IV Colóquio NormAtiva (UFPE):
Com César Santos (UFMA), Camila Jourdan (UERJ) e Marcos Silva (UFPE/CNPq)
IV Colóquio NormAtiva (UFPE):
Com César Santos (UFMA), Camila Jourdan (UERJ) e Marcos Silva (UFPE/CNPq)
Programação resumida
05 a 07 de Fevereiro de 2025
Sala de defesa de teses e dissertações, 3º andar do CFCH/UFPE
Convidados especiais: Camila Jourdan (UERJ) e César Santos (UFMA)
Minicurso: Filosofia Empiricamente Informada da Lógica e da Matemática
Dia 1
(05/fev, quarta-feira)
Atividades do primeiro dia foram canceladas em função de fortes chuvas na região metropolitana de Recife. As apresentações deste primeiro dia de evento foram redistribuídas para os dias subsequentes.
Dia 2
(06/fev, quinta-feira)
As atividades do segundo dia serão online. Em razão das chuvas, a UFPE suspendeu as atividades acadêmicas e administrativas do dia 06 de fevereiro.
O link para acompanhar o evento é: https://meet.google.com/edm-semk-iaj
Minicurso - (1º encontro)
9h- César Frederico dos Santos (UFMA): Filosofia Empiricamente Informada da Lógica e da Matemática
Conferência de Abertura
10hs Camila Jourdan (UERJ): Normatividade; Linguagem Figurativa e Performatividade
Palestra
11h- Marcos Silva (UFPE/CNPq): Pluralidade de lógicas, affordances inferenciais e habilidades normativas
12h- Almoço
Comunicações
13h30 - Thiago Andrade (UFPE): A Linguagem além do Cérebro Humano: Reconhecimento e Uso dos Sinais Semânticos e Sintáticos entre os Animais Não-humanos
14h- Fredson “Fred” Andrade (UFPE): Uma crítica ao DSM-5 sob a perspectiva enativista
14h30- Leonildo Galdino (UFPE): Performance artística e o enativismo: o entrelaçamento entre arte e vida
15h- Paloma Xavier (PUC-Rio): A lógica é um terreno fértil para os desacordos profundos?
15h30- Bruno Rolemberg (UFS): Aceitar ou Endossar? O Problema da Adoção de um Princípio Lógico sob uma Perspectiva Inferencialista
16h- Coffee Break
16h30 - Defesa de Monografia: Toma Gheorghe (UFPE): Anti-excepcionalismo Lógico e o Problema da Lógica de Fundo: Uma Solução Neopragmatista
Banca:
Marcos Silva (UFPE/CNPq, Presidente)
Camila Jourdan (UERJ)
César Frederico (UFMA)
Jonas Becker Arenhart (UFSC)
Dia 3
(07/fev, sexta-feira)
Minicurso - (2º encontro)
9h- César Frederico dos Santos (UFMA): Filosofia Empiricamente Informada da Lógica e da Matemática
Comunicações
10h- Bruno Luize (UFPE): Ceticismo radical desestabilizado
10h30- Mateus Alves (UFPE): O que significa “proposição gramatical” no Sobre a Certeza, de Wittgenstein
11h- Toma Gheorghe (UFPE): Defesa de uma continuidade categorial entre certezas e proposições empíricas
11h30 - Juliany Thainá Tôrres de Lira (UFPE): Existem Desacordos Profundos Intrapessoais?
12h00 - Saraquiel Alves (UFPE): O caráter racional das conversões: Uma abordagem wittgensteiniana sobre desacordos profundos
12h30 Almoço
Comunicações
13h30 - Jefferson Silva de Santana (UFPE): O Colonialismo Enquanto Violência Gramatical
14h- Fábio Praxedes (UFPE): Mulheres que não menstruam e homens que gestam: uma proposta neopragmatista de interpretação do significado de identidades de gênero
14h30- Luis Antunes (UFPE): Na lei ou na marra: Sobre desacordos profundos e sua relação com o epistemicídio
15h- Marianne França (UFPE): O Véu da Cor: W.E.B. Du Bois e a Metáfora da Separação Racial sob a Perspectiva da Linguística Cognitiva
15h30- Yasmin Cristina (UFPE): O Aquilombamento enquanto Práxis Contracolonial
16h- Araken Ypiranga (UFPE): O método socrático na perspectiva inferencialista pode ser uma ferramenta para trazer à tona as contradições da ideologia liberal?
