Vidrinhos
Perto do lago, a bela menininha de cachinhos dourados brincava entretida com as “chumigas” que passavam ao largo carregando folhinhas picadas nas costas. Sempre foi assim, gostava de distrair-se com bichinhos mínimos e passava horas acompanhando-os.
Uns guardava em caixinhas de papelão furadas, outros queria por força colocar em vidrinhos para poder vê-los com mais facilidade. Porém, pequenina, esquecia-se de que nos vidros, lacrados, sem ar nem luz, morreriam – lembrava-lhe de sua doce e presente mãe.
Clara cresceu rápido e em seus olhos azuis se refletiam a luz de sua infância pura e feliz vivida à beira do lago sereno de sua propriedade. Seu pai, fazendeiro rico, querendo seu melhor, resolveu mandá-la a um internato onde aprenderia de tudo para a vida. Colégio de abastados e curiosos. Talvez se tornasse uma excelente e prendada dona de casa ou uma famosa cientista, mais ao seu estilo.
Muito dada, fez amizade com todos e era estimadíssima pelos lentes que lá havia. Imiscuía-se em todas as disciplinas e não havia matéria que não dominasse.
No jornal da comunidade local, escrevia sobre vários assuntos e veiculava seus poemas e artigos científicos repletos de reflexões filosóficas. Expressava-se muito bem e com clareza, atributo que lhe era peculiar.
Nas férias do verão seguinte, quando havia retornado a casa, soubera da verdade que lhe haviam escondido por seis meses. Sua mãe não resistira à depressão que se exacerbara, ceifando-lhe a vida. Mesmo aos dezoito incompletos, Clara tece um comentário entristecida com seu pai, que não consegue atinar seu sentido:
─ É, meu pai, você não sabe, mas minha mãe esteve por muito tempo em vidrinhos.
MANSUR, Janice. Vidrinhos. In: Contos de Bastidores. Niterói : UnicxComunicação Integrada, 2020. E-book Kindle.
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ABUSO: vigiar é o melhor remédio
@janice_mansur*
Recentemente, conforme pesquisa relatada no The American Journal of Men’s Health, ficou constatado que praticamente metade dos homens gays sofrem abusos de seus parceiros, mas, hoje sabemos que relações abusivas acontecem entre diversas pessoas e segmentos sociais. Respeitadas suas particularidades, este problema não ocorre somente com os LGBTQIA+, e com mulheres heterossexuais, como alguns pensam, mas também com alguns homens heterossexuais que sofrem com isso. Na nossa sociedade patriarcal, a violência e o abuso contra homens são menos reconhecidos até porque dentro do status quo vigente, o homem que reclame de ser maltratado por uma mulher pode ser considerado menos “macho”, vindo a se calar também, como ocorre com a maioria absoluta das mulheres que são mormente desacreditadas e oprimidas.
Abusos em geral muitas vezes são difíceis de serem identificados, principalmente nos relacionamentos amorosos, pois, como ouvi num show − frase saída da boca da própria Adriana Calcanhoto −, “pessoas apaixonadas são todas idiotas”. Sem poder discordar por completo, uma pessoa quando se apaixona projeta na outra qualidades que a outra não tem, desejos de que algo de mágico e encantado aconteça entre elas como nos contos de fadas. Entretanto, vivemos num mundo real com pessoas para lá de normalmente “falhas” e em constante transformação.
Embora o abuso venha do outro, o “abusador”, fomos NÓS que nos permitimos estar naquela relação. Então, o que queremos chamar atenção aqui não é para o outro, o “causador” de todos nossos males, mas para nós. Por que NÓS nos permitimos ser tratados assim? O abuso começa com uma palavra ou atitude mais grosseira, uma invasão de privacidade (alguém aí deixa o parceiro mexer no seu celular e ter todas as suas senhas?), com um olhar atravessado, com ofensas que diminuem sua autoestima. Depois vai crescendo para um grito, um xingamento e depois um “tapinha” (que “de amor não dói”?), ou mais tapas e socos... e tiros e esfaqueamentos (...), causando as mortes mais escabrosas que conhecemos.
