"Precisamos das palavras para continuarmos a ser".
José Saramago [Deste Mundo e do Outro]
"Precisamos das palavras para continuarmos a ser".
José Saramago [Deste Mundo e do Outro]
[Por Luana Ferreira do Nascimento]
Em 1917 Sigmund Freud publica seu artigo "Luto e Melancolia" no qual percebemos que as características da melancolia dizem muito respeito ao que hoje conhecemos como depressão.
Este estado de tristeza, baixa auto-estima e até mesmo agressividade voltada para si mesmo é bastante antigo, pois mesmo há 100 anos atrás já trazia ao consultório de Freud pacientes com este sofrimento.
Nem todo processo de luto é acompanhado de melancolia, mas toda melancolia aparece após ou durante um processo de perda.
A perda pode ser de alguém querido e amado. Mas o sofrimento também pode acontecer após a perda de um ideal, do trabalho, fim de um relacionamento, mudança de estado, país, etc.
Então, Freud se pergunta: o que perdemos quando perdemos o outro ou algo que amamos? O que de nós se perde com o outro?
Para ilustrar este sentimento, apresento ao lado a transcrição do trecho de um curta-metragem de animação muito interessante sobre o tema da perda: "Em águas profundas" (Dans les eaux profondes), lançado em 2014.
"Quando ele me deixou, achei que não iria sobreviver. A dor era constante e invadia meu corpo. E nunca desapareceu. Geralmente uma ferida cicatriza, mas a minha não para de sangrar. Meus amigos não me suportam mais, nem minha mãe aguenta mais. Não tenho ninguém para falar disso. [...] Estávamos bem juntos, mas eu queria mais. Eu sempre tive medo de perdê-lo. Isso o fez fugir. Não me surpreendeu. Desde então, meu mundo desmoronou, e nunca o reconstruí [...] Encontrar seu lugar: isso pode ser um problema. Saber o que queremos na vida independentemente do outro".
[Por Luana Ferreira do Nascimento]
Esse título chega a remeter a algo fantástico, como um filme de ficção científica ou um obscuro conceito da física quântica. Mas na verdade, se trata aqui de algo bem mais simples e mais próximo de nosso cotidiano do que pode parecer.
Me refiro a um efeito clínico que vivencio em minha prática com a psicanálise e que já foi descrito por Freud há muito tempo atrás. Basicamente, o efeito retroativo, que também podemos conhecer como efeito 'a posteriori', é como um sentido que surge para o paciente sobre algo relativo a seu passado. Porém este efeito tem uma particularidade.
Esse efeito de sentido não é vivenciado pelo paciente como algo completamente novo, mas sim como um conhecimento que já estava lá. Os pacientes relatam que é como se já soubessem daquilo, mas ao mesmo tempo não o sabiam conscientemente.
Isso é o efeito retroativo: ao falar descobrimos algo que no fundo já sabíamos. Retroativo é o sentido que, hoje, exerce efeitos sobre o nosso passado.
Figura: Google imagens
[Por Luana Ferreira do Nascimento]
A clínica psicanalítica tem algumas particularidades. Quem trabalha com psicanálise leva em consideração algumas técnicas propostas por Freud - a associação livre é uma delas. Por ser muito antiga, às vezes esquecemos de nos perguntar por que ainda é utilizada. Sabemos que quando algo perdura muito no tempo, tendemos a vivenciá-lo como automático e 'natural'.
Podemos definir a associação livre como a proposta feita ao paciente de dizer o que lhe vêm à mente, sem se preocupar com justificativas racionais para o que diz, por mais tolo que possa parecer. Associar livremente depende de permitir-se falar sem tantas preocupações ou medo de julgamento: dizer uma palavra ou pensamento, e em seguida dizer a que isso remete, e por aí em diante.
Assim, com a ajuda do analista, o paciente vai aprendendo a se ouvir com mais atenção e curiosidade. Escutando com interesse o seu inconsciente que se revela nas trocas de palavras, na confusão entre nomes, na mistura entre lembranças, nas relações entre as ideias que surgem na sua associação livre. Neste processo, também chega o momento em que o próprio paciente reconhece e (re)constrói as interpretações sobre o que lhe ocorre em associação livre.
Indico aqui o vídeo do psicanalista e professor Christian Dunker para esclarecer uma dúvida que geralmente surge entre aqueles que já ouviram falar de psicanálise, ou que começaram uma psicoterapia, seja qual for: afinal, existe diferença entre psicologia, psicanálise, psicoterapia e psiquiatria?