Pressuposição, inferência e certeza
Paulo Estrella Faria (UFRGS)
Nietzsche sustentou que a lógica tem pressuposições empíricas. Examino essa tese à luz de quatro desenvolvimentos da lógica no século XX: a teoria das descrições de Russell, a técnica de eliminação de termos singulares de Quine, as lógicas livres e a investigação de Wittgenstein sobre as proposições ‘subtraídas à dúvida’ para as quais Moore chamou atenção. O resultado é uma defesa da pertinência e atualidade da tese de Nietzsche.
Ignorância moral tratada como ignorância de descrições factuais da ação
Beatriz Sorrentino (UFPB)
Segundo uma conhecida Condição Epistêmica (CE) para a responsabilização moral de agentes por suas ações, para ser moralmente responsável por fazer A, o agente precisa estar ciente de que fazer A é moralmente errado, a saber, ele precisa estar ciente da descrição da ação com termos morais. Portanto, exige que o agente não seja moralmente ignorante sobre sua ação. Nesta investigação, pretende-se entender do que o agente precisa estar ciente, para além das circunstâncias de sua ação, para satisfazer essa CE. Para tanto, é preciso retomar a crítica de Elizabeth Anscombe ao uso moderno do termo dever moral. Outro ponto importante para o argumento é a filosofia da ação desenvolvida por Anscombe, que permite entender que ações podem ser redescritas levando em consideração suas circunstâncias e as instituições sociais. Assim, descrições de ação que têm um termo normativo são descrições meramente factuais que redescrevem a ação bruta-em-relação às descrições factuais ao considerar as instituições e práticas sociais que dão propósito a essas descrições. Finalmente, será considerada a sugestão de Rachel Wiseman de que descrições de ação com termos de vício apontam o limite do que humanos fazem — tendo como pano de fundo o nosso objetivo comum de a vida correr bem. Assim, apoiada na filosofia de Anscombe, defendo que não há nada que o agente precise conhecer além de descrições factuais da ação em suas circunstâncias. Na maioria dos casos isso seria suficiente para que o agente se dê conta da descrição da ação com um termo normativo e, quando for o caso, para que o agente satisfaça a CE para a responsabilização moral.
A democracia como história em construção: temporalidades, normatividade ex post e desenho institucional na teoria democrática de Pierre Rosanvallon
Diogo Arruda (Ciencias Politicas, UFPE)
O objetivo desta comunicação é examinar como Pierre Rosanvallon, em sua teoria democrática, articula as dimensões do tempo e da normatividade para formular um modelo de desenho institucional capaz de aprofundar a democracia, entendida como ampliação da apropriação e do exercício do poder pelos cidadãos. Para tanto, analiso três volumes da tetralogia sobre as mutações da democracia contemporânea – La Contre-démocratie, La Légitimité démocratique e Le Bon gouvernement –, mostrando como cada um deles mobiliza temporalidades específicas. Em contraste com a normatividade ex ante de autores como John Rawls e Jürgen Habermas, Rosanvallon defende uma normatividade ex post, que emerge da experiência histórica. Pretende-se destacar os limites dos modelos participativos e deliberativos antes de apresentar a proposta de Rosanvallon de uma “democracia de exercício”. Esse novo modelo amplia permanentemente o controle dos cidadãos por meio de três eixos complementares: (i) práticas contrademocráticas; (ii) instituições independentes que traduzem a “vontade geral” em espaços permanentes de prestação de contas; e (iii) comportamentos governamentais normativamente orientados. Ao valorizar a historicidade e a multiplicidade temporal, conclui-se que a indeterminação democrática não constitui um obstáculo, mas a força motriz de uma segunda revolução democrática “utópico-realista”, capaz de aprofundar a participação dos cidadãos sem sucumbir à despolitização ou ao populismo.
Resistência à gramática do cativeiro: disputas de eixos normativos a partir do aquilombamento
Yasmin Cristina (UFPE)
Este trabalho investiga como comunidades afroameríndias e dissidentes resistem à gramática do cativeiro e disputam eixos normativos a partir do aquilombamento. Compreende-se que a imagem de mundo do colono continua sendo atualizada por um conjunto de certezas fulcrais, responsáveis por orientar práticas coletivas e delimitar a inteligibilidade em jogos de linguagem e formas de vida. Emaranhadas em espaços públicos e privados, a gramática do cativeiro institui um regime hegemônico que busca a manutenção de dinâmicas de controle e expropriação de corpos-territórios, seus modos de viver e suas produções de sentido. Esse processo opera por meio da violência gramatical e da internalização de um conjunto de regras e crenças que acomoda uma normatividade dominante e desarticula múltiplos sistemas sociais. Em movimento contracolonial, a prática do aquilombamento é uma tecnologia coletiva de resistência à normatividade hegemônica, capaz de disputar eixos normativos que orientam práticas e saberes situados. Com isso, busca-se explicitar de que modo comunidades afroameríndias e dissidentes têm articulado e preservado gramáticas alternativas, resguardando todo um universo simbólico e normativo com base em seus próprios referenciais.
