Depois de 20 anos sob proteção americana, Afeganistão volta ao domínio do grupo extremista religioso Talibã
Por Victor Bryan
No dia 15 de Agosto, aproximadamente 20 anos após o atentado de 11 de Setembro, o Grupo Terrorista Talibã invade a cidade de Cabul e anuncia o retorno ao governo do Afeganistão. O mundo se encontra sensibilizado e com pavor do que essa retornada vai significar para a população do país e para o mundo, já que o exército americano, até então era o único que já derrotou o grupo, não está mais detendo suas rédeas religiosas.
O talibã é um movimento fundamentalista e nacionalista islâmico, considerado terrorista, que atua mais fortemente no Afeganistão e na fronteira com o Paquistão. É um grupo de armamento bélico muito forte, que é caracterizado superficialmente pelo repúdio ocidental e aos mulçumanos que não seguem à risca os mandamentos islâmicos. Sendo um dos grupos mais perigosos do mundo, estão disseminando o caos no Afeganitão nesse momento devido suas condutas rigidas em relção ao papel da mulher mulcumana, além de castigos físicos e humilhantes para aqueles que descumprem algum pilar da Xaria, como furto, homosexualidade, prostituição, dentre outros. Em alguns casos a pena pode ser de morte e ser executada em praça pública.
Proveniente da língua do phasto, o termo Talibã significa “estudantes” em razão da sua primeira ação como grupo revolucionário ter sido de um grupo de alunos de teologia, que cursavam seu teo estudo em Madrassas, escolas religiosas voltadas para o aprofundamento do Alcorão. Desde de suas raízes, Muhammad Omar foi associado como líder do movimento, por isso o Talibã também foi conhecido como “O exército de Mulá Omar''.
Os princípios do Talibã se baseiam em pensamentos extremistas em cima da religião islâmica. O islamismo é uma é uma crença de um Deus unipotente e unipresente, regida pelo Alcorão, livro sagrado que acredita ter sido redijido e organizado por Maomé, o principal profeta de Alá. De acordo com a doutrina, Maome foi por muitos anos o porta-voz de Alá e suas palavras e profecias deveriam ser julgadas como as próprias palavras do deus.
Após a morte de Maome duas vertentes islâmicas se originaram, sendo provenientes do conflito entre tribos com opiniões divergentes sobre o sucessor do profeta. Os sunitas correspondem até atualmente a vertente predominante da religião islâmica e na disputa de sucessores eles defendiam os dogmas de Suna, por isso o termo “Sunitas” para os representar. Em contrapartida os Xiitas correspondem a uma parcela pequena desses religiosos e são conhecidos como a parcela tradicionalista, desde o inicio eles defendiam a sucessão familiar de Maomé. O Talibã era majoritariamente de crença xiita, por isso suas ideologias eram e são subjugadas conservadoras estando dentro dos pilares da vertente, contudo existem discordâncias em relação à vertente islâmica que originou e é seguida pelo grupo. Atualmente, ele se declara mulçumano sunita.
O contexto de criação do Talibã é um acontecimento que realça seus pensamentos e sua conduta extremista. Durante o período de 1947 a 1991 o mundo dava a face a uma disputa ideológica conhecida como “Guerra Fria”. Foi nesse momento que os EUA e a antiga união soviética entraram em uma corrida armamentista e aeroespacial para provar ao mundo a superioridade do modelo econômico que cada lado defendia respectivamente.
A URSS nesse período com pretensões de expandir o seu domínio para regiões estratégicas do oriente médio, vê uma oportunidade de conquistar mais territórios no domínio das terras do Afeganistão. A denominada “Invasão soviética" é uma das mais duradouras e humilhantes derrotas da URSS na história, pois em 10 anos o maior exército mundial foi destruído por milícias armadas provenientes de um país muito menor que as terras soviéticas.
