados, mas as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Isaac não tinha dúvida de que a mão de Deus estava agindo; só não foi da forma como ele queria.
— Senhor, essa é a hora? Eu preciso mesmo fazer isso?
Silêncio — obviamente. Isaac não esperava ouvir uma voz dos trovões, mas esperava um pensamento repentino, uma sensação de calma antes da inevitável decisão. Mas tudo o que sentiu dentro de si mesmo foi silêncio e o eco das palavras de seu pai: “Não acha que foi por isso que Deus te trouxe a esse retiro e me deixou sem voz?”
A resposta era gritante, mas ele não queria ouvir. Não queria aceitar que aquele possivelmente seria o fim de seu ministério como ele o conhecia.
— Estou com tanto medo… Não devia, mas não consigo evitar. — Ele olhou para o céu e massageou a garganta. — O que eu faço?
“Por que você está com medo?”
— Tenho medo de que as pessoas me ouçam. Eu temo o julgamento, as oportunidades, a validação. Eu temo tudo que isso pode causar ao meu espírito. E sei que não estou sendo razoável, mas o que posso fazer?
“Por que você está com medo?”
A oração foi interrompida quando o celular de Isaac vibrou em seu bolso com uma mensagem no grupo dos jovens. Estava sempre silenciado, mas daquela vez, alguém havia marcado todos os membros do grupo em uma mensagem. Após rolar a tela por alguns segundos, viu que a mensagem era de Diego — pois seu assistente havia sido adicionado ao grupo logo após a inscrição no retiro —, com um corte do podcast. Foi o último episódio que Isaac agendou antes de ir.
— Acho o termo ‘fé cega’ um tanto redundante. Se a fé é o firme fundamento do que se espera e a prova do que não se vê, então ela já é cega, afinal, é a confiança no que não pode ser visto. Gosto de lembrar do exemplo de Abraão. Quando Deus o chamou, Ele não disse para onde o mandaria. Se fosse qualquer um de nós, talvez tivéssemos perguntado: ‘Senhor, mas que terra é essa? Onde fica? Não foi isso que Abraão fez, e ele, sendo humano como nós, talvez tivesse todos os motivos para desejar questionar. (Pausa).
— Eu já disse isso antes: vá onde Deus te mandar, sem medo. Tenha fé, confie. Talvez você receba o chamado durante uma encruzilhada, ou talvez tudo esteja ‘bom demais’ e Ele te peça para largar tudo. Siga em frente e não tenha medo. (pausa). O autor do livro de Hebreus estava certo quando disse que, sem fé, é impossível agradar a Deus.
— Se Ele nos manda fazer alguma coisa, e não o fazemos por medo, então não temos fé, e desagradamos a Deus porque não confiamos o bastante para fazer o que Ele mandou. Então, aqui vai meu questionamento a você, querido ouvinte: não é ‘o que você tem medo’, e sim ‘por que você está com medo?
Isaac refletiu sobre as próprias palavras. Gravou aquele episódio semanas antes, após um estudo fazendo paralelos entre os relatos do antigo testamento com as cartas do novo testamento. Lembrou que toda aquela reflexão falou muito ao seu coração e que estava disposto a obedecer sem questionar… Mas, algo que também estudou em outras ocasiões é que a disposição não bastava; era necessário compromisso e disciplina. Enfrentar o desconhecido, mesmo temeroso.
Ele respirou fundo e bloqueou o celular após enviar uma mensagem ao seu pai e a David.
Isaac: Muito bem. Vou fazer isso. Seja o que Deus quiser.
Letícia não viu Isaac o dia inteiro e não tinha ideia sobre o que ficou decidido a respeito da pregação do pastor Alexander. Ela apenas orou para que Deus conduzisse aquele dia conforme a vontade dEle.
Buscou se distrair com as oficinas, mas sua mente estava em Isaac e Ismael, perguntando-se o que tinham conseguido resolver. Também não viu o pai ou a mãe desde a hora em que Alexander e Raquel haviam chegado ao sítio, então ela estava completamente às cegas.
Além disso — com todo o respeito às pessoas maravilhosas que tinham preparado aquela oficina de cerâmica — Letícia não gostava tanto de atividades manuais. Deveria ter ido jogar futebol, mas não queria ficar cercada só de rapazes barulhentos e competitivos enquanto todas as suas amigas foram fazer cerâmica.
— Seu vaso ficou meio torto — disse Ester com divertimento, e a risada dela fez Letícia acordar de seu devaneio.
— Ah. Caramba, isso tá horrível.
— Por que você veio fazer cerâmica hoje? Não teve aula de montaria?
— O Isaac suspendeu. O Hades tinha que descansar e teve alguns imprevistos…
Ester assentiu, sem perguntar quais eram os imprevistos. Letícia ficou mais próxima da garota depois de entrar no ministério de jornalismo e encontrou uma boa amiga nela.
— Eu tenho que perguntar… — Ester sussurrou. — Quem é o rapaz que você e os “patriarcas” trouxeram? Eu nunca o vi na nossa igreja.
— O Diego? Ele congrega em outra cidade, mas parece que está pensando em ir para a nossa igreja. Ele é estagiário do Isaac.
Ester murmurou um “hum”, enquanto mantinha seus olhos no vaso.
— Sabe quanto tempo de cristão ele tem?
— Não o conheço tão bem, mas, pelo que vi, ele tem a fé madura. A convivência com o Isaac com certeza ajuda.
Ester ergueu uma sobrancelha.
— Falando nele, eu percebi que vocês têm estado… próximos.
Letícia suspirou. Ela já havia ouvido aquela insinuação.
— Somos só amigos. Eu o conheço desde sempre; é natural que sejamos próximos.
— É, mas todo mundo percebeu, Letícia.
— Percebeu o quê?
— Que ele mudou, de repente. Vocês andam juntos, conversam, e a mudança mais chocante: ele veio ao retiro! — Ester olhou ao redor e sussurrou — A Cléo acha que vocês estão juntos e está fazendo de tudo para confirmar.
Letícia franziu o cenho. Cléo era uma adolescente que tentou sentar perto do Isaac em todas as atividades do retiro, e até se inscreveu nas aulas de montaria.
— Eu e o Isaac não somos um casal. Ele não é esse tipo de pessoa. Ele é tipo o décimo terceiro.
— Décimo terceiro?
— É, o décimo terceiro discípulo. A gente sabe que Jesus tinha doze, e o único desses discípulos que era casado era Pedro. Os outros ficaram sozinhos e morreram assim. O mesmo aconteceu com Paulo.
Ester franziu o cenho.
— Isso é… diferente. Mas não importa, sabe como as pessoas são. Mesmo que você e o Isaac sejam só amigos, a proximidade de vocês comunica o contrário.
Letícia se frustrou com a cerâmica e limpou as mãos.
— E isso é o que não importa. Eu e o Isaac sabemos o que é de verdade, e Deus também sabe. Já fui alvo de fofocas uma vez, Ester. Isso passa. — Letícia deu de ombros, fingindo indiferença —, mas, por respeito ao Isaac, não quero vê-lo passando por isso.
Ester assentiu e continuou fazendo seu projeto de cerâmica.
— Bom, como líder, ele é brilhante. Seu pai fez uma ótima escolha ao indicá-lo.
A conversa entre as duas amigas foi interrompida por um furacão ruivo entrando às pressas na sala da oficina de cerâmica.
— Letícia! Letícia! — os olhos de Diego percorreram a sala até encontrar a garota. Ele estava suado e ofegante, acabando de sair do futebol — Código azul!
Os olhos de Letícia se arregalaram. “Código azul” era um sinal secreto para que ela, Ismael e Diego soubessem quando Isaac precisava deles. Era a primeira vez que o código azul era usado com Letícia, e ela não pôde evitar achar a situação um tanto emocionante.
— Graças a Deus! — ela exclamou, deixando a bagunça de cerâmica para trás. — Até mais tarde, Ester!
A garota ergueu uma sobrancelha em confusão, mas não perguntou.
— Ok… até mais!
— Você quer as anotações do papai? — perguntou Ismael, enquanto o irmão mais velho penteava o cabelo na frente do espelho.
— Não. Não preciso das anotações.
— Tem certeza? Você pode ficar nervoso; seria bom ter um roteiro.
— Ismael, você não está ajudando — murmurou Diego. — O Isaac não fica com os roteiros quando vai gravar.
— Mas isso é diferente! Ele vai falar ao vivo.
— Que diferença faz? Ele grava tudo de primeira; a única edição que eu faço é incluir os patrocínios dele depois de 20 minutos de episódio…
— Será que vocês podem calar a boca? — Isaac olhou para os dois. Ele havia penteado o cabelo, o topete levemente desarrumado, e vestiu uma camisa social, deixando os botões do pescoço soltos. — Vai ser jogo rápido, meu pai teria quarenta minutos de sermão antes do louvor subir ao palco novamente. É isso que eu vou fazer, mas vocês estão me agitando.
— Desculpa, Isaac — disse Ismael. — É que… eu estou preocupado com a sua tranquilidade diante dessa situação.
Isaac ergueu uma sobrancelha em sarcasmo.
— Quer que eu fique ansioso?
— Pelo amor de Deus, não! — Letícia abriu a porta do quarto dos meninos, ouvindo o final da conversa. — Você está ótimo, Izaquias. Só vai precisar disso aqui. Está carregado, só precisa ligar quando subir ao palco.
Ela lhe entregou um microfone portátil, que Isaac prendeu no bolso da calça jeans e enrolou o fio ao redor do pescoço.
— Obrigado, Letícia — ele sorriu em gratidão. Não estava agradecendo só pelo microfone. Tinha muita coisa que queria dizer a ela, mas não achava as palavras certas. Tinha medo de estragar tudo se dissesse que achava que gostava dela de outra maneira que ele nunca soube compreender. Era melhor ficar quieto.
— Alguém mais já sabe que vou substituir o meu pai?
Ismael negou com a cabeça.
— Não. Preferimos manter o elemento surpresa para ninguém o procurar antes.
— Fizeram bem.
Isaac se olhou no espelho mais uma vez e endireitou a postura. Estava na hora de sair do aquário.
Ele tirou os óculos e viu no espelho aquela expressão corajosa e ousada — e embaçada — que sempre via antes de gravar o seu podcast. Lembrava que, quando começou a gravar, ficava muito nervoso e tinha que reiniciar a gravação o tempo inteiro. Foi quando resolveu tirar os óculos para gravar e percebeu que a vista embaçada o ajudava, pois ele não enxergava nitidamente o espaço ao seu redor, então não se preocupava com uma audiência que ele não podia ver.
