AS INTERVENÇÕES FORAM ENCERRADAS, O PROJETO CONTINUA EM FASE DE DOCUMENTAÇÃO E INSTITUCIONALIZAÇÃO. ACOMPANHE POR AQUI!
O projeto LAMBIDA no MuSA é uma pesquisa-intervenção, laboratório curatorial e de mediação expandida desenvolvida junto ao acervo do Museu de Arte da UFPR, espaço institucional de preservação e difusão do patrimônio artístico da universidade. O projeto é uma parceria com a disciplina OA 397 - Práticas Curatoriais e de Mediação do Curso licenciatura em Artes Visuais, em caráter de Projetos Avançados, sob coordenação do Prof. Angelo Luz (DeArtes UFPR), buscando integrar ensino, pesquisa e extensão.
Partindo de pesquisa e discussões realizadas em sala de aula e no acervo acerca das práticas curatoriais e de mediação contemporâneas e dos modos de pensar e fazer curadoria desde o Sul Global o projeto propõe uma ativação do acervo do MusA, através de estratégias de circulação urbana, diálogos poéticos com artistas convidados e técnicas de mediação expandida.
Caim Damico (em construção)
Angelo Luz (em construção)
diasszz, Júlia, Caim, ísis, Enzo, Carol, Leo, Angelo, Gabi.
Cantina Campus UFPR Santos Andrade, Maio, 2026.
(2026A)
Turma de Licenciatura em Artes Visuais UFPR
Aplicação prática das leituras e debates da disciplina de Práticas Curatoriais e de Mediação do curso de Artes Visuais da UFPR (Maio de 2026)
Diálogos entre imagens do acervo MusA e trabalhos de convidados
01 a 27 de Junho de 2026
Curadoria e Intervenção: Enzo Rafael
Local: Departamento de Artes UFPR, R. Coronel Dulcídio, 638 - Batel - Curitiba-PR
Data da Intervenção: 13/06/2026
Dimensões: 122 x 180 cm
Como Dois Animais
Há tempos na história humana, a exploração de animais é fonte de entretenimento para muitas pessoas. Rinhas de animais, caça esportiva, animais em circo, touradas etc., são exemplos de práticas que retiram os animais de seus habitats naturais e os colocam forçadamente em situações espetacularizadas de violência.
Nos últimos anos, o comércio e entretenimento com a tortura e o assassinato de animais vem crescendo na internet. Em grupos de plataformas digitais, como por exemplo, o Discord, crianças, adolescentes e adultos torturam animais para ganhar status dentro de comunidades, onde quanto mais o animal sofrer, melhor.
Donna Haraway, filósofa, zoóloga e professora estadunidense, em contrapartida ao antropocentrismo tradicional e hegemônico (que objetifica seres não humanos), argumenta em seu livro Manifesto das Espécies Companheiras (2003) que, espécies e raças diferentes formaram umas às outras, através de múltiplas relações ao longo do tempo, não como uma árvore genealógica, mas sim um rizoma parental, em que cada espécie existe em seus próprios termos, coabitando e coexistindo no mesmo tempo, espaço e na própria carne.
A partir da ideia de coexistência, de inúmeras e variadas partículas que compõem uma grande estrutura, reuni os trabalhos “Jan esperando a neve” da artista Mari Inês Piekas, e “Amigos das caixas” do artista Matias Peruyera, pensando na convivência na cidade, ocupada por diversas edificações e seres vivos e não vivos. Trazendo artistas do Museu de Gravura Cidade de Curitiba, busquei resgatar também a coabitação que acontece dentro dos ateliês, especificamente o de litogravura, onde tive o prazer de coexistir com artistas incríveis, como a Mari Inês e o Matias.
O díptico criado a partir dos dois trabalhos procura questionar a falsa e perigosa ideia de superioridade humana (que parece esquecer que também é animal), e sensibilizar a existência e singularidade dos outros seres vivos, que vivem no mesmo espaço e tempo que você.