16h30- Coffee Break
Minicurso - (3º encontro)
17h - César Frederico dos Santos (UFMA): Filosofia Empiricamente Informada da Lógica e da Matemática
18h - Encerramento
Resumos
MINICURSO
Filosofia Empiricamente Informada da Lógica e da Matemática
Prof. Dr. César Frederico dos Santos (UFMA)
cesar.frederico@ufma.br
A proposta deste minicurso é apresentar um método inovador de abordar problemas filosóficos na filosofia das ciências formais. Esse método, aqui chamado de filosofia empiricamente informada da lógica e da matemática, toma como ponto de partida da reflexão filosófica dados e teorias de ciências empíricas tais como a psicologia do raciocínio e a cognição numérica. Claramente, tal método contrasta fortemente com a metodologia standard na área, que é majoritariamente apriorística. Como o melhor argumento para uma nova metodologia é mostrar o que ela é capaz de fazer, abordaremos resultados obtidos com sua aplicação em filosofia da lógica e filosofia da matemática.
Primeiro Encontro: Metodologia
Nesta primeira aula, vamos nos dedicar a caracterizar e fundamentar o método de investigação que estamos chamando de filosofia empiricamente informada. Para tanto, vamos nos basear em reflexões de Wittgenstein, Quine, Maddy, Dutilh Novaes e Schliesser. A metodologia apresentada aqui não será fiel a nenhum desses autores, mas conjugará elementos centrais de todos eles.
Segundo Encontro: Aplicação à Filosofia da Matemática
Nesta segunda aula, veremos alguns resultados da investigação filosófica empiricamente informada aplicada à metafísica e à epistemologia da aritmética. Para tratar da metafísica da aritmética, nossa principal referência será o trabalho desenvolvido por mim durante meu doutorado. Para tratar da epistemologia da aritmética, nossa principal referência será o trabalho do filósofo finlandês Markus Pantsar.
Terceiro Encontro: Aplicação à Filosofia da Lógica
Nesta terceira aula, veremos alguns resultados da investigação filosófica empiricamente informada aplicada à filosofia da lógica. Nossa principal referência será o trabalho de Dutilh Novaes nesse tema, em especial sua concepção dialógica da lógica e sua concepção sobre o papel cognitivo das linguagens formais. Apresentarei também meu trabalho mais recente sobre a metafísica da lógica e suas implicações para temas como anti-excepcionalismo lógico e revisão da lógica.
REFERÊNCIAS
1º encontro
WITTGENSTEIN, L. (2022). Investigações Filosóficas. Tradução de João José Rodrigues Lima de Almeida. Curitiba (PR): Hörle Books.
QUINE, W. V. O. (1975). Epistemologia Naturalizada. Coleção Os Pensadores. Maddy, P. (2007). Second Philosophy. Oxford: Oxford University Press.
Dutilh Novaes, C. (2012). Formal Languages in Logic. Cambridge: Cambridge University Press.
DUTILH NOVAES, C. (2019). The human factor: doing philosophy in a messy world by asking inconvenient questions. Vrije Universiteit.
SCHLIESSER, E. (2019). Synthetic Philosophy. Biology & Philosophy 34:19. Schliesser, E. (forthcoming). Synthetic Philosophy, A Restatement.
2º encontro
PANTSAR, M. (2024). Numerical Cognition and the Epistemology of Arithmetic. Cambridge: Cambridge University Press.
PANTSAR, M. (2014). An empirically feasible approach to the epistemology of arithmetic. Synthese 191, 4201–4229.
DOS SANTOS, C. F. (2021). Numbers as Cognitive Tools: An empirically informed nominalistic account of the nature of numbers. [PhD-Thesis - Research and graduation internal, Vrije Universiteit Amsterdam].
DOS SANTOS, C. F. (2023). An empirically informed account of numbers as reifications. Theoria 89:6.
3º encontro
DUTILH NOVAES, C. (2012). Formal Languages in Logic. Cambridge: Cambridge University Press.
DUTILH NOVAES, C. (2021). The Dialogical Roots of Deduction: historical, cognitive, and philosophical perspectives on reasoning. Cambridge: Cambridge University Press.
DOS SANTOS, C. (forthcoming). Logics as cognitive tools.
