Clivagem é um termo da “moda”. Vem cada vez mais sendo usado no dia a dia das análises políticas. Mas afinal o que são clivagens? Esse conceito tem longa trajetória, abaixo preparei um resuminho do termo. Te convido inicialmente a ver um videozinho curto de 1 minuto e pouco que sintetiza as três características que definem o conceito. Após o vídeo apresento partes de minha tese de doutoramento em andamento em que descrevo o conceito e sua importância. No fim encaminho para um exemplo prático para o caso brasileiro.
O termo advém de uma tradição teórica que se inicia na seminal obra de Lipset e Rokkan (1990[1967]), sobre as origens dos sistemas partidários europeus e suas relações com as clivagens, de modo que os primeiros, “A década de 1960 reflete, com poucas, mas significantes exceções, as estruturas de clivagens da década de 1920” (LIPSET; ROKKAN, 1990, p.9, tradução minha).
Uma definição mais clara pode ser obtida de trecho do trabalho de Bartolini e Mair em 1990:
O conceito de clivagem de Bartolini e Mair (1990) é composto de três dimensões:
“[...] um elemento empírico que identifica o referente empírico do conceito, e que podemos definir em termos sócio-estruturais; um elemento normativo, ou seja, o conjunto de valores e crenças que conferem um sentido de identidade e papel ao elemento empírico, e que refletem a autoconsciência do(s) grupos(s) social(es) envolvido(s); e um elemento organizacional/comportamental, que é o conjunto de interações individuais, instituições e organizações, como partidos políticos, que se desenvolvem como parte da clivagem(p, 215, tradução livre)
Mas de onde vem a origem desse conceito? Da obra de Lipset e Rokkan (1990), clássico sobre a formação dos sistemas partidários nos países da Europa Ocidental, na qual classificam as origens e consequências das divisões políticas dos países da Europa Ocidental. O que a reflexão aponta é duas grandes revoluções, a nacional (relacionado à configuração do Estado-nação) e a revolução Industrial foram geradas em diferentes ritmos nesses países. Essas deram origem a quatro divisões políticas gerais. A divisão centro e periferia refere-se a disputa entre regiões centrais ou próximas da capital com as regiões tidas como periféricas; a segunda se caracteriza pela divisão entre Estado centralizado e Igreja; a divisão entre setores agrícolas e industriais também é citada; e por fim, a divisão quanto à posse dos meios de produção, que opôs trabalhadores e proprietários. Essas divisões são sintetizadas na imagem apresentada acima. A lógica tradicional direita/esquerda parecia suficientemente adequada para dar conta dessa última divisão, que com o tempo se tornou a mais central nessas democracias dos países centrais. O congelamento da ligação das divisões sociais dos partidos foi o diagnóstico gerado de tão influente obra.
Os estudos com o ferramental das clivagens se originam e se desenvolvem nas democracias mais antigas. Ele é um bom modelo para aquelas democracias. O trabalho de Moreno (2019) é um dos que inova ao incorporar mais países. Sua definição de clivagem é muito similar ao da dupla Bartolini e Mair(1990):
Primeiro, a clivagem é enraizada em uma divisão social relativamente persistente que dá origem a grupos 'objetivamente' identificáveis dentro de uma sociedade - de acordo com a classe, religião, interesses econômicos ou culturais, ou o que for. Em segundo lugar, uma clivagem envolve algum conjunto de valores comuns a membros do grupo; membros do grupo conhecem uma "vida comum" na medida em que compartilham a mesma orientação de valores. Em terceiro lugar, uma clivagem é institucionalizada em alguma forma de organização - mais comumente um partido político - que transforma divisões sociais em clivagens, dando coerência e expressão política organizada (MORENO, 2019, p.30, Tradução livre).
Mas com o tempo a tese do congelamento nos estudos dos países de democracia mais consolidada mudou:
Os ambientes sociais fechados que uniam os eleitores aos partidos não existem mais. O declínio da religião, a diversificação da vida profissional e a maior mobilidade ocupacional e espacial enfraqueceram os laços sociais que unem os indivíduos aos estratos sociais tradicionais. Os indivíduos levam vidas que são apenas tenuamente encerradas por agrupamentos sociais duráveis e homogêneos. Os sindicatos diminuíram. Menos pessoas vão à igreja. A transformação econômica turvou a divisão de classes. A proporção da força de trabalho em empregos manuais caiu com o aumento do emprego de serviços e profissionais. A intensidade das clivagens religiosas e de classe foi abrandada, à medida que os partidos tradicionais moderaram as posições. Os partidos socialistas não desejam mais abolir o trabalho assalariado. Os partidos religiosos aceitam que o estado é secular. A mudança social aponta na mesma direção. Como essas tendências são temporais, seus efeitos aumentam a cada nova geração de eleitores (MARKS et al., 2021, p.174, tradução livre).
