I Colóquio NormAtiva (UFPE): Normatividade e Lógica
I Colóquio NormAtiva (UFPE): Normatividade e Lógica
11, 12 e 13 de Setembro de 2024
Sala de defesa de teses e dissertações, 3º andar do CFCH/UFPE
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Evelyn Erickson (UFSC)
Minicurso
Lógica como metodologia, e além
A Lógica como disciplina filosófica tem ambições tanto teóricas quanto práticas: possui objetos de estudo sobre os quais produz teorias, e ao mesmo tempo se apresenta como uma metodologia. Como teoria, não há consenso sobre o que exatamente está sendo descrito; como metodologia, não há consenso sobre qual seu escopo normativo. O presente minicurso retoma as origens dialógicas da lógica para tentar reformular discussões em epistemologia da lógica para além dessa dicotomia do descritivo versus normativo. Busca-se explorar, historicamente, questões acerca de quem, do como e do porquê em torno da prática da lógica, para enfim discutir o papel do ensino de lógica no Brasil no século XXI.
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Marcos Silva (UFPE/CNPq)
Tutorial
How to revise logic from a neopragmatist point of view
In this tutorial we will present and discuss philosophical and epistemological problems concerning the revision of logic, as circularity, infinite regress and arbitrariness. Then, we will introduce some methods in a neopragmatist tradition to revise logics. We will use lessons from enativismsemantic inferentialism and logical expressivism.
Day 1: Revising Logic: On Neo Pragmatism, Inferentialism and Expressivism
Day 2: On Verbal Disputes and Metalinguistic Negotiations
Day 3: On Normative Affordances and inferential abilities
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Bruno Luize (UFPE)
Comunicação
Seria o ceticismo radical uma impossibilidade lógica?
O ceticismo radical é o maior problema enfrentado pela epistemologia contemporânea (Porchat, 2007, p. 73-88). A partir de Descartes, arquétipo do cognitivismo e do representacionalismo, inicia-se essa nova forma de ceticismo no período moderno. De modo geral, podemos verificar isso a partir da dúvida metódica (Descartes, 2016, Primeira meditação). Porque, a partir do argumento do sonho e da hipótese do gênio maligno, parece que não há como saber se aquilo que cremos é verdadeiro. Assim, surge o desafio de um ceticismo global que põe todas as coisas sob suspeita na epistemologia. Contudo, sabemos que Descartes não é um cético, tampouco defende isso. Aliás, o resto das meditações é dedicado para resolver esse problema e alcançar certezas indubitáveis. Assim, o que nos interessa aqui é o quanto esse procedimento inspirou o problema filosófico do ceticismo radical. Ou seja, de que modo podemos superar uma postura filosófica que coloca em xeque as nossas certezas mais básicas do tipo ‘estou acordado’, ‘tenho um corpo’, ‘objetos existem no mundo’, etc. Nesse contexto de reação a esse tipo de ceticismo, Wittgenstein em sua postura anti-cognitivista e anti-representacionista, parece ser um poderoso aliado para lidar com tal problemática. Em especial, a obra Da Certeza [1969](1990) é pensada como uma reação anti-cética por parte de seu autor. Isto posto, defendemos, assim como Wittgenstein (1990, §454), que o ceticismo radical é uma impossibilidade lógica. Isto é, a dúvida radical não faz sentido - é um contrassenso manifesto. Porque, tanto as nossas perguntas quanto as dúvidas estão apoiadas em proposições isentas de dúvida. Ademais, tais proposições são chamadas de hinges (dobradiças) uma vez que, ao permanecerem paradas, como no mecanismo de uma porta, possibilitam que nossas práticas epistêmicas ocorram. Com efeito, dúvida e erro, em relação às certezas fulcrais, são sem sentido do ponto de vista lógico. O cético, em verdade, está duvidando, mas apenas de modo ilusório (§19).