PALESTRA
Normatividade; Linguagem Figurativa e Performatividade
Camila Jourdan (UERJ)
Parece que estamos exatamente no caso de provar (ou refutar) uma norma quando estamos diante de um desacordo profundo. Um desacordo profundo se estabelece quando a prática argumentativa centrada em fornecer razões/justificativas cessa, pois não temos um solo comum de sentido entre as partes discordantes, e trata-se assim, portanto, de um desacordo sobre critérios, ou sobre o que tem função normativa dentro de uma forma de vida. A estratégia de investigação que pretendo apresentar parte da existência de uma assimetria no funcionamento da negação em contextos fulcrais, e busca identificar elementos envolvidos na transformação de certezas do ponto de vista performativo e persuasivo, tais como o funcionamento figurativo e a perspicuidade. Neste contexto, são particularmente relevantes os estudos sobre os papéis das metáforas e imagens, bem como as noções de: ver algo como e visão de aspectos no âmbito da Filosofia tardia de Wittgenstein.
PALESTRA
Pluralidade de lógicas, affordances normativos e habilidades inferenciais
(Marcos Silva (UFPE/CNPq)
RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES
A Linguagem além do Cérebro Humano: Reconhecimento e Uso dos Sinais Semânticos e Sintático entre os Animais Não-humanos
Thiago Andrade (UFPE)
Esta comunicação tem como objetivo defender a tese de que a linguagem humana não é um fenômeno emergente do cérebro humano nem independente do corpo físico e do ambiente. Não obstante, a linguagem humana pode ser descrita enquanto um fenômeno natural que durante um longo processo evolutivo assumiu diferentes características, a saber, proposicional, inferencial, comunicativa e gestual. A linguagem foi tomada como um marcador de distinção entre os seres humanos e os animais não-humanos, pois apenas os seres humanos seriam capazes de comunicar-se com semântica/sintaxe, proposições e inferências (Berwick & Chomsky, 2017).
Contudo, as pesquisas recentes em comunicação animal têm demonstrado que os animais não-humanos se comunicam complexamente transferindo e recebendo informações contendo sinais referenciais funcionais, intencionais, inferenciais e gestuais (Shettleworth, 2010; Seyfarth & Cheney, 2018; Andrews, 2020; Millikan, 2013, Moore & Palazzolo, 2024). Por exemplo, os grandes Símios (Apes) utilizam gestos e vocalizações para comunicar intenções; os macacos-vervet recorrem a diferentes chamados de alerta para comunicar a presença diferentes predadores (Leopardo, cobras e águias diurnas); as abelhas usam as suas danças para comunicar informações dos alimentos; os elefantes utilizam sons específicos para chamar uns aos outros.
Esta apresentação está dividida em dois momentos. Na primeira parte, apresento a visão de Noam Chomsky sobre a linguagem que considero antropocêntrica e independente do corpo físico e ambiente, pois afirma que a linguagem emerge do cérebro humano e que um sistema comunicacional necessita de sintaxe para ser considerado linguagem, algo que na sua teoria da aquisição da linguagem apenas os seres humanos são habilitados. Assim, haveria uma descontinuidade entre vida, mente e linguagem. Na segunda, defendo que há uma continuidade entre vida e linguagem, pois os animais não-humanos também enunciam através de gestos, vocalizações e sinais (referenciais, intencionais e inferenciais), bem como o sistema comunicacional de algumas animais não-humanos são semânticos e sintáticos.
Palavras-chave: Linguagem; Animais Não-humanos; Comunicação Animal.
Performance artística e o enativismo: o entrelaçamento entre arte e vida
Leonildo Galdino (UFPE)
A Arte Contemporânea surge a partir da década de 1960, propondo a ruptura das fronteiras entre a arte e a vida. Nesse contexto, os limites que colocavam distância entre o público e as obras de arte passaram a ser subvertidos por experimentações artísticas que envolvem o corpo humano e o ambiente, como as instalações, as ações performáticas e os happenings. Com o aparecimento da arte performática, o distanciamento entre obra de arte e sujeito desaparecem como uma luta incessante para realinhar a arte e a vida no intuito de substituir a “autoridade solitária do simbólico como circulação polifônica dos sentimentos humanos” (Martin, 1990 p. 175-176). Considerando este contexto, argumentamos nesta apresentação que o corpo-cotidiano e o corpo artístico performático são instâncias inseparáveis de um mesmo corpo e que produz sentidos em interação com outros corpos-cotidianos e com o ambiente. Nessa perspectiva, defendemos que a criatividade artística é entrelaçada à vida e que emerge da disposição, enquanto ação e extensão básica dos organismos, capazes de produzir sentidos e reorganizar práticas cotidianas. Assim, para justificar essas asserções, faremos uso do enativismo sensório-motor e da noção de entrelaçamento de Alva Noë (2005; 2023); do conceito de corpos linguísticos desenvolvidos por Ezequiel Di Paolo, Hanne Jaegher e Elena Cuffari (2018); da noção de affordances sociais presente em Gibson (2015), Costall (1995) e Carvalho (2018) e da noção de jogos de linguagens e formas de vida de Wittgenstein (1953).
