Mesa de comunicação 1 - Beauvoir e as novas formas de sujeição e de liberdade


Título: A “nova mulher vassala”: o movimento tradwife à luz de Beauvoir 

Nomes: Ana Beatriz de Oliveira Santana, Ana Júlia Ribeiro Gonçalves e Heloisa Pereira Araujo

Resumo: Em redes sociais, tem sido recorrente o fenômeno das tradwives, isto é, das esposas tradicionais, das mulheres que optam por defender e publicizar a submissão aos seus maridos, casa e filhos. Por meio de vídeos curtos, retrata-se de forma romântica a vida e rotina das tradwives, o que tem arrecadado milhões de visualizações e comentários expressando o quão nobre é uma mulher escolher dedicar-se, exclusivamente e exaustivamente, ao seu núcleo familiar, sendo essa a sua função natural. Neste estudo, procuraremos questionar o movimento tradwife a partir do modo como a Simone de Beauvoir trabalha o conceito de má-fé e, ademais, como propõe uma alternativa à submissão através da moral da ambiguidade. Trata-se de criticar a suposta “liberdade de escolha”, recorrente nos discursos de mulheres que se autodenominam enquanto tradwives. Nesse sentido, busca-se discutir como o casamento, o trabalho doméstico e a religião operam enquanto dispositivos culturais que instituem lugares e hierarquias de gênero, revelando uma profunda assimetria que reafirma a subordinação feminina na contemporaneidade sob a aparência de escolha e vocação. Buscaremos evidenciar, assim, como a teoria beauvoiriana é de grande valia para a compreensão e problematização de fenômenos como a livre escolha pela submissão às estruturas e hierarquias de gênero hegemônicas.

Palavras-chave: Tradwife; Submissão Feminina; Simone de Beauvoir; Liberdade de Escolha; Ma-fé.

Título: A atualidade do conceito do Outro de Simone de Beauvoir do Segundo Sexo na análise da violência doméstica no Brasil

Nome: Sheila Ghirello Cabestré

Resumo: O presente trabalho analisa a atualidade do conceito de Outro, de Simone de Beauvoir, na compreensão da violência doméstica no Brasil, em diálogo com Heleieth Saffioti e June Cirino. A partir da perspectiva existencialista de Beauvoir, a mulher é construída como o Outro em relação ao homem — o sujeito absoluto — e demonstra como esse fundamento de alteridade sustenta as estruturas patriarcais que naturalizam a subordinação feminina. Saffioti aprofunda essa discussão ao demonstrar com perspectiva sociológica que a violência doméstica resulta de uma organização social que legitima a agressividade masculina e limita a autonomia das mulheres. Essa dominação simbólica é refletida nas instituições jurídicas historicamente marcadas por normas patriarcais, como a antiga noção de “mulher honesta”, que esteve presente no Código Penal brasileiro. A Lei Maria da Penha surge como resposta jurídica à violência doméstica, embora enfrente entraves estruturais para sua plena efetividade. Por sua vez, Cirino propõe uma criminologia feminista crítica que expõe o sistema de justiça como reprodutor das desigualdades de gênero, classe e raça. A análise conjunta das autoras evidencia que o patriarcado permanece transversalizado nas práticas jurídicas e sociais brasileiras, e conclui-se que o conceito de Outro permanece atual ao revelar que a emancipação feminina exige não apenas instrumentos legais, mas a transformação das estruturas simbólicas e materiais que sustentam a dominação masculina.

Palavras-chave: Alteridade da Mulher; Subordinação Feminina; Dominação Masculina; Desigualdade de Gênero; Justiça Patriarcal.


