(Por Antônio da Rocha Almeida)
A nenhum outro de seus filhos deve, por certo, o Rio Grande (do Sul), no setor de ensino, tão altos serviços como ao saudoso Professor Clemente Pinto uma existência inteira dedicada à instrução e à educação da mocidade. No lar – para ele um santuário, como a escola – pasmou o mestre incomparável o espírito superior e a grande alma de seu único filho varão, magistrado, advogado militante, político e parlamentar.
Nasceu Alfredo Clemente Pinto em Porto Alegre, Província de Rio Grande do Sul, a 15.08.1854 e faleceu em Correias, Estado do Rio de Janeiro, a 21.1.1938, com a idade de 83 anos, 5meses e 16 dias. Era filho do Clemente José Pinto, da freguesia de Besteiras, Bispado do Porto (Portugal) e de D. Maria Emília d’Alcântara Machado, do Rio de Janeiro. Neto paterno de Antônio José Pinto e de D. Maria Joaquina da Silva e materno de Inácio José Machado e de D. Maria Inácio Veloso. Foram filhos do casal: 1. Francisco Clemente Pinto, nascido no Rio Pardo, a 01.09.1848; 2. Clemente José Pinto, nascido, como os seguintes, em Porto Alegre, a 7.11.1849; 3. Adelaide Alcântara Pinto, a 4.1.1852; 5. Josefina Alcântara Pinto, a 23.2.1853; 6. Alfredo Clemente Pinto, a 15.8.1854; 7. Antônio Clemente Pinto, a 24.8.1855; 8. Joaquim Clemente Pinto, a 4.2.1857; 9. Manoel Clemente Pinto, a 24.8.1859; 10. Inácio Clemente Pinto, a 10.2.1861; 11. Rafael Clemente Pinto a 30.6.1863; 12. João Clemente Pinto, a 3.12.1865.
Descendia o jovem de família de recursos, pois o pai, vindo do Reino, fixou residência no Rio Pardo, onde constituiu família e lhe nasceu o primogênito., começando a trabalhar para o sustento da mulher e filhos. Ao morrer, em 1866, estava com a vida organizada e, além dos interesses na Casa Bancária de Pradel & Cia, no Rio Grande, era um dos diretores, desde 1859, do Banco da Província do Rio Grande do Sul. Na rigidez dos velhos moldes da educação lusitana, criou e educou todos os filhos, mandando-os estudar à Europa. Cabe aqui judiciosa observação de seu filho Dr. Vasconcelos Pinto: – porque não teria o velho mandado um só de seus filhos para Coimbra, preferindo os outros centros de estudo da Europa? É que seria ele apaixonado miguelista. Outras atitudes suas, como filantropo generoso, levam-nos a apoiar a opinião do grande amigo…
Como era praxe, um dos filhos foi destinado a careira eclesiástica. Assim foi Clemente José. O segundo, enviado para o Colégio Pio Latino-Americano, em Roma. Alfredo, destinado ao comércio, embarcava em Porto Alegre – acompanhado até o Rio Grande pelo Dr. Manoel José de Campos, depois 2º Barão de Guaíba – a 15.12.1863, para Hamburgo, a concluir humanidades e especializar-se na Língua Alemã. De lá passou para Altona, no Schleswig Holstein, a prosseguir nos estudos secundários. Um dia recebe carta do irmão Clemente José, datada em Roma, dizendo que não lhe agradava a vida eclesiástica e pedindo-lhe que obtivesse permissão paterna para uma troca entre ambos. Esta foi obtida e, pouco depois, vemos Clemente José a frequentar o curso de Direito na universidade Católica de Louvain e Alfredo a concluir humanidades em Altona, seguindo para Roma com destino ao Pio Latino-Americano. Na mesma turma dos futuros Príncipes da Igreja Cardeal Arcoverde, Dom Tomé da Bahia e D. Solér de Buenos Aires, ali concluía os cursos de ginásio e arquiginásio e se matriculava no de filosofia da Universidade Gregoriana. Ali diplomado em dezembro de 1874, matriculava-se no ano seguinte, no Curso de Teologia que teve de abandonar dois anos depois, por ter adoecido de grave mal pulmonar, que o atormentaria por toda a vida.
