sussurros ancestrais
LIVRO UM DA SÉRIE ECOS DE NYZOREN
PRIMEIROS CAPÍTULOS
LIVRO UM DA SÉRIE ECOS DE NYZOREN
PRIMEIROS CAPÍTULOS
Já estávamos há dias naquelas ruínas. E, pelo assentamento que nosso grupo havia montado, não partiríamos tão cedo. Pinheiros-brancos e lariços espessos e altos nos rodeavam, pequenas gotículas brilhantes de chuva se reunindo em suas folhas delgadas. Colunas e paredes degradadas de calcário e mármore, já tomadas por lodo e vegetação rasteira, jaziam caídas e arruinadas ao longo do lugar. A garoa constante não ajudava em nada contra o frio.
Deuses, o frio. Mesmo com esse tanto de árvores a nossa volta, parecia que nada bloqueava o vento. Quando reclamei, o professor começou a me dar uma aula sobre como o vento frio vinha do continente glacial do sul. Algo sobre massas de ar? Minha mãe simplesmente me repreenderia por eu não ter trazido um agasalho a mais.
A noite já se aproximava, e os mercenários e trabalhadores da caravana se moviam para terminar de iluminar o perímetro do acampamento com os Sóis-Guia o mais rápido possível, como faziam toda noite.
Eu realmente não sabia quando me acostumaria com as noites fora das muralhas. Ou se sequer me acostumaria em algum ponto. Eu via os olhares das pessoas daqui todas as noites. Ninguém falava nada, mas a apreensão era palpável entre todos eles. Imaginei se eu também viveria assim pelo resto da vida, controlado pelo medo dos perigos noturnos, ponderando se chegaria ao próximo dia com vida.
Bem, não era como se fosse uma surpresa. Na teoria, ensinavam-nos sobre tudo nas escolas: como sobreviver mundo afora, a Grande Guerra, a Ruptura, como manter os Etéreos que dominavam a noite afastados...
“Regra número um da Égide da Manhã: sempre carregue uma fonte de luz!”, costumava repetir a senhorita Brook.
Mas presenciar era... diferente. Nada nos deixava realmente preparados para essa sensação. Para a aparência das criaturas, decrépitas e cheias de membros e olhos. Seus cheiros...
— GAROTO!
Vinda de mais ao fundo do assentamento, a voz áspera do professor Darius me tirou de meu transe. Ele havia me encarregado de ser seu assistente pessoal, após descobrir que eu era o aluno mais promissor de minha sala. E, sem querer me gabar, eu era.
O professor Darius era um velho... excêntrico. E solitário. Ouvi que gastou toda a fortuna procurando por relíquias velhas ao redor do mundo. Eu não entendia muito bem, e hesitei em aceitar o trabalho que ele me ofereceu, mas com o salário que eu ganharia sendo seu assistente, talvez eu pudesse tirar a mamãe e o papai daquela vila acabada e levar eles para dentro de alguma Cidade Murada. Finalmente viveríamos com alguma dignidade.
Fui em direção ao grito, abarrotado de velharias que ele me mandou buscar. Pedaços de giz, bugigangas de metal e papéis estranhos.
— Está atrasado. Esperava que estivesse aqui segundos antes! — Ele disse, conforme eu chegava aos tropeços devido ao peso. — Que seja. Estamos prestes a mudar o mundo, meu rapaz!
Olhei ao redor. Para mim, não havia nada de diferente nessas ruínas se comparada às outras cinco que visitamos nos últimos três meses. Pilares de mármore cobertos de videiras, torres soterradas, pedras com símbolos estranhos e murais com figuras que eu só lia sobre nos livros que ficavam abandonados na minha antiga escola.
Mas essa era diferente, o professor havia dito.
— Rápido! Dê-me a relíquia-chave de Bluecoast, número 27.
Encarei-o em silêncio, piscando em dúvida.