E daí quando você vê, não consegue mais impedir, falar, chorar ou revidar. Sem voz, ocorre algo mais sinistro em seu interior do que a revolta, algo que o/a faz morrer por dentro, algo que acaba com seu dia, algo avassalador. Onde está a dor de alguém? Onde suas mazelas, seus calos, seu calcanhar de Aquiles? Receber um “tapinha” de quem se ama é muito mais doloroso do que de um estranho, concorda? Então, vem a derrocada final que se sintetiza nas muitas frases do tipo “eu não valho nada”, “eu não mereço ser feliz”, “eu não sou ninguém”. E algo ali abalou sua estrutura, despertou seus medos, desenterrou suas sombras. A agressão física, de fato, é o de menos no abuso, porque você já está sendo espancado por você mesmo, por suas “escolhas”, por admitir, por ficar...
Mas temos de entender que quando falamos de relacionamentos abusivos, a discussão não pode ser circunscrita a um casal, de qual “gênero” for. Esse tipo de situação pode acontecer também entre pais e filhos, amigos ou parceiros de trabalho, entre outros. Mesmo que não haja violência física nessas relações, algumas atitudes configuram abusos. Portanto, podemos ter abuso nas formas de tratamento como culpabilizar a pessoa pelos problemas que surgem com você, humilhar, reprovar, aproveitar-se de uma posição de poder, maltratar verbalmente, manipular a realidade, entre outras.
Por exemplo, eu mesma, certa ocasião passei por uma situação assim. O diretor da empresa para a qual trabalhava como secretária executiva a long time ago − e aqui a intenção não é denunciar ninguém, tanto que não cito nomes −, pedia-me coisas muito além da função. Aproveitava-se de minha boa vontade e conhecimento em Letras; e até livro para sua filha indiquei e encomendei. Minha atividade não se restringia às atividades laborais específicas, pelo visto. Mas como eu era muito nova e queria “agradar” o chefe, me dispunha a ajudá-lo até mesmo com medicação para o fígado quando ele apresentava uma enxaqueca na segunda-feira. Se eu tinha alguma “coisa” com ele? Nem paixão. Nunca teria. Eu era idiota mesmo! Talvez por isso me chamasse de “garota”, como a todas as outras que trabalharam para ele. Sei disso porque uma delas já tinha sido sua secretária e se encontrava dentro da firma ainda em outro setor. Quando ela me passou todas as informações do serviço com um enorme sorriso no rosto, eu deveria ter desconfiado.
Ingenuidades à parte, você acha que houve reconhecimento dele para comigo? Claro, que não! Quando adoeci de estresse, depois de 6 meses, por maus-tratos, falta de educação, ocupação de meu horário de almoço com serviços e favores, e tirei uma licença de 15 dias, a primeira coisa que ele pensou em fazer foi pedir que o RH me telefonasse, não para perguntar como eu estava, mas para me dizer que não precisaria mais retornar. Daí, e só então, foi que percebi um alívio enorme pela libertação que a demissão me propiciava. Jurei a mim mesma que nunca mais algo assim aconteceria de novo. Aquilo foi bem abusivo, mas só o reconheci muito depois.
Porém, nunca se esqueça de que você pode ser o “abusador”. Os abusos nem sempre são claros e muitas vezes vêm mascarados por um “mas eu te amo” ou “você é fantástico/a” ou tolices afins. Não se deixe enganar, portanto. Olhe para si mesmo/a e identifique o seu valor sem pensar em agradar alguém. Ninguém vai amá-lo/a a mais, se você só ceder. Criar seus limites e apontá-los não é egoísmo, é preservação.
Mas pensa que me “curei” dessa coisa toda? Vou contar para você que vigiar é o melhor remédio. Então, se não conseguir sozinho, procure ajuda.
Promete, ao menos, que vai passar a ficar
mais esperto/a?
* Se gosta de meu trabalho, dê-me o prazer de conhecer meu livro novo “A Felicidade de Florbela” neste site.
Quantas ideias você consegue ter em um dia?