— Certo, estou pronto.
Ismael, Diego e Letícia assentiram silenciosamente, apoiando o amigo mesmo sem dizerem uma palavra.
— Estaremos em oração — disse Ismael, abraçando o irmão mais velho. — Vai dar tudo certo, eu confio em você.
— Eu sei, maninho. Obrigado.
* * *
Isaac se sentou na quarta fileira, como de costume, no horário do culto. Estava sozinho, pois Letícia e Ismael estavam nos bastidores e Diego foi se sentar com alguns garotos do futebol, sabendo que Isaac precisava de espaço antes de dar aquele passo tão grande.
Ele orava silenciosamente, os pensamentos voltados para Deus, quando as duas cadeiras ao seu lado foram ocupadas. Isaac respirou fundo, sentindo-se cercado e incomodado.
— Oi, Isaac! Que surpresa te ver aqui! — disse Cléo, com um sorriso forçado. Laura, a amiga dela, estava sentada à esquerda de Isaac.
— Surpresa por quê? — Isaac perguntou, sem filtro e sem olhar para Cléo. — Eu te dei aula, você sabia que eu estava aqui.
— Ah, você sabe! — ela manteve o sorriso forçado.
— Não sei não — Isaac olhou para ela com uma expressão confusa, que a deixou sem jeito.
— É o seu primeiro retiro, não é?
— É o segundo, na verdade.
— Sim, eu lembro! — exclamou Laura, inclinando-se para olhar para Cléo. — O Isaac ficou doente naquele retiro que ele foi na casa do Silas, lembra?
— É verdade! Faz tanto tempo que eu tinha esquecido! Aquele retiro foi tão divertido; tinha que adoecer logo naquele dia?
Isaac ergueu uma sobrancelha.
— Garanto que não foi premeditado.
— E por que veio dessa vez? — indagou Laura. — Você não gosta do Silas, né?
— Eu não disse isso.
— Mas é engraçado você ter vindo justamente quando não fomos para a chácara do Silas. — Cléo continuou naquele vai-e-vem indiscreto de perguntas e suposições.
— Meu irmão organizou esse retiro. Pareceu certo vir — Isaac deu uma resposta vaga, esperando que aquilo acabasse.
— Bom, o Ismael com certeza surpreendeu — Cléo disse com o nariz empinado. — Gostei muito desse lugar.
Isaac agradeceu a Deus quando as duas ficaram em silêncio, mas bastou Letícia aparecer no canto do palco ajustando os microfones que as duas voltaram a falar.
— Isaac, posso perguntar uma coisa? — disse Cléo, e ele não resistiu a fazer uma gracinha.
— Outra?
— Hã?
— Você perguntou se pode me perguntar uma coisa. Isso já foi uma pergunta, então você quer fazer outra pergunta.
Isaac sorriu de canto, vendo as engrenagens na cabeça dela girando.
— Bom, enfim — Cléo deixou essa parte de lado. — Você e a Letícia estão juntos?
A cabeça de Isaac virou tão rápido que ele podia ter um derrame.
— Como é?
— Ué, estou perguntando se você e a Letícia são um casal. Ela entrou em todos os ministérios em que você estava e vocês andam juntos para lá e para cá…
— E o pastor David gosta muito de você — Laura continuou — Só ficamos curiosas.
Isaac suspirou. Nossa, como ele odiava fofocas.
— Não estamos juntos, e, se estivéssemos, isso não era da conta de vocês.
Por aquela resposta, elas não esperavam.
— Ah… Desculpa, é que a gente ouviu…
— Não importa o que vocês ouviram — Isaac falou com firmeza. — Se não veio da minha boca ou da Letícia, não é verdade — ele se levantou. — Com licença, meninas.
Era só o que faltava. As pessoas nem sabiam o segredo dele e já arrumaram motivos para fazer fofoca.
Isaac não queria nem imaginar o que aconteceria depois de finalmente falar em público.
Quando chamaram Alexander Diaz para ir para o palco, Isaac se levantou e caminhou lentamente, focando em não tropeçar diante do caminho embaçado. Assim que subiu no palco, ligou o microfone, respirou fundo e começou a falar, sem se importar com quem o via ou que reações tinham.
— Olá, meus amigos. Sei que hoje esperavam ver o meu pai aqui na frente, mas, infelizmente, ele ficou sem voz assim que chegou aqui, e coube a mim a responsabilidade de trazer a palavra a vocês.
Isaac fez uma pausa e começou a caminhar, fingindo que estava em seu estúdio particular.
— Eu gostaria que todos fechassem os olhos e se imaginassem em um deserto. Um deserto de verdade. Sol escaldante, areia para todos os lados e a sua garrafa térmica não consegue, por nada, manter a sua água gelada, o que com certeza é algo difícil de imaginar, eu sei.
Isaac ouviu alguns risos e continuou.
— Então, você começa a caminhar nesse deserto e encontra uma palmeira. As palmeiras têm folhas grandes, não é? São perfeitas para fazer sombra. Você pode descansar debaixo dessa palmeira e recuperar a energia para prosseguir a caminhada. E é o que você faz quando está descansado o bastante. Você ficou tão feliz por ter achado uma palmeira no deserto, mas em nenhum momento se perguntou como aquela árvore sobreviveu naquele calor que estava quase te matando — ele fez uma pausa e sorriu com divertimento. — Talvez estivesse tão quente que você até esqueceu que provavelmente tinha um oásis ali por perto.
Isaac bebeu um gole de água que deixaram para ele em uma mesinha.
— Amigos, abram os olhos e procurem o Salmo 92, versículos 12 até 15.
Assim que Isaac leu o texto, ele prosseguiu:
— O salmista, assim como em muitos salmos, usou uma linguagem figurada que carrega um grande simbolismo. Ele não falou assim para ficar bonito, e sim porque é a verdade.
Isaac fez uma breve pausa e limpou a garganta.
— O justo floresce como a palmeira porque vive em um mundo injusto; em um deserto espiritual. Mas, como filhos de Deus, nós florescemos mesmo nesse deserto. Não é uma questão de “e se?”. É inevitável. No entanto… enquanto o deserto é injusto, o Senhor é justo. Ele conhece os filhos e nos faz florescer independentemente de quão horrível é o deserto que estamos enfrentando.
— Quantas vezes vocês já se encontraram em situações de injustiça, mas permaneceram firmes no que era certo e Deus os honrou? Quantas vezes teve alguém procurando sombra debaixo da sua palmeira?
Isaac não conseguia ver as reações das pessoas, mas percebeu que todos estavam em silêncio, prestando atenção em suas palavras.
— Jesus disse que, no mundo, teríamos aflições, mas que tivéssemos bom ânimo, porque Ele venceu o mundo. Muitas vezes ficamos tentados a seguir o caminho mais fácil ou mais recompensador, mesmo que ele vá contra os nossos princípios. Parece muito mais fácil ganhar dinheiro enganando pessoas do que trabalhar para construir algo sólido e verdadeiro.
— Na igreja, parece muito mais fácil se considerar como o melhor em tudo do que reconhecer que talvez outra pessoa tenha mais condição do que você naquele momento. Ou, no trabalho, quando você está em uma posição de liderança, parece muito mais fácil gritar com os outros e impor suas vontades à força do que exercer sua autoridade de forma respeitosa e firme ao mesmo tempo.
— Eu já vi tudo isso, e sei que você também. Por mais que pareçam coisas pequenas do nosso dia a dia, Deus nos alertou sobre cada uma delas, e nada disso passa despercebido.
— Esse tipo de gente floresce como as rosas ou as orquídeas. Por fora, são sempre vistos e, às vezes, até amados pelos outros; por dentro, estão morrendo, porque a raiz é fraca. Quando menos esperamos, a rosa está murcha e as pétalas da orquídea começaram a cair.
— Mas as palmeiras, que ficaram debaixo do sol e de tanta hostilidade… floresceram. E não floresceram por mérito próprio, de forma alguma, e sim o nosso Pai, que está nos céus, quem nos fez florescer e dar frutos.
— E, provando o que esse salmo diz no final, Ele faz dar frutos até mesmo na velhice. É por isso que existem tantas pessoas mais velhas que florescem mais do que muitos jovens com mais condição física.
Ele bebeu água novamente, percebendo que falou muito sem fazer pausas. Respirou fundo antes de prosseguir.
— E, se o que eu disse não fez sentido para você, apenas reflita: quais sucessos você teve na sua vida que não te colocaram debaixo de um deserto? E, quando você atravessou esse deserto, você murchou como as flores, ou suas raízes permaneceram fortes como as palmeiras?
— Isso é tudo o que tenho a dizer. Que Deus os abençoe.
Isaac ouviu apenas um coro de “Amém” enquanto saía do palco apressadamente.
Isaac vomitou assim que conseguiu alcançar o banheiro. Quando se recuperou, mal conseguiu acreditar no que havia conseguido. Sabia que muitos certamente veriam sua reação como um drama exagerado, mas só ele e Deus sabiam como aquela situação sempre o apavorou. Mas ele se sentia grato, não só por ter acabado, mas por ter conseguido.
Ele estava lavando as mãos quando a porta do banheiro masculino se abriu, revelando David. Agora que estava mais tranquilo, Isaac reparou que o pai de Letícia estava vestido bem à vontade, com uma calça jeans e uma camisa cinza com o símbolo do Homem-Aranha. Bem diferente da versão engravatada que sempre via aos domingos.
— Está se sentindo bem? — perguntou David.
— Estou. Só fiquei um pouco enjoado depois que desci do palco. Eu senti muitas coisas ao mesmo tempo.
— Eu entendo. Mas você se saiu muito bem.
— Obrigado. Mas ainda não acho que sirvo para isso. A linguagem não pareceu adequada. Parecia pessoal demais.
— Eu achei bastante adequada. E você se desenvolveu bem lá no palco. Sua postura, sua fala. Especialmente sua fala. O Semeador tem um estilo único e especial que combina com você.
Quando Isaac secou as mãos e colocou os óculos, ele olhou para David como alguém que pedia desculpas.
— Sinto muito por ter feito Letícia guardar segredo de você.
— Não precisa se desculpar por isso, Isaac. Eu entendo o que você fez. Só não entendo por que tinha tanto medo de ser descoberto.