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Comunicação
Revisitando a noção de "desacordos profundos" de Robert Fogelin
Wittgenstein aborda o conceito de certezas fulcrais em Sobre a Certeza (1969). Essas são proposições das quais raramente falamos, mas que são fundamentos para nosso sistema de crenças. Wittgenstein nos apresenta um exemplo de desacordo entre certezas fulcrais no §92. Nele, G.E. Moore encontra-se com um rei que acredita que a terra nasceu com ele. Desacordos certamente não são novidade na história da filosofia. No entanto, quando se trata de certezas fulcrais, o desacordo parece assumir outra dimensão. Os participantes de um desacordo entre certezas fulcrais discordam das crenças mais fundamentais. Esse tipo de discordância envolve visões de mundo completamente ou quase completamente diferentes. Trata-se de um desacordo no qual os discordantes entram em conflito sobre coisas muito significativas, o que faz com que não abandonem suas convicções por razão alguma. Fogelin em The Logic of Deep Disagreements (1985,2005) defende que esse é um desacordo profundo, um tipo peculiar de desacordo que não é resolvido por meio da razão, pois os discordantes não compartilham um solo comum. Entretanto, destacamos um problema na caracterização de desacordos profundos de Fogelin: se um desacordo profundo, de fato, não tem nenhum tipo de solo comum compartilhado, como seria possível haver um desacordo? Dito de outra maneira: como pode haver um desacordo onde nem a comunicação é possível? É sabido que, para que seja possível um desacordo, é preciso que se tenha, pelo menos, um ponto em comum. Seja compartilhamento de crenças, seja um reconhecimento, mas é imprescindível que se tenha algum tipo de acordo mínimo para que seja possível discordar. Dessa forma, o desacordo profundo parece ser diluído. Em outras palavras, se a caracterização da noção de desacordos profundos for a de Fogelin, a consequência será: não existem desacordos profundos.
Palavras-chave: desacordos profundos; certezas fulcrais; argumentação; racionalidade; diluição.
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Luis Fernando Antunes Pivotto (UFPE)
Comunicação
Na lei ou na marra: Sobre desacordos profundos e sua relação com o epistemicídio
No estudo relacionado à obra de Sobre a Certeza (1969), de Ludwig Wittgenstein, o filósofo apresenta um exercício curioso em seu diálogo com os escritos de outro pensador controverso, G. E. Moore, geralmente referenciado como “o problema do rei e de Moore”: Suponha-se que tenham ensinado a um rei desde bebê que o mundo surgiu junto com seu nascimento e que Moore tenha certeza do contrário, isso é, de que o mundo é anterior ao nascimento do rei. Caso Moore e esse rei tenham se encontrado, teria o monarca algum motivo para duvidar de sua certeza? Ainda mais, teria como Moore convencer ele do contrário, qualquer que fosse seu argumento? Parece que a discordância é tamanha que não há possibilidade de discussão (discordância essa que atualmente tomou nome, por convenção, de “desacordo profundo”) e que o pensador não poderia modificar a visão de mundo do seu opositor senão pela conversão, que seria um tipo especial de convencimento. Este trabalho pretende articular essa problemática em outro sentido: Na medida que o rei depende da vontade popular para reinar, ele pode aparentemente discutir com um sujeito como o Moore para ganhar legitimidade e popularidade, e ao mesmo tempo não querer se convencer do contrário, já que assim estaria fortalecendo sua posição de poder? E em uma extrapolação de cunho político, não pode ser o caso de que um governo levante as bandeiras de populações marginalizadas com o intuito de angariar votos, emule um ambiente de comunicação e discussão, mas na prática incentive políticas que justamente promovem o genocídio e apagamento sistemático desses povos, genocídio esse que é o motivo pelo qual esses povos apoiaram o candidato, em uma traição, portanto, antidemocrática (e possivelmente racista, burguesa, machista, etc.)? Ademais, há possibilidade de comunicação nos desacordos profundos e na democracia representativa atual? Esta pesquisa, portanto, se debruça sobre a possibilidade desses desacordos profundos, em contextos políticos, serem causadores e/ou intensificadores da estruturação linguística, política e material do “epistemicídio”, conceito criado pela filósofa brasileira Sueli Carneiro em sua obra Dispositivo de Racialidade (2023). Nesse sentido, este projeto pretende abordar o recorte de raça dos problemas políticos brasileiros, assim como feito por Sueli Carneiro, e sua possível relação com os “desacordos profundos” da obra de Wittgenstein, além da possibilidade de discussão política na democracia atual e a necessidade de atitudes políticas materiais e contundentes.