Palavras chaves: Gramáticas; Disputas; Eixos normativos; Aquilombamento.
Da violência gramatical ao navio-mundo: uma leitura neopragmatista periférica da ecologia decolonial.
Jefferson Santana (UFPE/FACEPE)
Esta apresentação propõe uma aproximação entre a noção de violência gramatical (Santana e Silva 2025; Praxedes e Silva, 2025) e a perspectiva decolonial desenvolvida por Malcom Ferdinand em "Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho". (2022) Partiremos da compreensão wittgensteiniana de gramática, segundo a qual as regras de uso das expressões estão vinculadas às práticas, aos jogos de linguagem e às formas de vida que tornam determinadas maneiras de agir e significar inteligíveis. Em Sobre a certeza (1969), a noção de “imagem de mundo” (weltbild) permite aprofundar essa perspectiva ao evidenciar o papel de certezas fulcrais que funcionam como pano de fundo de nossas práticas e investigações. A partir desse quadro, compreendemos a violência gramatical não como uma violência restrita à linguagem em sentido linguístico, mas como uma operação que incide sobre as regras que fixam e articulam significados, deslegitimando determinados sujeitos enquanto agentes racionais e restringindo suas possibilidades de articulação de sentido. Ao diagnosticar a “dupla fratura colonial e ambiental da modernidade”, Malcom Ferdinand questiona a separação entre lutas ecológicas e lutas anticoloniais, evidenciando como escravidão, colonialismo, racialização, exploração territorial, exploração animal e devastação ambiental participam de uma mesma história moderna. A figura do “navio-mundo”, especialmente por meio da noção de “política do porão”, permite compreender como a modernidade colonial distribui desigualmente corpos, formas de vida e territórios. A plantation, nesse contexto, constitui uma forma de organização do mundo na qual terra, trabalho, corpos humanos e natureza são submetidos a relações específicas. Defenderemos, assim, que a violência colonial pode ser analisada também como violência gramatical. Em contraposição a essa ordem, a análise de Ferdinand sobre a marronagem permite estabelecer um diálogo com a noção de aquilombamento normativo defendida por Silva (2026), entendida como ruptura com regras coloniais de articulação do mundo e criação de outras formas de vida.
Palavras-chave: violência gramatical; ecologia decolonial; aquilombamento normativo.
Entre o algoritmo e a gramática: o que está em jogo na recente crise da matemática pura?
Lucas Gutemberg Santos Barros (NormAtiva/UFPE/Unicap)
Nos últimos dias, a comunidade matemática internacional foi tomada por uma inquietação que há muito não se via na academia desde a derrubada do projeto logicista no início do século XX. Entendemos isso como a perplexidade diante de uma lacuna profunda no conhecimento científico: a fratura entre aquilo que é verdadeiro e aquilo que pode ser conhecido. No entanto, o que parece não ser autoevidente, mas que é muito importante, é como este recente fato vem sendo usado pelas Big Techs para desfavorecer a profissão matemática. Isto posto, buscamos neste trabalho apresentar uma interpretação do fenômeno em debate por meio de uma lente filosófica gramatical, em especial a neopragmatista periférica. A partir dos apontamentos fornecidos pelo matemático Terence Tao, vamos mobilizar os principais elementos expressivistas que nos são imediatos nessa crise da matemática, como por exemplo: o fim da profissão do matemático, o uso da tecnologia para extinguir direitos sociais e trabalhistas, a inteligibilidade das demonstrações das IA’s entre outros. Dando ênfase aos tópicos mais sociais dessa crise, buscamos salientar que o modelo de alavancagem gramatical pode ser útil como ferramenta argumentativa para se alcançar a soberania dos matemáticos nas ciências formais. Portanto, por meio da abordagem filosófica de tradição wittgensteiniana, esperamos que os elementos de disputa sobre a matemática pura tenham seu caráter gramatical explicitado.