Se você fosse perguntado sobre isso, o que diria? Você também é uma pessoa que correlaciona informações, que cria tempestades cerebrais com facilidade? Não pretendendo me gabar, mas “não tenho ideia” de quanta informação consigo juntar no mesmo dia para ter ideias. Sou uma pessoa multitarefas. E você? Se você não é, e pensa que ser isso é muito bacaninha, está bem equivocado. E se você é assim, já sabe que isso é bem extenuante, porque muitas vezes você tem ideias, mas não consegue executá-las todas ou desenvolvê-las, às vezes, nem em um texto, não é verdade?
Pensando bem, uma dona de casa que ao faltar determinado produto para cozinhar ou limpar uma superfície consegue se virar com outro, não está tendo novas ideias? Um operário a quem falte um martelo ou um prego não se resolve de outras formas? Quantas vezes você criou algo “do nada”, teve uma ideia que alguém achou absurda, mas que funcionou para ultrapassar um desafio no momento? O tempo todo estamos tendo novas ideias, criando soluções para problemas antigos, e isso é uma forma de ser criativo.
Alguns estudos dizem que pessoas mais criativas conseguem acessar redes neurais distintas simultaneamente. E não necessariamente isso quer dizer que você seja um gênio, nem eu. Nem vamos falar aqui de genialidade. Quer dizer simplesmente que as pessoas que têm ideias “originais” em sua vida cotidiana podem possuir um cérebro que funcione diferente das demais, mas que não há uma área específica, um hemisfério, responsável por isso, segundo uma pesquisa liderada por Roger Beaty, diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva da Criatividade na Universidade Estadual da Pensilvânia. Para ele a criatividade surge da interação de várias regiões cerebrais, operando através do que ele chamou de “redes”. A Rede de Modo Padrão (RMP) seria a responsável pela geração de ideias, pela imaginação de possibilidades e pelo desenvolvimento de conceitos. E que essa rede cerebral é ativada quando as pessoas estão relaxadas e pensando livremente. Poderíamos correlacionar isso com o estado de meditação, por exemplo?
Entretanto, você sabe de onde surgiu o conceito de originalidade?
Para quem não sabe, esse conceito é um mito nascido na escola do Romantismo − que nos deixou uma grande herança −, como se a originalidade (ter ideias originais ou parecer que você foi a origem de uma criação) fosse o maior critério definidor do valor ou da qualidade de algo. Como sou muito brincalhona, costumo dizer parodiando um famoso cientista que “na natureza nada se cria...”, eu acrescento, "tudo se copia", porque, na verdade, as ideias vêm do contato com muitas informações diferentes que você tem acesso, muita leitura variada, conhecimentos de línguas, de outras culturas, diferentes formas de arte e tudo o mais que seja diferente do que você esteja acostumado. É necessário, por exemplo, para escrever, muito input para que algo interessante venha à tona, ou seja, para que seja processado um output. Se é assim, onde fica a tal da “originalidade”?
O que torna algumas pessoas mais criativas do que outras?
Na pesquisa de Beaty e sua equipe, a qual estamos tratando, foram investigados o comportamento das distintas redes neurais em 163 pessoas, por meio da técnica de ressonância magnética funcional (em inglês fMRI) que permite obter imagens das atividades em múltiplas áreas do cérebro pelo fluxo sanguíneo. Assim, a equipe pode detectar áreas que haviam sido afetadas depois dos testes clássicos realizados para ver como as pessoas trabalhavam em tarefas que exigissem o uso de “pensamento divergente” (quando se pensa em usos diferentes para objetos cotidianos), uma das formas de se detectar a criatividade. Beaty chamou de rede “altamente criativa” à reunião de três sistemas que funcionam distintamente, e percebeu que se poderia “estimar o quão criativas as ideias de uma pessoa seriam, baseadas na força de suas conexões nesta rede”. Ele descobriu que o cérebro criativo fica conectado de uma maneira diferente, e as pessoas criativas são mais capazes de ativar sistemas cerebrais que tipicamente não funcionam juntos, ou seja, a pessoa criativa poderia acessar os três sistemas ao mesmo tempo. Não é incrível?