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Fabio Gabriel Tavares Praxedes (UFPE)
Bacharelando em filosofia. Bolsista PIBIC/ CNPq Email: fabio.gabriel@ufpe.br
Comunicação
Por um Niilismo de Gênero: uma leitura pragmatista sobre o uso de categorias de identidade de gênero
Um dos grandes impasses presente na filosofia pode ser formulado da seguinte forma: as diferenças existem objetivamente no mundo e por isso delimitamos diferenças conceitualmente, ou por estipularmos conceitualmente diferenças é que elas existem? Podemos perceber essas diferenças serem expressas em nossas práticas linguísticas ao distinguirmos entre diferentes conceitos, como diferentes cores, objetos ou gêneros. No debate feminista contemporâneo essa questão se mostra como um tensionamento entre a disputa pelo fim do uso de categorias de identidade de gênero, como “mulher”, e a defesa da resignificação e manutenção de tais categorias. Afinal, qual significado resta para nossas diferenças corporais caso elas não mais sejam generificadas? Na presente pesquisa entendemos que a ressignificação de categorias de identidade de gênero deve ser vista como um meio através do qual podemos pressionar normativa e politicamente uma subversão gramatical em torno de imagens de mundos conflitantes. De maneira que a ressignificação dessas categorias deve ser pensada e realizada em função de criarmos um cenário concreto onde conceitos como o de identidade de gênero sequer façam sentido em nossas práticas sociais, uma vez que entendemos que a gramática que determina o uso destas categorias somente fazem sentido na medida em que servem como justificativa para opressão. Desse modo, defendemos que a abolição do uso de categorias de identidade de gênero é um passo necessário, mas não suficiente rumo ao fim da opressão de gênero. Para tanto, buscamos inserir no debate feminista contemporâneo elementos filosóficos neopragmatistas, expressivistas, inferencialistas e normativos como presente em textos como os de Brandom (2000, 1994) e Wittgenstein (2022, 2023) aptos a serem utilizados como instrumentos conceituais úteis para reversão de quadros sistemáticos de opressão, algo similar ao que é apresentado nos textos de Lobo (2019), Trächtler (2023), Gamero-Cabrera (2022; 2023), Tanesini (2004) e Scheman, Naomi, e Peg O’connor ed. (2002).
Palavras-chave: Abolicionismo de gênero; Epistemologia feminista; Neopragmatismo; Niilismo de gênero; Wittgenstein.
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Leovan Morais Rodrigues Neto (UFPE)
Comunicação
Falácia Genética na Genealogia da Moral de Nietzsche?
A genealogia de Nietzsche é um procedimento histórico-crítico desenvolvido, principalmente, na Genealogia da Moral, a partir do qual o filósofo realiza uma crítica aos valores morais. Para isso, Nietzsche utiliza a história, a filologia e a fisiopsicologia como instrumentos de análise. No mais, o critério avaliativo utilizado pelo filósofo é o conceito de “vida”, compreendida com base na vontade de potência. A partir dessa caracterização do procedimento genealógico, nosso objetivo é responder a questão se Nietzsche comete uma falácia genética em sua avaliação dos valores. Isso porque a citada falácia ocorre quando o valor de algo é determinado a partir de sua origem. Suspeitamos que a resposta para este problema é negativa, ou seja, Nietzsche não comete a falácia genética em sua avaliação naturalista da moral. Como forma de colocar à prova nossa hipótese, dividimos o trabalho em três etapas. Na primeira, apresentamos a leitura do procedimento genealógico de Nietzsche, bem como as ferramentas de análise deste procedimento. Nossa ênfase será no livro Genealogia da Moral. Na segunda etapa, esclarecemos o que constitui a falácia genética, bem como as passagens das quais Nietzsche é acusado de cometer esta falácia. Por fim, indicamos o motivo pelo qual a avaliação nietzschiana não comete falácia genética.
