Cabala, Ecologia e Etnografia do Sagrado: conhecendo o Mistério do Sertão
A Ecospiritualidade no Sertão parte do pressuposto de que os fenômenos vivo-culturais são sistemas abertos, não lineares, marcados pela emergência e pela coparticipação de quem observa. É o que Edgar Morin chamou de paradigma da complexidade: uma exigência de integrar diferentes saberes — teológico, ecológico, antropológico — em vez de isolar variáveis à parte de seus contextos. Essa mesma sensibilidade orienta a compreensão da vida como redes de relação em múltiplas escalas, na linha do que Fritjof Capra descreveu como pensamento sistêmico, para o qual o comportamento de um todo não se reduz à soma de suas partes. A Ecologia Profunda, formulada por Arne Naess, complementa essa base ao propor uma relação não instrumental entre o ser humano e a natureza — o ecossistema como parceiro da experiência ritual, não como cenário.
As estruturas dissipativas descritas por Ilya Prigogine oferecem, por sua vez, uma ferramenta analítica para compreender como práticas coletivas — o ritual, o canto, o silêncio compartilhado — organizam a experiência de um grupo ao longo do tempo, em condições longe do equilíbrio. As ciências noéticas, tal como cultivadas pelo Institute of Noetic Sciences, investigam estados de consciência, atenção e experiência interior por meio de métodos empíricos reconhecidos — questionários validados, psicofisiologia, entrevistas estruturadas — e é nesse escopo que o projeto se inscreve.
O eixo metodológico central da expedição, no entanto, é a etnografia e a fenomenologia do ritual. Victor Turner, com seus conceitos de communitas e liminaridade, Mircea Eliade, com sua reflexão sobre o espaço sagrado e a hierofania, e Thomas Csordas, com a noção de embodiment, oferecem o arcabouço para compreender como uma comunidade produz e vivencia o sagrado em lugares específicos — exatamente o que a expedição realiza ao levar o ritual marrano-cabalístico a cinco biomas do Nordeste brasileiro. A esse eixo soma-se a psicofisiologia do ritual: há hoje literatura consolidada sobre como práticas contemplativas e rituais coletivos alteram marcadores como a variabilidade da frequência cardíaca (HRV) e a respiração, evidenciando estados de atenção e regulação emocional que podem ser documentados com rigor.
Combinando esses fundamentos, a expedição percorrerá cinco ecossistemas — sertão, caatinga, mata atlântica, agreste e litoral — realizando em cada um deles uma sessão de observação da linha de base ambiental seguida de uma sessão ritual documentada. O registro será multimodal: dados ambientais (temperatura, umidade, vento, luminosidade, ruído, geolocalização) para caracterizar cada sítio; dados psicofisiológicos (frequência cardíaca, HRV e, opcionalmente, eletroencefalografia de consumo) para documentar os estados dos participantes; diários de campo estruturados, entrevistas semiabertas e escalas validadas de absorção e estado de consciência para o registro fenomenológico; e vídeo, áudio e fotografia como material documental e de divulgação.
O desenho da pesquisa segue um protocolo padronizado por sítio, com amostragem repetida de ao menos três dias por local, consentimento informado de todos os participantes para a coleta de dados fisiológicos e entrevistas, e compromisso de registro aberto — o diário científico-místico da expedição será publicado, e os dados ambientais e fisiológicos disponibilizados de forma anonimizada. A análise combinará leitura qualitativa e temática das entrevistas e diários com análise estatística descritiva e de séries temporais dos dados fisiológicos e ambientais, buscando caracterizar — não provar de forma extraordinária — a relação entre as fases do ritual e os marcadores de experiência coletiva.
O valor da Ecospiritualidade no Sertão não depende de demonstrar o indemonstrável. Ele está em produzir o primeiro registro sistemático e multimodal de como uma comunidade marrano-cabalística vivencia o ritual em cinco biomas nordestinos distintos — um material inédito para os estudos de religião, ecologia espiritual e antropologia da experiência, e uma contribuição concreta ao patrimônio intelectual e espiritual do Beit HaSod.
A direção do Beit HaSod produziu um "Manual de Campo" que será entregue as participantes da expedição, detalhando todas as fases e procedimentos metodológicas para a coleta de dados no processo da pesquisa, incluindo seções operacionais: papéis da equipe, sequência por sítio, protocolos detalhados para cada tipo de registro (ambiental, psicofisiológico, fenomenológico, audiovisual), etc.