Agradeço ao professor Angelo Luz pela oportunidade de participar do projeto LAMBIDA no MusA, que tanto nos enriquece pessoal e profissionalmente. Também agradeço à turma, à equipe do MusA e às artistas e aos artistas que apoiaram e possibilitaram a construção desse potente projeto.
Mari Inês Piekas. Jan esperando a neve (2002)
Litografia sobre papel, 52 X 65 cm. Acervo MusA UFPR
Matias Peruyera. Amigos das Caixas (2025)
Litografia sobre papel, 38 x 108 cm. Artista Convidado.
Curadoria, composição e Intervenção: diasszz
Locais: R. Mateus Leme, Largo da Ordem - Curitiba-PR
R. São Francisco, Largo da Ordem - Curitiba-PR
Data da Intervenção: 13/06/2026
Dulce Osinski. A loba (1990), Acervo do MusA UFPR.
Gravura em metal, 34,8 x 30cm
Fraesa. Ser Bicho (2026), artista convidada.
Material, Dimensões variáveis.
O medo da civilização é a bixa, a loba, a leoa, o bicho, o selvagem que come,
caga, dorme, fode, anda e rasga as vísceras de moi
Texto curatorial de diasszz
“O abjeto nos confronta, por um lado, nesses estados frágeis em que o homem erra nos territórios do animal. Assim, por meio da abjeção, as sociedades primitivas delimitaram uma zona precisa de sua cultura a fim de separá-la do mundo ameaçador do animal ou da animalidade, imaginados como representantes da morte e do sexo.” - Julia Kristeva, Poderes do Horror, Ensaio sobre a Abjeção - Aproximação da Abjeção. (p.11)
A cidade tem medo, medo de si (seu Eu = moi), medo diante de si, ela limpa, esfrega, coça, derruba, rasga e mata se necessário, para se livrar de tudo o que lhe é possível para além do objeto de consumo, de valor, de vida, de preservação, monumental e supostamente eterno do Eu.
Essa cidade que se abjeta e é abjeta em nome do objeto, se constrói como uma fortaleza como forma de estabelecer a diferença do “outro”, pois esse outro também pode ser ela, o seu medo vem de voltar a ser outra coisa que não o modelo. Sua epiderme senta sobre outras camadas por repulsa, com medo do que está abaixo possa vazar, contaminar e excretar esse modelo de si (moi).
A derme e a hipoderme da cidade rasgam a si (moi) mesmas e a epiderme para matar e criar algo que viva e se deixe morrer, por meio dos pixos, da sujeira, da ocupação, da não manutenção, da irregularidade, dos indesejáveis, intratáveis, os selvagens; como grito, testemunho de que a sanha por eternidade compulsória da epiderme não está funcionando.
Aqui entra a selvageria, o dito “selvagem” não se separa do que está ao seu redor, ele anda na lama, no sangue, nas fezes sem medo do chão o contaminar, assim como anda na água, sente o vento, o frio e calor que o carregam no espaço .
A figura animal, a loba, a leoa, a tigresa, a onça - aquelas que geram e tiram vida confrontam a cidade abjeta, essas abjetam a cidade que limpa e raciona excessivamente o ambiente, um lembrete de o que habita a cidade é selvagem e sente repulsa da jaula, clama pelo caos, a bagunça e o furdunço, esse é o alimento que mantém o bixo eterno, mesmo diante de sua morte física, saber da possibilidade do “eu”( moi) circular instintivamente, lhe é suficiente.
A epiderme já foi loba, já foi selvagem, mas necessita se manter como única, não como “a outra”, se mantém apenas cagando e reproduzindo, o necessário para ter suas proles circulando e com a garantia da longevidade. Por outro lado a selvagem, a animalesca, sabe que longevidade não é garantida fisicamente, então come, caga, vaga, devora, fode, se suja, fede, se limpa, reproduz, se transforma, é autônoma e não programada.
Para se manter como única, a epiderme mutilou e deixou o bixo com fome, criou o humano, este que exerce o poder de vida e morte sobre si (moi) e os outros, consome tudo o que for para além do necessário para sua existência, garantido sua longevidade acima das demais. Sua longevidade se auto-impôs uma data de validade, elimina as outras ao passo que se elimina, a necessidade de derrubar a cidade abjeta se torna uma urgência pro bixo, pra bixa, pro selvagem, pro animal, como forma de evitar não somente mortes físicas e simbólicas, mas também evitar a vida, essa vida abjeta.