Palavras-chave: Falácia genética; Genealogia; Moral; Nietzsche.
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Fredson Melquiades de Andrade Junior (UFPE)
Comunicação
Transtornos mentais podem estar situados? Uma perspectiva enativista
Para o panorama do cognitivismo clássico, a nossa mente está localizada no cérebro, em abstração do corpo e do ambiente em que os indivíduos estão situados. Porém, a abordagem enativista concebe a mente como corporificada, enativa e situada, o que quer dizer que a cognição é uma atividade moldada por interações dinâmicas entre o corpo e os ambientes físicos e sociais. Com base nisso, buscamos argumentar que se considerarmos que a mente é corporificada e situada, então podemos compreender que transtornos mentais também são. E que, se transtornos mentais são corporificados e situados, então indivíduos que estão situados em ambientes hostis e opressivos são mais suscetíveis a desenvolverem tais transtornos. Para validar nosso argumento, partimos da tese de sense-making (produção de sentido), presente na literatura enativista, na qual argumenta que produzimos sentido ao nosso mundo de forma corporificada, situada e afetiva. Uma vez que 1) para ter cognição, é necessário ter experiências que partem de um corpo dotado de habilidades sensório-motoras particulares; 2) essas habilidades particulares estão embutidas em um contexto mais amplo, que engloba aspectos biológicos, ambientais e culturais, que interagem com os seres vivos de forma positiva ou negativa (o foco maior dessa pesquisa); 3) a afetividade não é algo distinto da racionalidade, tendo em vista que as emoções incluem estados cognitivos de avaliação do ambiente. Dessa forma, adotamos a perspectiva enativista da mente para identificar como é moldado o estado mental das classes sociais marginalizadas, que produzem sentido do mundo a partir do medo, fadiga, preocupações excessivas com o futuro e outros tipos de sintomas que podem ser categorizados como transtornos mentais, de acordo com o DSM. Com isso, buscamos expandir o problema dos transtornos mentais para além dos mecanismos neurobiológicos e propor uma abordagem que inclua as dimensões políticas e sociais para compreender a formação e a vivência da cognição.
Palavras-chave: Transtornos mentais; Enativismo; Cognição.
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Juliany Thainá Tôrres de Lira (UFPE)
Comunicação
Existem desacordos profundos intrapessoais?
Este projeto de pesquisa defende a hipótese de que existem desacordos profundos intrapessoais. Nesta perspectiva, desacordos profundos são conflitos formados a partir de discordâncias entre certezas fulcrais, em que indivíduos em desacordo, normalmente em relações interpessoais, possuem imagens de mundo diferentes. Um exemplo conhecido é trazido por Wittgenstein (1969), ao apresentar o conflito entre Moore e o rei. Diante disso, defendemos enquanto hipótese que: 1) desacordos profundos podem ser interpessoais e intrapessoais; 2) que, a partir de experiências internas e individuais, conflitos profundos podem ser solucionados, como é o caso, por exemplo, de um indivíduo que vivia em desacordo consigo por ser homossexual, até que se aceita da forma que é; e 3) que imagens de mundo podem ser alteradas internamente a partir da superação de desacordos profundos intrapessoais. Assim, trazemos o conceito de desacordos profundos a partir de Wittgenstein (1953; 1969), Fogelin (1985) e Silva (2020), utilizando-o como base para compreender o conflito entre certezas fulcrais e, adiante, defendermos a existência de desacordos profundos intrapessoais.