Depois de 12 anos de ausência, ei-lo de volta à Pátria. Como estivesse o irmão mais velho a servir na Comissão de Terras no Campo dos Bugres, hoje a florescente Caxias do Sul, e cuja chefia exercia no momento, para ali dirigiu-se o jovem ex-seminarista e permaneceu por dois anos em rigoroso tratamento pelo Sistema Kneipp. Em 1878 recebia, do ilustre educador Dr. Aurélio Benigno de Castilhos, convite para lecionar no Ginásio de São Pedro, na Capital da Província, de que era diretor e que funcionava na antiga Rua da Ponte, hoje Riachuele, onde está atualmente a Casa do Estudante. Ali assumiu o Dr. Clemente Pinto as cadeiras de Português, Latim e Alemão. Era o início de uma vida de professor honesta, pontual e dedicada, que duraria mais de 40 anos. Em setembro de 1885 adquiria do Dr. Benigno aquele educandário. Achava-se a sua frente quando ocorreu o incidente que resultou em tremenda vaia dos estudantes no Delegado Especial da Instrução Dr. Trajano Viriato de Medeiros. Uma Tropa do Exército foi recebida a pedradas, saindo ferido o Diretor do Ginásio, quando procurava proteger seus rapazes contra a violência da força militar. Ali lecionavam professores do porte de Henrique Duplan, João V. Frankemberg, Luis Laurent Frederico Bieri, Henrique Martins, Horácio Maisonette, Fernando Ferreira Gomes e o sábio Frederico Fitzgerald, que o substituiu na direção do conceituado educandário.
Não menos brilhante foi a carreira do Professor Clemente Pinto no ensino público. A 4.3.1880 o Conselheiro Henrique Francisco d’Ávila, Presidente da Província, assinava sua nomeação de professor interino da Escola Normal, em vaga acorrida pela aposentadoria do professor Francisco de Paula Soares. A 10.3.1885 assumia a direção daquela Escola, que exerceria por muitos anos. A 18.1.1886 pelo Presidente Desembargador Henrique Pereira de Lucena, era nomeado Diretor da Instrução Pública da Província.
A 7.10.1886, em Porto Alegre, na residência de Josino de Freitas Chaves, casava o Dr. Alfredo Clemente Pinto com D. Maria da Glória Vasconcelos Ferreira, nascida a 14.10.1868 em São Leopoldo e falecida em Porto Alegre, a 25.9.1895, filha de Franklin Luís de Vasconcelos Ferreira e de D. Maria dos Anjos Faria. Oficiou o Cônego Joaquim José da Purificação Teixeira, tendo servido de testemunhas Josino de Freitas Chaves e Fernando Ferreira Gomes. Houve desse consórcio, os seguintes filhos nascidos e batizados e batizados todos em Porto Alegre: D. Maria de Vasconcelos Pinto (1ª), nascida a 26.7.1887 e falecida a 27.2.1888; 2. Maria de Vasconcelos Pinto, nascida a 5.12.1888 e falecida a 17.2.1891 em Caxias do Sul; 3. José de Vasconcelos Pinto, nascido a 1.3.1890, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, magistrado, prefeito e parlamentar, casado com D. Luizinha Corrêa da Silva, com sucessão; 4. Luís de Vasconcelos Pinto, nascido a 15.10.1891 e falecido na mesma cidade, a 2.2.1893; 5. Maria da Glória de Vasconcelos Pinto (2ª), nascida a 23.11.1893 e falecida em Santos Dumont (minas Gerais) a 19.2.1935, casada com o Dr. Fernando Prestes de Carvalho, com sucessão.