Palavras-chave: Corpo-cotidiano; Corpo artístico; Produção de sentido; Reorganização de atividades.
Uma crítica ao DSM-5 sob a perspectiva enativista
Fredson “Fred” Melquiades de Andrade Junior (UFPE)
O DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) é fortemente influenciado por teorias clássicas da filosofia da mente, que concebem a mente e a matéria como substâncias ontologicamente distintas ou que sustentam a ideia de que a mente pode ser explicada inteiramente em termos de processos químicos e físicos subjacentes ao funcionamento cerebral. A partir da abordagem enativista, que concebe o ambiente e o corpo dos indivíduos como constitutivos da mente, proponho uma crítica à maneira como o DSM-5 categoriza os transtornos mentais. Com base no enativismo, argumento que, se considerarmos que a mente é corporificada e situada, podemos compreender que os transtornos mentais também são. Assim, organismos vivos que habitam ambientes de estresse, esforço físico e violência sistemática são mais suscetíveis a desenvolver tais transtornos. Adotando essa perspectiva, busco expandir o problema dos transtornos mentais para além dos mecanismos neurobiológicos, a fim de compreender como as dimensões sociais e políticas contribuem para a formação e a vivência da cognição.
O COLONIALISMO ENQUANTO VIOLÊNCIA GRAMATICAL
Jefferson Silva de Santana (UFPE)
Este projeto de pesquisa defende que ao longo da história o colonialismo também se revelou como uma forma de violência gramatical. Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), analisa como a adoção da língua do colonizador é uma forma de violência simbólica que leva à interiorização de uma identidade submissa. Para Fanon, a linguagem é uma das principais ferramentas através das quais o colonizador impõe uma visão de mundo que desvaloriza e subjuga o colonizado. A gramática do colonizador se torna uma prisão mental que impede o colonizado de se ver como igual, criando um ciclo de opressão que é perpetuado através do uso da linguagem. Esta imposição gramatical é, portanto, uma violência que distorce a realidade e subjuga o indivíduo e toda a sua comunidade. Em Investigações Filosóficas (1953), Wittgenstein explora a ideia de que a gramática de uma linguagem não é apenas um conjunto de regras formais, mas está profundamente ligada às formas de vida (Lebensformen) das pessoas que a falam. Ele argumenta que a linguagem molda e é moldada pelas práticas sociais e culturais, o que implica que a imposição de uma gramática estrangeira pode ser vista como uma forma de forçar uma nova forma de vida sobre uma comunidade. É a imposição normativa de uma visão de mundo (Weltbild) sobre outra. Nesse sentido, defendemos que a violência física e territorial, que dizem acerca do massacre físico, não são suficientes para dar conta de um massacre ainda maior, o massacre de uma forma de vida.
O Véu da Cor: W.E.B. Du Bois e a Metáfora da Separação Racial sob a Perspectiva da Linguística Cognitiva
Marianne Serafim de França (UFPE)
Para ilustrar o debate, o presente trabalho visa utilizar a "metáfora do véu" como uma forma de elucidar como as metáforas descrevem fenômenos sociais complexos através da Teoria da Metáfora Conceitual, desenvolvida por George Lakoff e Mark Johnson (1980) no âmbito da linguística cognitiva. Através da discussão, analisaremos o conceito de véu (domínio-fonte) como uma forma de compreensão da barreira simbólica de véu (domínio-alvo) fundamentada por contextos sócio-políticos opressivos. “Como é a sensação de ser um problema?” É assim que W.E.B. Du Bois inicia sua reflexão em Sobre nossos conflitos espirituais, o primeiro capítulo de As almas do povo negro (2021). Se sentir um problema é um dos pontos de reflexão na obra de Du Bois, então o estranho significado de ser afro-americano reflete na sensação de se sentir um problema no contexto pós-segregação racial institucionalizada legalmente pela Lei de Jim Crow (1877-1965) no sul dos Estados Unidos. Para pensar nisso, o sociólogo W.E.B Du Bois cunha o conceito de "véu" na tentativa de descrever como o século XX foi marcado pela separação da linha de cor. A separação de indivíduos através do véu da cor reflete os efeitos materiais do racismo em um contexto sócio-político marcado pela opressão sistemática de corpos que anseiam pela rasura do véu.
