PARA DIZER, AMOR*
(Para minha esposa, Maria Rita)
Era para ser só um olhar,
mas virou um beijo
que virou um abraço,
que virou mãos dadas,
que viraram juras,
que viraram casa,
que de corpo e alma,
tornou-se vida,
e em nossa vida
nos tornamos quatro,
todos estes fatos
para dizer, amor.
* Poema do Livro "Retalhos" (no prelo).
RETALHOS II *
Minha alma, manta de retalhos,
Que de tão diversa trama
Faz-me ser tão eu, uno, drama.
Sou de restos, de nacos, rasgos.
Vestígios de tudo que por mim passou
E que em minha tessitura se mesclou.
Eu sou muito, de muitos,
Sou vasto, na vastidão dos poemas.
Sou lastro de história, de dilemas.
Sou o paradigma, o tabu,
Sou o não ser alternativa,
Cascalho de muitas tentativas.
Minha alma é minha, rara.
Tão rara que nem a conheço,
Tão retalhada, que nem me reconheço.
Sou o “eu” de retalhos, porque sou vário,
Em minha alma incompleta,
Que se refaz nos versos de um poeta.
* Poema do Livro "Retalhos" (no prelo).
HOTWHEELS *
(Para Renato Lucas, meu filho)
Jaz em um pote de plástico
A frota que manobrava.
Jaz a primeira palavra
E a primeira melodia.
Os carrinhos olham tristes
O condutor a crescer,
Um mundo alvorecer,
Coisas que não conhecia.
Um deles disse-me assim:
- Porque não mais me procura?
Notei que até a doçura
De sua voz está mudada.
Livros e outros brinquedos,
Computador, celular.
Não pensa mais em brincar
Co’este velho camarada.
Outra vez observei,
Um dos carrinhos olhava
Aquele que folheava
As páginas de um caderno.
Chorou o velho “hotwheels”
Vendo aquelas mãos crescidas,
Das brincadeiras antigas.
Menino, não és eterno.
Apagou a luz do quarto,
O carrinho ali sem brilho
Disse: um dia teu filho
Pode até brincar comigo.
Mas irei ficar lembrando
Muitas vezes, vezes mil,
Que fui o teu “hotwheels”
Teu brinquedo, teu amigo.
* Poema do Livro "Retalhos" (no prelo).
OLHOS D'ÁGUA
Murmurando no peito
As águas, as mágoas
Turbulentas como redemoinhos
Destravam portais
Selados pelo esquecimento.
Passam pelas rugas cerebrais
Causam rugas faciais
Desmancham o sorriso
Até, por fim, decantar nas pálpebras
Essas emoções náufragas
Feitas em olhos d'água.
* Poema do Livro "Retalhos" (no prelo).
HAICAIS
Do Livro "Retalhos" (no prelo).
As folhas passeando
pelos ventos alforriadas.
Pairo observando.
Não foi por acaso
que nós perdemos o ocaso.
Beije-me de novo.
Diga-me, “aripuá,”
que deste botão esperas?
– Minha prima, Vera!
Ouço no relógio
um conta-gotas e paro.
Quantos pingos caros!
Na caixa, delitos
(uns ditos, feitos, malditos)
que serão maus ditos.
Pois parte o sol, manso,
a deixar seres bisonhos
mergulhar em sonhos.
Disse sem carinho:
afaste-se pecador!
E pecou sozinho.
HAICAIS