A FEB foi a Força Expedicionária Brasileira que combateu na Itália ao lado dos aliados contra as forças do Nazifascismo. Depois que voltaram, os veteranos se juntaram a Associação Nacional dos Veteranos da FEB, criando um núcleo regional aqui na cidade. Em 1976, buscaram ajuda com a prefeitura para comprar o prédio onde o acervo se localiza nos dias atuais. Desde então, este passou a ser o local de reunião dos veteranos e suas famílias, além de um museu.
Visita virtual ao museu da FEB.
Além do canhão, que chama atenção de quem passa, são centenas de objetos expostos. A grande maioria foi doada pelos próprios ex-combatentes.
Depois da abertura, o tempo foi passando, alguns ex-combatentes adoeceram, outros faleceram, e temendo que este espaço de memória se perdesse, o então presidente da Associação, Alberto Arioli, passou a administração do museu para a prefeitura no ano de 2002.
A partir desse momento, o Museu foi totalmente reconfigurado e reinaugurado em 2007 com o formato atual.
A guerra foi declarada em 1939, quando os nazistas invadiram a Polônia. Na época o Brasil vivia o Estado Novo, um regime ditatorial comandado por Getúlio Vargas, sendo ideologicamente próximo ao Fascismo, porém aproximado economicamente dos Estados Unidos. No início, Vargas assumiu uma postura ambígua frente à Guerra. Desse modo, na época, havia um discurso comum de que seria “mais fácil uma cobra fumar, do que o Brasil ir para a guerra.”
Entretanto, em 1941 o Brasil cede à pressão estadunidense e assina um pacto de defesa mútua entre as nações americanas, cedendo Parnamirim para a construção de uma base aérea dos aliados. Com o ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, o Brasil rompe com o eixo e se aproxima ainda mais dos EUA.
Depois desse acontecimento, com a intenção de impedir que mercadorias brasileiras chegassem a Europa, submarinos alemães afundaram vários navios mercantes brasileiros que prestavam auxílio aos aliados na logística de guerra. Os corpos das vítimas boiam até a praia, onde são encontrados pela população, que se depara com a guerra de fato. Manifestações por todo o país pressionam Vargas a declarar guerra ao Eixo, o que acontece em agosto de 1942.
Inclusive em Caxias do Sul houveram manifestações. Como muitos imigrantes e seus descendentes reproduziam a ideologia fascista por meio de núcleos políticos e jornais locais. Desse modo, havia uma forte polarização entre a população, já que boa parte não apoiava as ideias do fascismo.
Com isso, passa a ser feita a mobilização da Força Expedicionária Brasileira, contando com mais de 25.000 homens, por razões logísticas, embarcou para o front apenas dois anos depois da declaração de guerra, já em 1944, integrando-se ao 5º Exército Norte Americano.
Além dos soldados de infantaria, o Brasil também enviou um grupo da força aérea. Foram também 73 mulheres, que atuaram como enfermeiras na Legião Brasileira de Assistência.
Quando o Brasil declarou guerra de fato, algumas mudanças ocorreram na cidade. Um decreto de Vargas proibiu o uso dos idiomas das nações do Eixo, dificultando a vida da população que, em boa parte, só se comunicava através de dialetos italianos. A praça Dante Alighieri, com nome em homenagem ao poeta italiano, passa a se chamar Rui Barbosa. A Avenida Itália também muda seu nome, para Avenida Brasil. Além disso, os moradores que fossem flagrados utilizando um idioma proibido, poderiam até mesmo ser presos, e o fenômeno podia ser observado em todo o país.
Devido à industrialização da região, duas empresas produziam especialmente para o Exército Brasileiro: a Metalúrgica Abramo Éberle e a Metalúrgica Gazolla. Esta última, produzia munições, e foi nesse contexto que aconteceu um acidente: um explosão na fábrica, onde morreram quatro operárias que tinham entre 14 e 20 anos e a pouco conquistavam seu espaço no mercado de trabalho industrial.
Fonte: Márcia Dall Ago - Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul.
Lembra que tinha um pessoal que dizia que era mais fácil uma cobra fumar que o Brasil ir pra guerra? Pois então, a cobra fumou, e essa referência ficou eternizada no símbolo da FEB e do ditado popular “a cobra vai fumar”.
