Educação Estética e Racismo
Por Luiza Mader - 03/08/2021
Com base em conceitos como “Racismo Estrutural”, do filósofo e jurista Silvio Almeida, bem como na reflexão crítica sobre a manutenção de parâmetros racistas nos campos da Educação e da Estética, as alunas Marlene Lucas, Maria Cristina Menezes do Nascimento e Jéssica Maria de Souza, do curso de Licenciatura em Educação Profissional e Tecnológica, elaboraram textos críticos sobre o tema. Confira a seguir:
imagem retirada do site <sintrajufe.org.br>
Marlene Lucas
O racismo tem impacto em todas as esferas sociais, logo, seus ecos chegarão nos campos da Educação e da Estética, evidenciando em sua composição e em seu desenvolvimento os elementos da hegemonia racial europeia, com os seus sistemas de discriminações. O contexto histórico-social brasileiro historicamente facilita e promove acessos a bens e a direitos, promovendo privilégios que são evidenciados a partir do recorte de raça e de gênero. A constituição da sociedade brasileira, a partir da colonização europeia, foi alicerceada na escravidão, isto é, na mais perversa e violadora forma de relação humana, baseando-se nesse sistema de exploração por cerca de três séculos como fonte principal de riquezas e privilégios dos colonizadores e dos seus selecionados ou descentes. Portanto, os elementos constitutivos da sociedade brasileira estão amparados na ocorrência e manutenção de alguns fenômenos, a saber: racismo, violência, discriminações e desigualdades.
A Educação, via de regra, serve a um projeto político-social, geralmente de cunho econômico que, na vigência de uma estrutura de capitalista, acaba trabalhando a favor da manutenção dos privilégios e da concentração do poder da elite. Assim, para lidar com a trajetória educacional é necessário encarar essas contradições, violações e vantagens que marcam e evidenciam a estrutura do racismo na sociedade brasileira.
A estética também segue parâmetros semelhantes, uma vez que visa ratificar os padrões e construções do imaginário coletivo a partir de padrões de beleza europeus em suas representações. Desse modo, faz-se necessário compreender a trajetória educacional brasileira, bem como no campo da estética, reivindicando por concepções críticas e reais sobre a gênese do Brasil e as suas inúmeras violações raciais.
Maria Cristina Menezes do Nascimento
Sabemos que a educação não se reduz ao processo de escolarização, pois possui dimensões pessoais e sociais que não podem ser separadas, fazendo parte de nossa humanização e de nossos espaços sociais. E por este motivo é possível vivenciar os conflitos raciais advindos de gerações passadas. A estética dentro da educação, em meio aos conflitos raciais, traz um olhar mais sensível a questão. O despertar de sentidos e sentimentos que eclodem a partir de uma obra que externaliza a percepção do artista, em que muitas vezes as palavras não alcançam, gera sensações de inquietudes ao público que aprecia.
O uso da estética no ensino vem para ajudar a desconstruir os paradigmas curriculares, com uma contribuição de dar voz aos menos favorecidos pela sociedade elitizada e validar as percepções de valores, principalmente no campo das intolerâncias raciais, religiosas ou de gênero, por meio de uma obra artística. A filósofa Djamila Ribeiro, por exemplo, levanta essas questões sobre a inclusão social em prol do espaço de fala, da quebra do silêncio histórico que busca o direito à voz dos marginalizados em uma sociedade que se cala em face às desigualdades e ao racismo. Assim, a estética torna-se um caminho que possibilita uma gama de reflexões por meio de obras que permitem que, mesmo no silêncio, é possível gritar, demonstrar o sentimento de indignação, de repudio acerca da desigualdade e das opressões.
A luta contra o racismo deve ser pensada de forma indissociável, já que mais da metade da população brasileira é composta por pessoas não brancas que historicamente enfrentam diferentes tipos de discriminações. Um dos caminhos para combater a intolerância racial está na educação: nas escolas, nas comunidades, na família, nos grupos, ampliando a mobilização antirracista para todos os contextos sociais que o indivíduo participa.
Jéssica Maria de Sousa
A estética em conjunto com educação é um modo de mostrar para os alunos a complexidade de suas vidas, fazendo-os entender que é possível realizar mudanças na estrutura da sociedade para que haja mais respeito com os negros. Não se deve normalizar uma sociedade em que pessoas negras sigam em cargos inferiores e com menos dinheiro e, sim, buscar entender como funciona a estrutura que permite a manutenção do racismo, negando os direitos e a ascensão social à parte da população não branca. Um dos caminhos é por meio de uma educação antirracista, que evita o apagamento da história em que as pessoas não negras falem por si mesmas. Uma história única, com uma mesma visão, não retrata a verdadeira face desse evento histórico.
A expressão da cultura negra através da arte tem o papel de deixar marcado na história as suas mensagens, lutas e sentimentos. Uma educação antirracista começa com o respeito pelo ser humano e com o envolvimento dos não brancos para que as ações desprezíveis não se propaguem. As políticas educacionais criaram novas oportunidades por meio da ampliação do sistema de educação, contudo, por outro lado, acabou reforçando uma imagem negativa da população negra, que seguiu sendo estigmatizada como pobres, doentes, problemáticos e com o intelecto e cultura limitados. A educação pública proporcionou o que o historiador Jerry Dávila chama de “diploma de brancura”, ao atualizar um discurso racista de intelectuais sobre a degeneração, que incluía valores eugenistas de embranquecimento nas políticas educacionais no país. Assim, a raça vem sendo um marcador diacrítico que sela a sorte educacional de milhares de pessoas de cor. O sistema escolar do começo do século XX foi refratário à inclusão racial, limitando as oportunidades educacionais de crianças e jovens de cor e legitimando as desigualdades sociais entre pessoas brancas e negras no Brasil.