O compromisso trivialista do convencionalismo lógico explicativo
João Daniel Dantas (UFERSA)
Dizemos que uma linguagem possui uma noção de consequência trivial se e somente se todas as proposições dessa linguagem são demonstráveis ou, na contraparte semântica, todas as proposições são verdadeiras. Logo, nessa linguagem todas as proposições são equivalentes, pois partilham o único valor de verdade, o “Verdadeiro”. Argumento, nessa fala, que o convencionalismo lógico de Jared Warren está comprometido com a asserção de que nossa linguagem natural é trivial nesse sentido. De acordo com esta forma de convencionalismo lógico, a principal relação entre as convenções linguísticas de uma linguagem e sua relação de consequência é a explicação. A saber, a escolha das convenções linguísticas explica as propriedades daquela relação de consequência. Chamemos essa forma de convencionalismo lógico de explicativa. Exemplos paradigmáticos de convenções linguísticas são as regras inferenciais. Seguindo esse ponto de vista, a interpretação usual do convencionalismo lógico explicativo sobre o problema do tonk é que a adoção de regras inferenciais, tais como as do conectivo tonk, explica a trivialidade de sua noção de consequência. Embora isso possa ser criticável comparado com nossa linguagem atual, Warren suspende o criticismo e conclui que uma linguagem com uma noção de consequência trivial é uma linguagem possível, mas não atualizada; e que, para além disso, não pode ser dispensada sob o risco de cair em proibições metafísicas. No entanto, argumento que o convencionalismo lógico explicativo está comprometido com uma asserção profundamente mais problemática, isto é, de que uma linguagem com uma noção de consequência trivial não só é possível, mas também que nossa linguagem natural é o exemplo de tal linguagem. Para isto comparo o convencionalismo lógico explicativo com a recente literatura sobre o trivialismo da linguagem natural. O argumento segue-se de que nossa linguagem natural aceita como convenções linguísticas princípios que acarretam o paradoxo de Curry. Ao final da fala, exploro uma alternativa convencionalista em que separo as noções de descrição de normas, concebibilidade de uma linguagem e contextualismo; chamo essa versão do convencionalismo lógico de descritivista.
A imagem sexuada de mundo: uma defesa da categoria de sexo enquanto certeza fulcral
Fabio Praxedes (UFPE)
Tradicionalmente, entende-se que “sexo” diz respeito a características biológicas e “gênero” seria a interpretação social feita sobre essas características. Apesar dessa visão estar presente no senso comum, nem sempre foi o caso. A divisão conceitual entre sexo e gênero, e identidade de gênero, foi alcançada a partir de uma série de esforços políticos e teóricos e utilizada como base para reflexões feministas tais como as de Beauvoir (1949), Mead (1935) e Scot (1986), que tinham como objetivo repensar o papel da mulher na sociedade. Contudo, tanto essa divisão, quanto o conceito de sexo são bastante disputados na filosofia. Divideremos as posições filosóficas acerca de sexo em dois grupos predominantes. Por um lado, chamarei de construtivismo social sobre sexo a posição que entende que essa categoria é uma construção histórica socialmente desenvolvida e moldada por interesses culturais (Bulter, 1999; Wittig, 1992). Por outro lado, chamarei de essencialismo biológico sobre sexo a concepção de que essa categoria descreve um fato natural pré-linguístico que independe de qualquer elaboração teórica humana, como defendido pelo Feminismo Crítico de Gênero (Stock, 2021; Lawford-Smith, 2022). Nesse contexto, a presente pesquisa busca se posicionar de maneira contrária ao essencialismo biológico. A partir da filosofia tardia de Wittgenstein (1969, 1953) defenderei que sexo biológico deve ser visto como uma certeza fulcral que articula o significado de diversas de nossas práticas, de modo a constituir nossa imagem de mundo — uma imagem sexuada de mundo. Dessa forma, os fatos biológicos que usualmente entendemos como marcadores biológicos de sexo não devem ser vistos como uma mera descrição aparentemente correta da realidade, mas sim como a expressão daquilo cuja verdade pertence à lógica de nossas práticas.
Palavras-chave: Certeza Fulcral. Sexo e gênero. Sobre a Certeza. Teoria de Gênero. Wittgenstein.
A natureza das contradições em wittgenstein
Miguel Rios (UFPE)
A pesquisa investiga a concepção do middle Wittgenstein sobre as contradições num contexto de revisão da lógica contemporânea por uma perspectiva neopragmática. A concepção do middle Wittgenstein ocorre como uma quebra em comparação a sua perspectiva no primeiro momento de seu pensamento. Em sua análise sobre a lógica se enquadra a metáfora de jogos para explicar o funcionamento das diferentes lógicas. Através dessa concepção, defende-se diversas bandeiras que só seriam defendidas em décadas no futuro. A possibilidade de lógicas paraconsistentes, intuicionistas, não-reflexivas, etc. Nesse momento a perspectiva filosófica matemática de Wittgenstein se caracteriza como pragmática na medida que se baseia nas utilidades e consequências práticas dos conceitos analisados. Assim, muda-se de paradigma na lógica, partimos de um dogmatismo realista para uma concepção pragmática formalista. Os conceitos matemáticos deixam de ser dogmas eternos e imutáveis que estão inscritos na realidade e se transformam em conceitos abstratos regidos por regras que visam compor um jogo com uma finalidade objetiva. Essa perspectiva é indispensável para a possibilidade de diversas lógicas, pluralismo lógico, e para a revisão das lógicas que compõem nossas visões de mundo. Portanto, baseando-se conceitualmente em Wittgenstein, partimos da perspectiva neo-pragmática de Silva para descrever e defender uma processual análise dos paradigmas que rondam nossas certezas e fundamentam nossa imagem de mundo.
