Assumindo que a escola é, de todos, o local privilegiado na comunidade de relacionamento social das crianças, é importante que esta atue de forma sistemática, eficaz e preventiva, sendo capaz de promover o sucesso e o bem-estar de todos os que ali passam a maior parte do seu dia. Além da aquisição de conhecimento e competências académicas, as crianças beneficiam se desenvolverem as suas competências sócio-emocionais (Domitrovich, Durlak, Staley e Weissberg, 2017). Estudos sobre programas universais de aprendizagem socio-emocional demonstraram que as crianças que participam da intervenção manifestam melhorias nas competências sociais e emocionais, nas atitudes em relação a si mesmos, aos outros e à escola, no comportamento pró-social e no sucesso académico, bem como na diminuição dos problemas de internalização e de externalização (CASEL, 2013; Durlak et al., 2011; Taylor, Oberle, Durlak, & Weissberg, 2017). Sabe-se inclusivamente que diversos comportamentos de risco (e.g., uso de drogas, violência, intimidação e abandono escolar) podem ser evitados ou reduzidos quando existe um esforço integrado e plurianual no sentido de desenvolver as competências sociais e emocionais dos crianças (CASEL, 2013). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2001) entre 10 a 20% das crianças revelam problemas emocionais e comportamentais que se distinguem dos comportamentos característicos desta fase pela sua frequência, severidade e interferência em diferentes áreas do funcionamento (Campbell, Shaw, & Gilliom, 2000; Egger & Angold, 2006).
As competências sócio-emocionais referem-se à nossa capacidade de reconhecimento, utilização e regulação das emoções, de forma eficiente e produtiva, permitindo uma interação eficaz com o meio e a resolução competente das situações problemáticas (Goleman, 2006). A criança começa por aprender a identificar e a compreender as emoções básicas, pelo que através do reconhecimento de uma emoção irá categorizar e diferenciar a experiência. Assim, torna-se fundamental conhecer o vocabulário emocional e, ainda, compreender as emoções no próprio e nos outros, para que desenvolvam estratégias que a ajudem a regular eficazmente as emoções e a estabelecer relações ajustadas com os outros, desenvolvendo interações que contribuam para o seu bem-estar. As competências sociais e emocionais surgem intrinsecamente ligadas, uma vez que a socialização permitirá a construção de relações colaborativas com os outros, e as competências emocionais, como a gestão das emoções, serão cruciais para uma integração social adequada e de qualidade.
Inicialmente, o “EmocionalMente” foi um projeto pensado para trabalhar a prontidão e transição para crianças do 1º ciclo, incluindo o desenvolvimento de competências cognitivas (atenção, memória, vocabulário, consciência fonológica, entre outras). Contudo, ao longo dos anos da sua aplicação, os seus objetivos foram adaptados de acordo com o modelo CASEL no sentido de desenvolver competências socio-emocionais, em crianças em idade pré-escolar e no 1º ciclo.
Começamos por uma sala de pré-escolar em 2009/2010. Dez anos depois, o EmocionalMente já passou por cerca de 35 grupos de jardim de infância, 11 grupos de 1º ciclo, 2 grupos de A.T.L. e um grupo de professores de 1º ciclo
O programa EmocionalMente fundamenta-se na literatura sobre aprendizagem sócio-emocional que tem vindo a concluir que intervenções educativas de caráter preventivo dirigidas ao desenvolvimento de competências emocionais e sociais, constituem um elemento fundamental na educação de qualidade, potenciador do desenvolvimento global da criança, e que melhoram o seu bem-estar psicológico, ajustamento comportamental e sucesso educativo. Alguns estudos têm ainda concluído que podem potenciar a ligação dos alunos à escola e à comunidade em que estão inseridos, pela integração em práticas escolares e atividades de envolvimento afetivo com o seu grupo de pares e professores. O EmocionalMente é um programa de prevenção, de caráter universal, ou seja, dirigido a um grupo sem sinais de risco individual de integração e complementar aos objetivos da educação pré-escolar, tendo como propósito o desenvolvimento de competências sócio-emocionais.
Neste sentido, pretende-se englobar, além das crianças, os educadores e restantes agentes educativos, assim como os pais e comunidade, como uma estratégia de disseminação do conhecimento e técnicas de promoção sócio-emocional, de modo a que os principais contextos das crianças se tornem conscientes do papel importante destas competências e atuem em consonância, para maior literacia e regulação emocional das crianças, garantindo assim que as mudanças são duradouras.