Em 1890, na confecção das chapas para a formação da 1ª Constituição republicana no Estado, reservara o Dr. Júlio de Castilhos – e disso faria questão de honra – quatro cadeiras aos candidatos católicos. Assim foram eleitos os Srs. Luís Englert, Alfredo Clemente Pinto, João Steenhagen e Francisco de Paula Lacerda de Almeida que assinaram a Carta castilhista de 14.7.1891. Dois pontos de vista na Constituinte defenderam os deputados Clemente Pinto, Álvaro Batista e Heráclito Americano: a sobrevivência do júri e a eleição dos intendentes municipais. Castilhos não queria, mas cedeu. Acontecimentos supervenientes, na vida política do Estado. Mostrariam que quanto à segunda parte ele tinha razão. A serviço da causa católica, escreveu Clemente Pinto interessantíssimos artigos no jornal “A Época”, mantendo, ao lado de Lacerda de Almeida, viva polêmica com “A Federação” e “A Reforma”. Por ocasião da dissolução do congresso Nacional de 3.11.1891, pelo Generalíssimo Deodoro, vários deputados estaduais declararam-se contrários a medida extrema. Entre eles, os Srs. Clemente Pinto, Luís Englert, Heráclito Americano, Marçal Escobar e Francisco Miranda. No Rio haviam assinado o manifesto dos ex-congressistas os gaúchos Borges de Medeiros, Vitorino Monteiro, Alcides Lima, Cassiano do Nascimento, Antão de Faria e Demétrio Ribeiro. Nenhum dos Três senadores – que eram Pinheiro Machado, Ramiro Barcelos e Falcão da Frota – após sua assinatura àquele documento, fosse por solidariedade ao ditador, fosse por afeição pessoal ao generalíssimo, ex-presidente do Rio Grande. Diz-se que, para não assiná-lo, Pinheiro seguira para São Paulo na mesma noite. O protesto dos deputados Luís Englert e Clemente Pinto saiu nas colunas da “A Época”, sob a epígrafo “Alea Jacta Est” (fraseologia: a sorte está lançada).
Em maio de 1898 seguia o Dr. Clemente Pinto, licenciado na Escola Normal, para Santa Maria, em tratamento de saúde. Ali a 14.7 seguinte – escolhera a data da fraternidade dos povos e a da Carta riograndense – fundava o primeiro estabelecimento de secundário da cidade, o Colégio de Santa Maria, o primeiro desse nome, como aprendemos com nosso querido confrade e amigo Dr. Romeu Beltrão, em suas interessantíssimas efemérides relativas àquela cidade, onde passamos tão bons tempos e nosso filho iniciou os estudos primários. Foram ali seus alunos Francisco José Pinto, Mário Ary Pires, Francisco Borges de Oliveira, Cassildo Krebs e outros, que brilharam na carreira das armas, Prestigiado pelo Intendente Francisco de Abreu Vale Machado, começou a funcionar em prédio fronteiro ao Clube Caixeiral. A 15.9.1900 ali ocorria fato Tristíssimo: em imediações de Colégio, um aluno com certeira punhalada feria de morte um colega de classe. Profundamente abalado com o fato, abandona o Dr. Clemente Pinto a direção do Colégio, regressando à capital.
Em 1907 criava o Presidente Dr. Medeiros a Escola Complementar, em substituição à antiga Escola Normal, destinada à formação de professores e convidava para seu primeiro Diretor o Dr. Clemente Pinto, acumulando as cadeiras de Português e de Alemão. Até sua aposentadoria em 1920, quando passou o cargo ao Dr. Alcides Flores Soares, dirigiu o ilustre mestre o importante educandário, hoje denominado “Instituto de Educação do General Flores da Cunha”. Ao aposentá-lo, se expressava o Dr. Medeiros, com justiça aos méritos do Grande educador, homem simples e de vida limpa e honesta como ele. Além de professor particular, que o foi durante toda a vida, lecionou o sábio mestre no Colégio dos Irmãos Gomes, no Seminário Episcopal, no Colégio de Souza Gomes, no Instituto Ginasial de Nossa Senhora do Bom Conselho, Deixou o Professor Clemente Pinto as seguintes obras: “Seleta em Prosa e Verso”, “Leituras Escolhidas”, “Língua Materna” (gramática da Língua Portuguesa) e traduziu do Alemão, além de “Os Mukers” do Padre Ambrósio Schupp S. J., as obras do Padre Sebastian Kneipp “Meine Wasserkue”, “Mein Testament” e “So solt ihr leben”. Cândido de Figueiredo, no prólogo de sua “Gramática Sintética” situa o Professor Clemente Pinto entre os maiores conhecedores da Língua Portuguesa no Brasil, nivelando-o a Ernesto Carneiro Ribeiro, Maximino Maciel, Eduardo Carlos Pereira e João Ribeiro.