Título: Beauvoir na psicologia clínica: um mapeamento de diálogos e ausências

Nomes: Gabriela Peçanha Mossri e Daniel Vasconcelos de Araujo

Resumo: A relevância do pensamento de Simone de Beauvoir para a psicologia, em especial para a psicologia clínica, vem sendo reavaliada desde meados dos anos 1990. Embora O Segundo Sexo e A Velhice tenham motivado diálogos pontuais, é apenas a partir desse período que alguns trabalhos clínicos buscam uma aproximação mais sistemática com o pensamento beauvoiriano. A comunicação propõe apresentar um recorte de um amplo levantamento bibliográfico realizado nas principais bases de dados da América Latina, sem recorte temporal prévio, cujo objetivo foi mapear as modulações do diálogo com as obras de Beauvoir e Sartre. No campo da psicologia clínica, observa-se que o diálogo com Beauvoir é escasso e, por vezes, problemático quando comparado ao de Sartre. Dos 49 trabalhos identificados entre 1985 e 2023, apenas nove estabelecem algum diálogo com Beauvoir, e, dentre esses, quatro exploram aspectos centrais de sua filosofia, como a seriedade, a moral e o tornar-se. Pretende-se, assim, apresentar esses dados quantitativos e discutir como tais conceitos foram apropriados por autoras e autores do campo clínico, problematizando o modo como a obra de Beauvoir vem sendo lida e incorporada pela psicologia.

Palavras-chave: Simone de Beauvoir; Existencialismo; Psicologia; Seriedade.



Conferência de abertura


Título: Literatura, corpo e guerra

Nome: Juliana Oliva

Resumo: Como é próprio da proposta de Simone de Beauvoir com a literatura, a escrita de As bocas inúteis, delineada sobre o fundo de uma perspectiva existencialista, não intenciona recriar um acontecimento nem retratar uma ou outra determinada pessoa conhecida pela autora; tampouco o texto literário poderia ser considerado uma atividade autobiográfica. Ao mesmo tempo, essa mesma literatura, ainda que não seja de modo nenhum a ilustração de um sistema filosófico, assim como a filosofia existencialista, não busca nem afirmar ideais ou absolutos, nem pretende prescrever preceitos morais. O milagre da literatura, para Beauvoir, está na intenção de recriar o instante vivido antes que este seja apreendido na rigidez do conceito filosófico. Nessa recuperação do instante, os acontecimentos nas histórias que Beauvoir conta e os tipos que caracterizam os personagens remetem à realidade tal qual lhe aparece. No caso de As bocas inúteis, é latente a experiência de Beauvoir da ocupação nazista de território francês pela Alemanha. A expressão “bocas inúteis” faz referência às pessoas que passam fome na história contada pela peça. Mulheres, crianças e pessoas idosas são excluídas da construção de governo, leis e da defesa da cidade fictícia Vaucelles. Além de retomar a noção do sentido de literatura para Beauvoir para adentrarmos algumas questões acerca da relação entre a escrita literária e a história em As bocas inúteis, gostaria de compartilhar algumas ponderações sobre o valor do corpo na guerra.

Palavras-chave: Beauvoir; Romance metafísico; As bocas inúteis; Corpo; Guerra. 



Mesa de comunicação 2 - Ética, escrita e formação em Beauvoir


Título: A palavra como exercício de liberdade: a escrita de si em Simone de Beauvoir

Nome: Gabriela Soares da Rosa

Resumo: A presente proposta de comunicação visa compartilhar a etapa inicial de uma pesquisa acadêmica durante o mestrado em Filosofia na Universidade Federal de Pelotas, cujo objetivo é analisar o exercício de escrita de si de Simone de Beauvoir a partir de suas obras autobiográficas e traçar relações do fazer literário da autora com a sua própria filosofia especificamente no que diz respeito à moral da ambiguidade. O trabalho em questão visa perceber de que forma o projeto moral beauvoiriano se entrelaça com o grande projeto de vida da autora na escrita de sua vasta obra, de como ela exerceu um movimento de desvelamento de si e de exercício da própria liberdade, negando assim a opressão contra si mesma e contra suas/seus semelhantes. A autora, ao escrever sua obra autobiográfica, assumiu-se, neste exercício, como sujeito de sua própria história, demonstrando em ato sua própria filosofia que trata principalmente de um plano moral, no qual, para assumir a existência com autenticidade, o ser deve buscar o desvelamento do ser, não captando-o absolutamente, mas buscando desvelá-lo. A pesquisa atualmente está na etapa de aprofundamento teórico e autobiográfico, a partir da leitura das obras beauvoirianas e de comentadoras do tema.