Os conteúdos estão centrados nos fatores identificados, pela literatura e pela nossa experiência empírica, como os que mais determinam o desenvolvimento e ajustamento da regulação emocional e das competências sociais e relacionais.
Atualmente, as sessões deste programa integram conteúdos do Connect, um currículo de bem-estar sócio-emocional para crianças entre os quatro e os 11 anos, desenvolvido apartir do modelo DNA-V (Hayes e Ciarrochi ) por um conjunto de psicólogos educacionais do Reino Unido: Ducan Gillard, Aoife McNally e Kate Wills, em colaboração com a psicóloga clínica, Louise Hayes. Baseia-se na Terapia da Aceitação e Compromisso e na Psicologia Positiva, bem como Teoria da Evolução, dos Princípios Operantes e da Teoria dos Quadros Relacionais (RFT). O modelo surge da transformação dos conceitos destas teorias complexas para processos simples que são mais fáceis de entender e de aplicar para os mais novos. Distingue-se pelo seu caráter proativo e preventivo, através do desenvolvimento de competências psicológicas que potenciem a sua resiliência, bem-estar e vitalidade, mas que pelo caráter clínico dos conteúdos das sessões, poderá também ajudar crianças que já tenham problemas psicológicos. O objetivo principal da aplicação deste modelo é a promoção da flexibilidade psicológica e está dividido em temas correspondentes aos seis princípios do bem-estar (comportamentos que melhor predizem o bem-estar psicológico e a felicidade):
Exercício,
Cuidado Pessoal,
Dar aos Outros,
Conexão,
Desafio e
Presença.
As personagens que guiam o desenvolvimento das competências ao longo das sessões são:
o D (Descobridor – representa os comportamentos de exploração e de descoberta do mundo),
o N (Notador – permite-nos estar atentos ao que se passa em nós, nos outros e no ambiente à nossa volta, no momento presente)
e o A (Aconselhador – metáfora para a forma como os humanos usam a linguagem e a cognição),
todos estes orientados pelo V (Valores – aquilo que é importante para cada um de nós).
São ainda abordados o contexto social (envolve a capacidade para nos colocarmos no papel do outro e cultivar múltiplas perspetivas flexíveis) e o contexto do “eu” (envolve a capacidade para nos vermos a nós próprios em diferentes contextos – eu, observador, aqui, a ver-me a mim mesmo como participante no contexto, por exemplo).
Identificação e compreensão das emoções básicas
Características, competências e valores
Aceitação e mudança
Pensamento crítico
Criatividade
Empreendedorismo
Proatividade
experiência (estar com a emoção - estratégias atencionais)
expressão (regular o meu comportamento)
Empatia
Compaixão
Gratidão
Gentileza
Respeito
Comunicação positiva
Colaboração ativa
Responsabilidade
Resolução de conflitos
Desenvolver competências de identificação, diferenciação e regulação emocional;
Aumentar o reconhecimento da influência de emoções e de pensamentos no comportamento;
Desenvolver e promover o recurso a estratégias adaptativas de regulação emocional (e.g., aceitação, autocompaixão);
Estabelecer relacionamentos saudáveis e gratificantes com os outros, desenvolvendo atitudes de empatia, compaixão e compreensão pelo estado emocional do outro;
Promover o processo de escolha de comportamentos conscientes e ajustados ao contexto;
Contribuir para o sucesso educativo, bem como a integração e coesão escola-família-comunidade.
O programa é, na sua versão base, aplicado em 12 sessões experienciais de 45 minutos para cada grupo/turma de crianças integradas em contexto letivo (pela necessidade de presença ou caso esta não seja possível, articulação com o Professor Titular/Educador de Infância).
São ainda propostas atividades de cocriação com a família para consolidação das aprendizagens sócio-emocionais; e sessões de debate para os pais e comunidade educativa sobre as necessidades sócio-emocionais identificadas.
A implementação pode ser feita com um intervalo semanal, quinzenal, trissemanal ou mensal, de acordo com a disponibilidade.
Em cada sessão são desenvolvidas dinâmicas de grupo, ajustadas ao nível etário, através da exploração de um livro ou história, seguida de uma reflexão conjunta, acompanhada jogos, atividades de grupo expressivas e criativas (oralidade, dramatização e desenho) com o intuito de consolidar os temas abordados. É também desenvolvida uma tarefa de caráter individual, levando cada criança a refletir nas suas experiências de vida. Em algumas sessões é ainda atribuída uma tarefa sobre os conteúdos da sessão para os alunos realizarem em casa em conjunto com a família, valorizando a perspetiva dos alunos e das suas famílias sobre os seus próprios interesses e necessidades.