FEVEREIRO OU FICA, VAI TER BOLO é um solo de Natália Sá e integra o repertório do grupo Parahyba Rio Mulher.


O espetáculo é um ensaio sobre o luto que parte de uma inquietação pessoal e encontra ressonâncias nos contextos políticos e sociais que atravessamos atualmente, principalmente com a pandemia de Covid-19 e a perda de tantas vidas nesse período.


"É um trabalho desenvolvido em 2019 – o ano mais difícil que já atravessei na vida, acredite. Seria insano dizer que 2020 está sendo fácil, não é isso. Mas, ali, no ano passado, diante da maior das dores, da perda, da morte, do luto, a vida já se me apresentava pungentemente a sua sempre escancarada, mas, constantemente evitada efemeridade. Não posso dizer que é como se eu já tivesse sido compulsoriamente preparada para as consequências devastadoras da pandemia da Covid-19 (nem acho isso possível), mas essa sensação coletiva de esmagamento, que hoje compartilhamos mundialmente, encontra ressonâncias já conhecidas no meu peito. Nem ouso dizer que mal me recuperei da queda e logo veio o coice, porque o processo primeiro ainda é longo e, agora, sinto, acumulado. Foi um debruçamento sobre o luto que pautou a concepção do solo em uma pesquisa que durou o ano inteiro e ainda segue. A cada dia que passa, me convenço mais de que precisamos, nós, nossa cultura (social, brasileira, ocidental, sei lá) contemplar a impermanência. Neste trabalho, desenvolvido como tcc na especialização em ‘Corpo: dança, teatro e performance’ que concluí na Escola Célia Helena, em São Paulo, pude revisitar minha pesquisa sobre o corpo em composição pelo revés, direcionando meu interesse para o corpo em decomposição. Ainda existe a arte. Ainda bem que existe a arte. (...) agora o sinto [este trabalho] cada vez mais conectado ao todo. Sinto cada vez mais urgente que o corpo, a vida, o pulso e suas relações transitórias de composição e decomposição com o cosmos se cotidianizem e se alastrem na nossa sociedade. Sinto que é a nossa relação com as perdas (expandidas para os contextos políticos e sociais), com a morte e com a impermanência que nos possibilita a valorização da vida."
(Natália Sá, maio de 2020)


Nascimento, vida e morte são fases da vida que, em diferentes escalas, se fazem presentes em tudo o que há. Este trabalho investiga o uso do depoimento pessoal e do material autobiográfico no teatro performativo e propõe um exercício cênico criado a partir das inquietações disparadas pela ideia de composição, decomposição e recomposição alinhadas ao conceito de ritornelo e atravessadas pelo episódio do falecimento da minha mãe.