Palavras chaves: Wittgenstein. pragmatismo. jogo. Contradição.
Inferencialismo semântico, composicionalidade e jogos de linguagem
Pedro Barbosa Gusmão do Nascimento (UFPE)
O inferencialismo semântico parece ser ameaçado pela composicionalidade da linguagem. Uma vez que o inferencialista teria de estar comprometido com algum tipo de holismo semântico e o holismo é supostamente incompatível com uma linguagem totalmente composicional, haveria bons motivos para rejeitar o inferencialismo. Nesse contexto, pretendo mostrar que essa ameaça é apenas aparente. Mesmo assumindo os dois primeiros pontos de que o inferencialismo implica holismo e que este é incompatível com o composicionalismo, tentarei mostrar a partir da pluralidade de jogos de linguagem que temos bons motivos para crer que a linguagem não é universalmente composicional. Palavras-chave: Inferencialismo semântico; composicionalidade; jogos de linguagem; filosofia da linguagem; holismo semântico; teoria semântica; teoria metassemântica
Rastreando Incompatibilidades: Por uma Concepção Ecológica da Inferência
Thiago Andrade (UFPE/CNPq)
Esta comunicação propõe uma concepção ecológica da inferência a partir do diálogo entre o inferencialismo semântico e a crítica de Erik Myin (2026) às teorias mediacionistas da cognição. Myin rejeita a tradição da inferência inconsciente, segundo a qual operações internas permitiriam reconstruir inferencialmente um mundo perceptivamente rico a partir de estímulos sensoriais pobres. Sustentamos que essa crítica atinge uma concepção intelectualista de inferência, mas não a inferência enquanto tal. O inferencialismo de Pittsburgh oferece uma alternativa ao compreender conteúdos conceituais por suas relações de consequência e incompatibilidade material, embora vincule o espaço de razões a práticas linguísticas especificamente humanas. Partimos daí para defender que animais complexos já precisam navegar ambientes estruturados por possibilidades, restrições e incompatibilidades materiais. Distinguir alimento de não alimento, uma superfície escalável de uma não escalável ou uma presa que se aproxima de uma que se afasta exige mais do que responder a estímulos isolados. Exige rastrear diferenças que condicionam a ação e suas consequências, ou seja, o que se segue ou pode se seguir destas ações. A partir da noção de affordance, desenvolvemos os conceitos de affordance inferencial e nicho inferencial para explicar a continuidade entre essa sensibilidade ecológica a incompatibilidades e práticas inferenciais conceitualmente articuladas. Não atribuímos lógica ou inferências formais a animais não-humanos. A hipótese é que a racionalidade humana desenvolve capacidades mais básicas de navegação em ambientes estruturados por incompatibilidades materiais. Essa continuidade permite naturalizar a inferência sem reduzi-la a mecanismos causais internos e sem tratá-la como uma ruptura com a cognição animal.
Palavras-chave: Inferência. Affordances. Inferencialismo. Psicologia ecológica. Normatividade
Sobre o caráter descritivo e normativo do modelo de Catarina Dutilh Novaes
Mayk Silva (UFPE)
O principal objetivo deste projeto é defender que o modelo semi-adversarial do provador e do cético proposto pela filósofa brasileira Catarina Dutilh Novaes (2021) apresenta problemas quando caracterizado como descritivo ou normativo. O modelo proposto pela autora representa um marco significativo na filosofia da lógica e nos oferece contribuições relevantes para pensarmos o cenário de práticas dedutivas. Neste modelo, uma discordância sobre uma prova dedutiva pode ser resolvida de um ponto de vista dialógico, por meio da colaboração entre um provador e um cético que trabalharão de maneira cooperativa e adversarial na construção argumentativa. Novaes, no entanto, não nos fornece critérios explícitos acerca do caráter do seu modelo: trata-se de um modelo que se propõe a ser descritivo ou normativo? A partir disso, a nossa hipótese é de que qualquer uma das alternativas implica problemas: I) Se o modelo é descritivo, então é o caso de ele não possuir um poder explicativo satisfatório para descrever alguns cenários relevantes, como os observados nas entrevistas de Gomes com especialistas em lógica (2017); II) Se o modelo é normativo, então é o caso de ele não regular e orientar adequadamente algumas práticas em que tanto o cético quanto o provador não estejam dispostos a colaborar, como pode ser observado nas controvérsias entre Hilbert e Brouwer (Bar-on, 2025). Assim, defenderemos que ao caracterizar o modelo como descritivo ou normativo, existem cenários que o próprio modelo não explica de modo satisfatório ou não regula de maneira adequada.