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Mateus da Silva Alves (UFPE)
Comunicação
É possível uma distinção entre hinges? Sobre a possibilidade de hinges políticas
O Sobre a Certeza é uma interessante fonte de inspiração filosófica. Em seu livro tardio, Wittgenstein dedica parte do texto a esclarecer confusões entre as noções de conhecimento e certeza, e desenvolve o conceito de certeza fulcral. Esta também é denominada de proposição eixo ou proposição dobradiça (hinge), devido a metáforas utilizadas pelo autor (§152, §341). A literatura secundária apresenta algumas leituras (Sharrock, Coliva, Williams), no entanto, nela há poucos elementos que permitam distinções entre tipos de proposições dobradiças. Nesse sentido, o presente trabalho investiga a possibilidade de distinções entre tipos de certezas fulcrais. Para tanto, supõe-se os seguintes critérios para defender tal distinção: (i) repulsa e estranheza à dúvida, (ii) fixação de imagem de mundo (informando crenças e ações), (iii) resistência normativa e (iv) densidade inferencial. Reconhece-se, então, que podem existir diferenças em as articulações das hinges. Estas estão na periferia das dobradiças e fixam as hinges. Como consequência, algumas permanecem inabalavelmente firmes e outras mais suscetíveis à alteração (§144). A imagem fornecida é que as articulações que fixam as dobradiças podem indicar que algumas portas abrem com maior facilidade, outras emperram e algumas sequer podem ser abertas. Desse modo, argumento que, se é o caso que hinges sejam todas de um mesmo tipo, não é possível estabelecer distinções entre elas. Mas não é o caso que não seja possível estabelecer distinções entre hinges. Portanto, hinges não são todas de um mesmo tipo. A distinção entre hinges tem o objetivo de fomentar um aporte teórico para pensar proposições dobradiças na política. Apesar de pouco explorado, o Sobre a Certeza fornece recursos que iluminam o debate político. Esse é o caso, por exemplo, em discussões e disputas em torno de crenças fundamentais sobre mudanças climáticas, formato da terra e repercussões em fake news. Assim sendo, se é possível realizar distinções entre proposições fulcrais, então, defendo que é possível estabelecer critérios para identificar proposições fulcrais com acepção política. É possível realizar distinções entre proposições fulcrais. Portanto, é possível falar de hinges políticas. O objetivo dessa abordagem é servir de base para avançar em outros problemas filosóficos como nos casos de dissensos e debates epistemológicos.
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Mayk Silva (UFPE)
Comunicação
É possível resolver desacordos científicos apenas com o diálogo?
Imagine que dois agentes entrem em desacordo sobre um argumento, então como poderíamos resolver esse dissenso? Na tradição filosófica existem várias respostas para isso. Uma que ganha bastante repercussão nos círculos acadêmicos da contemporaneidade é modelo semi-adversarial do provador e do cético (prover-skeptic) da Catarina Dutilh Novaes, que aparece de maneira elaborada na sua obra "The Dialogical Roots of Deduction" (2021). Nesse modelo, uma discordância pode ser resolvida de um ponto de vista dialógico através de uma colaboração entre um provador e um cético que trabalharão juntos, cooperativamente, na construção argumentativa. Entretanto, defendemos que esse modelo pode ser facilmente inviabilizado em situações de diálogo onde há ideias antagônicas nutridas por interesses de classe divergentes, ainda que dentro dos limites de círculos de especialistas. Acreditamos, então, que o modelo é demasiado “civilizado” e não comporta o caráter de luta de classes implícito nas investigações científicas e discussões acadêmicas, além de não evidenciar as consequências práticas dos argumentos e contra-argumentos que estão sendo defendidos. Objetivando estabelecer estas críticas, por conseguinte, vamos primeiro apresentar detalhadamente o modelo do Provador e do Cético proposto pela Dutilh-Novaes e logo em seguida examinaremos sua aplicabilidade em situações concretas.
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Toma Gheorghe (UFPE)
Comunicação
Comunicabilidade de argumentos sobre lógica
Quine (1970) defendeu a tese de que uma mudança de lógica constitui uma mudança de assunto — assim, as discussões feitas por lógicos rivais seriam meramente disputas verbais. Considero que na raíz da tese esteja uma visão errônea da relação entre a lógica e da linguagem. Desejo destacar o fato de que, na argumentação por uma ou outra lógica, filósofos não usam só linguagens artificiais, e nem poderiam — a linguagem natural é indispensável. Explicarei esse fato pelo inferencialismo defendido por Brandom (2000) e Peregrin (2014). Nessa visão da linguagem, o vocabulário lógico é uma explicitação das relações inferenciais normativas que constituem a linguagem natural. O desenvolvimento de sistemas lógicos é um processo de abstração e universalização de regras inferenciais boas num contexto específico. Com isso, podemos pensar nas disputas lógicas como negociações metalinguísticas (Plunkett, 2015; Silva, 2023).
