Crítica de la argumentación pura: relaciones de poder, racionalidad limitada realista y desacuerdos profundos
Guadalupe Reinoso UNC-CONICET
En el reciente libro Reason and Power in Argumentation de Catarina Dutilh Novaes (2026, Cambridge University Press), la autora se propone, desde un enfoque no idealizado de la argumentación, una aproximación “más realista” de la comprensión de nuestras prácticas argumentativas. Su intención no es meramente descriptiva ni se reduce a tomar posición en el debate sobre las teorías de la argumentación en disputas, sino que también tiene un propósito normativo: recomendaciones para participar de intercambios argumentativos fructíferos. La pregunta que articula el libro es: ¿cómo interactúan la razón y el poder en los procesos argumentativos concretos de la vida real? Lo que me interesa discutir es la relación que se establece entre argumentación y resolución de desacuerdos. En general, los desacuerdos se han explicado como “fallas” en la argumentación: “los seres humanos parecen estar dotados de capacidades innatas para enredar las cosas [messing things up] tan pronto como las estructuras argumentativas se elevan por encima del nivel más simple de complejidad” (Fogelin, 1985 citando a Hume, p. 4). Si aceptamos, desde el enfoque de la epistemología social asumido en el libro, que los intercambios argumentativos se sitúan en un campo de relaciones de poder asimétricas donde se combinan componentes racionales y emocionales, la interpretación de los desacuerdos también se modifica. Esto redefine la interpretación de los desacuerdos profundos bajo una perspectiva funcional y pluralista. De este modo, los desacuerdos dejan de ser descritos como un choque de trasfondos o fallas a resolver para convertirse, en ocasiones, en “garantes normativos”: herramientas clave para revisar prácticas argumentativas reales y denunciar injusticias o asimetrías.
Al final de las razones: encantamiento, confianza y poder en las creencias conspirativas
Pamela Dammert (PUCP, Peru)
Resumen:
En el capítulo 8 la autora sostiene que las creencias conspirativas no son simplemente irracionales ni inmunes a la evidencia. Quienes las adoptan responden a señales de entorno epistémico y buscan, además de hechos, narrativas que encanten, lo que explica por qué el desmentido racional suele fracasar. Destaco de la propuesta tres aciertos: i) tomar en serio las conspiraciones reales, ii) la tesis de la simetría entre difusión de fantasías y encubrimiento de conspiraciones y iii) la superación del falso dilema entre hechos y afectos. Sugeriré una relectura de algunos de los temas tratados por Dutilh Novaes desde Sobre la certeza (pasajes 141 y 611-612) y desde el caso peruano, donde el encubrimiento aparece como fabricación de injusticia testimonial
Argumentos e os seus usos
A minha intervenção trata de questões conceituais discutidas na Introdução e no Capítulo 1: What’s the Point of Arguing? Como a monografia abrangente, mas focada nas relações entre a razão e o poder nas práticas argumentativas, o livro Reason and Power in Argumentation abre muitas perguntas fundamentais para investigação filosófica: Onde reside a normatividade de discurso argumentativo? Qual o lugar de “razão pura” e de argumentos como “entidades abstratas”? O poder, até como um conceito “neutral”, pode apoiar a razão ou só a contamina? Ao levantar estas questões, pretendo dialogar com alguns dos pontos de partida teóricos deste livro profundamente esclarecedor.
A filosofia atual é suficientemente crítica?
Frank Thomas Sautter (UFSM)
Abordo três pontos suscitados pela leitura de Reason and Power in Argumentation (2026), de Catarina Dutilh Novaes: 1) o diagnóstico de Catarina quanto ao estado de coisas atual no que diz respeito à argumentação e a sua ambiciosa proposta de tratamento; 2) a relação entre argumentação e debate, e a relação de ambas com situações de conflito; 3) a relação entre uma atitude adversarial e uma atitude cooperativa, e em que medida ambas podem ser conciliadas.
