Atualmente, muito se discute sobre os inúmeros padrões de beleza impostos socialmente, em especial, sobre as brasileiras, mas qual é o impacto desses modelos na vida das mulheres? Padrões de beleza nada mais são que ¨ideais¨ que supostamente definem o que é belo ou não, como o próprio nome já diz, extinguindo particularidades. Hoje o padrão ocidental feminino segue um modelo de beleza particular: a mulher precisa ter cerca de 1,75 de altura, 86 cm de peito, 61 cm de cintura, 86 cm de quadril, cabelos loiros, olhos azuis, pele branca, pesar cerca de 70 kg, calçar número 36, possuir nariz pequeno e empinado, lábios rosados e carnudos e assim por diante.
Ademais, os padrões considerados aceitáveis hoje não são os mesmos de 10 anos atrás e provavelmente não serão os mesmos daqui a mais 10. Padrões como estes não são comuns em seu conjunto, embora sejam aclamados e colocados em pedestais por praticamente todos os meios de comunicação, com processos excludentes que escolhem perfis incompatíveis com a maioria das mulheres. Daí, pode-se mensurar o grande e crescente número de procedimentos estéticos para fazer com que a população feminina se pareça com os seus modelos.
Ao que se conhece, de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, no ano de 2018 o Brasil se tornou o grande líder em quantidade de procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos estéticos, somando quase dois milhões de procedimentos, com os silicones e as lipoaspirações liderando o ranking mundial de procedimentos cirúrgicos mais procurados, com um público alvo majoritariamente feminino: foto rejuvenescimento, tratamentos para celulite, remoção de pelos, preenchimentos com ácido hialurônico, botox, bichectomia, inserção de unhas, limpezas de pele, rinoplastia, otoplastia, abdominoplastia, dentre outros.
Existem inúmeros exemplos de procedimentos realizados no Brasil e no mundo em larga escala e, diariamente, algumas intervenções são realizadas com o intuito de fazer reparações de saúde, todavia, uma porcentagem alta dessas cirurgias têm o objetivo de fazer inúmeras mulheres adentrarem em padrões estéticos pré-estabelecidos.
Por que isso acontece? Por que seguir padrões de beleza que levam embora toda a individualidade física de uma pessoa? Por que alguém se submete a essa mudança? De acordo com o psiquiatra Raj Persaud, do Maudsley Hospital, a confiança das garotas cai 80% após 60 minutos olhando revistas de moda, pois a autoestima feminina está ligada a essa cobrança, contribuindo para o desejo e procura de tratamentos de estética.
A grande questão para além da perda de individualidade é a saúde. De acordo com dados da Vigilância Sanitária Americana (DFA), a cada 100 mil cirurgias de lipoaspiração, por exemplo, três resultam em morte. Para piorar, segundo estudos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 54% dessas mortes ocorrem em ambientes hospitalares.
Se esses procedimentos podem ser tão perigosos, mesmo com todos os cuidados, por que ainda são tão procurados? Podemos supor que a resposta a essa pergunta não é complexa, tendo em vista a enorme influência midiática que apoia o crescimento de indústrias estéticas, que chegam a faturar 168,7 bilhões ao ano, conforme os dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).
A questão que vale uma reflexão é: quem verdadeiramente se beneficia desse processo? Indústrias bilionárias ou populações femininas inteiras que têm sua autoestima completamente estigmatizada por comparações com corpos não naturais, tidos como ideais que, no entanto, as oprimem e as forçam à procedimentos degradantes e até mesmo fatais?
¨Beleza é dor¨ é o que dizem alguns. Isso talvez só seja verdade quando se trata de um padrão no qual as maiorias se adéquam às minorias. Como reflexão para impulsionar uma mudança, podemos pensar: o que é beleza exterior? Podemos estabelecer um único padrão em meio a tanta diversidade? Devemos fazer isso? Aquilo que eu creio ser belo é, de fato, belo na minha opinião ou algo/alguém me ensinou a achar isso belo?