Sabendo que uma das características dessas três redes é que elas normalmente não são ativadas ao mesmo tempo, pois quando uma rede é ativada a outra é geralmente desativada, os cientistas se supreenderam ao constatar que pessoas consideradas criativas são mais capazes de coativar redes cerebrais que geralmente funcionam separadamente. Portanto, continuo pensando que correlacionar atividades, associar conhecimentos, informações, com estilo e formas de viver, como venho falando aqui para você, é uma boa forma de estimular essas conexões.
Então, é possível desenvolver a criatividade?
Como sempre digo a meus alunos, todos somos inteligentes, e parodiando outro certo cientista por aí, tudo é uma questão de nádegas: senta o bumbum na cadeira e estuda e você verá se fica inteligente! Ou criativo! A parte teórica é importante, porém, as experiências vivenciadas também contam, como ingerir alimentos que não comemos com frequência, andar por lugares que não estamos familiarizados, ver filmes exóticos e futuristas (se você só vê os românticos ou de ação), ler livros que tragam outras perspectivas, entre outras coisas. Parece exagero, mas não é. Há estudos sobre neuroplasticidade, bastante interessantes, que indicam que nosso cérebro é extremamente capaz de criar conexões (sinapses) e associações que ampliam cada vez mais nossas “ideias”. Portanto, experimente anotar coisas que você pense durante o dia e terá uma lista considerável ao final do mês de possibilidades para testar.
Ter ideias é bem interessante, mas a obrigatoriedade em tê-las será gratificante?
Como disse no início do texto, ter muitas ideias às vezes não é nada simples. Nem é algo fácil de lidar, por vezes chegando a ser angustiante. Claro, que ser criativo, principalmente no mundo atual e globalizado em que estamos é um fator diferencial na competitividade do mercado de trabalho, mas buscar desesperadamente o novo pode ser fonte de estresse constante.
De certo modo, não poderia me furtar a tecer uma crítica ao sistema de premiações que grassam por aí e privilegiam a “originalidade” para projetos de inovação, reforçadores de um modelo de criatividade e inventividade inviáveis e frustrantes. Essa exigência pelo “novo”, pela novidade, presta um enorme desserviço a algumas situações em que o bom e o velho pijama nos aquecia da mesma maneira que outro a ser inventado hoje: que tocasse música, vibrasse ou tivesse um despertador acoplado. Perseguir a rara e inédita ideia o tempo todo, é no mínimo gerador de exaustão e de uma ansiedade absurda, características dessa sociedade de consumo em que as coisas já nascem obsoletas para serem descartadas – você conhece a “obsolescência programada”? − e substituídas por outras rapidamente, como nos esclarece muito bem Zygmunt Bauman, na sua conceituação de liquidez.
A necessidade criada do que seja novo, de última geração, faz com que a maioria das pessoas não percebam que o “velho” se repete em fases cíclicas, como, por exemplo, as cores modernas de pinturas para cabelo (rosa, verde, azul), usadas hoje, mas inventadas desde a Grécia com procedimentos diferentes, utilizadas na era vitoriana e outras.
Até o que escrevemos ou falamos passa por este processo. Utilizamo-nos de discursos alheios que incorporamos sem nem perceber e os reproduzimos, digeridos e mesclados aos nossos, e a todas as leituras com as quais tivemos contato, discursos emergentes da cultura, do contexto socioeconômico e história em que vivemos, conforme Mikhail Bakhtin e outros filósofos e pensadores nos falam. No mundo acadêmico temos os maiores exemplos disso, pois as referências e fontes bibliográficas que são usadas em um artigo, são exploradas em outros, de forma idêntica ou não.
Enfim, podemos pensar que são as ideias que constroem o mundo, sim, mas quando algo é criado como novo em algum ponto do planeta, é importante lembrar que alguém já dever ter pensado nisso antes ou escrito isso, talvez de outra forma que agora nos pareça original. Concorda?
Janice Mansur é escritora, poeta, professora, revisora de tradução,
criadora de conteúdo no Instagram: @janice_mansur
e psicanalista (atendendo online).
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