— Eu explicaria se entendesse também — Isaac suspirou e deu de ombros. — É algo que já faz parte de mim, eu acho. Mesmo que lute contra isso, não muda o fato de eu sempre me sentir doente depois de fazer algo assim. Aprendi a aceitar o desconforto como uma constante na minha vida. — Isaac fez uma pausa e riu consigo mesmo. — Alguns dizem que quanto mais fazemos, menos desconfortável fica, mas não acontece comigo. Acho que, com o podcast, eu só queria me sentir no controle de pelo menos alguma coisa.
David assentiu, mas não disse nada. Ele sabia muito bem que, em alguns momentos, era melhor apenas ouvir.
— Mas eu estou bem — Isaac prosseguiu — Estou feliz por ter conseguido.
— Você me lembrou muito o seu pai. Ele ficaria orgulhoso se tivesse visto.
— Bom, ele vai ver a transmissão depois. — Isaac sorriu de leve e olhou para a porta. — É melhor eu ir. Preciso ver meu irmão.
Mas, antes que Isaac saísse, David o chamou.
— Isaac?
— Sim?
O mais velho hesitou por um instante, mas depois sorriu para o rapaz.
— Quero que saiba que fico muito feliz vendo a sua amizade com a minha filha. Você importa muito para a Letícia e sei que você pensa o mesmo dela.
Isaac congelou da cabeça aos pés. Era tão óbvio assim? Era por isso que as outras pessoas estavam fazendo fofoca?
— É verdade. Mas somos apenas amigos, tio David. Só estou deixando claro.
— Eu sei. Mas acho que você não teria que se justificar se sentisse apenas uma amizade.
Isaac passou a mão no cabelo e olhou para o teto, evitando o olhar indagador de David. Aquele homem sempre foi muito perspicaz, característica que sempre deixava Isaac com o pé atrás na cidade pequena onde moravam — afinal, a perspicácia de alguns levava a conclusões precipitadas e equivocadas. Mas não era o caso de David. Ele havia acertado em cheio.
— Não posso oferecer mais do que já dei. Por mais que eu quisesse. Sinto muito.
Após dizer isso, Isaac saiu.
* * *
Ao final daquele dia, Letícia foi se sentar às margens do lago onde ela e Isaac tinham pescado antes. Não o viu desde que o culto acabou, reconhecendo que talvez ele estivesse cansado e precisasse de um tempo sozinho.
Estava com a Bíblia aberta no Evangelho de João, lendo passivamente, quando ouviu uma voz se aproximar.
— Estão te procurando lá dentro.
Diego se sentou ao lado dela, o vento suave do anoitecer bagunçando sua franja ruiva.
— Avisei à minha mãe que estaria aqui. Queria um pouco de silêncio.
— Você e o Isaac, então — ele sorriu e tirou o celular do bolso. — Eu gravei uns trechos dele lá em cima, para ele se ver depois… bom, se ele quiser, claro.
Diego mostrou os vídeos para Letícia, que reviveu o momento de ver Isaac lá na frente como se estivesse acontecendo de novo.
— Se todos descobrissem… como acha que ele reagiria?
— Sinceramente, eu não sei. Acho que ele aceitaria a providência e tentaria levá-la É o que ele faz com qualquer coisa.
— Então… outra máscara?
Diego assentiu e suspirou.
— Eu queria muito entendê-lo melhor. Quando as coisas parecem estar funcionando, ele constrói de novo uma ponte entre nós.
— Bom, claramente essa não é a vontade dele.
— Como assim?
Diego olhou para ela, como se ela tivesse um olho na testa.
— Não brinca… É sério que você não percebeu?
— Não percebi o quê?
— Ah, meu Deus! — Diego parecia muito, muito surpreso, e também decepcionado. — Letícia, o Isaac está apaixonado por você!
LIGA DA JUSTIÇA
(Isaac está offline)
Ismael: — Isaac, você me bloqueou?
Ismael: — Não consigo falar com você.
Ismael: Cadê você, irmão???
Diego: — Ele foi para Miami.
Ismael: — QUÊ?!
Ismael: — No último dia do retiro???
Letícia: O que ele foi fazer em Miami? Quando ele viajou?
Ismael: — Por que você não disse nada, Diego? Nós não o vimos desde o sermão e você sabia que queríamos falar com ele.
Diego: — Sem querer ofender vocês que também sabem do Semeador, mas eu meio que sou pago para não dizer nada.
Diego: — E ele paga mais do que o meu salário de estagiário no Skyline, então não estou em posição de trair a confiança do chefe.
Diego: — A passagem já estava comprada antes, galera. Ele não está fugindo.
Ismael: Ah.
Ismael: — E quando ele volta?
Diego: “Antes do fim das férias”, foi o que ele disse.
Letícia: E não vamos conseguir falar com ele até ele voltar?
Diego: — Não Ele troca para a linha internacional quando faz essas viagens, assim ninguém lá no trabalho fica tentando ocupar ele durante as férias.
Ismael: — Eu ainda não acredito que ele foi para Miami sem avisar.
Letícia: — Eu acredito.
Letícia: — Bom, o Isaac foi embora, mas o retiro não acabou. Vamos nos organizar para o encerramento, tudo bem?
Ismael: Tem razão. Vamos indo.
Letícia teve dificuldades para processar a informação que Diego havia lhe dado naquele dia: Isaac estava apaixonado por ela.
Como poderia ser possível Não vira em Isaac nada que pudesse indicar isso. Não acreditava que o fato de ele sempre se afastar quando as coisas melhoravam era sinal de que ele nutria algo a mais por ela.
— Me surpreende você não ter percebido — disse Ismael, quando ela foi conversar com ele a respeito do assunto. — O Isaac foi bem óbvio.
— Talvez para você que cresceu com as nuances do seu irmão. Eu não consigo entender.
— E eu acho que você não tentou entender, Letícia — disse Diego, afinando o violão para o culto de encerramento. Ele torceu o nariz com o acorde desafinado. — Eu não cresci com ele, mas já consegui perceber que o Isaac tem um jeito próprio de demonstrar as emoções. Se você esperava que ele fizesse algum tipo de declaração, não conte com isso.
— Ele nunca vai admitir — Ismael continuou — Mas não temos dúvidas quanto aos sentimentos dele.
— Como podem dizer isso se aparentemente ele mesmo tem dúvidas?
— “Aparentemente”. Você usou a palavra certa. Ele não tem dúvidas, Letícia. Ele sabe, só que não vai admitir.
— Por quê? — perguntou, frustrada, mas a pergunta saiu quase como uma exclamação. — Poxa, eu também gosto dele!
Ismael e Diego se entreolharam. Ismael, com um sorriso irônico, enquanto Diego tirava uma nota de 20 reais da carteira.
— Eu sabia. Por isso te coloquei com ele para cuidar dos cavalos. Diferente dele, você é bem óbvia.
Letícia franziu o cenho.
— Não sou, não!
— Claro que é — Diego afirmou e colocou o violão de lado. — Você sempre coloca um limite na sua amizade com os rapazes. Nunca se senta perto deles, a menos que sejam mais novos do que você; não os cumprimenta sempre com abraços e sempre tem mais alguém por perto. Quando não é sua família, é alguma menina.
— Você sempre foi atrás dele, mesmo antes de ele te dar espaço na vida dele, o que me sugere que você já gostava dele antes, mas não sabia como se aproximar. O que é esperado de alguém como o Isaac?
— Quando você aprendeu a forma certa de se aproximar dele, ele baixou a guarda. A amizade de vocês cresceu e ele não soube lidar com os sentimentos que apareceram, então se esquivou.
— Quer uma evidência maior? O fato de ele deixar você encostar nele já diz muito. — Diego então disse em tom conspiratório — As mulheres lá no Skyline eram doidas por ele, mas o Isaac sempre foi meio… sem filtro, no que diz respeito a interações não solicitadas, especialmente se alguém encostava nele. As reações dele eram muito bruscas quando alguém toca nele, e isso afastou algumas delas, mas também criou o rótulo de esquisito.
Ismael assentiu, sabendo que o irmão era assim.
— Isso já aconteceu na igreja também. Ele odeia quando o cumprimentam com toques físicos não solicitados. Mas, com você, Letícia, ele não só retribui, como muitas vezes ele inicia.
Letícia se lembrou de que isso acontecera várias vezes. Isaac a abraçava de forma espontânea, segurava sua mão. A memória da primeira vez que almoçaram juntos voltou com força à sua mente, de quando ele a consolou após ela ter se emocionado com o desabafo dele sobre seu “espinho”.
— Tudo bem… mas, se ele não falar, nada vai acontecer. Eu não posso me basear nesses sinais pequenos; estamos falando do Isaac.
— Nesse caso, se você ainda tem dúvidas, talvez o melhor seja confrontá-lo diretamente — Ismael sugeriu. — Ele não aceita isso de ninguém… mas aceitará de você, se esses sentimentos realmente existirem. Ele nega para os outros, mas não negaria a você.
— Não se preocupe com o que vai dizer; o Isaac não está aqui, então vocês só poderão conversar quando ele voltar —, aconselhou Diego. — Quando ele voltar, só aí você pensa no que vai dizer. As palavras certas vão chegar.
Uma parte de Letícia achava engraçado que ela estivesse recebendo conselhos de relacionamento de dois adolescentes solteiros. Aquilo parecia impossível de ser algo certo, mas a amizade dela e de Isaac também parecia, a princípio, e mesmo assim aconteceu.
Ela tinha que se lembrar de que, para Deus, nada era impossível.
A viagem para Miami durou 12 horas, com uma breve conexão na Cidade do Panamá. Isaac passou toda a viagem acordado, pois não conseguia dormir em um avião de jeito nenhum.
Assim que pousou em Miami, pegou sua bagagem e chamou um táxi para ir ao hotel. Estava muito cansado, mas não queria perder tempo. Assim que se instalou, procurou a localização da igreja que queria visitar em Miami e chamou outro táxi. Fez uma nota mental de que seria melhor alugar um carro durante aquela semana para se deslocar com mais facilidade.
Assim que estacionou na frente da Grace Harbor Community Church, Isaac conseguiu ouvir o coro cantando aquelas melodias animadas e coreografadas que ele não via com frequência em sua igreja no Brasil. Por mais que o regente da Luz que Fica não fosse tão tradicional musicalmente, a congregação preferia que as músicas do coro fossem mais clássicas, e as mais animadas ficassem para os ministérios mais jovens.