Um fato que nos foi relatado por seu ilustre filho e que ficou muito divulgado entre os professores da época foi o seguinte, bastando para salientar a importância que dava o austero educador ao problema da moralização dos quadros do magistério: quando houve a campanha eleitoral, em fins de 1907, para substituição do saudoso Presidente Borges de Medeiros, eram candidatos, pela dissidência republicana o Dr. Fernando Abbott e pela situação o Dr. Carlos Barbosa Gonçalves, médico ambos de alto conceito. Durante a renhida propaganda, os chefes políticos do interior haviam-se comprometido pela nomeação de centenas de candidatos ao provimento de vagas nas aulas rurais.
A verdade é que haveria sim curso, mas as coisas se faziam de acordo com a vontade dos chefes municipais e seus interesses partidários. /mas o novo presidente empossado a 25.1.1908, assim não pensava e também nada havia prometido. Seu Secretário do Interior Dr. Protásio Antônio Alves, chama a palácio o Professor Clemente Pinto, Diretor da Escola Complementar, e pede-lhe que aceite a incumbência de percorrer o estado, em comissão de exame dos candidatos. Queria provar que o princípio do “Ensino quem puder e aprenda quem quiser”, que até motivara o fechamento da Escola Normal em 1901, já não prevalecia. As comissões de exame teriam obrigatoriamente três membros, sendo um deles o inspetor escolar ou em sua falta um professor local. Para ter maioria na comissão, subornou o Dr. Clemente Pinto a uma condição: pudesse ele escolher o outro membro. O Presidente que decidira manter a moralização do ensino de qualquer maneira – e não se diga que não o fora durante o longo governo do Dr. Medeiros – aceita e o presidente da comissão indica para integrá-la um nome tão respeitado e austero como o seu: o do Professore Emílio Meyer. Secretariava a comissão o 2º oficial da Instrução Pública Eduardo Marques. O resultado todos sabem: mesmo com a benevolência com que agiu, entre centenas de candidatos houve umas cento e dez aprovações. O primeiro Lugar coube à professora Donatila Glória Koeltzer, filha de um dos mais influentes e combativos chefes federalistas. Teria sido talvez este o maior dentre os grandes serviços prestados pelo sábio mestre a seu querido Rio Grande.
Em 1913, de setembro a dezembro, esteve na República Oriental do Uruguai a estudar a orientação do ensino primário e secundário e a adaptação e recuperação de surdos-mudos, então quase desconhecida entre nós. Chefiava uma comissão integrada pelas alunas-mestras D. Georgina Moritz, que se fazia acompanhar de seu esposo e jornalista Gustavo Moritz, senhoritas Florinda Tubino, Ondina Godoy Gomes e Marieta de Vasconcelos Chaves e o Professor Afonso Guerreiro Lima. A 11.8.1920 o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, então restruturado, recebia em seu quadro de sócios fundadores, o ilustre Professor Clemente Pinto, por indicação dos Drs. Arthur Candal e Florêncio de Abreu. Em maio de 1921 o Ministro da Justiça Dr. Carlos Maximiliano o nomeava fiscal federal junto ao Ginásio de Santa Maria, dirigido pelos Irmãos Maristas.
No fim já o tempo de dedicado educador era tomado pelos cuidados com sua saúde seriamente abalada. Em 1922 viajou para a Europa, a tratar-se em Worishofen, onde já estivera em 1909. Em 1931 mudava-se definitivamente para o Rio de Janeiro, acompanhado de sues filhos Dr. Vasconcelos Pinto, com a esposa e cinco filhos. Ali residiu até 1937, quando seu estado de saúde exigiu o afastamento dos netos e o recolhimento ao Sanatório Valois de Castro em Correias. No dia 21.1.1938 cessavam os longos padecimentos físicos do grande brasileiro, cujo principal característico de vida, salientado por quantos sobre ele escreveram, foi a grande humildade. Sepultado no cemitério local, vieram seus restos, em fevereiro de 1943 para Porto Alegre, onde ficaram inumados, no jazigo da família que é a sepultura 411B (posteriormente 933) no Cemitério de Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Assim assistimos a 6.9.1943 nas festividades da Semana da Pátria, a tocante cerimonia de inauguração de sua herma em frente ao Instituto de Educação, iniciativa de seus antigos alunos, da Liga de Defesa Nacional e do “Correio do Povo”. Suas últimas palavras “Morrer longe de Porto Alegre é morrer duas vezes” bem definem o quanto ele amou sua cidade natal, que deixou pela primeira vez aos 9 anos e onde tanto trabalhou pela educação da mocidade.