O ERUDITO E O POPULAR
NA FESTA DE SÃO BENEDITO - ITU
O ERUDITO E O POPULAR
NA FESTA DE SÃO BENEDITO - ITU
Convento Franciscano de São Luís de Tolosa, c.1890
Local de realização da festa a São Benedito no século XIX
Foto do acervo – Museu da Música - Itu
Dentre as tradicionais celebrações do calendário cultural de Itu está a festa em honra a São Benedito. Inicialmente realizada no Convento Franciscano de São Luís de Tolosa, após a demolição dele, passou a ser feita na igreja própria do santo, inaugurada em 1910.
Devoção popular dos negros, a festa religiosa ituana acontecia no dia 6 de janeiro, misturando elementos da cultura erudita, oficial, dentro do templo e de origem europeia às manifestações africanas, de canto e dança, que outrora se davam no Largo de São Francisco. O diálogo entre elas tange o universo da música, na obra de Tristão Mariano da Costa e da comunidade afro-brasileira.
Em Itu se ouvia, outrora, um ditado português, como invocação ao santo de devoção popular:
“São Benedito: não come e não bebe e está sempre bonito!”
SÃO BENEDITO (BENTO)
1526 – 1589
Nasceu na Sicília, filho de pais negros da Etiópia, escravizados na ilha italiana. Tornou-se livre por promessa do seu senhor.
Benedito ingressou na Ordem Franciscana, tornando-se cozinheiro. Diz a história que era um homem simpático e fervoroso na fé cristã.
Mesmo analfabeto, por um tempo, foi superior do seu convento. Depois voltou ao serviço da cozinha.
Ganhou fama de santidade e milagres. Protegia os pobres e injustiçados. Foi beatificado em 1743 e canonizado em 1807. A sua festa é celebrada em 4 de abril e em 5 de outubro no Brasil. Tornou-se devoção popular nas comunidades negras das colônias ibéricas.
Imagem de São Benedito
Santo de Roca, séc. XVIII
Igreja de São Benedito
Foto – Sétimo Catherini, déc. 1940
IRMANDADE DE SÃO BENEDITO
Segundo Francisco Nardy Filho, a Irmandade de São Benedito foi fundada no início do século XVIII, junto à igreja do Convento Franciscano de São Luís de Tolosa, mesmo não existindo ainda culto público a ele, canonizado em 1807.
A documentação da Irmandade, ainda existente, tem início na década de 1830 e revela que havia, dentre seus membros, negros e brancos.
A festa anual, em Itu, é realizada na Epifania, a 6 de janeiro, por possível relação com um dos reis magos, Baltazar, representado como negro na tradição europeia.
Baltazar, um dos reis magos
Pe. Luciano Francisco Pacheco
Capelão da Irmandade de S. Benedito
EVENTOS DA FESTA
A festa anual a São Benedito era promovida pela própria Irmandade. Ao longo de cento e cinquenta anos (séc. XVIII e XIX) foi assistida pelos Frades Franciscanos. Ao se retirarem de Itu esses religiosos (1862), tornou-se responsabilidade da Paróquia. O vigário, padre Luciano Francisco Pacheco foi capelão dela por duas décadas. Ele era músico e tinha bela voz de baixo.
As celebrações internas, com padre Luciano, receberam investimento cultural, quando a Irmandade era mais conduzida por brancos que negros.
Elias Álvares Lobo
O QUE NOS DIZ A DOCUMENTAÇÃO?
Os Frades Franciscanos estimularam a devoção a São Benedito entre os africanos, a fim de trazê-los para a Igreja propondo-lhes um “protetor”.
A documentação antiga: livros de eleições e deliberações, registros de irmãos forros e cativos revela que a irmandade promovia a eleição para a diretoria na véspera da festa de São Benedito.
Na década de 1860 temos alguns músicos tomando parte das diretorias, João Januário do Monte Carmelo, Feliciano Leite Pacheco Jr., Elias Álvares Lobo e padre Luciano Francisco Pacheco, além de um escravo do padre João Paulo Xavier.