Por sua vez, os oficiais da FAB que treinaram junto aos estadunidenses, no Panamá e na Flórida recebiam as mesmas rações militares, que não eram das mais agradáveis. Eles diziam que eram como avestruzes, pois comiam de tudo. Aceitando a brincadeira, o capitão Fortunato Câmara de Oliveira desenhou o símbolo do grupo de caças “Senta a pua” já em alto-mar, com o céu avermelhado devido à guerra e com o avestruz fazendo referência ao acontecido durante os treinamento.
Fonte: Márcia Dall Ago - Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul.
Fonte: Arquivo.
Pua é aquela antiga furadeira manual. Então quando o piloto avistava o alvo recebia a ordem: “senta a pua”. Basicamente, furar o inimigo, uma expressão que já era comum na época. Caso tenha interesse, há um documentário no Youtube chamado, justamente, “senta a pua”.
A viagem de navio, do Rio de Janeiro até Nápoles, durava cerca de 20 dias. Neste período, soldados tinham de ficar dentro de suas cabines de 3m² que dividiam entre 9 pessoas; a única luz que podiam utilizar era infravermelha; e todos os rejeitos produzidos deveriam ficar dentro do navio. Tudo para que os submarinos alemães não avistassem ou rastreassem a frota.
As primeiras baixas da FEB ocorreram ainda na viagem à Europa, devido a doenças que podiam retirar o soldado de combate por um determinado tempo. Esse é um dos motivos que tornou as vacinas tão importantes para os soldados, já que com um ambiente propício a doenças, elas se faziam necessárias.
Depois disso foram, para a prova de fogo, rumo aos Apeninos, uma cadeia de montanhas ao norte da Itália, onde os nazistas ocuparam posições de defesa, controlando toda a movimentação no Vale do Rio Pó, a região mais rica da Itália.
Uma das batalhas mais violentas foi a tomada de Monte Castelo. Depois várias tentativas frustradas, sendo que os Estados Unidos haviam treinado uma divisão especial de soldados montanhista, foi justamente a FEB que conseguiu tomar a posição em fevereiro de 1945.
Ao perder a posição, os nazistas se reagrupam na cidade de Montese, onde também ocorreram muitas baixas, devido a dificuldade dos combates urbanos. Ali chegaram a lutar ao lado dos Partigiani, a resistência italiana ao nazifascismo.
Fonte: Arquivo Museu da FEB.
Anualmente ainda acontece uma festa em Montese, onde os italianos comemoram a expulsão dos nazistas pelas tropas brasileiras, com homenagens aos pracinhas.
Em Fornovo, a artilharia Brasileira cercou e rendeu uma divisão de blindados, comandada pelo General Otto Freter-Pico, novamente contando com a ajuda dos antifascistas italianos. Sendo cerca de 18 mil alemães contra 6 mil brasileiros.
Durante a Segunda Guerra, além dos partigiani, os pracinhas combateram ao lado de britânicos e estadunidenses, em uma divisão dos Estados Unidos. E é por isso que a maior parte do nosso equipamento era americano.
Um bom exemplo disso são os uniformes, já que, devido à vasta produção de fardas para combate por parte dos estadunidenses, o uso deles era mais prático por uma questão de logística.
Outro exemplo são os capacetes, fabricado pelos estadunidenses e utilizados por nós por conta de sua maior resistência e tecnologia. As botas americanas também eram preferidas, e geralmente utilizadas junto às polainas feitas aqui no Brasil.
Você já deve ter visto estas plaquetas em algum lugar, não é mesmo? Elas também eram fabricadas pelos Estados Unidos e contavam com: nome, registro e tipo sanguíneo do militar. Cada soldado recebia duas dessas, e caso morresse em combate, uma delas era entregue ao comandante e a outra colocada debaixo da língua do soldado morto para facilitar o reconhecimento.
Além dos milhares de feridos, cerca de 500 pracinhas morreram na guerra. Foram enterrados num cemitério na cidade de Pistóia, a terra desta caixinha é de la.