Através do rasgo da pele da cidade, do devorar a civilização, foder o olho de Deus que nos promete o eterno (Donna Haraway), será possível ter uma circulação do Eu (moi) sem limites, sem pecado original ou culpa, não permitindo um Eu (moi), mas sim um “anti-eu”, sem pretensão de preservar uma camada apenas. Um circular da selvageria, que permita habitar a cidade sem nojo da mesma e do que essa pode ser.
“O abjeto é a violência do luto por um “objeto” para sempre já perdido. O abjeto derruba o muro da repressão e seus julgamentos. Ele reconduz o eu [moi] à fonte dos limites abomináveis dos quais, para ser, este se separou - ele o reconduz ao não-eu, à pulsão, à morte. A abjeção é uma ressureição que passa pela morte (do eu [moi]). É uma alquimia que transforma a pulsão de morte em despertar de vida, de nova significância. - Julia Kristeva, Poderes do Horror, Ensaio sobre a Abjeção - Aproximação da Abjeção. (p.14)
Curadoria, composição e Intervenção: Carolina Vieira
Locais: Av. Marechal Floriano Peixoto, 170B, centro - Curitiba - PR
Data da Intervenção: 13/06/2026
Ao pensar a curadoria, tomo como referência a proposta de Moacir dos Anjos, de compreender a curadoria como uma prática que busca produzir leituras críticas das narrativas hegemônicas e evidenciar as relações de poder que atravessam a produção artística. Nesse sentido, analiso as relações entre o espaço urbano, a propaganda e os corpos que nele habitam. Parto do acervo do MusA, com as obras Embalagem III, de Beatriz Corrêa, e Limpos e Desinfetados, de Paulo Bruscky.
Em Embalagem III, Beatriz Corrêa representa a embalagem clássica do Sabonete Eucalol acompanhada de duas figurinhas da série “Celebridades da Tela”, que vinham junto do produto entre as décadas de 1930 e 1950, como estratégia de marketing para aumentar suas vendas. Em sua obra, Beatriz evidencia como mesmo objetos cotidianos podem se tornar fetiche e como a publicidade opera. Ao mesmo tempo que vende um ideal de limpeza, fetichiza os corpos; para conquistar o corpo do consumidor, oferece o corpo idealizado de uma celebridade, corpo é objeto e moeda de troca.
A partir dessa percepção, direcionei minha pesquisa para jornais e propagandas das décadas de 1920 a 1950. Poucas propagandas eram acompanhadas de imagens ou de um projeto gráfico mais elaborado; curiosamente, as que mais consistentemente recorriam a esses recursos eram as de produtos de higiene e remédios, com destaque para remédios para perder ou ganhar peso. Me interessa justamente essa ideia de tempo cíclico: imagens, discursos e formas de controle que sempre retornam, assumindo novas aparências. Hoje ainda vemos esse mesmo controle de corpos sendo exercido similarmente ao século passado, com o retorno da valorização da magreza extrema na cultura de celebridades e a popularização de medicamentos como Ozempic e Monjaro.
O postal Limpos e Desinfetados, criado em 1987 por Paulo Bruscky, foi selecionado também do acervo do MusA, pela forte relação visual e conceitual com a pesquisa. A obra circulou pelo Brasil como parte da produção de arte postal durante a ditadura militar, em que artistas encontravam formas de escapar dos mecanismos de censura por meio desse sistema de circulação alternativa. O postal investiga as relações entre pertencimento, corpo, poder, e controle institucional, questionando os mecanismos que determinam quais corpos são legitimados, normalizados ou excluídos do espaço social. O que significa ser um corpo "limpo" ou "desinfetado"? Qual corpo é permitido e respeitado?