Palavras-chave: Catarina Dutilh Novaes; tradição dialógica; filosofia da matemática; filosofia da lógica; normatividade.
O caráter emancipatório da literatura à luz da tese romântica da "poesia da poesia"
Eduardo Nasser
Na tradição francesa que vai de Foucault a Barthes, foi atribuído à literatura um potencial emancipatório, decorrente de sua capacidade de contornar os constrangimentos impostos pela linguagem. Esta apresentação procura explorar outra maneira de compreender esse potencial, a partir da tese romântica da “poesia da poesia”, formulada por August Schlegel, segundo a qual a poesia artística não se volta contra a linguagem, mas intensifica uma capacidade figurativa que lhe é constitutiva e que a prosaicização tende a obscurecer. Procurarei explorar as consequências disruptivas dessa tese por meio de uma análise crítica de duas objeções, uma de natureza linguística (Hermann Paul) e outra filosófica (Jacques Derrida), que colocam em questão o primado genético sobre o qual ela parece repousar. Minha hipótese é que, ao nos desvencilharmos desse pressuposto, a tese romântica revela seu alcance mais radical em que a poesia artística não restitui uma origem figurativa perdida, mas torna perceptível, na constituição da obra e na experiência de sua leitura, a atividade incessante pela qual a linguagem produz e transforma relações de sentido.
Palavras-chave: Poesia; Figuração; Prosaicização; Metáfora; Origem.
Linguagem, Ferramentas e Máquinas
Carlos Brito (UFC)
Em um de seus livros, Tomasello disse o seguinte: "Human thinking is individual improvisation in a socio-cultural matrix". Nós queremos ver isso! Ou melhor, nós queremos dizer ou mostrar isso — (para nós podermos ver …). Improvisação significa não saber — (porque se a gente soubesse, não era preciso improvisar …). Nós já temos muitas histórias sobre o saber e o conhecer — (o saber prático, o saber teórico, a racionalidade, etc etc). Mas nós não temos uma história do não saber — (e nem uma história do não ser …). Então, essa é a história que nós vamos tentar contar aqui.
Normatividade da lógica da epagogé: de Sócrates a Cícero
Aislan Fernandes (UNICAMP)
Como desdobramento e expansão direta dos resultados consolidados na tese de doutorado, que estabeleceu a abordagem expressivista da epagogé nos Tópicos e na Retórica de Aristóteles em oposição à interpretação indutivista tradicional, este projeto de pesquisa de pós-doutorado propõe alargar a investigação sistemática da dimensão lógico-normativa do procedimento na Antiguidade Clássica e Tardia. O objetivo central é estender o modelo da estrutura triádica (exemplo, aplicação e regra) fundada na semelhança funcional e na explicitação de compromissos inferenciais implícitos a dois horizontes complementares: (i) as origens dos argumentos epagógicos no diálogo socrático a partir do catálogo canônico de passagens mapeadas por Robinson (1941) nos diálogos platônicos (com foco inicial em Íon, Protágoras, Hípias Maior, Górgias e República I), demonstrando como a epagogé socrática opera pelo custo normativo de violar compromissos discursivos (homologiai) tornados explícitos; e (ii) a transposição retórico-filosófica da epagogé (como inductio) por Cícero (De Inventione, Topica e Brutus) e sua função normativa na formulação das regulae iuris da jurisprudência casuística clássica presente no Digesto. Com isso, o projeto integra os achados exegéticos da tese à agenda contemporânea sobre pragmatismo, equilíbrio reflexivo e normatividade lógica desenvolvida no âmbito do grupo NormAtiva.
Palavras-chave: Epagogé; Normatividade lógica; Expressivismo lógico; Sócrates; Platão;
Cícero; Jurisprudência romana.
