BIOGRAFIA RESUMIDA DE EUGÊNIA DUTRA HAMANN
No ano de 2016, a professora historiadora e, à época pós-doutoranda em História, Ana Paula Vosne Martins, visitou nossa escola com o intuito de pesquisar sobre a vida de Eugênia Dutra Hamann. Tínhamos apenas, uma página com pouquíssimos detalhes e cópias xerográficas de algumas fotos de Eugênia e seu marido Christian. De posse desse material, a professora Ana partiu em busca de material complementar e o Ensaio, intitulado “Uma mulher difícil de ser convencida: Eugênia Hamann e seus caminhos cruzados do feminismo e da filantropia” nos foi gentilmente enviado pela professora.
Aqui fica o nosso eterno agradecimento, pois sem esse material, continuaríamos sem conhecer a história dessa extraordinária mulher.
Eugênia Dutra Hamann foi uma mulher forte, determinada, “difícil de ser convencida” e visionária muito além de seu tempo, que soube aliar a filantropia aos ideais feministas, como vocês poderão constatar nessa resumida biografia da mulher que dá nome à nossa escola.
Eugênia nasceu no ano de 1881, em Minas Gerais, filha de Joaquim Antônio Dutra (médico, vereador, deputado e prefeito de Leopoldina _ MG, e juiz de paz) e de Eugênia Murgel Dutra (mulher culta que dominava diversos idiomas). Eugênia Dutra Hamann não frequentou escolas formais, como era muito comum naquela época, recebendo educação em casa. A formação erudita de seus pais foram essenciais para que Eugênia também se tornasse uma mulher culta, interessada em temas variados, leitora em diversos idiomas, apaixonada pela literaturas francesa e inglesa, tradutora de artigos em inglês e espanhol para a revista Rotary Club do Rio de Janeiro.
Em dezembro de 1900, Eugênia casou-se com Christiano Otto Heyn Hamann (1879-1943) e dessa união nasceram cinco filhos, sendo que dois deles morreram prematuramente.
Christiano era um homem de negócios, trabalhava com exportação de café e devido a seus compromissos entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, a família Hamann mudou-se para esta cidade, possivelmente, ainda na metade da década do século XX. O casal viajava a negócios constantemente para outros países. Nestas viagens Eugênia tomava conhecimento das revoluções feministas que estavam ocorrendo, a luta das mulheres pelo direito ao voto e pela igualdade de direitos junto aos homens, assim como observava as desigualdades e misérias do povo em geral e, especificamente, aqui no Brasil.
No Rio de Janeiro, Christian tornou-se sócio do Rotary Club, uma instituição internacional, com sede nos Estados Unidos, composta por homens de negócios e profissionais liberais, na qual era vedada a associação de mulheres, a elas só sendo permitido ingressar no clube em ocasiões festivas; nunca podiam participar de reuniões. (isso somente veio a ser permitido a partir do ano 1989). Esta situação de impedimento sempre incomodou Eugênia que passou a escrever cartas de protesto e questionamentos, publicando-as em periódicos (jornais). Em uma sequência dessas cartas, Eugênia entrou em embate com o rotariano João Pacheco Moreira, que tentou convencê-las a aceitar as razões pelas quais as mulheres não podiam associar-se ao Rotary Club. Nestas cartas fica claro o posicionamento vanguardista de Eugênia quanto aos direitos das mulheres em todos os setores.
Essa relação entre esposas de rotarianos possibilitou a Eugênia conhecer mulheres das classes predominantes, detentoras de recursos econômicos que lhe permitiam por em prática os ideais filantrópicos, uma das marcas de sua personalidade.
No início da década de 1930, Eugênia começou sua atuação feminista fazendo parte da presidência da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) e do Conselho Nacional de Mulheres (CNM). Também participou ativamente da Ação Cristã Feminina (ACF - fundada em 1920, apesar da denominação, não tinha vínculos religiosos), filial brasileira de um movimento internacional de apoio e proteção para jovens trabalhadoras, oferecendo, dentre outros benefícios, cursos profissionalizantes.
“A trajetória de Eugênia é reveladora, portanto, das trajetórias de outras mulheres e das associações que criaram e da qual participavam, como a ACF, a FBPF e o CNM, não coincidentemente criadas na mesma época e com as mesmas finalidades: trazer para o debate público a desigualdade de gênero, defender os direitos civis e políticos das mulheres, criar condições para que as mulheres, especialmente as meninas e as jovens, tivessem acesso a uma educação de qualidade que as preparassem para ingressar no mercado de trabalho e conquistar a independência financeira, o que para a sociedade brasileira dos anos 1920 e 1930 não era pouco.” (Ana Paula Vosne Martins).
Eugênia também se insurgia sobre as hipocrisias sociais vigentes na época. Ela escrevia para o periódico dos Diários Associados, o Jornal, na seção “Para a Mulher do Lar”, que também trazia artigos sobre os movimentos feministas escritos por outras lideranças da época. Em certa edição, Eugênia escreveu a “Cartas sem endereço”, endereçada a “uma amiga”. Nesta carta, Eugênia expos a situação de abandono em que uma certa “senhora da sociedade” jogou sua empregada doméstica, que havia engravidado do filho da patroa. Na carta, Eugênia questiona de modo enfático a moral vigente da época, que protegia os homens e lhes perdoava todos os arroubos, relegando às mulheres todas as culpas e castigos. Tal procedimento, tal “rebeldia” era incomum para mulheres daquela época. Para Eugênia era inadmissível que as próprias mulheres contribuíssem para aquele padrão moral.
A partir de 1934, Eugênia passou a participar mais decididamente na filantropia, ajudando a criar o Serviço de Obras Sociais - SOS (instituição assistencial inovadora, fundada pela iniciativa e algumas enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde com o apoio de filantropos, médicos e rotarianos), permanecendo em sua diretoria até o amo de 1962. O SOS atendia a diversas demandas, tais como: consultas médicas, passagens, medicamentos, radiografias, fornecimento de sopas para pessoas carentes. Posteriormente foi fundada a Vila SOS, para abrigar famílias desalojadas e sem teto. Também havia a Escola SOS para a educação doméstica das meninas; a organização de um centro de recreação infantil, no qual as crianças ficavam durante a jornada de trabalho dos pais; e um Abrigo Maternal (idealizado e criado em 1947 pelo médico pediatra e puericultor Martagão Gesteira) para atender mães abandonadas, especialmente as solteiras.
O SOS antecipou algumas das políticas assistenciais para a família, formuladas pelo Estado Novo e também da Legião Brasileira de Assistência, criada em 1942.
Em decorrência dos relevantes serviços sociais prestados, Eugênia foi convidada pelo Ministro Gustavo Capanema a integrar o Conselho Nacional de Serviço Social, criado em 1938, para analisar as solicitações de recursos para as instituições privadas de assistência social e também fiscalizar a prestação de contas dos serviços.
“A atuação de Eugênia na assistência social esteve, portanto, bem distante da imagem estereotipada da ‘senhora de sociedade’. Sua trajetória biográfica revela uma articulação bem sólida entre suas ideias feministas em defesa da igualdade entre homens e mulheres, das capacidades femininas e da convicção de que os problemas sociais deveriam ser enfrentados não só com a bondade, mas com recursos, projeto, planejamento e conhecimento social. Nesse sentido reivindico para Eugênia Dutra não só as adjetivações de feminista e de filantropa, mas também de pioneira na profissionalização do Serviço social e das políticas assistenciais”. (Ana Paula Vosne Martins).
Eugênia Dutra Hamann faleceu em agosto de 1969.