Nos últimos anos, diferentes cidades brasileiras têm adotado políticas higienistas de remoção da população em situação de rua dos espaços centrais, frequentemente justificadas por discursos de segurança, ordem e revitalização urbana. A propaganda do autoritarismo continua sendo a da melhoria, da segurança e da saúde; no entanto, em vez de enfrentar as causas da vulnerabilidade social, essas políticas definem quais corpos podem circular e quais devem ser removidos. Mais uma vez, o discurso da higiene reaparece como justificativa para o controle dos corpos.
Pensando nisso, inicialmente, gostaria de instalar o lambe próximo ao Largo da Ordem, onde o tradicional "panelão", que alimentava pessoas em situação de rua, foi substituído por um módulo policial. Como não era possível, escolhi a parte posterior do Campus Rebouças da UFPR, um espaço de grande circulação de pessoas e onde pessoas em situação de rua convivem com a presença frequente da polícia. O local materializa essa tensão entre determinados corpos e o risco constante de outra política higienista expulsálos dali.
Nesse trajeto, busco utilizar as obras de Beatriz Corrêa e Paulo Bruscky, juntamente com o espaço escolhido para sua instalação, para construir uma reflexão sobre a permanência dos mecanismos de controle e repressão dos corpos, assim como a sua relação com o espaço que habitam. Afinal, a quem pertence o corpo? Por que alguns corpos são colecionados e celebrados enquanto outros são descartados e expulsos? Quão próximo você está da linha de corte?
Caroline Vieira
Paulo Bruscky. Limpos e desinfetados, 1987
Acervo do MusA UFPR. Doação do artista 2005
Impressão offset sobre papel cartão, 8,5 x 11.5 cm
Beatriz Corrêa. Embalagem III (1980). Acervo do MusA UFPR.
Grafite e lápis de cor sobre papel, 11,5 x 18 cm
Curadoria, composição e Intervenção: Julia Maia de Paulo
Local: DeArtes UFPR. R. Coronel Dulcídio, 638 - Batel - Curitiba-PR
Data da Intervenção: 13/06/2026
Durante a matéria de Práticas de Curadoria e Mediação, em seu decorrer, fomos instigados a pensar a curadoria desde um princípio, entendendo como funciona escolher os artistas e as obras, até o produto final que é a exposição, dialogando com Walter Zanini, que pensa o museu enquanto um espaço vivo, capaz de estimular a criatividade e a troca de experiências, ou seja, tudo um grande rizoma, em que as conexões são importantes para um bom andamento do trabalho.
Fomos apresentados ao Lambe, que é uma forma de arte urbana que consiste em colar imagens, ilustrações, fotografias ou textos impressos em espaços públicos. A técnica é popular por ser rápida, acessível e permitir que artistas espalhem mensagens artísticas, sociais ou políticas pela cidade, aproximando a arte do cotidiano das pessoas. E através disso surge o Projeto LAMBIDA, onde entramos dentro do acervo do MusA, com o intuito de fazer uma relação entre o Acervo do Museu, Artistas, e a rua, onde tivemos o processo de escolher tanto um artista que está dentro da instituição, quanto pessoas que conhecemos e admiramos os trabalhos artísticos, ocorrendo essa conexão.
O trabalho escolhido do acervo do MusA, foi da artista Maria Lucia de Julio, chamado Coleção Particular (2016), em que pequenos círculos coloridos com imagens relacionados a natureza, feitos através da gravura, compõe a obra. O do artista convidado, foi da estudante de bacharel em Artes Visuais da UFPR, Brie, chamado Fanta Uva (2025), em que deriva de uma prática livre no ateliê de Gravura, onde questões iniciais, de uma posterior preocupação com a palavra “lixo”, passam a ser ressaltadas. A latinha de refrigerante é elemento principal, assim como as manchas de movimentação vermelhas, que se fazem por meio de um rastro imaginativo de locais que minha mente percorreu em meio a estudos decoloniais e fabulativos. Me retraio, atraio e contraio constantemente, de modo ininterrupto, é um trabalho que me indaga, se indaga e indaga o espaço, o corpo, o tempo (Brie).