Costume observado era que alguns livres se representassem através de seus escravos
MEMBROS DA IRMANDADE DE SÃO BENEDITO
Segundo Rafael José Barbi em sua dissertação “Festejos, liberdade e fé: a Irmandade de São Benedito de Itu no século XIX (1861- 1888)” o grupo foi sofrendo um “branqueamento”, quando os negros perderam a maioria e o poder de decisão junto à Irmandade. É possível que esse fenômeno tenha se dado pela ausência dos Franciscanos na direção espiritual do grupo.
Sabe-se que a Irmandade contava com um “bem afinado coro de pretos e pretas”, citado por Nardy Filho ao tratar das celebrações do Ano Bom em Itu.
A festa, porém, ao ganhar ares elitistas, parece ter afastado os negros do protagonismo sobre as celebrações.
Eles ficaram com o samba somente.
Lampadário da Igreja de São Luís de Tolosa Séc. XIX
Coleção Anna Escobar
Acervo - Museu da Música - Itu
Ruínas do Convento Franciscano de Itu
déc. 1920
Foto – Sétimo Catherini
Acervo – CONDEPHAAT
EVENTOS DA FESTA DE SÃO BENEDITO
Dia 1º de janeiro
erguimento do mastro e
Samba de terreiro no Largo
Dias 3, 4 e 5
Tríduo solene na igreja
Reza de devoção
Congada pelas ruas centrais
Dia 6
Missa Cantada na igreja
Procissão
Samba de terreiro no Largo
ERUDITO E POPULAR NA MÚSICA
O fazer artístico define-se também pela ideia de que erudição supõe uma formação musical anterior e escrita, baseando-se em estrutura harmônica tradicional europeia, cujo registro foi feito em partitura que permite leitura e interpretação do que outros escreveram. A produção pode ter autor identificado.
Popular costuma se dizer do que foi produzido coletivamente e transmitido de maneira oral, sem registro escrito e autor identificado.
Na discussão desta mostra o erudito musical se representa pela obra sacra de Tristão Mariano da Costa, para a missa e outras solenidades, e o popular na música de batuque, realizada pelos negros no Largo de São Francisco.
A MÚSICA SACRA ERUDITA NA FESTA DE SÃO BENEDITO
Teclado do Harmonium
do antigo Convento Franciscano
Paris, c. 1870
Acervo – Museu da Música - Itu
EVENTOS INTERNOS
Nas décadas de 1870 e 1880 a festa de São Benedito teve obras musicais compostas especialmente para ela, por Tristão Mariano da Costa (1846 - 1908). A Jaculatória a São Benedito, cantada por mais de cem anos na festa, ele escreveu em 1879.
Já em 1882, Tristão regeu a sua Missa ao Glorioso São Benedito. A obra, em duas partes: Kyrie e Gloria com enorme influência da música operística dos compositores italianos.
Portanto, a música dentro da igreja se diferenciava completamente do samba de roda realizado à porta da igreja após a reza, de participação majoritariamente negra e inspiração africana.
Jaculatória a São Benedito
É pobre, é grande mas humilde
Brilha quais astros de luz
Seu nome é bem aventurado
E traz em seus braços Jesus.
Tristão Mariano da Costa
TRISTÃO MARIANO DA COSTA
Nasceu em Itu a 6 de junho de 1846. Estudou música com Elias Álvares Lobo, seu cunhado. Foi mestre-escola, professor de música e mestre de capela. Como compositor deixou oito missas, a Semana Santa e peças para Pentecostes e motetes eucarísticos.
Tristão era membro da Ordem Terceira Franciscana e morava na Rua de São Francisco, 11.
Sua obra foi fortemente influenciada pelo gosto italiano da ópera lírica, com solos expressivos e de difícil execução.
Faleceu em 1908.
Suas partituras estão sendo recuperadas pelo Coral Vozes de Itu e pelo Museu da Música – Itu desde 1996.
JACULATÓRIA A SÃO BENEDITO
Partitura original – 1879
Acervo: Museu da Música - Itu
Obra cantada ainda hoje na festa ituana, com algumas adaptações.
Em Salto (SP) a mesma obra é atribuída a Zequinha Marques, compositor que viveu em período posterior e copiou a composição de Tristão Mariano para cantar com seu grupo.
MISSA A SÃO BENEDITO
Partitura original (1881)
Acervo: Museu da Música - Itu
composição de Tristão Mariano cantada na festa em 1882, a coro e orquestra.