Isaac se sentou no último banco, pois o lugar estava cheio, e observou cada detalhe. Sabia que aquela igreja era nova, mas estava bastante amadurecida. Ele não tinha dúvidas de que estaria.
De onde estava, avistou o pastor Brian Winston e sua esposa Olivia, sentados nas primeiras fileiras com as filhas, duas garotas gêmeas que deveriam ter uns 12 anos. Isaac quis falar com eles, mas preferiu esperar até o final do culto.
Brian era o pastor titular daquela igreja em Miami, mas Isaac o conheceu no Kansas. Naquela época, Brian e Olivia ainda não tinham igreja fixa e estavam trabalhando lá. Foi ele quem discipulou Isaac e o batizou.
As lembranças confortaram o coração de Isaac, fazendo-o esquecer completamente as ansiedades que sentia em sua cidade natal, por mais que Miami conseguisse ser tão ruidosa quanto Porto Claridade.
Brian não havia mudado muito. Ele era alto e tinha cabelos negros e encaracolados que estavam mais curtos do que da última vez que Isaac o viu.
Ele acompanhou todo o sermão atentamente. Brian era curto e direto. Não floreava e não precisava explicar demais. Ele dizia o que precisava ser dito, da forma que precisava ser dito, assim como Isaac fazia em seu podcast.
Ao final do culto, Isaac se levantou e viu muitas pessoas indo embora ou trocando conversas breves e educadas antes de ir. Não ficavam lá por tanto tempo após o final do culto; até porque, com base no que Isaac ouvira, a maior parte da membresia tinha outras atividades eclesiásticas aos domingos além do culto.
Isaac caminhou até a frente do templo, onde Brian e Olivia cumprimentavam alguém. Ele esperou pacientemente a conversa terminar, antes de se reapresentar.
— Foi um excelente sermão, pastor Brian — disse, com o inglês impecável que passou anos aperfeiçoando. — O senhor se lembra de mim?
Brian sorriu para Isaac, olhando-o curiosamente antes de seus olhos se iluminarem.
— Meu Deus, é o Isaac Diaz? Filho do Alexander?
— Em carne e osso.
Brian o abraçou alegremente e o apresentou a alguns membros que estavam nos arredores.
— Eu batizei esse garoto quando ele era criança! Agora olha para você, está mais alto do que eu!
— É, já faz um tempo. Eu vi na internet que você abriu essa igreja e estava com muita vontade de conhecer.
— Você sabe que é sempre bem-vindo, meu rapaz. Venha comigo, por favor.
Isaac seguiu Brian até o gabinete e se sentou de frente para o mais velho, que lhe serviu uma xícara de café.
— E a sua família? Como estão Alexander, Raquel e Ismael?
— Estamos todos bem. Deus tem nos sustentado. O Ismael está se preparando para o vestibular agora?
— É mesmo? Nossa, o tempo voa! Mas e você, o que tem feito?
Isaac suspirou, recostando-se na cadeira.
— Muitas coisas. A minha vida virou de ponta-cabeça nos últimos meses, e eu senti que precisava de um ponto de equilíbrio antes de encarar o que pode estar por vir, então vim para cá nessas últimas semanas de férias.
— Entendi… — Brian entrelaçou os próprios dedos em cima da mesa. — Lá no Brasil, você conseguiu ir ao seminário?
— Eu recebi a oportunidade, mas não fui. Optei pela graduação formal em teologia e, sinceramente? Eu me encontrei nisso. Acho que o senhor sempre soube que eu não tinha jeito nenhum para ser pastor.
— Bom, você sempre teve o dom da palavra, mas também sempre teve ansiedade na hora de falar, não é?
Isaac balançou a cabeça positivamente.
— Eu ainda tenho esse problema, Brian. Essas coisas não têm cura. Faz algum tempo que sinto que os remédios não fazem mais o mesmo efeito que faziam antes, e a minha terapeuta não pode aumentar as doses porque causam irritabilidade e outros efeitos colaterais. Desde então, eu segui tomando as doses normais e indo às sessões. Mas eu tenho orado muito e me colocado em situações que normalmente eu não me colocaria. — Isaac fez uma pausa e riu. — Essa semana eu fui para um retiro de jovens da minha igreja, e eu nunca frequento essas coisas.
— Então você fez um excelente progresso! — Brian sorriu orgulhoso. — Como foi?
— Foi legal, devo admitir… até eu precisar pregar.
Então, Isaac contou a Brian tudo que havia acontecido no retiro, desde sua chegada até a súbita perda de voz de Alexander. E, ao contar toda a história para Brian, ele precisou revelar o podcast e tudo o que havia passado desde então. O pastor ouviu atentamente a história de Isaac, interessado em cada pedacinho dela.
Especialmente quando Isaac mencionou Letícia.
— Realmente, foram muitas coisas em apenas seis meses, mas eu preciso dizer… estou muito orgulhoso de você, Isaac. Dá para ver como você progrediu muito na sua vida pessoal e em seu relacionamento com Deus.
— Eu gostaria de poder sentir o mesmo a meu respeito, mas não consigo evitar sentir que ainda estou falhando. Não quero ser perfeito, mas… eu não aguento mais isso. Não aguento mais sentir que estou morrendo por dentro quando eu devia estar feliz por poder servir a Deus. Eu o sirvo de coração, mas a minha carne parece estar contra mim. Consegue entender? Por mais que eu queira e faça… o que sinto depois é insuportável. E não devia ser assim. Eu me sinto perdido!
— Isaac, meu rapaz, você não está perdido. Pode haver muitas coisas, mas perdido não é uma delas.
— Como você pode dizer isso?
Por um momento, Brian viu Isaac como o garoto que ele discipulou anos atrás, não o homem que ele havia se tornado. Aquele garoto que aparecia com tantas dúvidas ainda vivia no olhar de Isaac, por trás de toda a superfície.
— Você aprendeu a servir a Deus. Aprendeu a negar a sua natureza carnal e a obedecer aos chamados na sua vida, mesmo quando teve medo. Muitas pessoas com anos de cristãs não têm a coragem que você tem, Isaac. E o Senhor não as condena por isso, porque Ele também conhece as limitações. Assim como Ele conhece as suas.
— Mas… — Isaac engoliu seco — essas limitações não podem interferir no meu serviço. Eu não aceito isso.
— Alguma vez elas interferiram realmente? Alguma vez você deixou de fazer o que devia fazer por medo?
— Não… mas também não me senti melhor depois de ter enfrentado o medo. Senti-me grato, mas, fisicamente… não me senti bem.
— E isso não é culpa sua, meu filho! — Brian sorriu levemente. — Deus não rejeita o seu serviço por causa das suas limitações físicas ou de saúde mental. Pelo contrário; ele te fortalece — o pastor fez uma pausa —, mas essas mudanças que você passou nos últimos meses não foram aleatórias. Você precisa entender o que Deus está te dizendo.
— Ele já disse muitas coisas, e eu já as compreendi. Ainda assim, nenhuma delas explicou por que meu espírito está tão perturbado.
Brian se recostou na cadeira e ajustou os óculos no nariz.
— Vamos ver… Você disse que estava no retiro antes de vir a Miami?
— Sim.
— E veio antes do retiro acabar?
— Sim, a passagem estava comprada.
— Para o sábado. O retiro acabou na sexta?
— Sim.
— E você disse que foi embora antes do retiro acabar, mas o seu voo era somente no sábado. Você podia ter ficado até o final. Por que não ficou?
Isaac não respondeu. Não havia resposta.
Após alguns segundos em silêncio, Brian tornou a falar.
— Você disse que se aproximou muito dessa garota, Letícia, recentemente. Ela tem algo a ver com a sua fuga? Te deixou desconfortável de alguma forma?
— Não, de jeito nenhum! A Letícia é… muito especial. Ela é uma pessoa cheia de luz. Você só entenderia se a conhecesse, mas todo o ambiente se ilumina quando ela aparece.
— Parece realmente uma garota especial. E você nunca foi uma pessoa fácil de fazer amigos, pelo que me lembro.
— Não. E continuo não sendo. Mas a amizade da Letícia me fez entender que Deus não me quer sozinho. E eu disse isso a ela, que eu não gosto de estar sozinho, e que nem toda relação humana é ruído.
— Mas…?
Isaac desviou o olhar para uma foto que Brian tinha no gabinete, com a esposa e as filhas.
— Mas estar perto dela seria egoísta da minha parte. Não posso fazer isso com ela. — os olhos de Isaac permaneciam fixos na foto — Se o senhor fosse como eu, teria feito Olivia entrar em seu mundo particular apenas para descobrir que ela não poderia sair? Correria o risco de ser a razão para o brilho dela se apagar? — ele balançou a cabeça, voltando a olhar para Brian — Eu já peço muito dela, pedindo que ela guarde o segredo do Semeador. Se eu me abrisse com ela sobre meus sentimentos e ela correspondesse, eu acabaria forçando-a a largar essa luz que ela sempre carregou e entrar nesse… nesse mar de confusão que é a minha saúde mental e minhas limitações sociais. Eu não posso fazer isso com ela… Deus sabe que tudo que eu queria era uma vida normal… mas não posso fazer isso com ela.
Então Isaac viu Brian cruzar os braços e olhar para ele com seriedade.
— Isaac, seu ponto de vista é compreensível, mas você não tem o direito de decidir isso. Se Letícia deseja se aproximar, é escolha dela. Não pode impedir que uma pessoa se aproxime só porque acha que você não é bom o bastante. Essa é a primeira coisa que você precisa mudar. Esse egoísmo nobre é uma artimanha do mal que você não percebe que está sendo usada contra você. Agir assim vai te deixar sozinho e vulnerável. Como você mesmo já entendeu, Deus não o fez para estar sozinho.
Isaac massageou as têmporas, desconfortável. A verdade foi lançada a ele, e não tinha como escapar; Isaac estava decidindo algo que não era decisão dele e precisava parar.
— Tudo bem, eu entendo. Mas correr esse risco não muda o restante.
— Talvez não mude, mas é um passo em direção à mudança. Você tem muita convicção sobre qual é o seu lugar no mundo como servo de Cristo. Reconhece sua imperfeição, sua limitação e sabe que a Graça lhe basta… mas não percebe que, muitas vezes, não é assim que você age. Você se cobra uma perfeição que Deus não exige de você, enquanto ensina aos outros o oposto do que você faz. Talvez a resposta que você tem procurado todo esse tempo, você mesmo tenha dado todas as vezes em que gravou seu podcast.