Para a escolha dos trabalhos, foi em diálogo com o Trabalho de Conclusão de Curso. A pesquisa é relacionada a arte e o método Montessoriano, que visa a autonomia e a valorização do processo criativo na resolução de problemas do estudante. Primeiramente, a geometria, os trabalhos tanto da Brie, quanto da Maria Lucia de Julio, são geométricos, e no método Montessori, a geometria é uma experiência sensorial e motora, não apenas visual. Os conceitos partem do concreto para o abstrato através da manipulação de materiais tridimensionais, permitindo que a criança "leia com as mãos" antes de registrar as formas no papel.
Dessa forma, a escolha das obras dialoga diretamente com os princípios do método Montessori, ao evidenciar a importância da exploração sensorial, da autonomia e da construção do conhecimento por meio da experiência. As formas geométricas presentes nos trabalhos reforçam a relação entre arte e aprendizagem, valorizando o processo criativo e a percepção espacial do estudante.
Júlia Maia
Maria Lucia de Julio. Série Coleção Particular (2016). Acervo MusA UFPR
Gravura em metal (águaforte) sobre papel. 33,5 x 33,5 cm
Briê. Fanta Uva (2025). Artista Convidada.
Latinha de refrigerante, ponta seca, água tinta, bordado e costura com sacolas de plástico. 216 x 111cm.
Curadoria, composição e Intervenção: ísis bravo
Local: Em frente ao Gato Preto
Data da Intervenção: 21/06/2026. Foto: Angelo Luz
Sobre o imaginário das trabalhadoras do sexo nas ruas
ísis bravo
"O mercado da arte quer pornografia, mas não a quer quando vem do feminismo. Cada coisa em seu lugar. O mundo da arte gosta de um salpicão de reciclados códigos pornográficos quando esses estão separados da sua função de crítica social e existem como meros resíduos estéticos.” --
Paul B. Preciado (2008)
Percebendo o lambe como uma prática que se constrói totalmente pelas ruas e sem a necessidade da aprovação para sua legitimidade, senti a liberdade de abraçar um movimento pouco explorado, ou melhor, os trabalhadores “comuns” tendem a ter um certo receio de ser falado. Não preciso entrar nas discussões sociais de que há uma enorme falta de políticas públicas entorno desses corpos, falo deste local como curadora e artista de um dever: as discussões que nos incomodam precisam partir de projetos artísticos para depois entrar no campo político.
A partir da perspectiva de Paul B. Preciado, a curadoria pode ser compreendida como uma prática política de seleção, classificação e controle da visibilidade. Em Museu, lixo urbano e pornografia, o autor argumenta que os museus historicamente definem o que pode ou não ser visto, construindo fronteiras entre obras consideradas legítimas e produções relegadas à marginalidade. Dessa forma, a curadoria não atua apenas na organização de exposições, mas também na produção de discursos, subjetividades e relações de poder, determinando quais corpos, narrativas e experiências ocupam o espaço institucional da arte e quais permanecem excluídos. A partir dessa leitura crítica, a curadoria contemporânea pode ser entendida como um campo de disputa capaz de questionar normas sociais e ampliar a visibilidade de sujeitos, práticas e estéticas historicamente silenciadas.
Os trabalhos dissolvem fronteiras entre interior e exterior, entre geografia e anatomia, sugerindo que toda paisagem é também corporal e que todo corpo carrega em si uma cartografia afetiva, social e política, aproximações lembram a pintura realista de Courbet, A origem do mundo. A descoberta deste trabalho na casa de Lacan depois da morte do artista foi revolucionária para a dita “História da Arte canônica” que se dizia neutra e devota.
A contradição do ser humano em forma pura. O sistema se retroalimenta das nossas vontades, devem ser postas de maneira que foi prescrita para gente, o dispositivo da sexualidade é regulada pelos nossos desejos quase reprimidos. Por isso, uma buceta gigante incomoda tanto, deixa em aberto todo esse jogo dos mecanismos de controle dos corpos, mas eu quero falar de bucetas igualmente como a sociedade é falocêntrica.