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Jefferson Silva de Santana (UFPE)
Mestrando PPGFil-UFPE. Bolsista Facepe.
Comunicação
O Colonialismo enquanto Violência Gramatical
Nesta exposição, argumentaremos que ao longo da história o colonialismo também se revelou como uma forma de violência gramatical. O conceito de violência gramatical pode ser extraído de autores da tradição descolonial e da filosofia da linguagem, além de aparecer em artigo de Praxedes e Silva (no prelo), sendo possível argumentar que o colonialismo é uma forma de violência linguística ao unir essas duas tradições de conhecimento. Pretendemos desenvolver a tese do colonialismo enquanto violência gramatical durante o doutorado. Frantz Fanon, em "Pele Negra, Máscaras Brancas" (1952), analisa como a adoção da língua do colonizador é uma forma de violência simbólica que leva à interiorização de uma identidade submissa. Para Fanon, a linguagem é uma das principais ferramentas através das quais o colonizador impõe uma visão de mundo que desvaloriza e subjuga o colonizado. A gramática do colonizador se torna uma prisão mental que impede o colonizado de se ver como igual, criando um ciclo de opressão que é perpetuado através do uso da língua. Esta imposição gramatical é, portanto, uma violência que distorce a realidade e subjuga o indivíduo e toda a sua comunidade. Em "Investigações Filosóficas" (1953), Wittgenstein explora a ideia de que a gramática de uma linguagem não é apenas um conjunto de regras formais, mas está profundamente ligada às formas de vida (Lebensformen) das pessoas que a falam. Ele argumenta que a linguagem molda e é moldada pelas práticas sociais e culturais, o que implica que a imposição de uma gramática estrangeira pode ser vista como uma forma de forçar uma nova forma de vida sobre uma comunidade. É a imposição normativa de uma visão de mundo (Weltbild) sobre outra. Essa imposição de uma nova forma de vida através da gramática deve ser interpretada como uma forma de violência, na medida em que desestabiliza e transforma as práticas culturais e modos de pensar locais, impondo normas externas que podem ser opressivas ou alienantes. Podemos encontrar as bases argumentativas para a violência gramatical em pensadores como Ngũgĩ wa Thiong'o, Frantz Fanon, Edward Said, Michel Foucault, Homi K. Bhabha, Achille Mbembe, Ludwig Wittgenstein, Robert Brandom, Gloria Anzaldúa e Miranda Fricker, revelando-se como uma estratégia de poder que busca não apenas controlar territórios, mas também as mentes e as almas dos colonizados, moldando suas formas de pensar, falar e ser.
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Arthur Silva
UFPE-Graduando, Brasil-Pernambuco.
E-mail: arthur.alvess@ufpe.br
Comunicação
Qual a natureza da Consequência Lógica?
Atualmente, existem uma grande quantidade de sistemas lógicos. De maneira geral, eles podem ser divididos em dois grandes grupos: lógicas complementares e lógicas alternativas. O primeiro busca ampliar o arcabouço lógico para além do sistema clássico, enquanto o segundo grupo, derroga pelo menos um princípio da lógica clássica. Dessa maneira, surge um antro de questionamentos em torno dessa disputa de sistemas lógicos, que carece de um revisionismo para analisar, se há uma ou mais formas de sistemas lógicos corretos. Com isso, adotar uma concepção sobre qual seria a natureza da consequência lógica, tendo-a como conceito principal da lógica, pode servir como base para determinar o que é lógica e quais são suas limitações e intersecções. Sendo este conceito, portanto, que nos permitirá dizer se existe uma ou várias lógicas corretas. Com esse intuito, utilizamos as noções de jogos Wittgensteinianos para delimitar as fronteiras sobre qual a natureza da consequência lógica. Desse modo, solidificando o debate entre lógicas, para que haja um terreno fixo no qual possamos nos aprofundar e analisar com mais perspicuidade a discussão. Obtendo, assim, aparatos filosóficos necessários, para que haja uma possibilidade de diálogo na disputa entre monismo e pluralismo na Lógica
Palavras-chave: Disputa Lógica; Pluralismo Lógico; Monismo Lógico; Consequência Lógica.