— Mas isso não parece certo! — Isaac exclamou. — Não parece certo que essa natureza ainda seja tão forte a ponto de eu não conseguir ser normal. Não quer ser perfeito, Brian. Eu só queria me sentir normal. Pelo menos uma vez.
— Então, se você quer se sentir “normal”, Isaac, você precisa parar de fugir. Você foge do ruído, foge das pessoas, fugiu do retiro para estar aqui e foge de qualquer possibilidade de perder a sua máscara de Semeador da verdade. Me responda com honestidade: quando você se sentiu “normal”? Quando sentiu que estava sendo você mesmo, sem máscaras e sem fingimentos?
— Já disse isso à Letícia — Isaac relembrou. — Eu sou eu mesmo quando estou atrás do microfone, no meu estúdio. É onde eu me sinto normal. Mas não sei se foi assim que me senti quando tive que substituir o meu pai no retiro.
Brian assentiu e refletiu por um longo minuto antes de prosseguir.
— Certo, eu vou te fazer outra pergunta: o que aconteceria se, quando você voltasse ao Brasil, todos tivessem descoberto que você é o Semeador? Não conheço sua congregação, mas como eles reagiriam?
— É difícil dizer. Alguns irmãos não iriam acreditar até que eu mesmo afirmasse. Talvez esses mesmos irmãos que antes me chamavam de “estranho” tentassem se aproximar, embora eu não possa afirmar se as intenções seriam boas ou más. Outros diriam que eu estou só querendo aparecer — Isaac riu amargamente, pensando em Silas — talvez eu ouvisse algumas piadinhas também sobre “ficar famoso e não lembrar dos amigos”, o que quer que isso signifique. Porto Claridade é uma cidade muito pequena e as notícias se espalham rápido.
— Entendi. E o que esses sussurros estariam afirmando sobre você?
— O quê?
— Você ouviu. Claro, são hipóteses do que você acha que eles diriam se descobrissem, mas se elas se confirmassem, o que essas pessoas estariam afirmando sobre você que realmente fosse verdade? Em qual ferida eles estariam jogando sal?
— Nenhuma. Nada disso seria verdade.
— Então… o que você teria a perder, meu filho?
De repente, foi como se a consciência de Isaac tivesse se expandido, e a resposta estivesse muito clara. Ele entendeu onde Brian quis chegar e, mais do que isso, o que Deus esteve tentando dizer a ele desde que seu ministério iniciou.
Deus havia criado Isaac, e Isaac havia se tornado o Semeador. Mesmo com todas as máscaras que criava para se proteger, ele nunca deixou de ser o Semeador da Verdade. Mas o que começou como uma estratégia se transformou em uma barreira e em uma cruz que Isaac passou a carregar deliberadamente.
Sua cruz não era simplesmente sua limitação social e psicológica, e sim o segredo de sua verdadeira identidade, que tanto desejava florescer para além do anonimato, mas não conseguia por causa do medo.
— Não percebe, Isaac? — continuou Brian. — Você sente que o Semeador é outra pessoa que você não tem o direito de ser fora do seu estúdio. É por isso que se sente mal quando tenta ser o Semeador em público. É por isso que se apavora quando alguém descobre seu segredo e é por isso que você não deixa as pessoas se aproximarem. Você tem medo de quebrar a barreira que criou para proteger a sua identidade secreta, que Deus nunca exigiu que fosse secreta.
Isaac gostaria que aquilo não fosse verdade, mas ele sabia que era. Tudo girava em torno da prisão que ele criou para si mesmo. Não era sua aversão a ruídos que o limitava; e sim o seu segredo.
Isaac então endireitou os ombros e limpou os óculos com o tecido da camisa.
— Então eu acho… que chegou a hora de acabar com isso.
Ele se levantou e apertou a mão de Brian; seu rosto estampava gratidão.
— Obrigado. Não tenha dúvidas de que o Senhor te usou, pastor Brian.
— Quando precisar de conselhos, minha porta está sempre aberta.
Isaac estava prestes a sair do gabinete quando ouviu de novo a voz do pastor.
— Ah, Isaac? Eu gostaria muito de conhecer a Letícia um dia. Ela realmente parece uma garota especial. Não estrague isso.
Isaac sorriu abertamente.
— Não irei. Não dessa vez.
Quando Isaac retornou a Porto Claridade, já pôde perceber os sussurros das pessoas ao seu redor, apesar de estar de fone de ouvido. No aeroporto ele já viu isso, e, embora sussurrassem de forma bastante indiscreta, ninguém se aproximou dele.
Aquilo só podia significar uma coisa: sua identidade foi descoberta.
Em Miami, ele havia se preparado espiritualmente e psicologicamente para esse desfecho, então não estava com medo, mas estava vigilante.
Assim que retornou ao apartamento e reativou seu número brasileiro, ele enviou uma mensagem para Diego.
Isaac: — Venha para o estúdio. Temos que conversar.
Em menos de uma hora, o rapaz estava lá.
— Isaac, eu tentei fazer controle de danos, mas não deu… os jovens da Luz Que Fica começaram a comparar a sua voz com a do Semeador. Sinceramente, eu fiquei surpreso com a persistência deles…
— Diego…
— … Eu sinto muito por não ter conseguido fazer nada, mas se eu interferisse publicamente, eu iria me expor como assistente do Semeador e muito provavelmente apenas aumentar as suspeitas…
— Diego…
— … Até porque ninguém pode afirmar com certeza que é você, porque você não disse nada, mas sabe como é a cidade…
— Diego, cala a boca! — Isaac gritou, rindo levemente e balançando a cabeça. — Pode ficar calmo e me escutar um momento?
— Ah… sim, o que foi?
— Eu imaginei que isso pudesse acontecer e cheguei à conclusão de que é inevitável. As pessoas terem descoberto foi uma consequência, mas eu já devia ter encarado essa verdade há muito tempo.
— Como assim, Isaac?
O rapaz mais velho deu de ombros e disse, com a cabeça erguida:
— Eu não vou mais esconder o Semeador. Afinal, ele sou eu, e eu sou ele. Não quero mais o peso desse segredo na minha vida, e muito menos colocar esse fardo nos ombros dos outros. Irei confirmar esses boatos no culto de domingo, mas preciso fazer algumas coisas antes.
Diego suspirou aliviado.
— Graças a Deus! Eu não aguentava mais ter que guardar esse segredo. Mas, pior que isso, eu não aguentava mais te ver tão atormentado por causa dele, Isaac. Estou muito feliz por você, meu amigo.
— Não fique tão feliz ainda. Precisamos resolver algumas coisas antes. Eu preciso que você ligue para o meu advogado para revogar os contratos de confidencialidade que fiz você e a minha família assinarem.
— Posso fazer isso. Mas o que você vai fazer?
Isaac sorriu levemente.
— Eu… preciso ver a Letícia. Já faz tempo que estou adiando uma conversa importante com ela.
Ao ouvir isso, Diego coçou a cabeça nervosamente.
— Sobre isso…
— O quê?
— Eu e o Ismael, meio que… fizemos uma aposta na semana do retiro de que um de vocês abriria o jogo um para o outro naquela semana. Acontece que eu perdi a aposta, porque você não confessou, e a Letícia nem sequer suspeitava de que você gostava dela, então eu acabei dizendo tudo e o Ismael confirmou.
Isaac, sendo Isaac, obviamente, não gostou do que o irmão e o amigo fizeram, mas preferiu não se dar o trabalho de se aborrecer e repreendê-los.
— Tá… que seja. Mais um motivo para eu precisar falar com ela. E depois, eu vou gravar um episódio que irá ao ar domingo. Será o fim da minha fachada.
— Você parece bem seguro disso, Isaac. Aconteceu alguma coisa em Miami que te fez despertar?
Isaac deu de ombros e sorriu.
— Tive uma conversa honesta com o pastor Brian, e Deus finalmente conseguiu me convencer do que eu estava relutando em ouvir.
Diego via claramente a mudança em seu amigo. Isaac se sentia leve, corajoso e assertivo, assim como o Semeador da Verdade, que nunca precisou fingir nada para agradar seu público. Isaac agora percebia que não precisava fingir, se mascarar ou, muito menos, abrir mão de sua vida por causa de um segredo.
— Nesse caso, acho que teremos que ajustar o nome do podcast. “Semeando a Verdade, com Isaac Diaz” sempre me soou legal pra caramba.
— Então que assim seja, meu amigo.
— Agora para de enrolar e vai falar com a Letícia! Eu organizo tudo e te explico quando você voltar. Vai logo!
Sem hesitar mais, Isaac saiu do estúdio e foi até seu carro, para dirigir até o apartamento dos pais de Letícia.
Ele não sabia onde ela morava, mas conseguiria a informação com os pais dela e aproveitaria a oportunidade para conversar com David.
Isaac estava nervoso, e os sintomas de sua ansiedade se manifestaram lentamente dentro dele. Mas respirou fundo e prosseguiu.
Diferente de sua coragem torturante, agora a coragem de Isaac era controlada e firme, pois ele sabia que sempre teria suas limitações particulares, mas elas não o definiam. Não mais.
Nem naquele momento, nem nunca mais.
Isaac estacionou na frente da casa dos pais de Letícia e, ao tocar a campainha, quem atendeu foi David.
— Isaac? Que surpresa! O que faz aqui? Não te vi desde o retiro.
— Eu estava em Miami — explicou e fez uma pausa. — A Letícia está?
— Não, ela está na casa dela. Mas, por favor, entre. Fique à vontade.
Isaac aceitou o convite e entrou. Marta sorriu ao ver o rapaz e lhe ofereceu café, que ele educadamente recusou, devido ao jejum que iniciara em Miami.
— Eu preciso muito conversar com Letícia, mas também quero falar com o senhor.
— Estou ouvindo — David se recostou na poltrona, toda a sua atenção fixa no rapaz em sua frente.
— Irei direto ao ponto — disse Isaac. — Eu vou revelar a minha identidade publicamente, mas não é porque descobriram.
— Ah… então você já sabe?
— Não tinha como não saber. As pessoas no aeroporto estavam sussurrando coisas quando cheguei. Fingi não estar ouvindo, mas era óbvio qual era o assunto. Alguns até apontaram — ele riu com divertimento.