Palavras-chave: Autobiografia; Escrita de si, Liberdade; Moral; Ambiguidade.


Título: O conto “Chantal” e a Fase Moral do Pensamento de Simone de Beauvoir

Nomes: Luana de Matos Guimarães e Rodolfo Rodrigues de Souza

Resumo: Este estudo examina a fase moral do pensamento de Simone de Beauvoir pela análise de Chantal, conto de Quando o Espiritual Domina. Temos como objetivo explorar noções filosóficas que Beauvoir desenvolve nesta narrativa, refletindo sobre caminhos que a ética existencialista toma no pensamento da filósofa. A amostra do estudo se constitui a partir da análise qualitativa das obras literárias e filosóficas de Beauvoir, com ênfase nas interseções entre Chantal e os ensaios da fase moral Pirro e Cineias e Por uma moral da ambiguidade. O foco da análise será a reflexão sobre noções filosóficas desenvolvidas por Beauvoir nestas três obras - sem deixar de lado alguma menção necessária a outros de seus escritos -, enfatizando a noção de má-fé. Os resultados de nossa análise apontam para a crítica de Beauvoir à moralidade espiritualista de seu tempo e o impacto desta na vida das mulheres, refletindo sua ética existencialista mais ampla. A personagem Chantal evidencia o debate entre expectativas sociais e a busca por autenticidade, debate que engloba a noção de má-fé como desenvolvida por Beauvoir. O estudo conclui que as obras literárias iniciais da pensadora, muitas vezes desconsideradas em comparação aos seus textos filosóficos e memorialísticos, oferecem possibilidades de compreensão aprofundada sobre a condição humana, destacando sua relevância para o campo filosófico e psicológico e suas implicações para discussões sobre ética e liberdade.

Palavras-chave: Simone de Beauvoir; Existencialismo; Ética; Má-fé; Seriedade.


Título: A verdade como projeto: uma crítica beauvoiriana ao relativismo pedagógico

Nome: Liliane Barros de Almeida

Resumo: Propomos uma crítica à pedagogia do multiculturalismo intercultural. Sob o pretexto de um pluralismo democrático, essa corrente trata o conhecimento científico como apenas mais uma narrativa, equiparando-o ao senso comum ou ao mito. Argumentamos, a partir de Simone de Beauvoir, que tal relativismo, longe de ser progressista, é politicamente reacionário e eticamente indefensável. O trabalho articula três ensaios de Beauvoir para fundamentar esta tese: O Pensamento de Direita, Hoje, Para uma Moral da Ambiguidade e Olho por Olho. Essas leituras nos possibilitam pensar como o pluralismo, que nega a verdade material, é uma tática conservadora para dissolver conflitos existentes na sociedade de classes. Compreendemos a educação como um projeto ético, que deve superar a má-fé niilista, onde "tudo vale", e escolher a ciência como possibilidade de liberdade. Por fim, buscamos criticar a pedagogia relativista como uma "bela alma" que, buscando uma pureza abstrata, recusa a solidariedade concreta com as vítimas do sistema. Concluímos que a condição ética da escola é tomar partido: garantir o acesso da classe trabalhadora ao conhecimento elaborado, visto como força material para a emancipação.

Palavras-chave: Simone de Beauvoir; Educação; Multiculturalismo; Relativismo; Ética.