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Ana Alice Pereira Galdino (UFPE)
Comunicação
Ensino da Lógica e o Pensamento Crítico: Desafios da Cultura Digital
O século XXI, a cultura digital tem se tornado dominante, inundando a humanidade com informações em tempo real. Nesse ambiente cibernético, não há autoridade central para determinar quais informações são falsas, perigosas, injuriosas, etc., resultando numa maior disseminação de fake news. Essa atmosfera é influenciada por diferentes "jogos de linguagem", como abordados por Wittgenstein, onde cada um tem suas próprias regras. A compreensão da lógica é essencial para analisar criticamente informações e aplicar conhecimentos de forma racional.
As obras de Cezar Mortari e de Patrícia Velasco funcionam como base para a justificação da necessidade do ensino da lógica na educação básica, assim como na própria construção pessoal. As teorias se entrelaçam, corroborando para uma interferência positiva da introdução ao ensino da lógica já na educação básica, em especial no Ensino Médio, onde começa oficialmente o ensino de filosofia. Pois o diálogo racional requer conhecimento do objeto discutido, da mesma maneira requer domínio dos recursos lógicos e da forma correta de estruturação argumentativa. Evitando assim produzir e/ou reproduzir falhas argumentativas ou falácias. Essa apropriação pode proporcionar autonomia acadêmica e reflexiva, se apresentando enquanto abertura de possibilidade, quando apreendida de maneira eficaz, e aplicada eticamente.
Ademais, os discursos falaciosos e enganosos que circulam no ciberespaço são formulados de maneira lógica, que pretendem distorcer as imagens de mundo com fins arbitrários, tais que ameaçam a própria democracia. Essa questão está tão latente na atualidade, que a 9ª EpePe – Encontro de Pesquisa Educacional em Pernambuco conta com o tema “Desafios do Plano Nacional de Educação (PNE) Diante da Necessidade do Fortalecimento da Democracia”
É neste ponto que percebo a necessidade do ensino da lógica na educação básica, pois a inserção a cultura digital vem acontecendo cada vez mais cedo; o acesso a uma gama de informações em tempo real tem sido cada vez mais massivo, a disseminação de discursos de ódio e fake news tem sido cada vez melhor articulado e fundamentando logicamente para enganar e persuadir politicamente a posicionamentos autoritários. E não há como disputar espaços e argumentos de maneira eficiente se as pessoas que se opõem e buscam fortalecer a democracia não estiverem familiarizadas com os princípios e regras lógicas, as mesmas que são infligidas pelos grupos extremistas. Ou seja, princípios que ao mesmo tempo são tratados como fundamentos das praticas fascistas, são desrespeitados. Como a falácia ad hominem, que na disputa argumentativa deixa de forçar o argumento opositor, e passa a atacar o argumentador em aspectos pessoais que muitas vezes não estão relacionados a disputa argumentativa.
Portanto, tal contribuição do ensino da lógica pode ser refletida no aumento da quantidade de ingressantes nas universidades. Do mesmo modo, pode enfraquecer a disseminação de fake news, caso cada vez mais pessoas dominem os recursos argumentativos, em conjunto com as disciplinas ofertadas pelos currículos no Ensino Médio, e com a devida atenção para o fortalecimento da democracia. Mesmo as falácias intencionais serão mais facilmente reconhecidas. Ou seja, a devida atenção, o uso correto e ético das ferramentas lógicas e argumentativas, pode contribuir para o fortalecimento e melhor desenvolvimento da sociedade brasileira.
