Em 2027, será comemorado 100 anos da Geração de 27 espanhola, composta por um conjunto de artistas que marcaram a literatura e a arte, a partir das experimentações estéticas, e busca por uma identidade por meio da vanguarda. A Universidade Federal do Amazonas propõe, em vista disso, o III Seminário Amazônia em Letras, com tema “Incursões Internacionais da Literatura Amazônica: Centenário da Geração de 27 em Diálogo com a Amazônia”, a ser realizado nos dias 16 a 18 de setembro de 2026.
Como a identidade visual é uma das primeiras etapas do evento, buscou-se elaborar algo que pudesse representar a Geração de 27, e que, de alguma forma, se relacionasse também com a Amazônia — intenção que se mostrou, rapidamente, complexa. Além disso, ao se pesquisar “geração de 27” na internet, em dissertações e teses, depara-se com uma longa lista de nomes masculinos, como os de Federico García Lorca — o mais conhecido do grupo —, Rafael Alberti, Pedro Salinas, Jorge Guillén, e dezenas de outros. Para um evento organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Letras da UFAM, majoritariamente composto por docentes e discentes mulheres, que possui um elevado número de pesquisas no âmbito dos estudos literárias voltado para literaturas de e sobre mulheres — dado obtido pelo Prof. Dr. Gabriel Albuquerque e apresentado ao corpo acadêmico na Semana Inaugural do PPGL em março de 2026 —, utilizar apenas referências masculinas não reflete o programa. Em uma segunda pesquisa, mais profunda e direcionada, encontrou-se uma outra lista, desta vez, composta apenas por nomes de mulheres: Las Sinsombrero — “as sem chapéu”, em português —, um grupo de escritoras, pintoras, jornalistas, acadêmicas, igualmente importantes para o período, mas que foram secundarizadas. Decidiu-se, então, que no projeto visual deste evento, isso não se repetiria.
Porém, fazer a curadoria de dezenas de pinturas não cria uma identidade visual, e, numa outra problemática, não revela imediata relação com o locus amazônico. Surge-se, então, nesse processo de design, a ideia da colagem, da mistura de elementos vários e distintos, criando-se, ao fim, um todo não-homogêneo, mas visualmente (e culturalmente) amplo — alcançando e aproximando, como intencionado, Europa e América do Sul.
Foram utilizados elementos de obras das pintoras espanholas Rosario de Velasco, Maruja Mallo e Remedios Varo, constituintes de Las Sinsombreiro, além de elementos surrealistas de Joan Miró, juntamente com fotografias, recortes de textos e ilustrações relacionados à Amazônia. Tudo isso para criar uma identidade visual condizente com o diálogo multicultural que o evento se propõe a realizar.
O resultado final da identidade visual do III Seminário Amazônia em Letras é uma junção de estilos, de cores vivas, de formas e fotografias, demonstrando um entrecruzamento de perspectivas e culturas.
A figura central da identidade visual, a ave sobrevoando um mar de prédios, é recorte da pintura pertencente à Rosario de Velasco, chamada El pájaro azul (1927) — “O pássaro azul” —. Utilizou-se, ainda, outro elemento de Velasco, a figura de uma mulher sobre uma vitória-régia, planta nativa da Amazônia, coincidentemente, proveniente da pintura Las blancas hojas de un nenúfar se entreabrieron (1927) — “As flores brancas da vitória-régia se entreabriram” —, posicionada no canto inferior esquerdo da identidade.
Figura 1 Pintora Rosario de Velasco
Figura 2 El pájaro Azul, Rosario de Velasco, 1927
Figura 3 Las blancas hojas de un nenúfar se entreabrieron, Rosario de Velasco, 1927
Sobreposto ao pássaro azul, no centro da identidade visual, está um homem vestindo roupas coloridas, retirado da pintura Ecos Andinos (1983), da pintora Maruja Mallo. Sua estética, caracterizada por cores vibrantes e organização matemática impecável, torna Mallo uma artista cujas pinturas possuem diversos elementos interessantes, facilmente “destacáveis”, característica essencial a uma colagem. Utilizou-se, na identidade, além do homem de roupas coloridas, outros elementos das obras de Mallo: uma espiral da pintura Protoesquema (1980) e conchas da obra Natureza Viva XII (1943).
Figura 4 Pintora Maruja Mallo
Figura 5 Ecos Andinos, Maruja Mallo, 1983
Figura 6 Protoesquema, Maruja Mallo, 1980
Figura 7 Natureza Viva XII, Maruja Mallo, 1943
Outros elementos, ainda, provindos de pinturas de artistas da Geração de 27, constituem a identidade visual. Um homem de barba ruiva com uma máscara feita parte de asa, parte de rabo de peixe pertence à El Mundo (1958), da pintora surrealista Remedios Varo, inserido entre o topo dos prédios.
Figura 8 Pintora Remedios Varo
Figura 9 El Mundo, Remedios Varo, 1958
Há, ainda, no topo direito e esquerdo, dois elementos abstratos retirados das obras de Joan Miró, um sol vermelho e uma forma circular azul.
Figura 10 Pintor Joan Miró
Figura 11 La realidad absoluta, Joan Miró, 1953
Figura 12 L'or de l'atzur, Joan Miró, 1967
Outras inserções, o céu, as árvores ao redor dos prédios, a ponte do Rio Negro na parte inferior da pintura, são os elementos que, na colagem, interligam, por fim, Espanha e Amazônia. A natureza é o que vem à mente quando se fala da Amazônia; a ponte do Rio Negro, ponto turístico de Manaus, colocada como representação da imponência da modernização local. Insere-se obras de artistas espanhóis vanguardistas debaixo do céu, ao redor das árvores, sobre a ponte e dentro do rio, mesclando tudo, entrelaçam os signos e, nesse processo, criando outros.
Além disso, acima dos prédios de Rosário de Velasco, existe um pequeno recorte de umas das páginas dossiê “Amazonías. Respiración del continente”, no Papel Literario, suplemento latino-americano, no qual professores do Programa de Pós-Graduação em Letras e outros docentes das Universidade Federal do Amazonas contribuíram coletivamente.
As cores escolhidas para compor a paleta deste evento não seriam, por outro lado, vazias de significado. O amarelo e o vermelho da bandeira espanhola; o verde, o azul e o amarelo da bandeira brasileira; o azul e o vermelho da bandeira amazonense, juntos, em tons que conversam e se complementam, colorem a arte que comemora um centenário espanhol e as incursões da Amazônia no mundo.
Créditos finais: A colagem foi pensada e realizada por Isabela Tais de Oliveira Cerqueira, Mylena da Silva Pinto dos Santos e Thaíssa Gabriele Ferreira Henrique