UMA LITERATURA MENOR: QUEER-ANÁLISE, AUTOFICÇÃO E NARRATIVIDAS LGBTQI+
Prof. Dr. Marcus Antônio Assis Lima
Este projeto de pesquisa procura realizar uma leitura de obras literárias que podem ser agrupadas em torno do termo “literatura menor” (DELEUZE; GUATTARI, 2014); para nosso interesse, a “constelação autobiográfica”, composta de memórias, diários, confissões, autobiografias etc. (KLINGER, 2007) de nossas análises será constituída de textos de autoras e autores LGBTQI+, de períodos históricos diferentes, textos que iremos tratar genericamente de “autoficção”, que marcam um “retorno do autor” e uma “virada etnográfica” na literatura “maior”. Partindo das três características da literatura menor (desterritorialização da língua, ligação do individual no imediato político e o agenciamento coletivo de enunciação), buscaremos pensar essa produção literária nos termos de uma “queer-análise”, uma prática que, em vez de “conceitualizar a dissidência sexual e de gênero através das lentes da patologia psicológica e da disforia de identidade, concebe a normatização e seus efeitos como aparelhos biopolíticos e formas de violência política” (PRECIADO, 2018 p. 396). A literatura como dildo, uma tecnologia de subjetivação das sexualidades: sem gêneros, sem formatos, sem ordens narrativas: a “obra” - projeto de fala/ficção - é analisada em sua excentricidade; ela é des-binarizante, pois não usa o heteronormativo como “modelo”, mesmo que para mostrar alguma opressão ou subalternidade. As relações são todas permitidas e válidas e devem ser analisadas por sua distinção e tendo em conta que os corpos contrassexuais não devem ser corpos abjetos, mas corpos “estruturantes” nessa literatura menor; uma literatura menor deve provocar erupções, por isso, as “narratividas” tornam-se tecnologias de subjetivação queer, estratégias de resistência ao poder. Na era farmacopornográfica (PRECIADO, 2018), onde não há nada a descobrir no sexo ou na identidade sexual, onde não há segredos escondidos, não há interior, as tecnologias de comunicação não são mais extensão dos corpos, mas, ao contrário, são agora os corpos que servem de aparato tecnológico para redes mundiais de comunicação. Há uma explosão subjetiva na nuvem! Como convoca Paul B. Preciado, “Meu corpo: o corpo da multidão”.
O demônio da carne - Escritores homossexuais e catolicismo no Brasil
Prof. Dr. Fábio Figueiredo Camargo
O presente projeto pretende analisar os textos ficcionais, críticas literárias, correspondências e diários de Lucio Cardoso, Otávio de Faria, Walmir Ayala e Paulo Hecker Filho. Estes escritores produzem uma literatura denominada intimista que começa nos anos 1930, caso de Lucio Cardoso e Otávio de Faria; e têm uma continuidade nos anos 1950 na produção de Walmir Ayala e Paulo Hecker Filho. O que chama atenção na produção desses autores e está expresso tanto nos textos ficcionais quanto nos textos autobiográficos é o conflito constante entre o fato de serem católicos fervorosos e, ao mesmo tempo, homossexuais. Suas produções literárias estão marcadas pelas relações de impacto entre o que a doutrina católica pregava e o que era esperado deles enquanto cidadãos do mundo. Lucio Cardoso e Otávio de Faria foram amigos durante a vida toda, e Walmir Ayala soma-se ao grupo vindo de Porto Alegre, ainda nos anos 1950; Paulo Hecker Filho, se corresponde com Lucio Cardoso durante os anos 1950, e escreve sobre a literatura de Cardoso, assim como sobre Otávio de Faria. Os corpora do projeto serão o diário de Otávio de Faria, inédito, os diários de Lucio Cardoso, publicados em 1947 e 1961, reeditados em 2012, os diários de Walmir Ayala, publicados entre 1962 e 1976, a correspondência trocada entre eles, a crítica produzida em artigos específicos, que tangenciam o homoerotismo, assim como os livros de ficção: Mundos mortos, Atração, A montanheta, de Otávio de Faria, sendo o primeiro publicado em 1937, e os outros dois publicados em 1985; O desconhecido, publicado em 1940, e Crônica da casa assassinada, de 1959, ambos de Lucio Cardoso; a novela Internato, de Paulo Hecker Filho, publicado em 1951; Um animal de Deus, de Walmir Ayala, publicado em 1967, e O anoitecer de Vênus, publicado em 1998. O projeto pretende propiciar um olhar sobre uma produção esquecida como a de Otávio de Faria, Walmir Ayala e Paulo Hecker Filho, bem como olhar mais de perto a produção ficcional de Lucio Cardoso. Desse modo produzir-se-á um estudo que dê conta de resolver algumas questões, as quais são importantes, como a relação entre culpa e pecado na produção dos autores e como eles representam isso em suas obras literárias, bem como levantar suas opiniões sobre essas relações aparentemente não convergentes entre a sexualidade deles, reconhecida pelos mesmos como desviantes, e os dogmas da igreja católica de seu tempo. Pretende-se analisar como esses escritores viviam e pensavam a sua religiosidade e como isso transparece em suas cartas, diários e ficções, assim como eles percebiam o que seria a questão da homossexualidade, e como esse conflito está representado em suas narrativas. Quais as expressões que eles utilizavam para nomear, reconhecer e estabelecer seus códigos de conduta e como isso aparece nesse material constante, juntamente com as ideias sobre a produção de seus textos. Mais do que meramente um levantamento sobre a biografia dos autores, nos interessa como o vivido se aproxima ou é transfigurado na obra. Pelo viés da literatura comparada é perfeitamente possível tecer essas relações trazendo o que esse grupo produziu, inclusive enquanto conduta para futuros escritores com os quais eles travaram contato e influenciaram. Para tanto lançaremos mão dos estudos comparados de literatura e sociedade, conforme Antonio Candido (1967), a noção de espaço biográfico de Leonor Arfuch (2010), o conceito de amizade literária, contido no trabalho de Eneida Maria de Souza (2011), bem como o conceito de escritas de si, de Michel Foucault (2006). A partir do conceito de homoerotismo apresentado por Jurandir Freire Costa (1992) e José Carlos Barcellos (2006) pretendemos ressignificar essa produção com olhos menos preconceituosos, e possivelmente perceber nessas obras não só as marcas do tempo, mas tensão de forças entre a religiosidade e o desejo, o que produz uma literatura bastante singular, intimista, com forte carga psicológica, e, que, ao contrário do que se julgou, nada tem de alienada.