O AQUILOMBAMENTO ENQUANTO PRÁXIS CONTRACOLONIAL
Yasmim Cristina (UFPE)
Esta pesquisa assume a empreitada de estudar socio-filosóficamente o conceito de Quilombo e seus derivados, a partir da análise de seu caráter ético libertário. Utilizamos dos estudos arrolados por Beatriz de Nascimento para analisar como o aquilombamento enquanto prática de quilombos, pode ser compreendido como motor social destas comunidades; Como o aquilombamento, é em si, uma manifestação de força contra-hegemônica, capaz de criar espaços alternativos para corpos racializados. De tal maneira, defendemos que os quilombos se configuram como organizações sociais e podem ser lidas como contracoloniais. Neste sentido, invocamos o quilombola, filósofo Nêgo Bispo, para refletir sobre o movimento contracolonial a partir de práticas de quilombos, assim como traçar caminhos, onde tais práticas podem ser compreendidas como uma forma outra de fazer política. Considerando a complexidade do tema e assumindo o desafio de investigá-lo no campo da filosofia, buscamos acionar metodologias ativas que deem conta de compreender alguns dos modos, sentidos e significações dos quilombos. Uma vez assumida a responsabilidade de fazer filosofia a partir da experiência dos quilombos, é preciso não deixar escapar um elemento central que constitui o próprio quilombo, sendo este, a vivência coletiva. Por isso, tal pesquisa não é da esfera estritamente contemplativa, ela requer uma vivência territorial e comunitária. Pois, é irrealizável uma reflexão e investigação fiel acerca do aquilombamento, senão na própria prática de se aquilombar. Assume-se nesta pesquisa, o fato de que sua construção não tem outro caminho, senão o coletivo. Como diria Nêgo Bispo, a biointeração de corpos, dispunham de algo em comum, sendo este, o território.
Palavras chaves: Quilombos; Aquilombamento; Política; Contracolonial.
A lógica é um terreno fértil para os desacordos profundos?
Paloma Xavier (PUC-Rio)
Fogelin, em The Logic of Deep Disagreements (1985, 2005), argumenta que os desacordos profundos decorrem de choques entre framework propositions (proposições estruturantes ou certezas fulcrais). Esses desacordos envolvem conflitos sobre as crenças mais fundamentais dos disputantes, refletindo visões de mundo completamente ou quase completamente distintas. Nessas situações, abandonar essas certezas não está em jogo, pois os interlocutores carecem de um solo comum para dialogar racionalmente. Fogelin identifica debates sobre temas como aborto e ações afirmativas como exemplos de desacordos profundos, os quais não podem ser resolvidos pela razão devido à ausência de solo comum. Diante disso, surge a questão: e quando o desacordo ocorre no âmbito da lógica? Quando diferentes lógicas entram em conflito, isso configura um desacordo profundo? E seria possível resolvê-lo por meio da razão? Propomos que sim, a lógica pode ser um terreno fértil para desacordos profundos, já que as proposições lógicas operam como as framework propositions descritas por Fogelin. Investigar os desacordos nesse campo, portanto, revela-se uma perspectiva promissora.
