por Gregório Unbehaun Leal da Silva em Março de 2022
Em nossa incursão na história dos partidos de Rio do Sul (veja a análise completa clicando aqui), vimos que a esquerda coube um papel de "patinho feio". Obteve somente uma vitória e muitas derrotas. O que se segue é dividido em duas partes, na primeira uma breve descrição dos resultados dos partidos considerados de esquerda na disputa à prefeitura na cidade de Rio do Sul. Na parte final, apresentamos a comparação da distribuição dos votos no bairros entre a eleição de Jaílson em 2004 e a de Jean de Liz em 2020, buscando verificar se há permanências entre os períodos. Boa Leitura!
Se preferir, pode pular direto para parte 2- LINK
O convite ao leitor é que veja as duas imagens acima em conjunto para que se compreenda melhor a trajetória histórica da esquerda na cidade.
O início claudicante (1988-1992), foi seguido de bons resultados (1996-2004). Na sequência tivemos um hiato com a ausência como cabeça de chapa, embora possa ser destacada a vitória como vice na chapa do MDB em 2012. Em 2016, o retorno com resultado insatisfatório, e em 2020 uma elevação (já fizemos nesse site conteúdo explicando o porquê dessa subida - clique aqui para conferir). A trajetória de 2000 até hoje segue mais ou menos o que se deu na votação presidencial da cidade (imagem abaixo).
O período de 1996 a 2004 foi aquele em que a esquerda surge como maior força. A derrota em 1996 se deu por margem mínima de cerca de 300 votos, seguida da vitória em 2000. Já em 2004, naquele pleito histórico, vemos surgir a coalização miltista derrotando Jaílson de Lima por uma apertadíssima margem de 144 votos (a menor da história). O crescimento da liderança de Milton Hobus (já destacada nesse site - clique aqui) coincide com o ocaso petista. Uma tentativa de retorno ocorreu em tempos recentes. Em 2020, já fora da disputa eleitoral, o partido dos trabalhadores foi substituído pelo PDT e utilizado pelo maior expoente esquerdista da cidade, Jean de Liz, como plataforma para sua disputa. A boa votação foi, entretanto, insuficiente para romper com a onda de direita que tomou conta do país (fenômeno bolsonarista) e em especial na cidade Rio do Sul (já escrevemos sobre isso aqui).
Comparar as três imagens acima pode ser sintomático quanto à certa coincidência entre os pleitos presidenciais e municipais na cidade. Em outro lugar, aqui nesse site (clique aqui par ver), destacamos em especial a coincidência entre os pleitos de 2018 e 2020 na cidade.
Outro tópico também pode ser de interesse daqueles interessados em história;
Há continuidades nas votações entre pleitos distantes?
Os dados do TSE nos propiciaram uma comparação entre 19 bairros (os mais populosos - veja quais são clicando aqui) da cidade. A votação de Jaílson em 2004 tem distribuição espacial que se assemelha à da votação em de Liz em 2020? É isso que buscamos responder na segunda parte dessa análise.
Acima nota-se certa consistência entre os dois padrões espaciais de votação. Uma vez, que a maior parte dos bairros se encontra próximo da linha de correlação azul.
Também rodamos um modelo de regressão simples e geramos um modelo que prevê que a cada 1 por cento recebido por Jaílson em 2004 em um bairro, Jean de Liz recebeu 0,28% a mais nesse mesmo bairro. Rodamos também um teste de correlação e notamos o valor de 0,60 significativo à 0,05 (Script da análise? clique aqui)
Dividimos os 19 bairros em dois grupos. 10 que votaram menos e 9 que votaram mais em Jaílson em 2004 (divisão feita pela mediana). Comparamos essa nova classificação na votação de Jean de Liz e notamos que as médias são diferentes:
No grupo 1, Jean teve média de 16,09
No grupo 2, a média foi de 18,76
As barras pretas mostram que a diferença é estatisticamente significante. Em suma, notamos notável continuidade no padrão espacial no voto.
Jean fez 16.88 % em 2020. Pedimos ao programa (software R utilizado nessas análises) para encontrar os bairros que obtiveram votação acima desse limiar. No gráfico acima esses constam em verde. Notamos que 6 dos 9 bairros do grupo 2 (apoio alto à Jaílson) obtiveram esse limiar. No grupo 1 (menor apoio à Jaílson) somente 4 de 10 obtiveram esse limiar. Também constatamos que os 4 bairros de maior votação em Jean pertencem ao grupo de maior apoio ao candidato petista em 2004
Notamos na imagem acima que os três últimos pleitos em que a esquerda concorreu estão correlacionados com a votação em bairros de menor renda. Essa tendência apresenta continuidade no tempo. A junção de todos os dados aqui presentes são um indício de que há essa continuidade. Convém ressaltar, entretanto, que os dados são muito escassos. Para confirmar esses achados seriam necessários dados mais profundos, como os que os candidatos certamente devem possuir.
Rodamos uma regressão para tentar entender o que gerou o padrão espacial da votação em J. de Liz em 2020 e notamos que tanto a sua votação em 2016, quanto a de Jaílson em 2004 se correlacionam positivamente (embora a linha de Jaílson passe na linha tracejada e não tenha os 95% de confiança). É notável a continuidade no tempo, isso entretanto, não é garantia de nada. Jean não conseguiu repetir Jaílson em quantidade, ele só recebeu mais votos em nos "mesmos bairros" que Jaílson foi mais votado.
Pegamos esse gráfico da análise já feita nesse site (clique aqui para ver). E notamos que o miltismo sobreviveu com 4 vitórias nos ultimos cinco pleitos diversificando sua base. Uma vez que seus adversários mudaram. E o Thomé de 2020 não é parecido com o Hobus de 2004. Aliás o padrão de Hobus 2004 se assemelha a outro candidato de 2020. Clique aqui e saiba qual.
Em suma, o grupo político que ganha as eleições em 2004, exemplificado na figura de Milton Hobus, se difere da esquerda no sentido de que tem uma base mais fluída e numerosa.
Esse artigo é um texto adicional da série sobre a história política de Rio do Sul. Também indicamos as séries especiais sobre a política recente de Rio do Sul. Clique nos ícones abaixo para obter acesso.
também é indicado Votação prefeitura de Rio do Sul- 1965-2020