Uma Defesa da Bidirecionalidade entre Certeza e Conhecimento em Sobre a Certeza
Toma Georghe (UFPE)
Em Sobre a Certeza (1969) (SC), Wittgenstein propõe que certas crenças que dizem respeito a fatos empíricos, como “seres humanos têm cérebro”, não são simplesmente conhecimentos, mas condições necessárias para o uso da linguagem — “regras gramaticais”. Mas não apenas teríamos um conjunto de crenças adentrando o âmbito do significado — algumas passagens do SC, como §144, 152 e 248, indicam que tais crenças ganham esse papel especial por conta de outras que as “fixam” no lugar. Essa perspectiva quanto à dependência de uma condição do uso da linguagem com relação a crenças empíricas vai de encontro com o que fora anteriormente proposto por Wittgenstein, no Tractatus Logico-Philosophicus (1921), e também com interpretações influentes do próprio Sobre a Certeza (1969) (Moyal-Sharrock, 2004; Stroll, 1994; Coliva, 2010). Entendo que a incompatibilidade com o Tractatus Logico-Philosophicus (1921) se dá devido a uma diferença nas visões sobre o significado em cada obra — que, de fato, a relação bidirecional entre certezas e o resto de nossas crenças é uma consequência da visão pragmatista sobre o significado tomada por Wittgenstein das Investigações Filosóficas (1953) adiante. Pode-se resumi-la assim: o significado de uma palavra é seu uso regrado em práticas. Em nossas práticas cotidianas, certezas devem ser assumidas para que possamos tomar ações e fazer julgamentos normalmente — o que lhes torna “regras gramaticais”. Simultaneamente, sua relação com tais ações e julgamentos não pode ser unidirecional, com a certeza estabelecendo-se independentemente deles. Não há sentido em falar, por exemplo, de procurar por algo perdido sem ter a crença de que a existência de objetos independe da minha percepção; mas tampouco há sentido em ter uma crença de que a existência de objetos independe da minha percepção se não houvesse práticas nas quais tal crença se envolvesse.
Palavras-chave: Sobre a Certeza. Ludwig Wittgenstein. Filosofia da linguagem. Pragmatismo.
Ecos Hegemônicos: pacto ecoico e a reprodução da branquitude por grupos minorizados
Ialley Lopes (UFPE)
Como compreender a adesão de sujeitos e grupos socialmente minorizados a discursos e projetos políticos que sustentam hierarquias das quais eles próprios podem ser alvo? É através deste questionamento que pretendo abordar o fortalecimento da extrema direita no contexto brasileiro. Essa questão exige investigar não apenas as condições de coerção que atravessam tais adesões, mas também os processos pelos quais a branquitude se constitui como horizonte de desejo, reconhecimento e pertencimento. Para tal, proponho abordar o problema a partir do conceito de pacto ecoico, em articulação crítica com a noção de pacto narcísico da branquitude elaborada por Cida Bento. Partindo de exemplos que dialogam ficção e a realidade contextual do bolsonarismo, intenciono examinar como sujeitos posicionados de maneiras distintas nas relações de poder podem participar da circulação e da legitimação de discursos hegemônicos. Isso recai em um jogo discursivo e imagético de outrificação: processos pelos quais determinados corpos são constituídos como Outros e, simultaneamente, confrontados com ideais de brancura que podem passar a orientar seus desejos e formas de reconhecimento. A outrificação desvela aqui um papel de silenciamento conveniente, mas também a responsabilidade na sustentação desses pactos, considerando que a reprodução da hegemonia não depende exclusivamente da adesão declarada, mas pode operar por meio de omissões, apagamentos e repetições. Por fim, em uma busca resolutiva, pretendo tensionar o conceito de pacto ecoico com a noção de câmara de eco debatida em Thi Nguyen, a fim de pensar não apenas as condições de continuidade dos discursos hegemônicos, mas também as possibilidades de interrupção e deslocamento de suas repetições.
Exclusão normativa na educação básica: o poder hegemônico da lógica clássica
Arthur Silva (UFPE)
A pesquisa investiga como os pressupostos da lógica clássica operam implicitamente nas práticas educacionais, constituindo critérios normativos de validação do raciocínio e da produção do conhecimento. Parte-se da hipótese de que a hegemonia dessa racionalidade ultrapassa o domínio do ensino explícito de lógica, manifestando-se nas formas pelas quais a escola reconhece, avalia e legitima determinadas práticas discursivas. Nesse processo, formas de raciocínio que não correspondem aos padrões normativos predominantes podem ser deslegitimadas, produzindo mecanismos de exclusão normativa e restringindo o reconhecimento de diferentes formas de construção do conhecimento. Fundamentada no inferencialismo e no neopragmatismo, especialmente nas contribuições de Marcos Silva em A espiral normativa (2026), a investigação compreende a normatividade como uma estrutura dinâmica, constituída e reproduzida nas práticas discursivas. Busca-se, assim, analisar como determinados compromissos inferenciais adquirem autoridade no contexto educacional, como passam a regular os critérios de racionalidade e de que maneira sua hegemonia pode contribuir para a exclusão de sujeitos e racionalidades não hegemônicas. O objetivo é explicitar a infraestrutura normativa que sustenta essas práticas e compreender os mecanismos pelos quais a exclusão normativa se manifesta na educação.
Palavras-chave: Exclusão normativa; Lógica clássica; Normatividade; Inferencialismo; Neopragmatismo; Educação.
