Por Luiza Mader, 19/10/2021
Como podemos pensar a educação a partir da ampliação da experiência?
Essas duas perguntas nortearam os debates de uma das aulas de Educação Estética. A partir do vídeo "Por quê as escolas matam a criatividade?", do pedagogo inglês Ken Robinson, e do texto "Entrevidas: caminhos inquietos de professores-propositores", escrito pela pesquisadora Mirian Celeste Martins, as alunas, Kenia Cristina Reis da Silva e Maria Cristina Menezes do Nascimento, do curso de Licenciatura em Educação Profissional e Tecnológica, fizeram uma interessante reflexão sobre a importância dos docentes repensarem as suas práticas pedagógicas em sala de aula. Em sintonia com as ideias dos/as autores/as, elas também questionaram o lugar convencional da escola e a contribuição da arte contemporânea para um processo de ensino e aprendizagem mais livre e experimental. Veja a seguir:
Kenia Cristina Reis da Silva
A reflexão que faço a partir do vídeo e do texto é que vivemos em um contexto educacional hierarquizado que prepara os alunos apenas para entrarem no mercado de trabalho ou, ainda, para serem professores universitários.
Desde sempre, nas escolas, os processos criativos são pouco valorizados e por vezes reprimidos. Culturalmente, ser ligado às artes não é algo bem-visto pela família, tampouco pela sociedade. Vivemos engessados em convenções sociais que suprimem alguns conhecimentos e saberes em detrimento de outros. As escolas tendem a valorizar as “respostas certas”, mesmo que mecânicas, robotizadas e sem reflexão, tornando-se um procedimento naturalizado pelo sistema educacional, seja de uma escola pública ou particular. Além disso, na escola os números valem mais. Porém, é preciso errar para ser criativo sendo preciso problematizar para aprender, como diz a autora Miriam Celeste no texto "Entrevidas: caminhos inquietos de professores-propositores".
É urgente que as escolas revejam os seus valores e estejam antenadas em processos de trabalho que busquem a inovação, não só em relação à forma de ensinar, mas na sensibilização do corpo docente, que precisa ter um olhar mais humanizado sobre os seus alunos. As metodologias de ensino mais alternativas, como o uso de atividades lúdicas, jogos interativos, dança, arteterapia, trabalhos manuais e musicalização são algumas dessas possibilidades.
É possível ainda que em algum momento essas atividades possam envolver a família em ações trans geracionais, que promovam o olhar ampliado e plural, do aluno, da escola e da família. Assim, a escola pode se tornar um espaço acolhedor e encorajador, que incentiva a criatividade e os talentos, contribuindo para que os alunos se expressem com segurança e liberdade em um contexto que contempla a diversidade e a empatia pelo outro.
Photo by Shukhrat Umarov from Pexels
Maria Cristina Menezes do Nascimento
No início de seu texto, Mirian Celeste Martins traz a descrição de uma obra que mostra um par de pés descalços passando por cima de paralelepípedos em meio a um monte de ovos espalhados. A autora usa a fotografia para fazer uma relação entre os desafios e ações dos educadores e a forma cuidadosa com a qual precisam lidar com os obstáculos que permeiam a educação. Essas adversidades precisam ser enfrentadas com criatividade e experiência.
A oportunidade de o professor tornar-se um propositor de novas práticas pedagógicas possibilita a experimentação de uma gama de alternativas culturais que ultrapassam o senso comum, quebrando os hábitos engessados de ensinar. Ao adentrar no plano das incertezas, por meio do encontro com a arte, o professor-propositor, segundo a autora, instiga os educandos no processo de produção criadora, eliminando o medo de errar e motivando-os a novas descobertas e novas experiências.
Aprender e ensinar através dos mecanismos da arte estimulam uma série de habilidades motoras e cognitivas, como a capacidade de interpretar, criar, imaginar, acompanhadas pelo afeto e emoção. Nesse sentido, a escola deveria ser um local de descobertas através da subjetividade do educando, contudo, percebe-se que as instituições educacionais acabam fazendo um caminho antagônico, inibindo a criatividade dos estudantes.
Acredita-se na capacidade que as crianças têm em inovar, porém, quando adultos, a maior parte dessas potencialidades se perde pelas imposições que as instituições determinam ao longo do processo educativo. Os indivíduos têm medo de errar nas escolas e das universidades que, por sua vez, determinam que o estudante não pode equivocar-se. Desse modo, o sistema educacional acaba criando um abismo entre o sujeito e a sua criatividade.
Sob esse ângulo, o sistema de ensino por vezes estagna a criatividade de seus estudantes, deixando de lado um processo de aprendizagem humanizada. Segundo o especialista em educação e criatividade Ken Robinson, há um investimento alto no ensino lógico-matemático e linguístico prejudicando, assim, as demais áreas. Em sua opinião, a arte visual e a dança são expressões dos sentimentos humanos que favorecem a percepção aos talentos explícitos ou não. A escola, obcecada a um tipo de talento, impede que as aptidões natas se manifestem e se desenvolvam, levando à sua aniquilação.
Em meio às reflexões e às mudanças exigidas pelos acontecimentos percebemos que estudamos sempre na base da coerção e da obrigação, e nunca pelo prazer. A leitura de mundo para a atualidade requer definitivamente uma mudança no sistema educacional que atenda às exigências para o novo perfil de cidadão engajado em seu senso crítico, com autonomia na construção do seu saber. Para isto, é necessário quebrar os hábitos engessados, com práticas pedagógicas humanizadas que promovam uma criatividade sem censura, sem medo de errar, ultrapassando o senso comum do aprender e ensinar.