Obra de forte complexidade na execução, com solos de estrutura lírica italiana.
No grupo de cantores de Tristão Mariano havia dois negros:
José Victório de Quadros e
Jesuína Gonzaga Ribeiro
Kirye da missa 5 - Tristão Mariano da Costa - 1881
Gravação ao vivo - Coral Vozes de Itu - 2018
Salão do Anjo do Colégio do Patrocínio
Regente - Luís Roberto de Francisco
Pianista - Daniel Guimarães
Solista - Fátima Oliveira
Crédito da gravação - Camilo Bruni
O POPULAR NA FESTA DE SÃO BENEDITO
A MÚSICA DE BATUQUE
Convento Franciscano de São Luís de Tolosa, c.1840
Aquarela – Miguel Dutra
Acervo – Museu Republicano Convenção de Itu
O BATUQUE
Os africanos e seus descendentes, presentes em Itu desde fins do século XVII, mantiveram vivos muitos elementos da cultura de origem, entre eles a música ritual de batuques e jongos, com danças. Os eventos eram acompanhados de tambores, caixas e alfaias que marcavam o ritmo característico das melodias.
As letras cantadas eram frutos da criatividade local e coletiva, que estreitava os vínculos entre os participantes e fazia deles figuras ativa na cultura, protagonistas.
Em Itu os eventos públicos mais tradicionais da presença africana foram o Samba de Terreiro, realizado na festa de São Benedito (6 de janeiro) e em homenagem à princesa Isabel (13 de maio).
A festa de Nossa Senhora do Rosário, outrora, também contava com enorme participação de afrodescendentes.
“Antigamente, em nossa velha cidade de Itu, (...) os pretos também festejavam [o ano bom] e se divertiam alegre e santamente. (...) lá no pátio da igrejinha de São Luiz, rufava animado o samba. A igrejinha permanecia aberta e iluminada durante toda a noite. O preto, cansado do samba, entrava na igrejinha, benzia-se, debruçava-se sobre o banco, dormitava um tanto e voltada de novo ao samba. O bom preto louvava a Deus e a São Benedito, cantando e dançando.”
Francisco Nardy Filho.
A Cidade de Itu, 1953, vol. III, p. 204-5.
Alfaia, séc. XIX
Coleção – Museu da Música - Itu
SAMBA DE TERREIRO EM ITU
“Por ocasião do samba, o terreiro era tomado por uma caieira (fogueira), junto à qual se encontrava o recipiente com quentão. Ao lado formava-se um círculo de negros e negras sambadores (...) Os instrumentistas eram indivíduos do sexo masculino. Localizavam-se no interior do círculo (...) Os instrumentos usados eram todos de percussão: zabumba (bumbo), pandeiro,
reco-reco, cuíca, tamborim, guiso e guaiá (chocalho). (...) reuniam-se tocadores e dançadores ao redor da zabumba e aí alguém cantava uma estrofe improvisada.”
Octávio Ianni. Uma cidade antiga, 1988, p. 90-1.
Zé Mulato, sambista de Itu
Foto Júlio Abe, 1977
Acervo – Museu Republicano | USP
ESTROFES DE SAMBA DE TERREIRO EM ITU
Samba de Terreiro em Itu
Foto Júlio Abe, 1977
Acervo Museu Republicano | USP
Ôi, abra a roda prá Ema dançar!
D. Maria, sai fora venha vê, no seu terrero
Corre água, sem chuvê, corre água sem chuvê...
Adeus, adeus, adeus que já vou mimbora...
Quem fica, fica com Deus que eu vou com Nossa Senhora!
Jornal Gazeta de Itu
16.01.1955
SAMBA PAULISTA
“O samba rural de negros paulistas (...) se distingue bem na coreografia e no ritmo musical dos sambas baianos. (...) O samba paulista, também na terminologia popular nomeado “batuque”, não tem a síncopa como base rítmica e é um verdadeiro one-step bem batido nos tempos (...). O passo se faz balanceando prá frente o corpo, sem o balanceamento lateral de ancas próprio do maxixe.”
Mário de Andrade
Dicionário Musical Brasileiro, p. 455.