Quando o argumento deixa de ser combate: forma e escrita na filosofia
Kariane Marques (UFSC)
Em Reason and Power in Argumentation (2026), Catarina Dutilh Novaes retoma a crítica às metáforas de combate que organizam nosso vocabulário sobre a argumentação — atacar, demolir, derrubar — e propõe, contra a concepção do argumento como jogo de soma zero, um modelo da argumentação como troca epistêmica. No Capítulo 7, esse deslocamento se desdobra numa concepção pluralista do discurso político: ao lado do argumento racional, aparecem como intervenções legítimas a narrativa, a retórica, o protesto e a sátira, porque a razão, por si só, não funciona como equalizadora de poder. Esta apresentação acompanha esse percurso e pergunta o que ele produz quando a comunidade em questão é a filosofia, que também se descreve em vocabulário litigioso: objeta-se, refuta-se, defende-se uma posição. Se o deslocamento vale igualmente aqui, a fronteira do filosófico se mostra mais larga do que o estilo dissertativo, e a questão deixa de ser apenas qual tese se sustenta para incluir em que forma se pensa. Recorro a dois textos brasileiros. Janyne Sattler propõe uma filosofia literariamente engajada, cujo compromisso textual é um compromisso com o mundo, marcada por abertura, atenção, contextualidade e reconhecimento da complexidade, e contraposta ao que ela descreve como os elementos litigiosos do vocabulário filosófico corrente. Ana Míriam Wuensch, buscando pensadoras brasileiras e latino-americanas, propõe as categorias de pária e de exílio — a segunda destinada a rastrear autoras que percorrem a filosofia desde outros territórios do saber — e adota o termo “pensadoras” em lugar de “filósofas”. Em nenhum dos dois casos se trata de anexar a literatura à filosofia, mas de perguntar o que a escrita filosófica se torna quando deixa de supor o combate como sua forma.
Como os professores podem contribuir para aumentar a confiança na ciência?
Cesar Santos (UFMA, Brasil)
Em Reason and Power in Argumentation, Dutilh Novaes sustenta que a confiança é um elemento chave para a argumentação: uma pessoa nem sequer se engaja com um argumento se não tiver, antes, algum grau de confiança no interlocutor. Por melhor que seja o argumento apresentado, não é a sua força epistêmica, sozinha, que vai fazer o papel do convencimento (Capítulo 4; p. 113). Aplicando essa ideia ao modo como a ciência é vista pelas pessoas leigas (Capítulo 6), Dutilh Novaes sustenta que a falta de confiança na ciência explica, em parte, reações negacionistas como o movimento anti-vacina. Essa conclusão permite-lhe explorar as limitações do modelo do déficit de conhecimento enquanto explicação da rejeição à ciência por parte do público leigo. Segundo Dutilh Novaes, nem sempre é o baixo letramento científico ou a falta de acesso ao conhecimento o que afasta as pessoas da ciência, mas sim a desconfiança sobre a "benevolência" dos cientistas e da ciência. A partir desse diagnóstico (que eu aceito), minha fala propõe a seguinte pergunta: como nós, enquanto professores, podemos aumentar a confiança na benevolência da ciência? Minha preocupação recai não só sobre os professores de ciência no ensino básico, mas também sobre os professores de filosofia da ciência e metodologia científica no ensino superior, principalmente aqueles que lecionam para cursos tecnológicos. Dado o diagnóstico apresentado por Dutilh Novaes, que estratégias esses professores poderiam adotar em sala de aula para aumentar a confiança na ciência em seus alunos?
