Mulheres na arte: uma história de ausências
Por Luiza Mader PaladinoQuantas artistas mulheres vocês conhecem? Existe um tema ou mesmo um tipo particular de arte feita por mulheres? Qual a relevância da mulher nos espaços artísticos? Será que as mulheres têm a mesma visibilidade que os homens na história da arte? Podemos formular outras tantas perguntas, mas estas já nos ajudam a determinar um campo de discussão acerca da ausência de incontáveis artistas no nosso imaginário, como um reflexo do próprio sistema que perpetua uma dinâmica desigual e elimina certos nomes em benefício de outros. De um modo geral, nosso intuito é compreender os motivos pelos quais inúmeras e talentosas artistas ficaram de fora dos grandes relatos artísticos.
Para começar, contaremos com o amparo de uma crítica de arte argentina e estudiosa do assunto, chamada Andrea Giunta, para avançarmos nessa reflexão. Em suas pesquisas, a autora aponta como o critério de qualidade serviu como uma espécie de força motriz das desigualdades entre homens e mulheres no sistema artístico, já que a qualidade foi a principal justificativa utilizada para excluir diversas mulheres dos espaços consagrados de exposição ao longo dos séculos. Na arte, não importaria o gênero, mas a qualidade, todavia quem pode definir o que é qualidade? O gosto dominante, formado por critérios patriarcais, acabou naturalizando que as obras que vemos são sempre de artistas homens, são as que conhecemos e que por isso as apreciamos, logo, normalizamos que são boas, ou seja, de qualidade. Seguindo essa lógica, Giunta igualmente constata que a presença masculina continuou majoritária nas grandes narrativas, levando-a a pressupor, não sem ironia, que essas histórias não incluíram obras de mulheres pelo simples fato de não serem tão boas quanto às de seus pares homens.
Na década de 1970, a historiadora Linda Nochlin lançou um artigo com o seguinte título: Por que não houve grandes mulheres artistas? O cultuado texto, hoje referenciado em inúmeras pesquisas sobre gênero e arte, destacava por meio da dissimulada e provocadora pergunta a ideia de que a mulher não era capaz de ser boa no que fazia, tornando natural a sua inexistência na arte. Se as mulheres não estavam lá, se não líamos sobre elas nem as víamos nas paredes dos museus, é porque não existiam ou não possuíam qualidade suficiente para estarem lá.
O grupo de artistas e ativistas norte-americano chamado Guerrilla Girls também fornece importantes instrumentos críticos para avaliarmos a naturalização do sumiço de mulheres na história da arte. Conhecidas pelo humor, pela estética pop e sobretudo pelas máscaras de gorilas, as artistas anônimas das Guerrilla Girls fizeram a primeira aparição pública nos anos oitenta, na ocasião de uma exposição que pretendia mostrar um panorama dos principais pintores e escultores do momento. Elas chamaram a atenção para o número desigual entre homens e mulheres artistas na exposição organizada pelo mais importante museu de arte moderna de Nova Iorque: eram 165 ao todo, no entanto, apenas 13 eram mulheres. Uma das obras mais emblemáticas desse coletivo foi o cartaz distribuído em inúmeros museus e galerias que apresentava a pergunta afrontosa: As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu Metropolitan? Menos de 5% das artistas da seção de Arte Moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.
Na realidade, sabemos que sempre existiram mulheres grandiosas não apenas no mundo das artes, mas em todas as áreas profissionais, entretanto, grande parte delas sofreu incontáveis pressões para se dedicarem às tarefas às quais a sociedade lhes atribuía, as afastando, por consequência, dos lugares de visibilidade e prestígio. Para finalizar, propormos que você pesquise e faça uma seleção de artistas mulheres de sua cidade. Quantas exposições elas já participaram? Quais as técnicas e temas escolhidos por elas? Como as obras produzidas por essas artistas podem ajudar no avanço e na solução de problemas estruturais de nossa sociedade?