Na lei ou na marra: Sobre desacordos profundos e sua relação com o epistemicídio
Luís Fernando Antunes Pivotto (UFPE/FACEPE)
O Dispositivo de Racialidade (2023), de Sueli Carneiro procura explicitar a genealogia, e, consequentemente, a estruturação epistemológica, ontológica e de poder da subjugação da população negra no Brasil. Este projeto de pesquisa parte de uma questão, portanto: Como a democracia brasileira pode basear-se na participação e representatividade do povo negro, que é maioria da população, e, ao mesmo tempo, ser conivente e apoiadora das políticas que fundamentam e favorecem o Epistemicídio? Nesse sentido, procura-se entender em que medida esse problema político pode ser, também, comunicacional, visto que podemos relacioná-lo a abordagem de Wittgenstein no debate sobre os “desacordos profundos”, que são situações comunicacionais, aparentemente, sem resolução argumentativa ou de convencimento, restando somente a conversão. Levando em conta o Da Certeza (1969), livro póstumo de Wittgenstein em diálogo direto com os escritos de G. E. Moore, debruço-me sobre 2 exemplos específicos: 1. O problema do rei de Moore, em que é levantado a questão que, caso um rei fosse educado desde pequeno que o mundo nasceu junto consigo, teria ele algum motivo para se questionar sobre essa certeza? E se Moore, com seus truísmos, entrasse em contato com esse rei, poderia convencê-lo do contrário? E 2. O problema do missionário e do nativo, que Wittgenstein coloca como uma conversão (portanto, não argumentativa), e de combate de uma visão de mundo (missionário) sobre outro (nativo). A partir desse panorama, essa apresentação, em especial, procura apresentar e responder em parte à maior réplica encontrada na pesquisa até agora: É possível haver desacordos profundos entre corpos sociais? Mais especificamente, entre a população negra brasileira e o Estado, na relação do Epistemicídio?
O caráter racional das conversões:
Uma abordagem wittgensteiniana sobre desacordos profundos
Saraquiel Alves (UFPE)
Em “The Logic of Deep Disagreements” (1985) Fogelin apresenta o conceito de desacordos profundos (deep disagreements), um tipo de desacordo no qual é impossível qualquer forma de resolução por meio de disputa argumentativa por se tratar de uma incompatibilidade entre framework propositions ou underlying principles. Um desacordo comum funciona, em contraponto ao desacordo profundo, dentro de um sistema de crenças compartilhado entre as partes envolvidas, o que permite a possibilidade de resolução por meio de argumentação racional. Um sistema de crenças é um conjunto de crenças que se apoiam mutuamente e que são determinadas por e variam de acordo com aspectos culturais, psicológicos, econômicos, etc. Já num caso de desacordo profundo, a impossibilidade de resolução se dá pela falta de um sistema de crenças em comum entre os agentes, pois esta condição é necessária para que uma disputa argumentativa possa acontecer. Dessa forma, um desacordo comum é o desacordo acerca da verdade de uma proposição e o desacordo profundo é o desacordo sobre os métodos de verificação da verdade de uma proposição. Nesse contexto, Fogelin entende que desacordos comuns podem ser resolvidos por meio de argumentação racional, enquanto um desacordo profundo não pode ser solucionado por nenhum procedimento racional; somente por meio de persuasão. Esta persuasão é o único meio referenciado pelo autor para a resolução de desacordos profundos — um método não racional, exemplificado na citação a Wittgenstein no texto de Fogelin pela conversão de nativos pelos missionários. Mas, afinal, em que exatamente consiste essa conversão? Será que a persuasão não possui nenhum caráter racional? No que consiste a irracionalidade da conversão? Em fenômenos sociais como a crescente adesão ao movimento masculinista Redpill ou a própria conversão dos nativos previamente mencionada, não são utilizados procedimentos racionais? Diante desse contexto, o presente trabalho busca compreender como funciona o processo de conversão, ainda pouco explorado por Fogelin e Wittgenstein, pois a visão de que a resolução de certos desacordos somente se dão através de uma conversão por procedimentos irracionais possui implicações práticas imobilizantes para disputas de caráter político. Nesse sentido, o objetivo da presente pesquisa é defender que métodos de conversão possuem um apelo a elementos afetivos, sociais, culturais, etc. articulados racionalmente. Isto nos ajuda a avançar na compreensão de como se dão fenômenos sociais urgentes como o movimento Redpill, e a partir deste entendimento pensar em como articular novos caminhos de resistência política. Para tanto, utilizaremos de noções wittgensteinianas presentes nos textos “Investigações Filosóficas” (1953) e “Sobre a Certeza” (1969) com objetivo de abranger adequadamente elementos públicos e dinâmicos de nossas práticas sociais. Ao fornecermos uma análise wittgensteiniana para o problema de desacordos profundos nos aproximamos do que é apresentado em textos como Silva (2020; 2016).
Palavras chave: Conversão, desacordos profundos, Fogelin, racionalidade, Wittgenstein.