— E você está tranquilo com tudo isso?
— Nunca estive melhor — Isaac fez uma pausa — eu cansei de fugir, David. Cansei de fugir da minha real identidade em Cristo, da opinião pública, das pessoas que se importam comigo e, principalmente, dos meus sentimentos pela sua filha.
David arregalou os olhos.
— O quê?
— O senhor me ouviu, tenho certeza.
— Não, eu ouvi. É que… lá no retiro, você disse…
— Eu sei o que eu disse — Isaac interrompeu educadamente. — Também sei que não posso mudar a forma que meu cérebro foi formado, nem curar os transtornos que desenvolvi, mas eu cansei de abrir mão da minha própria vida por causa deles. A Graça de Deus me basta e a minha identidade em Cristo precisa sair das sombras. O resto? — Isaac deu de ombros. — É parte da jornada que todo esse tempo fui covarde demais para enfrentar.
David estava sem palavras, mas Isaac percebeu que ele estava emocionado. Desviou o olhar discretamente, pois ficava desconfortável ao ver os outros chorando.
— Agora eu vejo… — David disse pausadamente — … o Semeador da Verdade em carne e osso diante de mim. Deus seja louvado! — ele apertou a mão de Isaac, com um sorriso orgulhoso. — Espero que isso não tenha sido um pedido de permissão para namorar a minha filha. Porque você não tem que pedir isso a mim. Sabe disso, não é?
Isaac assentiu com um sorriso.
— Claro que sei. A única coisa que vim pedir era o endereço da Letícia.
— É claro. Vou te enviar por mensagem. Ela ficou bastante preocupada quando você sumiu de repente durante o retiro.
— Eu sei. Tentei sair de um jeito discreto — Isaac explicou enquanto olhava a mensagem de David com a localização de Letícia. — O Diego não me deu todos os detalhes, mas o que está acontecendo na nossa igreja?
David suspirou cansado, o que informou a Isaac que ele deveria se preparar para uma situação bastante incômoda.
— Você virou o assunto do momento. Antes de conectarem a sua voz com a do Semeador, começaram a questionar o seu histórico. A Raquel, o Alexander, até o Ismael, precisaram mencionar a sua formação teológica. Alguns irmãos acharam inadmissível você nunca ter dito algo sobre isso.
— Bom, ninguém perguntou.
— Tem razão. O Silas achou que você estava querendo aparecer, que a sua palavra era simplória, sem amadurecimento teológico e, nas palavras dele, “agressiva e nada edificante”.
Isaac revirou os olhos. Já esperava algo assim dele.
— E como começou a associação com o podcast?
— No grupo dos jovens. Aquela garota, Cléo, filmou partes do seu sermão e mandou trechos de alguns episódios do Semeando a Verdade. Outros jovens começaram a discutir isso fora das mensagens e virou um “telefone sem fio”.
— Diego me disse que não interferiu para não causar mais exposição.
— Nenhum de nós falou a esse respeito. Decidimos que, se alguém fosse falar, era você.
Isaac sorriu em agradecimento.
— Muito obrigado — mas o sorriso dele logo se desfez. — David, esse tipo de comportamento precisa parar. Como pecadores por natureza, sei que nunca seremos perfeitos. Mas esses sussurros, boatos e fofocas dentro da nossa igreja não são lapsos ou coincidências, mas são, visivelmente, atos deliberados. Se não é sobre a minha identidade secreta, já foi sobre o noivado da Letícia e várias outras coisas. Isso precisa parar antes que pessoas se afastem e Deus cobre de nossa congregação.
David concordou com cada palavra proferida por Isaac e colocou uma mão no ombro do rapaz.
— E é por isso que quem precisa dar esse alerta à nossa igreja precisa ser você, filho.
Isaac sentiu um embrulho no estômago com o pedido sutil de David. Falar em público sempre seria o tipo de desafio que ele preferiria evitar.
Por outro lado… quem falaria se não fosse ele?
Foi quando Isaac teve uma ideia.
— Nesse caso, espero somente que eles estejam prontos.
Letícia estava incrivelmente entediada. Desligou o celular durante aquela semana desde que começaram a enviar milhares de mensagens para ela perguntando sobre Isaac. Ela não esperava que fosse se sentir tão entediada sem o aparelho, mas depois chegou à conclusão de que foi uma boa ideia. Deu espaço para seus pensamentos preencherem sua mente antes de evaporarem.
E isso se repetiu várias vezes.
Não parava de pensar em como seria o domingo. Será que ainda estariam falando sobre Isaac?
Quando seus pensamentos começaram a convencê-la de que ela sentia falta até do trabalho, Letícia percebeu que precisava assistir a um filme.
Mas, assim que o filme começou, alguém tocou a campainha. Ela murmurou antes de pausar a TV e se levantar para abrir a porta.
“Por que isso sempre acontece quando estou confortável?” Ela pensou consigo mesma. Mas, ao abrir a porta, surpreendeu-se ao ver Isaac. Ele não disse nada, mas sorriu sem mostrar os dentes, o que evidenciou as covinhas em sua bochecha.
— Você voltou. — Foi tudo o que Letícia disse, sentindo-se uma idiota por não tê-lo cumprimentado de uma forma mais normal.
— Voltei, sim — disse Isaac, simplesmente, enquanto Letícia o observava. Ele estava diferente, mas ela não saberia dizer o motivo exato — além da ausência dos óculos. Se ela continuasse observando como estava, com certeza descobriria, mas Isaac provavelmente a acharia muito estranha por ficar olhando para ele tão atentamente.
Foi esse pensamento que a fez recobrar o juízo.
— Desculpa, é… Entra, por favor? — Letícia saiu da frente, permitindo que Isaac entrasse.
Ele observou o apartamento rapidamente e depois olhou para a Letícia, o que a deixou brevemente desconcertada. Dessa vez era ela quem evitava o contato visual, não Isaac.
— Eu fui à casa dos seus pais pedir seu endereço. Queria falar com você.
— Quando você voltou?
— Poucas horas atrás.
Letícia assentiu sem saber o que dizer, ainda perplexa com a visita repentina.
— E como foi em Miami?
Isaac suspirou, colocando as mãos nos bolsos.
— Foi esclarecedor, mas eu não vim aqui para falar de Miami.
— Sobre o que você quer falar, então?
— Sobre a gente. Mas, para que eu consiga falar, eu preciso que pare de se conter, em respeito ao meu problema com “ruídos”. Eu já percebi que você tem feito isso. Vamos ser honestos aqui, pode ser?
Letícia piscou algumas vezes, surpresa com a firmeza de Isaac. Não havia uma gota de hesitação em suas palavras.
— Tudo bem — concordou. — O que você tem para me dizer?
Após perguntar isso, ela percebeu uma pontada de hesitação em Isaac, mas também percebeu quando ele respirou fundo e disse com muita certeza.
— Letícia, eu gosto de você. Mais que uma amizade. Fiz de tudo para me afastar, ignorei o que sentia e fugi em todas as oportunidades que tive, achando que estava te protegendo de mim e dos meus problemas. — Isaac fez uma pausa para respirar.
— Mas eu demorei muito para perceber que eu não tenho direito de fazer isso. Entendi que as pessoas que me querem por perto estão me escolhendo apesar das minhas limitações, e rejeitar isso é rejeitar o amor de Deus na minha vida e me condenar a algo que ele nunca quis para mim. E… eu não sei se você sente o mesmo, mas sei que eu precisava dizer isso. Você merece uma pessoa que enxergue o ser de luz que você é e que saiba valorizar a alegria que traz a quem te conhece. E eu sou totalmente honesto quando eu digo que vejo Jesus em você, da cabeça aos pés, e que tudo que eu quero é sempre ver essa luz brilhando em você.
Letícia ficou sem palavras com a declaração de Isaac. Sabia que não era comum ele falar tantas palavras de uma vez, muito menos mantendo o contato visual do início ao fim. Ele não gaguejou, não tremeu, não hesitou. Ela, por outro lado, estava paralisada, quase como se naquele momento suas personalidades tivessem se invertido.
— Bom, eu já disse o que tinha para dizer. Com licença.
Isaac começou a se dirigir até a porta quando Letícia o segurou pelo braço.
— Espera! Eu também preciso te dizer uma coisa.
— Então diga.
Letícia respirou fundo e olhou fixamente nos olhos de Isaac.
— Eu também gosto de você. Muito. Mas eu não achei que você quisesse esse tipo de relacionamento e pensei que seu afastamento fosse porque eu talvez estivesse ultrapassando algum limite, e eu nunca quis te deixar desconfortável. Confesso que não soube o que pensar quando Diego disse que você estava apaixonado por mim, então tentei me convencer de que ele estava imaginando coisas, só para eu não ter que sofrer com uma rejeição sua.
Isaac assentiu, absorvendo cada palavra.
— Eu sei que as coisas podem ser difíceis. Eu sempre vou ser visto como estranho porque não me conhece. Vou precisar de momentos de silêncio e de solidão, mas eu não quero mais me punir assim, e nem aos outros, afastando-me de tudo e todos. Nenhum de nós nasceu para estar sozinho, e Deus me revelou isso, colocando você de volta na minha vida.
Letícia então parou de hesitar e abraçou Isaac. Fechou os olhos enquanto sentia os braços dele ao redor de sua cintura. Não havia qualquer sinal de desconforto ou rigidez nele.
— Quando eu estava com Ricardo, cometi o erro de apressar muitas coisas, incluindo o noivado — ela confessou. — Mas com você, quero ir devagar. Aproveitar o tempo que temos juntos para crescermos um pouco mais a cada dia.
Ela sentiu o abraço de Isaac ficar mais forte e ouviu a risada dele.
— Eu não desejaria nada diferente.
Quando Isaac a soltou, ele beijou carinhosamente o topo da cabeça de Letícia, antes de olhar para ela com uma expressão conspiratória.
— Agora… — ele disse, ainda segurando as mãos dela — desliga a TV, porque precisamos planejar o retorno triunfal… do Semeador da Verdade.
OPERAÇÃO “A ÚLTIMA CEIA”
(Diego adicionou Isaac, Ismael e Letícia)
Isaac: — Que nome é esse?
Diego: — Achei que combinou. Nós não temos que discutir toda a questão da revelação no culto de domingo?
Ismael: Que tal a gente discutir o fato de o Isaac estar de volta e ainda não ter vindo visitar???
Isaac: — É que passou batido. A gente se vê na igreja.