Mesa-redonda 1 - A ambiguidade em cena: corpo, sentimento e liberdade em Beauvoir


Título: O Sentimento como Ato e o Ato como Sentimento: A dramaturgia da ambiguidade em As Bocas Inúteis

Nome: Thaís de Andrade Fragas

Resumo: A presente comunicação propõe uma leitura de As Bocas Inúteis (1945), de Simone de Beauvoir, como a dramatização visceral da ambiguidade humana. Diferente de uma abordagem puramente teórica, a peça mergulha na própria manifestação da angústia, tomando-a como sua matéria irredutível e convidando o leitor não a aprender uma lição, mas a habitar o mundo reconhecendo que a humanidade se revela precisamente nas consequências de cada escolha individual. Para tanto, a peça não se ocupa em explicar este sentimento ao leitor — já que este não é o papel da literatura — , mas em descrever seu gosto amargo. Na trama de uma cidade sitiada, Beauvoir transcende o mero conflito entre idealismo moral e realismo político para explorar o papel dos sentimentos — amor, compaixão, medo — como atos de liberdade e, ao mesmo tempo, como a matéria-prima de uma moralidade trágica na qual o apelo aos laços de "carne e sangue" representa o "peso sobre a terra" da existência singular. A partir do dilema dos conselheiros, a moralidade nos é apresentada não como um sistema de regras a ser aplicado, mas como uma ação contínua de assunção do nosso ser, um embate entre o universalismo da lei e a particularidade da experiência vivida (vécu). Ao negar um desfecho onde a razão dissolve o conflito, a peça nos confronta diretamente com a natureza de nossas escolhas — repletas de sentimentos e de consequências incertas — e com o desafio de agir sabendo que o peso de nossas ações no mundo não é um fardo a ser evitado, mas a própria assinatura de nossa humanidade.

Palavras-chave: Ambiguidade; Angústia; Moralidade trágica; Liberdade; Experiência vivida.



Título: Corporeidade da mulher: um diálogo entre a perspectiva fenomenológica-existencial de Simone de Beauvoir e a teoria da cognição corporificada

Nome: Larissa Fernandez de Andrade Santos

Resumo: A pesquisa propõe um diálogo entre a perspectiva fenomenológico-existencial de Simone de Beauvoir e o feminismo corpóreo contemporâneo, articulado às teorias da cognição corporificada. Parte-se da urgência de repensar a corporeidade feminina como lugar de experiência, agência e conhecimento, superando visões que a reduzem à passividade ou à função biológica. Em Beauvoir, o corpo é ambíguo — simultaneamente facticidade e transcendência —, constituindo o campo onde liberdade e situação se entrelaçam. Essa ambiguidade encontra eco no feminismo corpóreo, que compreende o corpo como agente epistêmico e político, produtor de subjetividade e resistência. Autoras como Butler, Grosz, Gatens e Brancazio expandem a noção beauvoiriana de corpo vivido, enfatizando sua materialidade ativa, performatividade e inscrição ecológica. A teoria da cognição corporificada, por sua vez, reforça essa visão, entendendo o conhecimento como prática encarnada e situada. Assim, o estudo busca construir uma ontologia encarnada da mulher, onde corpo, cognição e existência se co-constituem. Essa integração teórica contribui para uma filosofia feminista que reconhece o corpo como linguagem, narrativa e potência de transformação.

Palavras-chave: Corporeidade; Simone de Beauvoir; Feminismo corpóreo; Cognição corporificada; Subjetividade.