— É o livro revestido em obsidiana que... — ele olhou para mim, minhas mãos e costas ocupadas de tantas coisas. — Esqueça. Deixe que eu pego. Deuses, garoto! Precisa saber se virar nessas horas!
Ele enfiou a mão na mochila que eu trazia, e tirou de lá um livro estranho e velho, tingido completamente de preto e com uma capa que parecia ser de rocha.
À frente dele, o objeto de seu estudo, estava um tipo de tumba, parecida com algumas que ele abriu em expedições anteriores. Na parte frontal, ficavam diversos círculos de pedra com símbolos esquisitos e de materiais estranhos.
Ele abriu o livro, e eu pude jurar que o vento já congelante havia esfriado ainda mais durante um breve momento. Olhei ao redor, e percebi que a noite já chegara. Os mercenários estavam de prontidão, e eu agradeci por não estar imediatamente perto da escuridão. Ainda era difícil encarar os olhos das criaturas que vagueavam pela noite.
O farfalhar de folhas de papel do livro trouxe minha atenção de volta. Após revirar as páginas como se já soubesse onde estava o que procurava, o professor começou a ler.
— Aqui, meu garoto! Depois de décadas, finalmente! — Ele olhou para mim com um sorriso inocente, e sorri em resposta.
Ajeitei o peso que eu carregava no chão, enquanto ele começava a mexer nos círculos, girando-os conforme parecia ajeitar as figuras e símbolos.
De repente, após algumas tentativas, um clique.
Os círculos começaram a girar por conta própria, rapidamente e parecendo mudar a cor da tumba, que já começava a parecer não tão velha conforme a poeira e o lodo saíam dela. O professor e eu sobressaltamos com o movimento súbito.
Quando os círculos pararam de se mexer, ouviu-se outro clique, e a placa de pedra que bloqueava a tumba deslizou para a lateral, revelando o conteúdo.
Era um... cetro de madeira?
Não, não era exatamente madeira. O cabo era cor de bege, semelhante ao marfim, e parecia ser bem delicado. Ele se estendia com decorações intricadas e adornos ressaltados até chegar ao topo, onde uma joia verde perfeitamente redonda reluzia. Ondas de uma tênue luz roxa pareciam dançar dentro da gema.
Era simples. Mas também... belo. Estonteante.
O professor estava boquiaberto, até que voltou aos seus sentidos.
— Pelos deuses, pelos espíritos e por tudo que há nessa terra, garoto. Finalmente o achei. Fique aqui. — Ele se levantou, dirigindo-se até a mesa de estudos dele. — E não encoste em nada. Preciso pegar algo para contê-lo adequadamente!
O vento forte havia se acalmado. No lugar dele, apenas uma leve brisa assobiava e agitava as folhas das árvores. O frio, no entanto, parecia ter se intensificado.
Tão frio... e o cetro parecia emanar um calor agradável. Como... o abraço de uma mãe.
Liberte-me.
Ele falou comigo. Uma voz amigável, familiar. Sofrida. Como se estivesse preso e passando frio, assim como eu. Que mal faria apenas tocá-lo?
Calor. Liberdade.
Quando dei por mim, minha mão já estava no objeto. Era... quente. Atrás de mim, alguém gritava. Professor... qual era mesmo o nome? Não importava.
Olhei ao redor. O acampamento brilhava demais com as luzes dos Sóis-Guia. Do lado de fora, na escuridão, os Etéreos tentavam entrar. Seus olhos eram... familiares. Não mais me assustavam.
Luz demais. Dor.
Sim, havia luz demais.
Com um leve abano do cetro, as luzes se apagaram. Bem baixo, ouvi caos. Gritos familiares. Gritos tão distantes. Quem eram?
De repente, escuridão total. Pude sentir aquelas criaturas se aproximando, farejando, dilacerando, caçando. Algumas se aproximaram de mim. Aqueles olhos... eu os conhecia. Eram meus amigos. Minha família. Meus filhos.
O cetro falou de novo.
Fraco demais.