Los límites de la accesibilidad: atención, intolerancia y exigencias argumentales
María Sol Yuan
IHuCSo (CONICET/UNL)
myuan@unl.edu.ar
La presentación examina algunos aspectos de la propuesta de argumentative exchange (AEX) desarrollada por Catarina Dutilh Novaes en Reason and Power in Argumentation (2026), tomando como punto de partida su esfuerzo por ofrecer una concepción no idealizada de los intercambios argumentales. La discusión se concentra en las condiciones que hacen posible o dificultan la accesibilidad a dichos intercambios. En primer lugar, se plantea si el análisis estructural de las redes de información requiere ser complementado con una consideración de la selectividad atencional de los agentes: aun cuando una fuente sea estructuralmente accesible, prejuicios, expectativas, afectos y hábitos de atención pueden determinar qué información llega efectivamente a adquirir saliencia. En segundo lugar, a partir del caso de Derek Black, se pregunta qué condiciones permiten que la apertura argumentativa hacia un agente intolerante sea epistémicamente productiva sin convertir esa apertura en una obligación normativa para quienes son objeto de su intolerancia. Ambos problemas conducen a una pregunta más general: ¿hacia dónde debe extenderse la desidealización de AEX para incorporar las condiciones atencionales, afectivas, relacionales y normativas que configuran los intercambios argumentales?
Mais amor, por favor… e menos lógica?
Evelyn Erickson (UFMA)
Em The Dialogical Roots of Deduction, Catarina Dutilh Novaes apresenta a dedução como prática dialógica de nichos de especialistas. Em Reason and Power in Argumentation, ela volta à troca de razões entre não especialistas em democracias, propondo que a argumentação racional é um tipo de discurso entre outros (narrativa, retórica, protesto, sátira, propaganda), cuja força é limitada pelo poder. Extrapolo aqui suas implicações para o que fica quase fora do livro: o ensino de lógica e de pensamento crítico. Ensinar o cânone da lógica parece inútil e desagradável. Fora de seus nichos, argumentos dedutivos são "overkill" (p. 9), e a aceitação de argumentos não depende principalmente de sua qualidade. No Górgias, o filósofo, com sua lógica, é o médico do tratamento amargo; o retórico, o confeiteiro da doce solução. Talvez seja pior: nós, que ensinamos lógica a não especialistas, somos médicos –medievais– aplicando sanguessugas para equilibrar o humor de quem aparecer no caminho. Melhor seria aceitar o bolo (com o devido cuidado em não aceitar doce de estranhos). Entre a lógica formal e nada, há o pensamento crítico, como possível incumbência da filosofia. Diante da desinformação e da demagogia, sua promessa é formar cidadãos autônomos, capazes de julgar por si as razões que recebem. Não questiono se isso pode ser ensinado, mas se deveria. Ensinar o público, mesmo que nas melhores das intenções, a operar no espaço das razões e ser persuadível pelo discurso racional não seria uma última ressaca da modernidade? Rechaçar a lógica e o pensamento crítico, mesmo que hipoteticamente, pode soar como "expressar uma opinião potencialmente impopular ou até mesmo perigosa" (p. 153). Mas já diziam certos gregos: menos logos, mais pathos. Proponho aproximar a lógica das letras e das artes, rumo a um letramento crítico que transborde o proposicional. Se a lógica exige linguagem e proposição, o estético alcança o pré-linguístico, onde boa parte da persuasão acontece.
Uma nota sobre informação e argumentação
Bruno Ramos Mendonça (IFCH / CLE, Unicamp)
Apresento críticas ao modelo da argumentação como escambo (AEX), defendido por Dutilh Novaes em seu livro mais recente, Reason and Power in Argumentation. Sustento que esse modelo equaciona informação e argumentação. Consequentemente, ele encontra dificuldades para reconhecer um papel negativo da argumentação, menos associado à identificação de informação do que à interrupção da vigência de uma determinada base informacional. Essa dimensão negativa desempenha um papel estratégico no desenvolvimento da criticidade dos consumidores de informação e na superação de bolhas epistêmicas. O acesso a argumentos negativos, contudo, retira os agentes epistêmicos de uma posição de conforto, ao revelar inconsistências e tensões internas em suas bases de crenças. Por isso, parece pouco realista supor que os consumidores de informação busquem ativamente esse tipo de argumento. Eles não vão ao “mercado de ideias” em busca de razões que possam perturbar suas próprias crenças. Ao contrário, eles precisam ser “perturbados” pelos produtores de argumentação. Essa constatação inverte a lógica do escambo e coloca em questão alguns dos pressupostos centrais do modelo AEX.