Conferência - Teatro, opressão e liberdade: 80 Anos de As Bocas Inúteis


Título: Simone de Beauvoir e As Bocas Inúteis: 80 Anos de reflexão sobre as opressões

Nome: Bruna Mello Gomes Bernardes

Resumo: Nesta comunicação, analiso a peça As Bocas Inúteis (Les Bouches Inutiles), escrita por Simone de Beauvoir em 1945. Argumento que, embora a própria autora tenha posteriormente criticado o tom moralista abstrato da peça, ela representou um avanço decisivo no desenvolvimento de seu pensamento político-filosófico sobre as opressões. Dividirei minha fala em três momentos: primeiro, apresento brevemente o contexto da peça e as críticas de Beauvoir; depois, examino alguns aspectos conceituais e temáticos que prefiguram reflexões posteriores da autora sobre as mulheres em O Segundo Sexo (1949) e sobre as pessoas idosas em A Velhice (1970); e, por fim, discuto o que a peça revela sobre a transição do período moral de seu pensamento para uma filosofia mais engajada politicamente.

Palavras-chave: Simone de Beauvoir; As Bocas Inúteis; Opressão; O Segundo Sexo; A Velhice.


Título: “As mulheres não dizem nós”: da cumplicidade à emancipação em As bocas inúteis

Nome: Luiza Helena Hilgert

Resumo: Como a impossibilidade histórica das mulheres de se constituírem como sujeito coletivo aparece na peça Les bouches inutiles? Como esta obra do imediato pós-guerra antecipa e materializa as contradições da condição da mulher descritas em O segundo sexo? Diferentemente dos proletários, que se reconhecem como classe em luta contra a burguesia, ou dos colonizados, que forjam sua identidade na resistência ao colonizador, as mulheres permanecem dispersas, identificando-se prioritariamente com os homens de sua classe, raça ou nação e não entre si. Essa fragmentação não é acidental e exemplifica o que chamo de alienação de gênero: a distorção da autopercepção da mulher que impossibilita a solidariedade política horizontal e o reconhecimento enquanto categoria. Proponho articular três momentos do pensamento beauvoiriano: (1) a representação dramática da cumplicidade feminina em Les bouches inutiles; (2) a teorização da fragmentação e dispersão das mulheres em O segundo sexo; e (3) o diálogo dessas formulações com o conceito de alienação de gênero.

Palavras-chave: Mulher; Alienação de gênero; Consciência; Solidariedade; Tornar-se.


Título: A noção de teatro existencialista desde a perspectiva de Simone de Beauvoir

Nome: Josiana Barbosa Andrade

Resumo: O objetivo desta palestra é apresentar a noção de teatro existencialista que Simone de Beauvoir descreveu em sua conferência de 1947, intitulada Le théâtre existencialista. Nela, podemos encontrar uma dimensão pouco estudada de sua obra – a de crítica literária. Ela nos permite compreender algumas nuances de como a filósofa descreveu a nova forma estética do teatro francês – hoje conhecida como teatro existencialista – que estava a se manifestar, à época, gerando debates a respeito da própria renovação do teatro. Para fins analíticos e pensando a partir de e com Simone de Beauvoir, buscaremos descrever a sua noção tomando como exemplar a sua única peça publicada – As bocas inúteis.

Palavras-chave: Teatro Existencialista; Crítica Literária; Metafísica; Simone de Beauvoir.



Mesa de Comunicação 3 - Interlocuções filosóficas e recepção de Beauvoir


Título: D’Epinay: precursora de Beauvoir

Nome: Fabiana Tamizari

Resumo: Louise d’Epinay (1726-1783) foi uma escritora e filósofa francesa do período iluminista; sua obra mais conhecida é as Conversations d’Emilie (1774), que foi uma resposta ao livro Émile ou De l’éducation (1762), de Rousseau. Enquanto o filósofo genebrino propunha um modelo de educação voltado para meninos, acreditando que as mulheres deveriam ser preparadas para agradar e servir aos homens, d’Epinay defendia uma educação moral e racional para as meninas. Ela acreditava que o ensino delas deveria ser baseado no diálogo, na reflexão e na autonomia intelectual. Dessa forma, a obra de d’Epinay contrapunha-se às limitações impostas por Rousseau e defendia a igualdade na formação entre homens e mulheres. Suas ideias anteciparam reflexões que, muitos anos depois, seriam aprofundadas por Simone de Beauvoir (1908-1986). D’Epinay criticou o papel subordinado das mulheres na sociedade e defendeu a educação feminina como uma maneira de conquistar liberdade intelectual e moral, questionando a dependência que o casamento e os costumes tradicionais impunham às mulheres. Beauvoir aborda essas questões em O Segundo Sexo, dizendo que a mulher não nasce pronta, mas se torna mulher ao longo da vida, ela denuncia como a sociedade constrói a ideia de inferioridade feminina. Ambas concordam que a liberdade das mulheres só acontece de verdade quando elas conquistam sua autonomia e conseguem superar as estruturas patriarcais que restringem sua liberdade e sua identidade.