Com muito apoio dos Estados Unidos, que levaram a fama de salvadores afegãos contra o comunismo, o grupo rebelde Mujahidin foram os responsáveis por expulsar as tropas estrangeiras do seu país. Traduzidos como “combatentes” os Mujahidin são guerreiros populares armados que colocam sua vida a frente de seus princípios religiosos, entretanto uma parcela dessa milícia julgava os demais membros liberais perante as leis islâmicas. Essa parcela rigorosa dos Mujahidin pregavam que todo o caos que estava ocorrendo no mundo era consequência da desobediência do povo sobre as regras de Alá, e dessa forma a maneira de resolver esses problemas seria seguir à risca essas leis religiosas em questão.
A problematização dessas leis é que muitas delas agridem a dignidade e segurança da população, além de infligir os direitos humanos. Punições físicas, censura de determinados conhecimentos, restrições de práticas cotidianas são algumas das características que afetam principalmente as mulheres e meninas que estão no domínio do Talibã, pois as mesmas são consideradas, pelo Alcorão, figuras caseiras com o intuito único de servir ao marido e aos filhos. Outra prática de restrição é o banimento de qualquer produto de origem ocidental, ou seja, qualquer livro, documentário, filme, dentre outros artefatos que não tenha sido produzido em um país não seguidor das condutas aprovadas pelo talibã devem ser destruídos. Um caso marco desse banimento foi o incêndio da biblioteca Central de Cabul, onde diversos manuscritos e utensílios históricos foram perdidos.
Em 1995 essa minoria dos Mujahidin decide tomar o governo e começar a governar o país impondo as novas diretrizes religiosas. Juntamente ao apoio popular de muitos homens afegãos, o agora nomeado Talibã invade a cidade de Kabul no Afeganistão, e declara um novo governo naquelas terras. Perdurou no governo do país de 1996 a 2001, na nova fase declarada como Guerra Civil Afegã. Esse período conturbado recebeu muito apoio de alguns países do Oriente Médio como do Paquistão e da Arábia Saudita, em especial recebeu muito apoio da Al Qaeda, grupo terrorista que antes governado por Osama bin Laden. Foi estabelecido nesses anos de domínio um Governo Teocrático e foi colocado em prática todas as leis da Sharia.
O Talibã teve uma ação que o tornou facilmente associando ao terrorismo da Al Qaeda, que foi esconder e abrigar Osama Bin Laden e seus seguidores, das tropas Americanas no momento que eles estavam sendo perseguidos. O 11 de Setembro foi um marco histórico onde 19 terroristas sequestraram 4 aviões americanos de passageiros e acertaram intencionalmente edifícios relevantes do governo estadunidense. 2 deles atingiram as Torres Gêmeas do complexo empresarial do World Trade Center, na cidade de Nova Iorque e um dos outros dois atingiu a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, conhecida como Pentágono.
E foi com 2.996 mortos à sua frente, que o Presidente da época George W. Bush implantou incisivamente medidas que prometiam amenizar a guerra geopolítica dos EUA com os países do Oriente Médio. A Guerra ao Terror foi o período em que a Doutrina Bush foi colocada em vigor, uma série de medidas policiais nos países responsáveis pelo atentado e seus aliados, conhecidos como eixo do mal, que a partir daquele momento estariam no domínio das tropas americanas.
Essas tropas derrotaram o Talibã e permaneceram naqueles países por aproximadamente 20 anos e até o atual momento esse era o fator que manteve o grupo afastado do controle do Afeganistão. Os participantes do grupo fundamentalista, mesmo por muito tempo inativos, continuaram fazendo o possível para que o mesmo se sustentasse da melhor forma possível. O Talibã consegue financiar todas as despesas dos seus membros além de comprar uma descomunal quantidade de armamento bélico através de atividades primárias e extrativistas, muitas delas presentes desde a criação do grupo.
A principal e mais antiga atividade lucrativa é a produção e exportação de ópio. O ópio é um suco espesso e de cheiro desagradável que retirado de frutos de papoula imaturos e que é conhecido devido seu efeito analgésico, narcótico e hipnótico. Produtos que são derivados dele são a Morfina e a Heroína. Estima-se que o Talibã lucra anualmente US$527 milhões em cima da produção do líquido.