Foi a última coisa que ouvi antes de apagar.
Já ouvi dizer que humanos eram mais suscetíveis à dor do que nós. Os gritos do homem definitivamente davam credibilidade à teoria.
— Céus, eu mal encostei em você — falei ao homem, que ofegava do lado dos vasos de porcelana quebrados com o impacto de seu corpo, o sangue recente manchando a barba recém grisalha.
— Você... — O mercador se esforçava para colocar as palavras em ordem. — Você não sabe com quem está se metendo, mulher. Se... se eu disser algo, eu já estou morto.
— Certo. E por algum acaso eu dou a impressão de que estou aqui para fazer o contrário?
Peguei o homem pelo colarinho e o levantei, jogando-o em cima da bancada já envelhecida da recepção da lojinha de penhores. Eu não soube dizer se o estalo que ouvi foi de alguma pobre vértebra ou de algum fragmento de madeira.
— Porque eu, aparentemente, não estou sendo nada além de amigável, não é? — Desferi outro golpe em seu nariz, já desfigurado. — Que tal o senhor se preocupar com a ameaça mais imediata, hein?
— P-por favor...
Interrompi-o com outro murro. Joguei-o no chão novamente e me agachei próximo a ele.
— Vou perguntar de novo. Hastur esteve aqui. E, pelo visto, com informações sobre uma carga tão valiosa que até mesmo a ilustríssima majestade de Lodrus tomou interesse. Agora, ninguém sabe como o maldito se parece, então você vai me contar. Ou...
Segurei seu pescoço com meu antebraço e, com um clique, uma lâmina escondida surgiu da parte de baixo do meu pulso, me cortando levemente no processo. Conduzi-a ao longo do corpo do homem, começando pelo peito e descendo até as partes baixas da cintura, colocando um pouco de pressão conforme descia.
Os olhos do homem começaram a lacrimejar, e seu olhar se alternava nervosamente entre minha lâmina e meu rosto.
— Eu... eu sou só um intermediário, eu juro! Ele queria que eu marcasse um encontro entre ele e um agente do Imperador. Por favor, senhora, eu...
Ele mesmo se interrompeu, quando eu pressionei minha lâmina a ponto de tirar sangue, uma fina linha vermelha escorrendo de seu quadril e percorrendo o gume afiado até chegar à empunhadura.
— Onde? — Ordenei.
— No Festival de Primeira Aurora, no Distrito Central. Ele falou que seria uma boa ideia, já que todos estariam mascarados e...
Recolhi minha lâmina e dei outro golpe em seu rosto.
— Vá direto ao ponto. Como ele é?
— E... eu não vi muito. Ele veio encapuzado. Mas eu vi que a pele era bronzeada, como aquele povo estranho do leste. Ele tinha... marcas no rosto. Tatuagens. Os olhos dele... pelo Sol, os olhos dele brilhavam em um vermelho infernal. Como um demônio! Por favor... eu já falei demais. É tudo que eu sei, eu juro!
Tatuagens no rosto e olhos vermelhos. O coitado não parecia estar mentindo, mas as informações pareciam fruto de uma concussão.
Talvez uma que eu tivesse causado.
Levantei-me e, com um último golpe com a perna — dessa vez um pouco mais forte — o desacordei e coletei a pequena bolsa de moedas que ele carregava em sua cintura.
— Nossa causa aprecia a doação, meu senhor.
🌣🌣🌣
Mesmo com o Festival de Nyzor rolando, a periferia de Noitenévoa continuava o mesmo pedacinho do paraíso. É claro, nada glamouroso como o distrito central. Lá, as casas eram decoradas com todos os tipos de parafernálias: fileiras de bandeiras coloridas, balões de diversas formas, pinturas de criaturas míticas. O povo se vestia com fantasias extravagantes e dançava e cantava ao longo das ruas, tudo para manter a farsa: como se o cenário apocalíptico do lado de fora das muralhas da cidade fosse ilusão; e como se o Império Lodriano não se expandisse cada vez mais.