Isaac: E não tem nada mais para resolver. Eu já gravei o episódio. Ele vai ao ar às 09:00 e o Diego vai transmitir com a equipe de jornalismo de manhã.
Letícia: — Ah, então o episódio vai ser a sua revelação? Meu pai achou que você fosse pregar.
Isaac: — Não vou precisar. Pelo menos, não formalmente.
Ismael: — É, foi sutil e inteligente. Bem a cara do Semeador da Verdade.
Diego: — Tudo bem, mas talvez a gente devesse discutir toda a questão do público depois da sua revelação. Você não vai bolar alguma estratégia?
Isaac: — Não Chega de truques. Vamos fazer o que planejamos, e quanto ao resto… Deus está no controle.
Isaac: — Obrigado a vocês, por tudo, mas não fiquem ansiosos por minha causa.
Isaac: — Até porque eu certamente não estou hahaha.
Isaac: — Boa noite!
O domingo finalmente chegou, e Isaac se sentia tranquilo. Dirigiu até a igreja em paz, ouvindo músicas instrumentais que sempre o acalmavam de manhã. Chegando lá, foi normalmente até a sala da EBD e se sentou ao lado do irmão.
— Finalmente consegui te ver! — Ismael disse, enquanto a sala ainda não estava cheia. — Você podia ter ido me ver e ver os nossos pais, não podia?
— Ismael, eu tive poucos dias para organizar toda a questão do episódio, você sabe… Mas, se serve de consolo, hoje eu aceito o convite para almoçar.
— Sério? — os olhos do rapaz se encheram de esperança. Isaac, no entanto, estreitou levemente os olhos.
— Sim, mas é entre a família, não é?
— É… eu acho que sim. Já tem uns dias que a mamãe e o papai pararam com esses almoços em grupo. Estava virando abuso.
— Como assim?
— Sabe como é… eles convidaram uma vez, e as pessoas ficaram se convidando umas às outras… É uma questão delicada.
— Hum… não parece delicado para mim. Só parece falta de educação.
— É porque você não tem medo de dizer não. Uma qualidade admirável.
Isaac sorriu, abrindo a Bíblia em um livro aleatório enquanto aguardava a aula começar. Nesse espaço de tempo, Letícia apareceu com Diego e se sentou ao lado de Isaac. Diego sentou-se na cadeira livre ao lado de Letícia.
— Visitante, seja bem-vindo! — Ismael atazanou Diego, que revirou os olhos.
— Que visitante o quê, rapaz? Já pedi minha carta — disse Diego, cumprimentando Ismael e Isaac com um aperto de mão.
Isaac segurou a mão de Letícia e beijou a palma carinhosamente.
— Dormiu bem?
— Tá brincando? Acordei às 2:00 e não consegui pregar o olho pensando em hoje!
— Eu disse para não ficar ansiosa.
— Ah, tá, como se isso fosse possível.
Isaac balançou a cabeça.
— Eu vou marcar uma consulta para você com a minha terapeuta. Ainda tem muito ruído na sua cabecinha — ele disse, pressionando o indicador contra a testa de Letícia.
— Eu não aguento mais esses dois. — Ismael fingiu sussurrar para Diego, que gesticulou “nem eu” com os lábios.
Logo os outros jovens começaram a chegar. Todos olhavam para Isaac, como sempre, de forma indiscreta. Mas ele os ignorava com uma elegância quase natural.
Com a visão periférica, Isaac viu Ester, Jonas e Kevin chegando e se sentando na fileira em frente a eles. Assim que se sentaram, eles se viraram para Isaac. Ester foi a primeira a falar.
— Já falamos com a equipe de multimídia. Trouxeram o vídeo?
— Diego? — Isaac chamou, e o rapaz tirou um pendrive do bolso.
— A seu dispor — Diego sorriu para Ester, entregando a ela o pendrive. — A propósito, meu nome é Diego.
— Eu sei, lembro de você do retiro. O meu é Ester.
— Olha só, o nome de uma rainha! E vocês dois? Lembro que vocês estavam no time adversário no retiro, mas não lembro seus nomes — Diego perguntou, apertando a mão dos rapazes.
— Kevin.
— Jonas. Prazer em conhecê-lo.
Enquanto Diego se enturmava, Letícia sussurrou para Isaac e Ismael.
— Que facilidade ele tem em fazer amigos, não é?
— Pois é. Se eu não tomar cuidado, a língua dele vai crescer, assim como a do Ismael.
— Isaac! Você continua me chamando assim, mas eu já melhorei!
— Tem certeza disso?
A verdade era que Isaac estava se divertindo muito ao provocar o irmão mais novo. Já fazia um tempo que não fazia isso com tanta naturalidade.
— Mas eu te amo mesmo assim — Isaac afagou o cabelo do irmão, que sorriu.
— Eu sei. Amo você também.
Assim que o professor daquela manhã chegou e iniciou a lição, Isaac notou Cléo e Laura cochichando e olhando diretamente para Isaac em alguns momentos. Ele enrijeceu a postura, mas sentiu um alívio quase imediato quando Letícia segurou sua mão.
E, quando a EBD acabou, Isaac orou silenciosamente pelo que estava para acontecer.
“Pai, chegou a hora. Que a Tua vontade prevaleça acima de qualquer coisa. Em nome de Jesus, Amém.”
Isaac e Letícia entraram no templo de mãos dadas antes de se afastarem, Letícia indo sentar com os pais dela e Isaac indo sentar em seu lugar de sempre.
O que o surpreendeu ao chegar lá foi ver que o lugar já estava ocupado pelos seus pais.
Alexander e Raquel sorriram abertamente e se levantaram para abraçar o filho, que não rejeitou o gesto, muito menos a companhia.
— Como você está, meu filho? — Alexander perguntou quando os três se sentaram no banco.
— Estou bem. O Ismael já disse alguma coisa?
— Você conhece o seu irmão — disse Raquel. — É claro que ele disse. É importante que você saiba que te apoiamos no que você decidir. Revelando ou não o segredo.
Isaac ergueu uma sobrancelha.
— O que foi que o Ismael disse, exatamente?
— Ele disse que você iria pôr um fim aos sussurros que estão fazendo a seu respeito. É o que você vai fazer, não é?
— Sim… — ele se inclinou em direção aos pais e sussurrou quase inaudivelmente — Eu vou revelar o segredo. O advogado não entrou em contato com vocês para dizer que o contrato foi revogado?
Alexander arregalou os olhos e Raquel olhou para ele como quem queria dizer “eu avisei”.
— Eu falei que não era golpe, Alexander!
— É porque nunca se pode ter certeza! — Alexander justificou e olhou para Isaac. — Mas isso não importa. Isaac, você vai mesmo revelar? Depois de todos esses anos?
— Vou. Nunca tive tanta certeza — ele fez uma pausa. — Há tempo para tudo. Já se foi o tempo em que Deus me chamou para o silêncio. Agora, é tempo de falar, dentro e fora do meu estúdio. E também é tempo de pedir perdão. Me perdoem por ter me afastado de vocês e por ter feito vocês guardarem esse segredo por tanto tempo. Quando me tornei o Semeador, eu achei que a minha imagem pública poderia me atrapalhar e até me desviar do que Deus planejou para mim… mas Ele não deixaria isso acontecer, e agora percebo que faltou confiança da minha parte. Como posso falar tanto sobre isso e não seguir o meu próprio conselho?
Raquel sorriu orgulhosa e beijou a bochecha do filho, deixando-o um pouco constrangido, mas de um jeito engraçado.
— Meu filho… eu e seu pai nos orgulhamos muito de você, de como você se tornou um homem temente a Deus e de como usa seu dom para servi-lo, apesar de qualquer coisa. Nós sempre vamos te apoiar, e se essa jornada, por mais árdua que tenha sido, te ensinou algo importante, não tenha dúvidas de que ela valeu a pena.
— Eu não tenho dúvida alguma, mamãe. — Ele sorriu em gratidão para Raquel e depois olhou para Alexander. — Eu sei que não segui o caminho que o senhor esperava para mim quando saímos do Kansas…
— Não diga isso — Alexander o interrompeu. — As minhas expectativas não importam, Isaac. A única coisa que eu desejo para você é que os planos de Deus se cumpram em sua vida. Você não me decepcionou por não ter ido ao seminário quando voltamos. Quando olhamos para você, sentimos orgulho, não decepção. Eu sei que, durante muito tempo, nós fomos um tipo de… ruído para você, e você sentiu que precisava se afastar. Mas agora gostaríamos que nos visse como um lugar onde você pode se sentir seguro. Nunca foi nossa intenção te deixar ansioso ou preocupado em nossa presença.
— Eu sei — ele suspirou — É como eu disse à Letícia. Sempre vou precisar dos meus limites, mas não posso parar de viver e nem afastar os outros à força. Eu estou bem. Estou em paz.
Pouco depois que essa conversa terminou, Ismael se juntou a eles no banco, e eles conversaram sobre assuntos aleatórios para se distraírem.
Minutos antes do culto começar, Silas havia saído do miniestúdio para regular os microfones quando viu Isaac no templo.
— Olha só quem voltou! — disse com um falso sorriso. — Estava viajando, foi?
— Sim, estava — Isaac respondeu calmamente.
— Eu vi seu vídeo pregando no retiro. Fiquei bem surpreso por você conseguir falar tanto de uma só vez. Mas é importante dar o primeiro passo, mesmo que não saia perfeito, não é?
Isaac suspirou, mantendo a classe.
— Sim, Silas.
— É, eu ouvi uns boatos sobre você, sabe? Não sei se ficou sabendo, eles acham que você é aquele podcaster famoso, o Semeador da Verdade. Eu disse que era impossível; não é porque você falou uma vez que já tem toda a maturidade teológica para um podcast como aquele.
Isaac riu, mas foi uma risada azeda e sutilmente irônica.
— É absurdo, não é? — Silas continuou, interpretando erroneamente a risada de Isaac.
— O que é absurdo… — Isaac disse com firmeza. — É você estar mais preocupado com boatos do que com os microfones que está regulando errado.
Isaac apontou para o dispositivo de regulagem, que mostrava níveis de áudio estourando no vermelho. Silas ficou constrangido imediatamente, mas tentou manter sua postura arrogante.
— Ora, só estou te avisando sobre o que ouvi.
