Sim, isso também é violência
Por Karen Reis - 02/03/2021O que a maioria das pessoas pensam quando saem de um relacionamento sufocante é um denominador comum: “Eu estive num relacionamento ruim, algumas coisas eram muito difíceis de lidar mas… não, eu não estive um relacionamento abusivo”. Será que não esteve mesmo?
Estamos acostumados a associar relacionamentos abusivos a situações extremas, no geral a feminicídios, mas essa não é a realidade. Abusos em relações afetivas se apresentam em diferentes níveis e fases, de variados comportamentos e tipos de violência.
Acontece algumas vezes de um relacionamento sufocante não ser considerado abusivo, mas pode se considerar tóxico. A principal diferença entre essas duas denominações é o tamanho do domínio de um parceiro sobre o outro, de forma que relações com mais pressão psicológica e presença de ataques físicos são caracterizadas como relacionamentos abusivos.
Pessoas tóxicas também não tem a intenção de causar mal aos parceiros, fazendo de maneira inconsciente e, portanto, incalculada, o que normalmente resulta em términos que geram sentimentos confusos e bastante culpa.
O perfil de parceiros em relacionamentos não saudáveis apresenta grandes fatores intrínsecos: eles sempre julgam, criticam e reclamam. Os abusadores, no entanto, costumam ser mais calculistas no sentido de que primeiro conquistam a vítima com um caráter nada questionável e depois o relacionamento muda.
Claudia Dias, colaboradora da Universa Uol, descreve em sua matéria que relações abusivas tem três fases documentadas, uma primeira em que o abusador dá início ao relacionamento de maneira saudável, se mostrando gentil, compreensivo e muito respeitoso e logo em seguida começa devagar e cuidadosamente as violências mais básicas, dentre elas: piadas ofensivas, chantagem, mentiras, ciúmes, ignorância, enganação, culpabilização, desqualificação, regularização, intimidação, humilhação e ameaças.
Em seguida, existe uma segunda fase com ainda mais tensão, marcada por controle, destruição de bens pessoais, agressões físicas, confinamentos, estupros, ameaçar com mais frequência e até mutilações. Ao passar por este estágio as vítimas costumam estar muito fragilizadas e tendem a querer se desvencilhar desse relacionamento com mais afinco, de maneira que os abusadores iniciam um ciclo para impedir o fim do relacionamento, fingindo culpa e prometendo mudanças. Esta é a terceira fase ou a chamada ¨fase lua de mel¨, em que as diferenças são eliminadas pelo abusador na tentativa de não perder seu domínio pela vítima, isolando-a na maioria das vezes para que esta não seja influenciada externamente.
Vítimas mais fragilizadas tendem a voltar para a relação, e assim iniciar este ciclo várias e várias vezes. Por isso não podemos minimizar ou romantizar sinais e sintomas advindos de relações interpessoais não saudáveis, as consequências são sempre incalculáveis, física e psicologicamente falando.