Desacordos profundos, razão e poder
Paloma Xavier (PUC-Rio)
Robert Fogelin, em The Logic of Deep Disagreements (2005), defende a existência de um tipo peculiar de desacordo: os chamados desacordos profundos. Uma das características destacadas pelo autor é justamente a persistência desses desacordos, mesmo após as críticas mais comuns terem sido respondidas, pois seriam imunes ao apelo aos fatos. Fogelin argumenta que tais desacordos não são passíveis de resolução racional, podendo ser superados apenas por meio da persuasão ou da conversão. Ele apresenta como possíveis exemplos de desacordos profundos os debates sobre a legalidade do aborto e sobre ações afirmativas. No entanto, esses exemplos não corroboram plenamente sua tese, uma vez que não se enquadram com precisão na caracterização proposta. Sua definição mostra-se excessivamente pessimista, a ponto de os cenários e exemplos apresentados parecerem plausíveis apenas como experimentos mentais. Se levada a sério, torna-se difícil apontar um exemplo real de desacordo profundo. Afinal, um desacordo completamente desprovido de solo comum inviabilizaria até mesmo a própria comunicação. Mas, diante dos limites da argumentação racional, que outras alternativas nos restam para lidar com esses desacordos? Dutilh Novaes (2026) apresenta outras possibilidades que ultrapassam os limites da argumentação racional, cuja viabilidade pretendemos investigar em contextos de desacordos profundos.
Aquilombamento normativo e os limites da argumentação sob assimetrias de poder
Marcos Silva (UFPE/CNPq)
Resumo: O que grupos sistematicamente ignorados podem fazer quando sua autoridade para apresentar razões é recusada? Partindo dessa questão de Catarina Dutilh Novaes, examino o pluralismo discursivo defendido no capítulo 7 de Reason and Power in Argumentation. Reconheço a contribuição do modelo da argumentação como troca (AEX) para compreender relações de poder na argumentacao, mas questiono a prioridade estratégia de conquistar atenção e credibilidade perante instituições cuja reprodução depende da exploração de determinados grupos. Sob assimetrias robustas, a visibilidade do protesto pode provocar retaliações, enquanto a confrontação direta pode ameaçar a sobrevivência destes grupos. Organizar a resistência exige considerar esses riscos, sobretudo quando os destinatários das reivindicações se beneficiam de relações de exploração herdadas do colonialismo e da escravidão. Proponho o aquilombamento normativo para compreender como comunidades periféricas protegem seus membros, sustentam sua forma de vida e acumulam força para transformar jogos de linguagem injustos. A experiência de Palmares oferece uma referência histórica para examinar essa capacidade coletiva sem pressupor a inclusão na ordem dominante como horizonte necessário. Distingo a argumentação interna ao grupo minorizado, dedicada à organização e à revisão dos compromissos comunitários, da interlocução externa com o grupo dominante, avaliada conforme seus custos, riscos e possibilidades. Articulo essa proposta à soberania gramatical e às alavancagens interfixa, na disputa de critérios e normas dos jogos de linguagem; interresistente, nas condições materiais e institucionais da força coletiva para sustentar a disputa; e interpotente, nos afetos mobilizados para a ação. Defendo que o aquilombamento normativo permite construir alternativas viáveis de existência, dissuadir ataques e tornar custosa a opressão. A eficácia das razões depende também da organização de comunidades capazes de transformar as relações e normas que as subordinam e não necessariamente a inclusão em um sistema viciado que se beneficia diretamente da sua exclusão.