A mineração é a outra forte fonte de renda do grupo, que se aproveita das montanhas afegãs que são ricas de diversos elementos, dentre eles ferro, mármore, lítio e cobre. Essa extração é feita por parte dos próprios membros da associação e o pincipal comprador, mesmo que forma ilegal, é a China. O Talibã recebe de lucro aproximadamente 400 milhões de dólares anualmente. Fora a mineração, outra fonte é o “apoio” popular e estrangeiro. Estima-se que o talibã tira mais de 160 milhões de dólares da população afegã seja por ameaças ou contribuições voluntárias, além de oferecer serviços de proteção a caminhoneiros paquistaneses que cruzam o país.
Enquanto o grupo fundamentalista se enriquecia cada vez mais, os Estados Unidos por sua vez só continuavam gastando dinheiro com o sustento do exército no Afeganistão, situação qual se agravou mais com a Pandemia e com a crise mundial. A retirada das tropas de solo afegão já era uma atitude que estava sendo discutida e executada desde o governo Trump. No dia 29 de Fevereiro de 2020, foi assinado em Doha, no Catar, um acordo que previa a retirada completa das tropas americanas do Afeganistão em até 14 meses após a data de assinatura do acordo.
O tratado assinado pelo líder da delegação do Talibã, Abdul Ghani Baradar, previa em detalhes o calendário das retiradas das tropas americanas e deixava claro o papel do Talibã no acordo, que era nunca mais abrigar grupos terroristas, em especial a Al qaeda, no país. Esse tratado criou expectativas na população e em diversos especialistas que de fato acreditavam que a paz entre esse conflito global finalmente iria vir à tona. Um desses especialistas foi o Secretário de Defesa dos EUA, que em pronunciamento no dia 29 disse: “A paz é longa e dura e precisamos nos preparar para retrocessos e dificuldades”.
Já em 2021 e com Joe Biden na presidência dos EUA, o próprio presidente americano anunciou no dia 14 de abril que até setembro do mesmo ano, todas as tropas americanas iriam ser retiradas do Afeganistão, e como o Talibã vem se preparando para o retorno desde a anunciação de Trump não demorou muito para que o grupo voltasse às ruas.
Foi então que no dia 15 de agosto de 2021 o caos se alastrou pelo Afeganistão. O Talibã, com basicamente nenhuma tropa nacional ou estrangeira para o barrar, invadiu o Palácio Presidencial na capital Cabul fortemente armado e anunciou o governo do país novamente. O até então Presidente afegão Ashraf Ghani fugiu do país e o Ministro das Forças Armadas informou que o exército do Afeganistão não tem recursos e nem irá entrar em conflito com a tropa armada, deixando a população refém das decisões que o Talibã vai impor sobre ela.
O até então anunciado líder político do afeganistão é o mulá Abdul Ghani, e juntamente a declaração do seu "mandato" foi anunciado que a partir dessa nova retomada de governo o Talibã irá tomar medidas mais pacíficas em relação às anteriores, deixando bem claro que irão favorecer principalmente a classe rica afegã.
No dia 16 de agosto, enquanto um avião de tropas americanas estava se retirando no aeroporto de Cabul, foram gravadas cenas que sensibilizaram toda a internet mundial. Uma multidão de pessoas se agarraram no avião cargueiro na expectativa de conseguir fugir do Afeganistão, mostrando ao mundo como é desesperador e preocupante o fato que existem pessoas em situação de preferir fugir abraçado a um avião a continuar no país de origem e viver no regimento do Talibã. Nas cenas que circulam em todos os meios de comunicação, diversas pessoas que estavam na tentativa de fugir se desprenderam do avião já no ar, estima-se que ao menos sete pessoas morreram na movimentação.