Palavras-chave: Iluminismo; Mulher; D'Epinay; Educação; Beauvoir. 


Título: Mapeamento das leituras filosóficas de Simone de Beauvoir na produção latino-americana

Nomes: Julia Arosa Trompieri e Rodolfo Rodrigues de Souza

Resumo: A presença de Simone de Beauvoir na filosofia latino-americana revela-se diversa e consolidada, embora ainda marcada por tensões interpretativas. A partir de um levantamento bibliográfico realizado sem recorte cronológico específico, foram encontrados 48 artigos que tematizam o existencialismo de Sartre e Beauvoir na filosofia. Desse corpus, observa-se que 22 deles mencionam Beauvoir e 11 a tomam como referência central. Os textos abordam temas como liberdade, alteridade, corpo, moral, estética e epistemologia feminista, articulando sua obra com autoras e autores como Sartre, Merleau-Ponty, Levinas e Butler. Predomina a valorização de Beauvoir como filósofa em sentido pleno, afastando-se da leitura que a reduz à dimensão literária ou militante. As obras mais citadas são O Segundo Sexo, A Convidada e A Velhice, frequentemente mobilizadas em debates sobre ética, ontologia e existência situada. A comunicação propõe apresentar esse panorama da recepção filosófica contemporânea de Beauvoir, evidenciando os principais eixos conceituais e os modos de diálogo estabelecidos com Sartre e outras tradições, sublinhando a atualidade e a vitalidade teórica de seu pensamento na filosofia do século XXI.

Palavras-chave: Simone de Beauvoir; Filosofia; Existencialismo; América Latina.

Título: A revolta como prática libertária: o slam e o existencialismo

Nome:  Ana Clara Borsetto Pereira

Resumo: A comunicação tem o intuito de revelar a revolta enquanto prática libertária que une de origem o contexto de produção do existencialismo beauvoiriano e a construção singular do movimento poetry slam brasileiro enquanto comunidade a partir da coletiva Slam das Minas SP. Pela abordagem do slam como a história de construção de uma modalidade poética comunitária, isto é, na qual há a partilha dos mesmos valores coletivos pelos/as seus integrantes, pretendo indicar a ação libertadora coletiva das minas como fundamental para a formação definitiva do movimento enquanto campo aberto para a diversidade de produções éticas e literárias dos/as slammers; por outro lado, desejo revelar como a produção filosófica e literária de Simone de Beauvoir está integrada ao seu projeto ético-político e, por extensão, se mostra como seu modo singular de prática libertária. Nesse contexto, a perspectiva sobre o slam e sua história comunitária, cujo ápice libertário é a revolta das minas, se encontra unida à compreensão do engajamento existencialista: o que se revela no fundo deste projeto político das mulheres é, na verdade, uma ligação de base entre pensamento e ação, a qual nos permite conectar as ações libertárias presentes no slam àquelas realizadas por Simone de Beauvoir. Por conseguinte, a obra e a vida de Beauvoir apresentam uma integração fundamental entre seu modo de pensar e de agir e, por extensão, a filosofia e a literatura foram, para ela, práticas libertárias, modos de se engajar no mundo politicamente. Assim, slam e existencialismo possuem expressões distintas pelas quais interferem na concretude e, entretanto, possuem a mesma integração de fundo, a mesma unidade posta nas ações libertárias, o mesmo ponto de partida a partir do qual se dirigiram para a libertação. Será pela realização tanto da abordagem sobre o slam como história comunitária - isto é, de uma construção histórica mediante compartilhamento de valores coletivos – quanto da costura deste plano conceitual e existencialista fornecido por Beauvoir, que se revelará como a revolta, as práticas libertárias, os engajamentos via palavra, são modos de estar no mundo que unem de origem o slam brasileiro e a filósofa francesa.