Samba de Terreiro em Itu
Foto Júlio Abe, 1977
Acervo Museu Republicano | USP
INTOLERÂNCIA COM A CULTURA NEGRA EM ITU
“Cruzeiro de S. Francisco.—Chamamos a attenção do Sr. Delegado de Policia para a falta de respeito que ha para com este lugar, onde nos domingos fazem reuniões para jogatina de busio. Um tal proceder profana um lugar que deve ser venerado e que a policia deve intervir, fazendo cessar semelhante abuso.”
Jornal Imprensa Ytuana, 19 de novembro de 1882.
No mesmo ano em que Tristão Mariano apresentou a Missa de influência italiana na igreja, o jornal Imprensa Ytuana solicita do poder público providências para cessar o “abuso” da “jogatina de búzios” no Largo. Mais um exemplo da falta de território cultural para que os negros possam se manifestar, claramente revelando o ambiente de intolerância religiosa, talvez aceito no tempo dos Franciscanos, conforme observações de Nardy Filho.
Igreja de São Benedito
Foto – Sétimo Catherini,
déc. 1940
Em 1910, após a destruição parcial da Igreja do Convento, a Irmandade de São Benedito inaugura a nova igreja, na Rua Santa Cruz, construída em terreno doado pelo italiano Miguel Véspoli.
A devoção popular continua, porém concretizou-se a hegemonia branca sobre as diretorias.
A festa anual continua sendo feita com grande afluência de povo.
A música perde a presença da obra de Tristão Mariano e feição do lirismo italiano e o Coro Paroquial canta músicas do repertório sacro europeu.
O pátio fronteiro serve ao Samba de Roda até que ele perde força e se desarticula, na década de 1950.
ALGUMAS CONCLUSÕES
O repertório musical da antiga festa de São Benedito se perdeu quase completamente e a celebração foi se ressignificando ao longo do século XX. O “Hino ao glorioso São Benedito” de Tristão Mariano,perdeu a originalidade, acompanhado de violão, e extraídos alguns trechos.
Já o samba de terreiro ou de roda, na década de 1930, foi desaconselhado de ser feito à porta da Igreja pelo Arcebispo de São Paulo, D. José Gaspar. Deslocou-se então para a Chácara Portella, nos arrabaldes da cidade, como informa Joaquim Luís Bispo (Revista da Acadil, 2020, p. 151) até que se perdeu completamente.
Revisitar os temas apresentados é trazer à discussão as expressões culturais da cidade e a realidade sobre sua construção e reconstrução.
IMPORTANTE REGISTRO HISTÓRICO
Em 1977, por solicitação do CONDEPHAAT, o museólogo Júlio Abe conseguiu reunir antigos sambadores de Itu e descendentes de cantores para gravarem uma memória do samba de terreiro de Itu.
Os pontos foram chamados pelo sr. Oswaldo Caetano e acompanhados, entre outros pelo Zé Mulato. Tocaram caixa, bumbo, zabumba e chocalho. Ouvem-se estrofes dedicadas ao 13 de maio e a São Benedito.
Na ocasião os participantes consideraram que não havia muito espaço para os movimentos do samba, como se pode notar. Geralmente o bumbo leva as dançarinas e depois há um círculo, o que não foi possível realizar. Além disso, consideraram que os pontos ficaram curtos.
A gravação foi gentilmente cedida pelo Museu Republicano Convenção de Itu.
SAMBA DE TERREIRO
mantenedora
Instituto Cultural de Itu
presidente – Maria Edith Rocha Baldy
vice- presidente – Engº Jair de Oliveira
secretária – Allie Marie Dias de Queiroz
tesoureira – Fernanda L. G. de Francisco
pesquisa e texto
Luís Roberto de Francisco
revisão
Marco Rafael Leite Ribeiro
gravação em vídeo
Camilo Bruni
Júlio Abe Wakahara (in memoriam)
layout e montagem
Willian Mattei
conselho cultural
Abigail Colnaghi Sampaio
Allie Marie Dias de Queiroz
Luís Roberto de Francisco
Marco Rafael Leite Ribeiro
Maria Edith Rocha Baldy
Maria Eliza D. C. Chierighini
Maria Lúcia A. M. D. Caselli
Natan Coleta da Silva
Paulo Roberto Zeppini
Willian Roberto Mattei
agradecimentos
Associação Cultural Vozes de Itu
Museu Republicano Convenção de Itu