Mulheres que não menstruam e homens que gestam: uma proposta neopragmatista de interpretação do significado de identidades de gênero
Fábio Praxedes (UFPE)
Há algumas questões filosoficamente instigantes relacionadas à teoria de gênero e à filosofia da linguagem: A legitimação e valorização de identidades transgênero necessariamente implica um ataque a identidades cisgênero? Como essas perspectivas explicariam a mudança de significado e uso de conceitos? Como podemos extrair da realidade ela mesma os critérios pelos quais podemos determinar o verdadeiro significado de um conceito e seus posteriores usos? Será que a questão acerca do significado de identidades de gênero somente pode ser formulada em termos da busca por conceitos que capturam adequadamente algo real? O significado de um conceito é determinado pela referência a algo externo à linguagem? E se pensássemos a questão não em termos de uma busca pelo que um conceito significa verdadeiramente, mas como uma disputa acerca de como deveríamos utilizá-lo? Em vista desses questionamentos, em nossa pesquisa oferecemos uma alternativa à teoria referencialista do significado e ao platonismo conceitual, para que possamos avançar em questões acerca da disputa do significado de conceitos de identidade de gênero — entendendo que esse tipo de perspectiva emerge a partir de uma má compreensão de como veiculamos significado em nossos usos conceituais. Para tanto, inseriremos no debate feminista contemporâneo elementos filosóficos neopragmatistas, inferencialistas e normativos como presentes em textos como os de Brandom (1994; 2000; 2008; 2019) e Wittgenstein (1953; 1969) aptos a serem utilizados como instrumentos conceituais úteis na luta política pela legitimidade de e reversão de quadros sistemáticos de opressão contra identidades historicamente oprimidas.
Palavras-chave: Epistemologia Feminista. Gênero. Neopragmatismo. Wittgenstein.
EXISTEM DESACORDOS PROFUNDOS INTRAPESSOAIS?
Juliany Thainá Tôrres de Lira (UFPE)
Este projeto de pesquisa defende a hipótese de que existem desacordos profundos intrapessoais. Nesta perspectiva, desacordos profundos são conflitos formados a partir de discordâncias entre certezas fulcrais, em que indivíduos em desacordo, normalmente em relações interpessoais, possuem imagens de mundo diferentes. Um exemplo conhecido é trazido por Wittgenstein (1969), ao apresentar o conflito entre Moore e o rei. Diante disso, defendemos enquanto hipótese que: 1) desacordos profundos podem ser interpessoais e intrapessoais; 2) que, a partir de experiências internas e individuais, conflitos profundos podem ser solucionados, como é o caso, por exemplo, de um indivíduo que vivia em desacordo consigo por ser homossexual, até que se aceita da forma que é; e 3) que imagens de mundo podem ser alteradas internamente a partir da superação de desacordos profundos intrapessoais. Assim, trazemos o conceito de desacordos profundos a partir de Wittgenstein (1953; 1969), Fogelin (1985) e Silva (2020), utilizando-o como base para compreender o conflito entre certezas fulcrais e, adiante, defendermos a existência de desacordos profundos intrapessoais.
Palavras-chave: desacordos profundos, intrapessoal, interpessoal, certeza fulcral
Ceticismo radical desestabilizado
Bruno Luize (UFPE)
O ceticismo radical é o maior problema enfrentado pela epistemologia contemporânea (Porchat, 2007, p. 73-88). A partir de Descartes, arquétipo do cognitivismo e do representacionalismo, inicia-se essa nova forma de ceticismo no período moderno. De modo geral, podemos verificar isso a partir da dúvida metódica (Descartes, 2016, Primeira meditação). Com isso, surge o desafio de um ceticismo global que põe todas as coisas sob suspeita na epistemologia. Especialmente, o que nos interessa aqui é o quanto esse procedimento inspirou o problema filosófico do ceticismo radical. Ou seja, de que modo podemos superar uma postura filosófica que coloca em xeque as nossas certezas mais básicas (do tipo ‘estou acordado’, ‘tenho um corpo’, ‘objetos existem no mundo’, etc), e que também pode se revelar como uma ameaça existencial e política (Pritchard, 2024). Nesse contexto de reação a esse tipo de ceticismo, Wittgenstein em sua postura anti-cognitivista e anti-representacionista, parece ser um poderoso aliado para lidar com tal problemática. Em especial, a obra Sobre a certeza [1969](2023) é pensada como uma reação anti-cética por parte de seu autor. Isto posto, defendemos, assim como Wittgenstein (2023, §454), que o ceticismo radical é uma impossibilidade lógica. Isto é, a dúvida radical não faz sentido - é um contrassenso manifesto. Porque, tanto as nossas perguntas quanto as dúvidas estão apoiadas em proposições isentas de dúvida. Ademais, tais proposições são como que hinges (dobradiças) uma vez que, ao permanecerem paradas, como no mecanismo de uma porta, possibilitam que nossas práticas epistêmicas ocorram. Com efeito, dúvida e erro, em relação às certezas fulcrais, são sem sentido do ponto de vista lógico. O cético, em verdade, está duvidando, mas apenas de modo ilusório (§19).