Camuflagem gramatical: uma prática de resistência à predação gramatical
Marianne França (UFPE)
Esta pesquisa pretende colocar à prova a hipótese de que as práticas de resistência desenvolvidas por populações negras na diáspora africana, em contextos de violência colonial, possibilitam a proteção de formas de vida (Lebensformen), compreendidas a partir do entrelaçamento de noções biológicas, culturais e sociais. O estudo parte da ideia de que o colonialismo, compreendido como uma forma de predação gramatical (Silva, 2026), não se limita à captura e à exploração de corpos e territórios, mas também incide em jogos de linguagem autóctones de populações submetidas à dominação colonial. Para desenvolver essa perspectiva, mobilizam-se conceitos da ecologia em combinação com a filosofia do assim segundo Wittgenstein, para caracterizar o conceito de camuflagem gramatical e compreender as práticas de resistência desenvolvidas diante de relações predatórias coloniais. Em diálogo com a filosofia de Ludwig Wittgenstein (1999), busca-se compreender como práticas culturais participam da autoproteção e da transformação de formas de vida. Para tanto, são investigadas quatro manifestações históricas da resistência negra na diáspora africana, como os Spirituals afro-americanos no sul dos Estados Unidos, o Quilombo dos Palmares no Brasil, a capoeira e a prática de trançar os cabelos em San Basilio de Palenque, na Colômbia. Desse modo, defenderemos que estas práticas podem ser lidas seminalmente como práticas de resistência desenvolvidas por populações negras na diáspora africana que, em contextos de violência colonial, possibilitam proteção e autodefesa de formas de vida.
Palavras-chave: camuflagem gramatical; predação gramatical; formas de vida; práticas de resistência; diáspora africana
Disputa eleitoral como disputa gramatical: alavancagem gramatical e mobilização da esquerda na vitória de lula em 2026
Juliany Thaina (UFPE)
Este trabalho analisa a mobilização da esquerda brasileira nas eleições presidenciais de 2026 a partir dos conceitos de alavancagem gramatical, soberania gramatical, violência gramatical e desacordos profundos. Parte-se da inversão do resultado entre os turnos, quando Luiz Inácio Lula da Silva, após terminar a primeira etapa eleitoral atrás de Flávio Bolsonaro, venceu o segundo turno (TSE, 2026). Argumenta-se que essa disputa não envolveu apenas a conquista de votos, mas também a disputa pela gramática através da qual a sociedade brasileira interpreta a democracia, os direitos sociais, a desigualdade e a participação política. Com base na concepção wittgensteiniana de imagem de mundo e formas de vida (Wittgenstein, 1969), compreende-se a mobilização política como possível forma de alavancagem gramatical, entendida como processo de explicitação, resistência, disputa e transformação dos sentidos e das normas compartilhadas (Silva, 2026a; 2026b). O trabalho examina, ainda, a intensificação dos desacordos profundos entre grupos politicamente polarizados, sobretudo quando a ausência de pressupostos compartilhados e a recusa em reconhecer a legitimidade do interlocutor comprometem a possibilidade de diálogo e argumentação (Fogelin, 1985; de Ridder, 2021). Nesse contexto, determinadas práticas discursivas da extrema direita são analisadas quanto à sua contribuição para a reprodução de uma gramática política excludente, capaz de favorecer formas de violência gramatical mediante a deslegitimação de grupos sociais e a restrição do dissenso democrático. Defende-se que a mobilização da esquerda pode ser compreendida como resistência a esse processo, embora a vitória eleitoral não implique, por si só, a superação dos desacordos profundos ou a consolidação de uma soberania gramatical democrática. Esta última constitui um horizonte de transformação coletiva das condições normativas que organizam a vida comum (Silva, 2026a; 2026b).
Palavras-chave: Alavancagem gramatical; Desacordos profundos; Soberania gramatical; Violência gramatical; Democracia.
Dos Jogos de Linguagem à Luta de Classes: Inferencialismo e Expressivismo como Ferramentas para uma Crítica à Ideologia Liberal
Araken Ypiranga (UFPE)
A presente pesquisa propõe uma leitura marxista do inferencialismo semântico e do expressivismo lógico de Brandom (1994; 2013) a luz dos conceitos de jogos de linguagem, formas de vida e proposições dobradiças de Wittgenstein (1953;1969), aplicando-os às práticas de agitação e propaganda leninistas, Lenin (2009). Buscamos argumentar que os valores liberais apresentados como universais, neutros e naturais, como liberdade individual, meritocracia e propriedade privada, são em verdade, crenças historicamente situadas e socialmente construídas que reproduzem a condição de exploração dos oprimidos. Lançando mão do expressivismo lógico e da alavancagem gramatical de Silva (2026), reinterpretamos as práticas de agitação e propaganda leninistas como intervenções normativas que tornam explícitas, resistem, disputam e transformam inferências implícitas do discurso liberal, desestabilizando certezas hegemônicas e reorganizando o campo do pensável, do dizível e dos afetos. Chamamos esse processo de soberania gramatical, ou seja, a capacidade coletiva de reconfigurar regras discursivas e instituir jogos de linguagem alternativos orientados para formas de vida efetivamente emancipatórias. Nesse sentido, a leitura marxista do expressivismo lógico desenvolvido por Brandom, em diálogo com as noções wittengestarianas de jogos de linguagem, formas de vida e proposições dobradiças, apresenta-se como ferramenta metodológica poderosas, porém não suficientes, para a construção de formas de vida mais emancipatórias.