Aqui continuava tudo na mesma. Era até reconfortante. Conforme o céu se escurecia, tochas fracas e postes maltratados iluminavam as ruas de pedra basalto que desenhavam os caminhos das vielas. As casas, em sua maior parte barracos rudimentares de madeira – mas com algumas mais privilegiadas de pedra argamassada – quase que se empilhavam umas após as outras.
Não é como se o barulho cessasse do centro para cá, ele apenas passava a vir de fontes diferentes. Em um beco à minha esquerda, ouvia-se claramente o barulho de pontapés sendo disferidos em algum pobre coitado. Mais atrás, um bêbado caía sobre uma pilha de alimentos apodrecidos, jogados para fora da taberna ao lado.
Mais à minha frente, um garoto, que provavelmente não passava dos doze, usava uma faca improvisada de vidro para afugentar um par de homens maiores, ambos sujos e maltrapilhos.
Eu cheguei na surdina por trás. Antes que qualquer um dos dois pudesse reagir, um golpe preciso no fígado do primeiro o fez cair vomitando, e um chute na costela do outro o fez se desequilibrar, agonizando.
— Mas que porr... — O segundo chegou a tentar se levantar, mas forcei minha bota em seu pescoço.
— Tsc, tsc. Em que diabo de encrenca você se enfiou agora, Niko? — Perguntei ao garoto, que cuspiu o sangue que se acumulava dentro de sua boca.
— Eu não me enfiei em lugar nenhum, tia Loryn. Eu achei uma moeda de ouro no chão primeiro e esses dois safado disseram que eles viram antes. — Niko se interrompeu para dar um chute em um dos homens caídos — Aí eu saí correndo. Mas eu tava quase enfiando minha faca no bucho dos dois antes de cê chegar. Que nem cê ensinou.
— Esse é meu garoto. E seus irmãos, cadê eles?
O menino direcionou o olhar aos próprios pés e coçou a cabeça. O semblante de sobrevivente transformado em um de uma criança inocente e desconcertada em uma fração de segundo.
— Bem... o Marlo não aguentô, tia. Mesmo com o médico que a senhora mandou. A febre pegou ele, que nem pegou o pai. A Susi e o Garret tão em casa me esperando. Eu falei que ia levar comida pra eles hoje.
Tanto eu quanto o próprio Niko já sabíamos que era questão de tempo. O irmão do garoto não mostrava nenhum sinal de melhora, nem sendo cuidado por Darrion, um dos médicos rebeldes que estava me fazendo o favor de cuidar das crianças.
Mas ouvir da boca do rapaz... por mais que nós nos preparemos, é difícil fazer as pazes com a perda. E, além disso, mortes como essa não eram incomuns por aqui.
— Sinto muito, Niko. Tome, divida com seus irmãos. — Dei-lhe a pequena bolsa de moedas que havia arrumado mais cedo. — E vê se arruma uma faca de verdade. Agora sai daqui, é perigoso por essas horas.
O garoto deu um meio sorriso quando eu lhe entreguei a bolsa e passei a mão na sua cabeça, e sumiu antes que eu pudesse perceber. Se continuasse silencioso assim, poderia ser um bom assassino no futuro.
Não que eu desejasse esse tipo de futuro para alguém, é claro. Às vezes, a simplicidade era uma benção.
Abaixo dos meus pés, me lembrei do homem cujo pescoço ainda estava sob meu sapato, agora inconsciente e com a face completamente arroxeada.
Voltei a minha atenção para onde estava antes. Logo atrás. Três, talvez quatro. Desde que eu saí da loja de penhores onde consegui informações sobre o Hastur, algumas figuras largas e encapuzadas estavam me seguindo, mantendo uma certa distância.
Andei mais um pouco pelas ruas de pedra, adentrando mais e mais as favelas, conforme as estruturas começavam a ficar mais densas e os arredores menos iluminados. Encontrei um beco deserto cuja luz vinha apenas da lua e de fracas lanternas, e virei para a adentrar.