Referência Bibliográfica
PACKER, Ian. “A Origem do Mundo” de Gustave Courbet: realismo e erotismo. Cadernos de Campo (São Paulo – 1991), São Paulo, Brasil, v. 17, n. 17, 2008. DOI: 10.11606/issn.2316- 9133.v17i17p%p. Disponível em: https://revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/47686. Acesso em: 19 jun. 2026.
PRECIADO, Paul B. Museu, lixo urbano e pornografia. Periódicus, Salvador, n. 8, v. 1, nov.2017-abr. 2018.
Jacek Sroka. Seksualnose ulicy Kwiatów Polskych (Sexualidade na rua das Flores Polonesas) (2012). Gravura em metal. Acervo MusA UFPR
Léo Tenório. Autorretrato (2021). Caneta hidrográfica sobre papel. 21 x 29,7 cm. Artista Convidado.
Léo Tenório. Série de desenhos (2026). Caneta hidrográfica sobre papel. 21 x 29,7 cm. Artista Convidado.
Gustave Courbet. imagem de A Origem do Mundo (1866). Óleo sobre tela, 55 × 46 cm.
Homem trans/transmasculino, defensor de direitos humanos, trabalhador sexual e pesquisador (sem formação universitária ou vínculo com universidade). Atualmente pesquisador do Núcleo de Pesquisas do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat) e conselheiro do Ibrat-Nacional.
Estudante do 9º período do curso de licenciatura em Artes Visuais do Departamento de Artes da UFPR. Tem interesse especialmente nas relações entre corpo, território e poder, buscando práticas artísticas que cruzam as margens, fronteiras e bordas, buscando construir cartografias visuais que desestabilizam regimes repressivos. Interessa-me a fotografia não como espelho neutro do real, mas como campo de disputa daquilo que revela fissuras do sistema.
Curadoria, composição e Intervenção: Caim Damico
Local: R. Dr. Faivre, Alto da XV, Curitiba-PR
Data da Intervenção: 21/06/2026
Depois de ler os comentários recebidos na última instalação do lambida, reconhecemos nosso erro e resolvemos remover os lambes que atropelaram grande parte do trabalho de BayCrocs na rua Dr. Faivre, no centro de Curitiba.
O personagem atropelado, BayCrocs, é uma batata guerrilheira que invadiu as ruas de CWB entre 2008 e 2015, armada com trajes de couro preto e metralhadoras. A postura combativa dos grafites marcou a construção e a demolição de espaços urbanos em diversos estados do Brasil, como Rio de Janeiro, Pernambuco, Goiás, São Paulo, Santa Catarina, e fora do país, em Buenos Aires, na Argentina. A preferência do artista por lugares públicos em ruínas torna seus trabalhos difíceis de serem encontrados, hoje, pelos muros das cidades; ao redor de suas batatas, as paredes descascadas e manchadas acabam novamente revestidas, restauradas ou demolidas, em favor da construção de alguma outra coisa. Essa disputa pelo espaço urbano, ilustrada por Baycrocs ao longo de sua carreira itinerante, é o que me levou ao atropelo; ao ver, de relance, uma parede descascada e invadida, reconheço aquele lugar como passível de intervenção e revestimento, em contraste direto com os cinzas monitorados dos muros vizinhos. Diante da repreensão recebida depois de colar os azulejos em um dos muros tombados da reitoria UFPR, falhamos em reconhecer e nomear a ocupação prévia desse outro espaço; entre as suas camadas de rejunte, massa e tinta, viviam duas batatas BayCrocs, atingidas, também, pelo tempo.
No entanto, mesmo com a remoção dos lambes, o grafite continua atropelado pelos azulejos que ficaram; se tentarmos remover o adesivo, ao invés de recuperar as batatinhas BayCrocs, corremos o risco de as atropelar ainda mais, causando um dano maior ao revestimento ao redor da instalação, fragilizado pelo tempo. O que tentei abordar foi a construção, desse prédio, dessas casas, adiante apartamentos, como montagens e camadas de si, de nós, e dos outros; como materializações dos nossos modos de interação, ocupação e apropriação do espaço urbano. Vindo de um lugar distante, coleto as pastilhas espalhadas ao redor da reitoria com a vontade de construir, com elas, alguma coisa; e acabo aqui, num atropelo feio, repetindo os mesmos padrões de apagamento e imposição institucionais que tentamos reconhecer e superar. Como os pedaços do grafite que permaneceram depois de 11 anos, os azulejos agora fazem parte da composição desse lugar; você está aqui, assim como eu e nós; e aqui estamos, em constante disputa por espaço, visibilidade e conexão.