Segundo Damen (2013), as primeiras incursões empíricas provaram que a assertiva do congelamento estava correta. Entretanto, o mesmo levantamento aponta que em pouco tempo isso mudou. Diferentes processos que confluíram para o desafio à tese do congelamento, conforme indicado por estudos (INGLEHART, 1977; DALTON; FLANAGAN; BECK, 1984; BARTOLINI; MAIR, 1990; TORCAL; MAINWARING, 2003; MORENO, 2019; DEEGAN-KRAUSE, 2007; BONILLA et al, 2001; BORNSCHIER, 2013; 2020; INGLEHART; WELZEL, 2009; DALTON, 2018; NORRIS; INGLEHART, 2019; MARKS; et al., 2021) desenvolvidos desde o final da década de 1970.
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Tendo em vista o termo, vamos a um exemplo prático no caso brasileiro : CLIQUE AQUI
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Veja também:
Trabalhos em andamento sobre clivagens
Fio sobre clivagens : https://threadreaderapp.com/thread/1602998259378790404.html
Veja também:
MUITO MASSA: O gráfico das bolinhas: https://threadreaderapp.com/thread/1620071880190484481.html
Leia também, a segunda parte com dados do Brasil: https://twitter.com/gregoprof/status/1620413650438856705
Referências e mais leituras indicadas:
BARTOLINI, S., and MAIR, P. Identity, Competition and Electoral Availability. Cambridge University Press, New York, 1990.
BONILLA, C.; CARLIN,R.; LOVE, G.; MÉNDEZ, E. Social or political cleavages? A spatial analysis of the party system in post-authoritarian Chile. Public Choice, 146(1/2), p. 9-21, 2011.
BORNSCHIER, Simon. Trayectorias históricas y «responsiveness» del sistema de partidos en siete países de América Latina. América Latina Hoy , v. 65, 2013. p. 45-77.
BORNSCHIER, Simon. Combining deductive and inductive elements to measure party system responsiveness in challenging contexts: an approach with evidence from Latin America. Eur Polit Sci 19, 2020. p. 540–549.
DALTON, Russell J.; FLANAGAN, Scott E.; BECK, Paul A. Electoral Change in Advanced Industrial Democracies: Realignment or Dealignment?, Princeton University Press, Princeton, New Jersey; Guildford, Surrey. 1984
DALTON, Russell J. (2018) Political realignment: economics, culture, and electoral change. Oxford: Oxford University Press.
DAMEN, M.-L. Political Alignments and Cleavages. The Wiley-Blackwell Encyclopedia of Social and Political Movements, 2013. John Wiley & Sons, Ltd.
DEEGAN‐KRAUSE, Kevin. New Dimensions of Political Cleavage. In: The Oxford Handbook of Political Behavior. Oxford University Press: New York, 2007.
HOOGHE, L.; MARKS, G.; WILSON, C. J. Does Left/Right Structure Party Positions on European Integration? Comparative Political Studies, v. 35, n. 8, p. 965–989, 2002. Sage PublicationsSage CA: Thousand Oaks, CA.
INGLEHART, R. The Silent Revolution: Changing Values and Political Styles Among Western Publics, Princeton: Princeton University Press. 1977
INGLEHART, R.; WELZEL, C. Modernização, mudança cultural e democracia: a sequência do desenvolvimento humano. São Paulo: Francis, 2009.
LIPSET, Seymour M., ROKKAN, Stein. "Cleavage Structures, Party Systems, and Voter Alignments", in: Peter Mair (ed.), The West European Party System, Oxford: Oxford University Press, 1990, p. 91-138.
MARKS, G.; ATTEWELL, D.; ROVNY, J.; HOOGHE, L. Cleavage Theory. Palgrave Studies in European Union Politics, p. 173–193, 2021
MORENO, A. Political Cleavages: Issues, Parties and the Consolidation of Democracy. London: Routledge. 2019. Epub.
NORRIS, P.; INGLEHART, R. Cultural backlash: Trump, Brexit,and authoritarian populism. Cambridge: Cambridge UniversityPress, 2019
PRZEWORSKI, A.; SPRAGUE, J. Paper Stones, A History of Electoral Socialism. University of Chicago Press, 1986. 224 pp.
TORCAL, M.; MAINWARING, S. The political recrafting of social bases of party competition: Chile, 1973-95. British Journal of Political Science, v. 33, n. 1, p. 55–84, 2003.