Palavras-chave: Slam das minas; Comunidade; Revolta; O Segundo Sexo; Simone de Beauvoir.



Mesa-redonda 3 - Ética, humanismo e pós-colonialidade: leituras de Beauvoir


Título: Pós-colonialidade e gênero: Fanon, leitor de Simone de Beauvoir

Nome: Izilda Johanson

Resumo: É de conhecimento geral a presença, a influência e o diálogo de Frantz Fanon com a filosofia existencialista, no mais das vezes, explicitados por ele próprio em seus escritos. Há também, e no entanto, momentos em sua obra em que essa relação se presentifica, ao contrário, no modo de silêncios gritantes. Estudiosas e estudiosos de Simone de Beauvoir principalmente vêm chamando a atenção para a presença, ao que tudo indica deliberadamente não identificada, da filosofia beauvoiriana, mais particularmente, aquela desenvolvida em O segundo Sexo, em Pele Negra, Máscaras Brancas. Para além de apontar simplesmente as evidências que nos levam a reconhecer a assimilação por parte de Fanon de certos conceitos beauvoirianos, interessará neste trabalho investigar e refletir sobre o que considero ser um exemplo concreto da complexidade essencial que estrutura a relação entre colonialidade e gênero, inclusive quando formulada, como veremos, no plano conceitual filosófico. Isto com a finalidade de explorar tanto quanto possível o sentido grave e pungente do alerta dado daqui, do Sul Global, de Maria Galindo, preconizado em certo sentido em O Segundo Sexo e que toda luta anti-colonialista, antirracista e feminista não pode ignorar: "Não se pode descolonizar sem despatriarcalizar". 

Palavras-chave: O Segundo Sexo; Filosofia; Gênero; Colonialidade; Despatriarcalização.


Título: Condição Humana, Humanismo e Fenomenologia: A dimensão ética da obra de Simone de Beauvoir

Nome: Eloísa Benvenutti de Andrade

Resumo: Na esteira de conceitos fundamentais da fenomenologia, como o de liberdade e alteridade, exporemos como Simone de Beauvoir denuncia a fragilidade teórica do discurso da tradição fenomenológica francesa no plano do pensamento ético. O objetivo é apresentar uma reflexão sobre a condição humana no mundo da vida a partir da experiência vivida. Para Beauvoir, veremos, é através da facticidade que se pode verificar quais são as condições concretas de libertação, à medida que a subjetividade do sujeito não está separada da facticidade e tampouco das outras subjetividades que a experienciam e a expressam. Isso quer dizer: o exercício da liberdade não é tributário de uma ideia abstrata de liberdade, mas é condicionado pela experiência vivida. Sendo assim, de acordo com Beauvoir, uma moral humanista exige que toda experiência viva tenha um sentido humano, quer dizer, que seja habitada por uma liberdade. Entretanto, o desafio que a filósofa destaca é o de que ao lado da reivindicação autêntica do sujeito que quer para si liberdade soberana, há no existente um desejo inautêntico de demissão e de fuga. Nossa proposta é analisar a “inutilidade” desse desejo nos sujeitos marginalizados, tendo como horizonte o exposto pelas bocas inúteis.

Palavras-chave: Experiência; Ética; Fenomenologia; Liberdade; Sujeito.