Batatas Guerrilheiras, Grafite de BayCrocs, 2015 e Você Esta Aqui, cerâmicas de Caim Damico, 2026.
Anico Rosália Herskovitz, Acervo MusA UFPR
Caim Damico. Você Esta aqui (2026). Azulejos de cerâmica. Artista e curador.
Curadoria, composição e Intervenção: Luiz Lima
Local: R. São Francisco, centro, Curitiba-PR
Data da Intervenção: 21/06/2026
No fundo de uma gaveta dentro do Museu de Arte da UFPR ficam cuidadosamente armazenados uma dezena de postais do artista pernambucano Paulo Bruscky. Os desenhos, gravuras e carimbos são pequenos recortes da extensa produção experimental de Bruscky, que foi desde a arte performance até a poesia. Talvez por isso não seja surpreendente sua participação no curta de 2010, As Aventuras de Paulo Bruscky. Onde o diretor Gabriel Mascaro entrevista Bruscky no ambiente virtual da plataforma de socialização Second Life. Do xerox ao chat de voz, o curta sugere com muito humor que o ambiente virtual significa apenas uma nova possibilidade de experimentação. Que a grande revolução tecnológica que ficou mais tarde conhecida como metaverso, aqui exibida com ambientes surrealistas e ângulos de câmera impossíveis, quando reduzida aos seus componentes mais simples, se trata da mesma coisa que o alfabeto críptico do postal de Bruscky; de comunicação, de linguagem; um postal virtual, um telegrama digital; desmaterialização e rematerialização da ideia; uma mensagem na parede, um postal reenviado, um qr code a ser lido, um pen drive infectado.
Luiz Lima
Paulo Bruscky, Acervo MusA UFPR
Gabriel Mascaro. As Aventuras de Paulo Bruscky (2019) Frames de Filme (machinima) gravado dentro do Second Life.
Curadoria, composição e Intervenção: Leonardo Valentim
Local: Bairro Vila Sandra, Curitiba-PR
Data da Intervenção: 24/06/2026
Curando no Sul: Discussões de uma curadoria dissidente no Bairro CIC na Cidade de Curitiba-PR
Este presente texto busca dialogar as pesquisas de curadoria desenvolvidas na matéria de Práticas de Curadoria e Mediação e minhas experimentações individuais, criando aproximações em ambas as pesquisas e como o Projeto Lambida auxiliou nas novas projeções de estudo e pensamento. Dialogando com Cuauhtémoc Medina, busco entender nesta pesquisa questões como contrapartida social e o posicionamento de artistas periféricos em ambientes que sempre frequentaram, como a necessidade de sempre se lembrar de onde veio. No projeto Lambida, dialogo com o artista Gelevi, estudante de Design Gráfico, ilustrador e pintor e crio aproximações com o pintor Domício Pedroso, em uma obra chamada “Composição Geométrica” onde observamos a geometria da Periferia e seu amontoado de casas.
Por isso, este trabalho foi realizado no Bairro Vila Sandra, como forma de dialogar tanto minha individualidade como proponente deste trabalho quanto dialogar com a periferia, buscando identificar uma questão principal: Como um artista periférico desenvolve seus trabalhos na periferia? Levando em consideração que em certos patamares da carreira, esse distanciamento ocorre de forma natural ao mesmo tempo incisiva, onde o deslocamento das margens para o centro é um acontecimento já previsto.