Política sexual da carne como gramática
Bruno Luize (UFPE/FACEPE)
A presente comunicação defende que a política sexual da carne, formulada por Carol J. Adams (1990), pode ser reinterpretada como uma gramática de alta densidade inferencial e normativa que organiza e estabiliza formas de opressão patriarcal e especista. Em vez de compreender essa política apenas como uma ideologia ou sistema de representações culturais, argumentamos, a partir de Wittgenstein e do inferencialismo de Brandom, que ela funciona como um conjunto de regras que orienta o uso de conceitos, autoriza determinadas inferências e naturaliza práticas de exploração animal e de subordinação das mulheres. Sua estabilidade decorre do fato de operar por meio de fulcros normativos resistentes, caracterizados por elevada densidade inferencial, forte inércia normativa e resistência semântica, psicológica e cognitiva à revisão. Por isso, informações, argumentos ou evidências empíricas, embora necessários, mostram-se frequentemente insuficientes para transformar essa gramática. Propomos, então, uma releitura da crítica de Adams à luz do neopragmatismo periférico, entendido como uma ampliação crítica do inferencialismo e do expressivismo de Brandom (1994, 2000) para contextos de dominação estrutural. A partir desse enquadramento, desenvolvemos a noção de alavanca gramatical como técnica de intervenção sobre os fulcros que sustentam a política sexual da carne. Transformações emancipatórias exigem processos de desfulcralização capazes de tornar explícitas regras até então naturalizadas, disputar suas inferências materiais e reorganizar os critérios normativos que estruturam nossos jogos de linguagem. Defendemos, por fim, que a superação da política sexual da carne depende da construção coletiva de uma gramática antipatriarcal e antiespecista fundada em práticas de soberania gramatical.
Por uma nomenclatura para inteligência de máquina: uma análise das disputas gramaticais no discurso público em torno da IA
Pedro Henrique Matos Siqueira (Unicap)
Cecília Barbosa da Silva (Unicap)
Em 27/10/2026, o presidente estadunidense, Donald Trump, declarou na rede social “Truth Social”, respondendo a um jornal local “The Wall Street Journal”, que em pouco tempo proibiria oficialmente o termo Inteligência Artificial (IA) em todos os documentos relevantes devido à sua imprecisão ao se referir a esses sistemas, e que a tecnologia passará a ser chamada de Superinteligência (SI). Este posicionamento não foi uma ação isolada, pois o estadunidense já havia anunciado em assembleia geral da ONU a adoção da nova nomenclatura, e pouco tempo depois afirmou na mesma rede social, que a Casa Branca tratará como inimigo qualquer um que não corrobore com a mudança. Diante de episódios repetidos deste posicionamento acreditamos que seja importante analisar o caso à guisa das discussões sobre alavancagem e soberania gramaticais proposta pelo neopragmatismo periférico, tendo em vista que a determinação oficializada por decreto assinado, instaura um novo dever-ser a respeito da tecnologia, atuando como uma pressão normativa descendente, com repercussões práticas, políticas e econômicas. O termo "IA" emergiu em 1956, no Projeto de Dartmouth (McCarthy et al., 2006), e, como nota Russell & Norvig (2013, p. 17), resistiu a alternativas como "computacional" por razões contingentes de disputa acadêmica entre dispositivos analógicos e digitais. Ainda que esta tecnologia esteja presente em grande parte dos discursos da atualidade, não há uma definição universal de IA (UNCTAD, 2025, p. 12), fato que permite ao termo abarcar tecnologias com fundamentos, capacidades e implicações radicalmente distintas, desde que realizem, em algum nível, atividades consideradas semelhantes às realizadas pelo cérebro humano. Nesse sentido, a mudança de IA para SI pode ser avaliada como uma tentativa de redefinir as práticas do jogo de linguagem em torno da tecnologia, alterando as inferências, os valores e as expectativas que o termo carrega. Apesar de declarar-se a favor de uma nomenclatura mais acurada em relação a capacidade desses sistemas, argumentamos que a postura de Donald Trump está mais interessada nas repercussões que sua alavancagem realiza.