Palavras-chave: Ceticismo radical, epistemologia, Hinges, impossibilidade lógica, Wittgenstein.
Defesa de uma continuidade categorial entre certezas e proposições empíricas
Toma Gheorghe (UFPE)
Um dos pontos centrais do “Da Certeza” de Wittgenstein (1969) é que há uma diferença categorial entre o que sabemos e o que temos certeza. Essa divisão é mantida a níveis de rigor variados por diferentes intérpretes (Williams, 2021; Coliva, 2016) — uma das mais rigorosas sendo, sem dúvidas, Danièle Moyal-Sharrock (2004, 2015, 2021). Ela propõe que certezas são regras gramaticais, não-proposicionais, nem verdadeiras, nem falsas, que só podem ser mostradas na ação, enquanto proposições são descritivas e, assim, podem ser verdadeiras ou falsas. Eu desafio essa diferença categorial em função da equivalência entre significado e uso de Wittgenstein, com suporte do inferencialismo brandoniano (1998, 2000), e sugiro que a diferença entre certeza e conhecimento seja concebida “apenas” como funcional.
Aceitar ou Endossar? O Problema da Adoção de um Princípio Lógico sob uma Perspectiva Inferencialista
Bruno Rolemberg (UFS)
A presente tese tem como objetivo mostrar que o Problema da Adoção de um Princípio Lógico perde sentido se analisado sob a perspectiva de uma teoria inferencialista do significado. Parte-se da leitura que Romina Padró faz do problema na sua tese What the Tortoise Said to Kripke: the Adoption Problem and the Epistemology of Logic, especialmente em sua reconstrução do Diálogo de Carroll, denominada “O Caso Harry”, e de comentários da tradição analítica correlatos ao problema. Em seguida, apresenta-se o inferencialismo semântico, especialmente na forma proposta por Robert Brandom. São abordadas as questões em sua obra relativas à distintividade do conceitual; pragmatismo conceitual e linguístico; expressivismo racionalista; inferencialismo e proposicionalismo conceitual; e holismo semântico. Emprega-se então o inferencialismo semântico como abordagem ao Problema da Adoção através do caso Harry, mostrando-se que a aparente adoção do princípio lógico realizada pelo personagem foi um ato verbal, mas não proposicional, pois não houve endosso das consequências inferenciais resultantes da sentença proferida. Por fim, demonstra-se que o significado de princípios lógicos é constituído por sua posição em uma rede de consequências inferenciais, de modo que é destituída de sentido uma formulação do problema da adoção em bases atomísticas, isto é, que não considere as consequências inferenciais em outros princípios lógicos e proposições em geral da adoção de um determinado princípio lógico.
O método socrático na perspectiva inferencialista pode ser uma ferramenta para trazer à tona as contradições da ideologia liberal?
Araken Ypiranga (UFPE)
Pretendo defender a posição de que o uso do método socrático numa perspectiva inferencialista pode facilitar o processo de transformação social necessário para superação do capitalismo tardio explicitando e confrontando as contradições inerentes à luta de classes. A prática de dar e pedir razões pode levar a correção e alteração de regras utilizadas de forma implícita, que quando explicitadas podem gerar novos compromissos que contemplem os interesses da classe trabalhadora. Contudo, entendo que apesar de contribuir bastante, o método socrático sozinho não é suficiente para promover uma transformação estrutural na sociedade capitalista, já que mesmo com a explicitação das práticas que reproduzem a ideologia da classe dominante, e com isso proporcionando uma maior consciência de classe aos explorados, não altera por si só, os interesses da classe dominante que predominam nas relações socioeconômicas da sociedade. Portanto, é necessário que a explicitação das contradições do capitalismo através do método socrático possibilitem, além da consciência de classe, a organização e ação dos trabalhadores no sentido de mudar a base material que sustenta a ideologia dominante e a exploração dos oprimidos.