— Estamos na casa de Deus, Silas. Aqui não é lugar para provocar dissensão, então guarde o que você ouviu para si mesmo. Lembre-se de que o Senhor cobra de um fofoqueiro o mesmo preço que cobra de um ladrão. Mesmo que os outros estejam fazendo, não é prudente imitá-los.
A fala de Isaac fez Silas se afastar sem dizer mais nenhuma palavra e voltar a fazer o próprio trabalho. Isaac suspirou e se recostou no banco.
Logo, o culto começou.
— E agora? — perguntou Ismael.
— Agora… é só esperar.
* * *
Assim que era hora de exibir as notícias do ministério de jornalismo, em vez de mostrarem o que estava na pauta, surgiu o vídeo apresentado por Isaac. Era a primeira vez que a igreja via o editor-chefe do jornalismo aparecendo nas notícias. O cenário, diferente da sala onde Letícia gravava, com um fundo cinza, era simplesmente o estúdio particular de Isaac.
Um microfone clássico aparecia na frente dele e Isaac olhava diretamente para a câmera com uma expressão confiante.
— Bom dia, caro ouvinte. Quem fala com você nessa bela manhã é o Isaac Diaz… mas creio que vocês me conhecem como Semeador da Verdade.
Isaac ouviu os sussurros indiscretos da congregação enquanto o vídeo rodava, mas não reagiu. Apenas observou o vídeo continuar.
— Esse não é um episódio comum do meu podcast. Na verdade, mais do que um episódio para todo o Brasil, essa é uma mensagem especial para os queridos membros da minha igreja, a Igreja Luz que Fica, de Porto Claridade. Aliás, um abraço especial para todos os meus ouvintes dessa bela cidade.
— Mas, de volta ao assunto, sei que é uma surpresa. Após anos ouvindo só a minha voz, vocês finalmente veem o meu rosto. Eu sempre dizia que isso era uma estratégia para que a mensagem fosse valorizada, e não o rosto que a transmitia. Esse foi o chamado que Deus colocou em meu coração. Um chamado silencioso. Transmita a mensagem, mas não revele o mensageiro. Eu segui esse chamado com muita dedicação nos últimos três anos e levei meu anonimato quase tão a sério quanto o Superman e o Batman escondiam suas identidades secretas.
— No entanto, o que começou como um chamado se tornou uma fuga que piorou um problema que eu já tinha.
Isaac engoliu em seco e respirou fundo, assistindo ao próprio vídeo.
— Quando eu e meus pais nos mudamos para o Kansas, eu tinha 15 anos. Lá, eu fui diagnosticado com o nível 1 do Transtorno do Espectro Autista. E, depois que retornamos à Porto Claridade, quando eu tinha 19 anos, eu recebi outro diagnóstico, de Transtorno de Ansiedade Social grave. Como me justifiquei diversas vezes, eu nunca fui antissocial. E, sinceramente? Eu odeio que digam isso.
— Eu faço tratamento para todos esses transtornos desde então. Quando iniciei o podcast, parecia uma forma segura de servir a Deus, apesar dessas limitações. Até que essa segurança se tornou uma prisão. Uma prisão onde eu perdi a confiança nos meus pais, no meu irmão, nos meus amigos e, principalmente, na minha igreja. E, lentamente, essa prisão fez com que eu, sem perceber, perdesse a confiança em Deus.
— De repente, parecia que eu estava condenado a viver daquela forma para sempre. Assim como o Apóstolo Paulo tinha um espinho na carne que até hoje desconhecemos, eu sentia que esses transtornos eram os meus, e que todo o meu sofrimento e limitação eram irreversíveis, e de certa forma, até acreditava que eu precisava ser daquele jeito, para nunca esquecer de como sou dependente de Deus.
— Quando comecei a ficar obcecado e temeroso com o anonimato, Deus começou a me dar muitos sinais de que era hora de me libertar da prisão em que eu mesmo me coloquei. Mas eu tinha medo. E eu sei que os encorajava a não ter medo, mas, infelizmente, era o oposto que acontecia comigo.
— O pastor David testemunhou uma das minhas crises durante o retiro. Logo após aquele sermão, eu fugi para Miami, para pedir conselhos ao pastor que me discipulou e me batizou quando eu estava no Kansas. Deus usou aquele homem para abrir os meus olhos sobre a prisão que o meu anonimato havia se transformado, e eu decidi tomar uma atitude. Eu cansei de me esconder. Eu sou Isaac Diaz, e eu sou o Semeador da Verdade.
O Isaac do vídeo então olhou firmemente para a câmera.
— E, como Semeador da Verdade, eu uso do meu direito como mensageiro de Deus para dizer que eu fui liberto da minha prisão pela graça de Deus e pela mão d’Ele agindo por meio das pessoas que eu amo. Mas, ao mesmo tempo, eu acho uma lástima que a minha igreja não tenha sido um local seguro para mim, nem para ninguém. Desde que voltei de Miami, eu percebo os sussurros, as fofocas, os olhares indiscretos, e sei que isso acontece desde muito antes. Conheço pessoas que viraram alvo dos mesmos sussurros justamente quando mais precisavam de apoio.
Isaac olhou para Letícia, sentada no outro banco, que secava suas lágrimas discretamente.
— Vejo as pessoas se reunindo na casa de Deus para se encontrarem socialmente e especularem sobre as vidas daqueles que não dizem nada, em vez de se reunirem para louvar a Deus e estudar sobre a Bíblia. Essas mesmas pessoas, que cometem um dos pecados mais repugnantes da Palavra, são as mesmas que se julgam superiores, enquanto criticam a postura dos outros.
— Assim como essas pessoas me afastaram durante um tempo, elas também vão afastar pessoas que ainda precisam da Salvação em Cristo. Vocês sabem o que Jesus disse sobre essas pessoas: “É inevitável que venham motivos de tropeço, mas ai daquele por meio de quem eles vêm! Seria melhor que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse atirado no mar do que fazer tropeçar a um destes pequeninos.”
— Reconheço melhor do que ninguém que não somos perfeitos. Sempre vamos errar, sempre teremos nossas fragilidades e limitações. Mas, se você valoriza ao menos um pouco do sacrifício humilhante que Jesus fez por você… tente. Tente, enquanto ainda há tempo. Viva para Ele, alegre-se no que Ele te dá e alegre-se também no que Ele tira. Afinal… tudo isso faz parte da jornada.
— Eu sou Isaac Diaz, o Semeador da Verdade, e a todos desejo um dia abençoado.
Era uma manhã de sábado e Letícia acordou cedo para ver o nascer do sol. Não se lembrava da última vez que estivera em uma praia, e a brisa suave e o cheiro do mar lhe traziam uma paz inexplicável. Ela ficaria lá a vida toda se pudesse.
Logo, ela ouviu passos na areia e sorriu. Já havia aprendido a identificar os passos dele, e ele tinha um jeito particular de caminhar sobre a areia.
— Aproveitando o silêncio? — Isaac perguntou, envolvendo-a em seus braços e encostando o queixo no ombro dela.
— Como sabia que eu estaria aqui fora? — ela perguntou com um sorriso de canto.
— Eu escutei um rangido no chão — Isaac disse com divertimento e beijou a bochecha dela. — Decidi vir te acompanhar antes que os outros acordassem. De quem foi a ideia de fazer uma viagem em família? Nossas mães, nossos pais e o meu irmão na mesma casa é a receita para ruído. E isso porque o Diego não pôde vir.
Letícia riu, lembrando da ideia repentina de uma viagem em família. Alexander e Raquel retomaram o contato com Brian e resolveram visitá-lo em Miami. Então, convidaram Isaac e Ismael, e Isaac pensou em também levar Letícia. Os pais dela, de férias na mesma época, acabaram “se convidando” e também foram. Apenas Diego não foi, ocupado com a conclusão de sua faculdade e assumindo o posto de editor-chefe no ministério de jornalismo, que Isaac deixou, dois anos antes, quando se mudou para o Rio de Janeiro.
— Bom, dessa vez só queríamos garantir que você não fugisse sem avisar… de novo.
— Eu só fiz isso uma vez!
— E foi a melhor decisão que você fez — Letícia afagou o cabelo de Isaac.
Os dois já estavam namorando havia quatro anos e estavam muito felizes. Alguns meses depois que Isaac se mudou, Letícia também foi para o Rio, para finalmente atuar na advocacia. Depois de tudo o que viveu após se formar como advogada, ela se sentia pronta para exercer a profissão para a qual se preparou durante todos os anos, mas agora com o objetivo de ser luz na vida de quem aparecesse em seu caminho. O sucesso dela não foi algo calculado, mas veio naturalmente. Ela tinha talento real para aquela área.
Isaac participou de muitos eventos, como o Semeador da Verdade, fez palestras e, por fim, decidiu fazer mestrado em teologia para poder ensinar formalmente. Continuou fazendo seu podcast, que estava começando a ganhar repercussão internacional. Mas, contra todos os seus temores do passado, ele não se deslumbrava com a fama. Seu objetivo continuava sendo apenas servir a Deus e glorificá-lo em todas as áreas de sua vida.
Havia apenas mais uma coisa que ele desejava fazer naquele momento.
— Você sabe que eu não sou um homem de palco, então eu gostaria de aproveitar que nossos pais e meu irmão estão dormindo agora para fazer uma coisa.
Letícia se virou para Isaac e ergueu uma sobrancelha, com aquele olhar questionador.
— O que é?
Isaac sorriu e tirou uma caixinha vermelha do bolso. Ele não se ajoelhou, nem fez muita cerimônia ao abri-la, revelando um anel prateado com um pequeno diamante no topo.
— Letícia, você é a luz da minha vida e o maior presente que Deus me deu. É um privilégio enorme ver você crescer tanto na carreira que sempre sonhou, mas, mais do que isso, ver como você ama Jesus acima de qualquer sucesso terreno. Quero que nós dois continuemos servindo e amando ao Senhor acima de qualquer coisa… mas quero que façamos isso juntos. Você quer casar comigo?
Naquele ponto, Letícia já estava com os olhos cheios de lágrimas. Ela assentiu rapidamente e abraçou Isaac, ainda soluçando com a surpresa.
— Claro que sim, Isaac! Eu amo você.
Isaac a rodopiou no ar e se inclinou lentamente para beijá-la.
— Eu também te amo. Muito.
O sol nascia na frente deles, testemunhando o início de um novo capítulo em suas vidas. Um novo capítulo de uma história escrita por Deus e que começou apenas… com um chamado silencioso.
FIM