Lembro com saudade das minhas aulas em Guarabira, na Universidade Estadual da Paraíba, fase da minha vida onde experimentei e adquiri muitos conhecimentos. Em uma destas aulas um professor parou seu monólogo explicativo para expressar o quanto estava revoltado com seu filho. Ele pedira ao jovem para levar um velho ventilador de teto de um certo cômodo da casa para a dispensa e, desengonçadamente, o rapaz saiu transportando o objeto, as hélices raspando as paredes recém pintadas. Segundo o mestre, foi uma trapalhada só.
Concluiu o nobre professor que o seu atrapalhado ajudante é fruto da "geração" que não atirou pedras nas mangas, não fez carrinho de lata, que não subiu em árvores, estas atividades que treinam a coordenação motora. Pois bem, além de engraçado para mim, deve ter sido embaraçoso para o filho do professor.
Lá pelos idos 1996, estudava na Senador Humberto Lucena. Tínhamos gincanas, festas e aulas de educação física no campinho, uma beleza. Numa destas gincanas, tínhamos que apresentar uma atividade relacionada a música (dançar, cantar ou tocar um instrumento). Eu adorei a ideia, pois quem me conhece sabe o quanto, naquela época, eu já era apaixonado pela música.
Estava no auge, a banda de rock “Mamonas Assassinas”. Um prato cheio para a gincana. Música e humor em um só pacote. Lembro que formamos um grupo de cinco, todos amigos frequentadores do campinho por trás da escola. Conseguimos uma fita K7 da banda e partimos para os ensaios. Mas, faltava uma coisa: quais instrumentos poderíamos usar, afinal, nossa condição financeira estava longe de poder adquiri-los, e por outro lado, nenhum de nós sabia tocar instrumentos.
Botamos a cabeça para funcionar e, graças as pedradas nas mangas, aos carrinhos de lata da montadora “quintal & cia”, tínhamos habilidade suficiente para fabricar uma bateria de lata. E, diga-se de passagem, foi o único instrumento que emitia som, além de nossas vozes, claro. O contrabaixo, a guitarra e o teclado não passavam de elementos cenográficos construídos com restos de móveis velhos e outras coisas descartadas que fomos encontrando. Enfim, montamos a “Sucata Musical”, ganhamos a prova e foi um sucesso em dois anos consecutivos.
Daquele grupo, apenas eu segui na empreitada da música. Mas, antes de estudar o violão e os demais instrumentos que me arrisco, ainda construí outra bateria de lata, bem mais elaborada, cheia dos apetrechos de uma bateria de verdade, com todos os mecanismos de funcionamento.
Segui uma “sólida carreira” com a sucata musical: montava a bateria sobre o barranco do terreno em frente a nossa casa e com a ajuda de um garoto da Rua Ana André de Carvalho, tocávamos de Raul à Axé Music. Sobre o barranco, víamos as pessoas passarem lá em baixo. Outros meninos se achegavam para ver a nossa “jam session”. O som subia a ladeira e no outro dia ainda me perguntavam: vocês estavam tocando ontem?
Que estímulo maravilhoso recebemos da escola e que escola foram as horas gastas na confecção dos nossos brinquedos. Hoje, pelo menos, sei montar alguns móveis e fazer pequenos reparos, embora morra de preguiça para realizar tais tarefas.
De vez em quando, olho para parafernália do meu filho: carrinhos, bonecos, videogame e Tablet. Fico preocupado. Será que conseguirá montar seu armário quando casar-se, pelo menos ajustar um parafuso aqui, bater um prego ali, serrar um troço qualquer acolá?
Quando criança, mesmo tendo alguns carrinhos de plástico, confeccionei alguns de lata para mim. Desmontei um velho sofá-cama da minha mãe e transformei-o numa sinuca com bolinhas de gude. Enfim, treinava inconscientemente coisinhas para os meus afazeres no futuro. Que lições! O professor cutucou nossa memória.
Felizes são os aprendizes das coisas da vida. Quanto mais nos contorcionamos para sobreviver, mais sabemos como se vive.
*Esta crônica fará parte de um livro (em processo de escrita).
A rua era de barro, na verdade, uma ladeira fincada entre uma fileira de casas e um largo terreno elevado onde se praticava a agricultura. No barranco, uma cajazeira e outras árvores, onde sob o ocaso, as cigarras entoavam seu estridente canto numa sinfonia uníssona.
Era a ladeira mais alegre que vi. Descíamos de bicicleta, corríamos, cantávamos. Quando os estudantes saíam da Humberto Lucena – escola que ficava à sua margem, na cabeça da ladeira – aí que era bonito. A rua ficava pintada de gente de vários lugares. Manhã e tarde dos estudantes, fardas brancas e o som daquele “converseiro”, assim como as cigarras.
Voltando ao fim da tarde, lá em casa, a TV de tubo, 14 polegadas, sintonizava a programação da TV aberta. Lembro de meu pai pedindo-me para atirar uns gravetos nas árvores do outro lado da rua na tentativa de calar umas cantoras que ali ficavam. Como já disse, eram as cigarras, as vizinhas que incomodavam fazendo seu festival. De fato, era de doer nos ouvidos e atrapalhar o que assistia-se.
Sete e tantas da noite, depois da Escolinha do Professor Raimundo (seriado da Globo protagonizado pelo mestre Chico Anísio), estávamos prontos para subir a ladeira da Rua Manoel de Sales, em direção à outra rua, estava na hora do esconde-esconde e outras travessuras na Rua do Fogo. E ficava lá, a ladeira sob a luz amarela dos postes, na espera de mais conversas e mais sorrisos, mais cigarras.
A ladeira fora aterrada para construção da nova escola, foi pavimentada com calçamento e agora o asfalto cobre seu leito. Ganhou um canteiro, bancos de praça, postes com luz de Led. Está mais brilhante, macia, sem aquela “poesia” empoeirada de uma paisagem bucólica, mas ainda é um excelente lugar para correr, brincar, conversar, cantar. A pergunta que me faço perante tais “evoluções” é a seguinte: onde estão aqueles protagonistas do show da rua? Onde foram parar as crianças da ladeira?
Onde estão os pais destes meninos e meninas, porque eles não pedem para jogar gravetos nas antenas dos provedores de internet?
Sobrado, 22 de junho de 2022