A partir disso, as relações institucionais entre artista, obra, adequação ao mercado e disrupção ficam em xeque sobre quais são os momentos de pertencimento da origem e quais são os momentos em que suas produções são integradas ao mercado. Enquanto curador deste trabalho, estou propondo um diálogo onde partimos do princípio de Contrapartida, partindo da ideia de participar de espaços historicamente negados e agora, retornar para o local onde cresci para devolver todo o aprendizado. Durante minha graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná, tive o privilégio de participar de diversas exposições, projetos e seminários que foram essenciais na minha construção de pensamento, o projeto Lambida, sendo o último projeto que participo em minha graduação, compactou esse amontoado de ideias e resultou em um projeto ligado diretamente ao meu crescimento, como forma de uma prestação de contas e devolutiva pro mundo e pra cidade. E como forma romântica e idealista da coisa, desloco para as margens um trabalho em pintura e um artista que está em acervos e tem diversas exposições na carreira, para que não somente nós se desloque para o centro.
Curadoria, composição e Intervenção: Gabriela Poliche
Local: Bairro São Braz, Curitiba-PR
Data da Intervenção: 24/06/2026
Díptico “Aquilo que não vejo”, 2026. Projeto Lambida no MUSA
A partir da possibilidade de amenizar o incômodo, quase coletivo, daqueles que conhecem e apreciam a imensa capacidade de movimento que as inúmeras produções artísticas possuem, surge o Projeto Lambida no Musa. A oportunidade, a tempos idealizada, de levar o acervo do MUSA, fisicamente, às ruas de Curitiba - a todos que habitam esses espaços. Ter a autonomia para desenvolver uma curadoria de forma individual, a partir de livres escolhas e interesses, mas que se materializa a partir de outras individualidades e interesses, torna o processo e o resultado coletivo, assim acontecendo, em paralelo, uma curadoria compartilhada.
Cronologicamente, meu processo curatorial iniciou ao visitar o acervo e poder olhar pessoalmente os trabalhos. Sem ter exatamente um artista convidado em mente, mas considerando seriamente utilizar uma produção própria, resgatei na memória o Coletivo Sacolas, formado por mim e alguns amigos da faculdade. Em 2024, o coletivo produziu um trabalho - “Antes de nós, depois de tudo” - de técnica mista para a exposição Continuamos, da professora e artista Tânia Bloomfield, abordando a temática da Ditadura Militar, que no ano completava 60 anos.
O disparador para a lembrança desse trabalho foi a xilogravura do artista Francisco Cunha, de 1981, que apresenta uma composição dividida em quatro quadrantes, com uma cortina em cada um, em tons de azul e com linhas geométricas, e estimulando a ideia de um movimento. Nesse sentido, a primeira cortina está inteiramente em um extremidade e conforme o olhar segue linearmente a obra se percebe o movimento, visto que no último quadrante a cortina está totalmente fechada.
Apesar de intencionalmente não idealizar um tema prévio à construção do díptico, torna-se possível relacionar meus interesses e pesquisas externas ao resultado poético e estético do lambe. Naturalmente se liga à minha intensa investigação da casa como território de memória, afeto e construção de identidade, além do desenvolvimento próprio de uma oficina artística destinada a um público constituído preferencialmente de idosos, invocando suas experiências e vivências nos lugares que habitaram.
Ainda, compreender a casa não apenas como espaço físico, mas como um lugar vivido, sentido e lembrado pelo corpo, evoca para mim de maneira muito sensível a temática violenta da Ditadura Militar. E me traz o questionamento: o que resta da casa para essas pessoas? Perceber a articulação entre materialidade doméstica, afetividade e experiência sensível, a partir da lente de um período marcado por abusos, me fez lembrar que a imagem da cortina carrega outras interpretações.
Em vista da oportunidade de aproximar práticas museológicas do ambiente público, aproveito para juntamente apresentar um tema latente para a atualidade, de forma a indagar a curiosidade em que observa de forma cotidiana - banal.
Francisco Cunha, Acervo MusA UFPR
Coletivo Sacolas. Antes de nós, depois de tudo (2024). Técnica mista sobre tela.
Realização:
"Toda prática pedagógica é também uma prática curatorial se pensada como escultura social; a diferença é que a arte ali, é sujeito."
Angelo Luz.