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Thiago Andrade de Oliveira (UFPE)
Comunicação
Anti-excepcionalismo intencional
O objetivo desta comunicação é criticar o excepcionalismo intencional de Michael Tomasello. Para ele, os primatas humanos são os únicos organismos que cooperaram, uma vez que evolutivamente descobriram novas formas de compartilhamento cultural, ferramentas e colaborações. Nesta perspectiva, a linguagem simbólica, a utilização e criação de ferramentas e instituições complexas seriam o resultado de um longo processo evolutivo sócio-cognitivo. No entanto, Tomasello (2014, 2016, 2019, 2020), argumenta que os nossos parentes mais próximos, os Grandes Símios não- humanos (Chimpanzés, Gorilas, orangotangos e Bonobos), são incapazes de cooperação, pois possuem apenas a intencionalidade individual. A intencionalidade dos Grandes Símios, assim, seria restrita à procura de comida, sobrevivência e status social. Na primeira parte, mostrarei a intencionalidade e as habilidades inferenciais dos Grandes Símios. Na segunda, apresento os conceitos de intencionalidade compartilhada e cooperação do Tomasello. Na terceira, critico este excepcionalismo intencional, argumentando que a) os Bonobos são cooperativos; b) os macacos-vervet possuem intencionalidade compartilhada; c) os primatas humanos e não-humanos vivem formas de vidas complexas.
Palavra-chaves: Anti-excepcionalismo; Cooperação; Intencionalidade.
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Marianne Serafim de França
Mestranda em Filosofia - UFPE, Brasil-Pernambuco.
E-mail: mariannefranca.mf@gmail.com
Comunicação
As almas dos filhos da noite: além do véu
O estado de consciência dual observado por W. E. B. Du Bois retrata a experiência do sujeito negro que enxerga a si mesmo pelo olhar do outro, do branco. Filhos da noite, nascidos com um véu, o negro é impedido de tomar consciência de si mesmo, apartado do mundo, na linha da cor. Vivenciar a experiência de ser um sujeito atravessado pelas mazelas deixadas pelo colonialismo, faz com que o sujeito esteja na experiência de mundo vivida no limbo das opressões raciais. A epiderme se torna um pressuposto que situa o indivíduo em um lugar, o lugar do não-ser. Apartado por um véu, o negro, aqui, vivencia a nebulosidade da possibilidade de vida sem o véu, à espera de sua rasura. A partir disso, esse trabalho pretende realizar um debate entre a consciência dual e a metáfora do véu cunhada por W. E. B. Du Bois. Além de discutir como o colonialismo, através do processo de niggerization realizou a dissolução de identidades negras enquanto possibilidade existencial.
Palavras-chave: consciência dual; metáfora do véu; colonialismo
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Bruno Rolemberg
Comunicação
Uma saída inferencialista ao problema da adoção na epistemologia da lógica
A presente tese tem como objetivo mostrar que o Problema da Adoção de um Princípio Lógico perde sentido se analisado sob a perspectiva de uma teoria inferencialista do significado. Parte-se da leitura que Romina Padró faz do problema na sua tese What the Tortoise Said to Kripke: the Adoption Problem and the Epistemology of Logic, especialmente em sua reconstrução do Diálogo de Carroll, denominada “O Caso Harry”, e de comentários da tradição analítica correlatos ao problema. Em seguida, apresenta-se o inferencialismo semântico, especialmente na forma proposta por Robert Brandom. São abordadas as questões em sua obra relativas à distintividade do conceitual; pragmatismo conceitual e linguístico; expressivismo racionalista; inferencialismo e proposicionalismo conceitual; e holismo semântico. Emprega-se então o inferencialismo semântico como abordagem ao Problema da Adoção através do caso Harry, mostrando-se que a aparente adoção do princípio lógico realizada pelo personagem foi um ato verbal, mas não proposicional, pois não houve endosso das consequências inferenciais resultantes da sentença proferida. Por fim, demonstra-se que o significado de princípios lógicos é constituído por sua posição em uma rede de consequências inferenciais, de modo que é destituída de sentido uma formulação do problema da adoção em bases atomísticas, isto é, que não considere as consequências inferenciais em outros princípios lógicos e proposições em geral da adoção de um determinado princípio lógico.