PENSE UM POUCO EM MIM
O teu cabelo de vento, morena,
Assanhou meu coração.
Cada golpe do teu cheiro
Mexeu comigo, me açucarou.
Dançando em minh‘alma,
Me tirando a calma,
Tento explicar pra este coração teimoso
Que eu encontrei repouso.
Vou minhas asas abaixar.
Tenha dó, pense um pouco em mim,
Não maltrate este peito que ama demais.
Vem e me dá esta boca
Que minha vida está louca
Pra ser tua, meu bem.
PAISAGEM DE AGOSTO
Apaguei a luz da cozinha
O sol estava pra nascer
O agosto traz tanto vento
Um bom tempo de se ver
O vento varrendo
As folhas corri pra ver
Os campos estão verdes
O meu rosto está molhado
A chuva de ontem deixou tudo,
Tudo encharcado.
Agosto não vá embora
Solidão sempre demora
Nem tudo vira palha
Pro vento levar embora
Rabisquei canções numa agenda
Quando vi, estava chovendo
Terna chuva, sobre as páginas
Um poema estava nascendo
Corri para ver
As folhas soltas ao vento
Olho pro vazio,
vazio e cansado,
olho pra mim mesmo
vago e desbotado
Qualquer face é qualquer rosto.
e eu como um general deposto
E tão pouco, pouco
sou eu mesmo, esmo
vivo nessa paranóia
clarabóia de mim mesmo,
Qualquer face é qualquer rosto.
e eu como um general deposto
Num destes dias cinzas
cinzas de mim
tudo é tão pessoal
Não pude rir
de vassouras quais pincéis
pintando a praça
destas pétalas aos meus pés.
Como fosse um pássaro,
corro para casa
e me sepulto numa cama
esta cova rasa.
ME ESPERE NA PORTA
Prepare o café, me espere na porta
Que vamos deixar esta saudade morta.
Quando tudo isso acabar
Eu quero abraçar você.
O cachorro chora no quintal,
As crianças pedem pra te ligar,
Aquele abraço dentro de outro abraço
Tirou-me um pedaço, tá faltando algo,
Tá faltando algo em mim.
Não me contento com as fotos,
A gente gosta de almoçar juntos.
Vídeo chamada não tem perfume,
A bateria acaba antes do assunto
Terminar, terminar.
Prepare o café, me espere na porta
Que vamos deixar esta saudade morta.
Quando tudo isso acabar
Eu quero abraçar você.
Que saudade de ver
Um monte de chinelo na porta,
Crianças no corredor,
Bolo assando no forno.
A fogueira de São João,
E a gente junto se esquentando,
Aquele tio, aquele violão
E todo mundo ali cantando.
Prepare o café, me espere na porta
Que vamos deixar esta saudade morta.
Quando tudo isso acabar
Eu quero abraçar você.
FOGO DE MONTURO
Viu-se um corpo estendido
Naquela estrada caído
O sangue marcando o chão
Pois carregava uma arma
Destas que alguns alarmam
Os livros na sua mão
Pois a notícia corria
Assassinato de dia
Com tiro de capataz
Pôs o fogo no monturo
Que no jornal teve furo
O camponês não tem paz
Fogo na palha da cana,
Cheiro de mel e a usina
Doces que muitos não provam
Na vida, a prova
De uma amarga vida
Vaticinou João Pedro Teixeira:
“Eu sei que o nego vai morrer.
Essa luta vai continuar, mas vai ser abafada.
Vai ficar como um fogo de monturo por baixo.
E quando ele levantar mais tarde,
Aí não tem água que apague esse fogo”
Tentaram calar a voz
Se fazendo de algoz
O camponês viu-se aflito
A repressão foi ousada
Mas não houve retirada
Enfrentaram o conflito
Ficou então a semente
De um homem tão resistente
Na Força dos ideais
Pois viram cada irmão
Querendo libertação
Escravidão nunca mais
Fogo na palha da cana
Mel de purgar, o mais puro
Doce que muitos não provam
Mas hoje renovam
O fogo de monturo.