No mesmo dia, foram disponibilizadas outras cenas do desespero da população afegã. Diversas famílias estavam entregando seus filhos, na maioria meninas, para que soldados americanos os refugiarem do país. Em outras cenas vemos membros do talibã atirando em civis que estavam escalando os muros do aeroporto tomado pelo grupo radical ou se escondendo das ameaças que estavam sendo realizadas.
O talibã, executou um pronunciamento em relação às novas condutas que o mesmo irá implementar de agora em diante. O porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, anunciou que todos os opositores serão perdoados e que não buscaram vingança em cima deles, essa foi uma iniciativa de convencer a população a trabalhar voluntariamente com o Talibã. No pronunciamento Mujahid fala sobre como vai ser a nova postura com as mulheres afegãs, ele diz que nesse momento elas vão poder trabalhar e frequentar escolas dentro das jurisdições do grupo, mas não deu muitos detalhes sobre tais medidas. Em entrevista para o canal Britânico Sky News, outra postura com as mulheres e meninas sob o domínio do talibã foi anunciada: De agora em diante, elas não serão obrigadas a usar burca ao saírem de casa, e que existem outros tipos de véu que poderão ser substitutos.
Essas pequenas pontas de esperanças e evolução são facilmente substituídas por uma onda de acontecimentos que remetem novamente a agressividade do grupo. No dia 18 de agosto um grupo de manifestantes, na cidade de Jalalabad, foram às ruas mostrar um pouco de resistência à opressão que eles vão ser destinados a conviver. A resposta do Talibã foi abrir tiros contra a população deixando 3 pessoas mortas e uma dezena de feridos, resposta qual é uma antítese em comparação a nota de paz que um responsável do Talibã havia declarado no dia anterior.
A situação de pequenos atos de resistência e repressão perdurou durante todo o mês de agosto. No dia 31, o presidente dos EUA afirmou que todas as tropas sem exceção haviam sido retiradas do Afeganistão. Em discurso do secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, foi dito que essa operação foi um empreendimento global em todos os sentidos, e ele completa: "um novo capítulo do envolvimento dos EUA com o Afeganistão começou. Um em que vamos liderar com diplomacia".
Nesse mesmo dia foram realizados lançamentos de foguetes em territórios próximos ao aeroporto em que o exército americano partiu. Os mísseis não interferiram na decolagem do avião, mas atingiram o bairro Salim Karwan, próxima a cidade de Cabul. De acordo com a população local, foram 6 foguetes lançados e ninguém saiu ferido.
Ao todo, consideram 180 mortes de civis afegãos cometidas pelos talibãs durante manifestações ou tentativas de escapatória. Em pronunciamento da Agência de Refugiados da ONU foi feito pedido para países que fazem limite com o Afeganistão deixem suas fronteiras abertas para aumentar o número de imigrantes e possivelmente de sobreviventes. O país faz divisa com Irã, Paquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e China que, de todos eles, foi o que mais se mostrou interessado em manter relações amistosas com a nova política do Afeganistão.
O mais esperado motivo para que a China apoie o Talibã é o desejo de evitar um escândalo político na região chinesa que faz divisa com Afeganistão. Essa região é chamada de Xing yang e corresponde a um lugar da China com população predominantemente muçulmana e que tem desejos separatistas com o país. Possivelmente com a retomada do Talibã o movimento separaratista poderia se fortalecer e tirar da China uma região muito importante e relevante economicamente.
A resposta de países como Rússia, Irã e Iraque em relação à retomada de poder do Talibã era muito esperada por diplomatas no mundo inteiro, mas nenhum desses países se envolveu ou tem planos de se envolver efetivamente no novo poder político afegão. E como nenhum país está disposto a ajudar o Afeganistão resta a ONU continuar com alguns dos seus esforços, como encaminhar insumos médicos, para amenizar o número de mortes e de políticas sanguinárias. O mundo se encontra sensibilizado e na expectativa de mudanças na conduta do Talibã para que os 20 anos de evolução nos direitos humanos e principalmente nos direitos da mulher não tenham sido em vão.