Mais tarde, os corpos foram trazidos de volta ao Brasil, hoje estão sepultados no Rio de Janeiro, onde também há um monumento em homenagem aos combatentes da FEB.
Além desses equipamentos de origem estrangeira, muitas coisas eram produzidas aqui no Brasil, por pessoas que não estavam na guerra. Vestimentas como toucas, luvas, meias e mantas de lã, que foram enviadas para que os soldados tivessem melhores condições de enfrentar as baixas temperaturas eram feitas por aqui.
Outro equipamento essencial para os pracinhas, eram os capotes brancos. Quando a neve se acumulava nos campos, utilizavam a vestimenta para se protegerem do frio e se camuflarem durante as patrulhas e atividades de campo.
Além da vestimenta, cada soldado contava um kit individual de equipamentos, que continha toalha, saboneteira, escova de dentes, talco, bússola e kit de primeiros socorros com pó de sulfa e ataduras. Tudo isso acompanhado por um manual de orações católico.
Uma máscara de gás também fazia parte de todos os equipamentos levados à guerra pelos soldados. Apesar de não ter sido utilizada, elas estava lá por uma questão de precaução. Além disso, se utilizada, era importante que o soldado estivesse com a barba feita, para não deixar aberturas que o façam inalar gás; por isso a importância do soldado sempre estar com a barba feita!
Cada soldado tinha também seus utensílios para alimentação: cantis, canecas, marmita, talheres. Todos de metal, para usar no fogareiro de campanha.
O pracinha ganhava cerca de 6 dessas caixas. São caixas de ração, essa é do Tipo K, a mais calórica, com açúcar e chocolate. Os italianos chamavam de escatoletas.
Enquanto os estadunidenses ofereciam a sobra das refeições ao civis, os britânicos queimavam ou enterravam os restos, porque entendiam todo italiano como um inimigo.
Por conta disso, os brasileiros receberam o titulo de libertatori d’IItalia, por parte dos civis.
Já na cozinha dos brasileiros, as crianças, idosos e mulheres eram servidos antes dos soldados. Um gesto de humanidade na intervenção dos brasileiros durante o conflito.
Aqui temos alguns dos equipamentos de comunicação mais importantes da segunda guerra. Esta, por exemplo, é uma estação de rádio que ficava nos Quartéis Generais. Através dela os comandantes coordenavam toda a atividade no front de batalha.
As ondas de rádio eram recebidas pela estação receptora-transmissora, que pesava entre 25 e 30kg e uera levada nas costas de um dos soldados. E além disso, os oficiais também tinham uma central telefônica, que, através de cabos de aço, se ligava aos equipamentos de comunicação individual, utilizados pelas patrulhas que iam à frente dos deslocamentos para fazer o reconhecimento do território.
Já o telefone terra-aéreo era tecnologia de ponta. O “celular” da época não foi tão utilizado, muito pelo seu alto custo de produção, porém, tinha a vantagem de não precisar dos cabos de aço, e era utilizado para que o militar no solo se comunicasse com o piloto de avião.
O piloto recebia as mensagens através desta sub-estação receptora, levada no avião e fazendo a comunicação direta entre as duas partes.
Por último, mas não menos importante, temos este criptógrafo, que não fez parte da segunda guerra mundial, mas é bem interessante para que a gente entenda o contexto.
Isso porque ele foi produzido nos anos 1950, sendo, de certa forma, um aperfeiçoamento do 'enigma' maquina de criptografia alemã, que teve seu mecanismo decifrado por Alan Turing na Segunda Guerra. Segundo especialistas, isso encurtou a guerra em até 3 anos.
Daqui da região de Caxias do Sul mais de 160 jovens foram pra para a guerra, alguns convocados e outros voluntários. Todos eles voltaram com vida, porém não sem sequelas. Não só sequelas físicas, mas também as neuroses por traumas de guerra.
Hoje, restam poucos. Aqui na cidade o último pracinha, Alberto Arioli, veio a falecer com 95 anos no início de 2021. O maior memorialista da associação, tendo colaborado muito com seus companheiros febianos, e registrado boa parte de suas memórias depois da guerra.
Até um tempo atrás costumava vir ao museu, ou ir em outros espaços, compartilhar essas histórias por meio de palestras e entrevistas.