Apoiando-me em algumas saliências, escalei a parede da casa de madeira logo ao meu lado. Em uma tábua que ligava uma casa à outra, pus-me a postos em uma posição de vigilância, aguardando alguns minutos enquanto meu manto negro me mesclava às sombras.
Passado um tempo, três figuras apareceram. Eram três, afinal, embora eu pudesse jurar que em algum momento havia visto uma figura a mais. Duas vieram do lado de onde vim, e a outra do outro lado, em uma tentativa de me cercar. Todos os três com uma das mãos em bainhas, que agora expunham-se por baixo das sobrevestes.
Com um movimento da mão direita, fiz minha lâmina oculta sair de meu pulso. Com a esquerda, saquei minha adaga azerai da cintura. Mais próximos a mim, estavam os dois que entraram juntos. Pelo menos eu poderia finalizar os dois ao mesmo tempo e poupar meu tempo para o último. Era hora de começar a diversão.
Saltei e pousei logo atrás dos dois, meus pés fazendo de pouco a nenhum barulho. A lâmina oculta foi diretamente na jugular do primeiro, e deixei que o outro se virasse para eu mirar precisamente a adaga em seu olho direito, fazendo-a atravessar seu crânio. Ambos caíram antes que o homem mais à frente pudesse sacar a espada.
— Bem... um contra um fica mais divertido, não é? — Tirei meu capuz, revelando meus cabelos esbranquiçados presos em um coque e deixando à vista minha pele de tom azul-céu.
— Puta élfica. Pode tirando o sorrisinho do rosto, vai pagar logo por isso.
— Que cavalheiro. Mas vai segurando a língua, não quero ter que a arrancar antes de descobrir quem mandou você.
— Prefiro perder minha língua do que dar alguma informação para uma rata rebelde que nem você.
— Ah... fico tão feliz que tenha dito isso.
Em um momento, cortei a direção entre nós. O homem era um pouco maior que os dois que matei, isso era perceptível. E usar uma adaga contra a lâmina bastarda do homem era outro desafio. Eu poderia sacar a espada de uma mão que eu carregava em minha bainha, mas...
Um desafio. Era isso que eu precisava para animar um pouco minha noite.
Trocamos golpes durante alguns segundos, comigo evadindo os ataques lentos que vinham em minha direção. Tentei conectar algum golpe em uma área vital, mas a vantagem do alcance dele tornava isso complicado. Continuei me evadindo, até que...
Merda.
Dei pouca importância ao fato de que o homem me fazia recuar, e tropecei no corpo de um dos seus aliados. Saltei para trás, amortecendo minha queda com os braços, mas ainda assim atingindo o chão.
Ele se aproximou rapidamente conforme eu tentava me levantar. Mas já chegava de brincar. Preparei-me para dar uma rasteira e o finalizar com a lâmina oculta assim que ele perdesse o equilíbrio.
Mais perto. Mais perto...
De repente, o homem parou. Eu apenas o observei, até que a parte de sua brúnia acima do tórax começou a se transformar em um forte vermelho. Então, uma lâmina fumegante a atravessou, indo para o lado e dilacerando o homem em quase dois.
Logo atrás, uma outra figura encapuzada estava de pé, retirando a espada avermelhada e abrasadora do corpo com mãos incandescentes. Sangue escorria da lâmina, traçando uma linha vermelha em direção ao chão.
— Eu ouvi dizer que estava procurando por mim — o desconhecido me disse, enquanto retirava o capuz.
Tatuagens no rosto, olhos brilhando em vermelho. Acho que o desgraçado não estava delirando, no final das contas. Ele apenas se esqueceu de mencionar um pequeno detalhe.
— Suponho que eu deva parabenizá-la. E então?
Ele esqueceu de mencionar que o maldito era um Mago.
O céu noturno livre de nuvens revelava a sua beleza em todo seu esplendor. As constelações brilhavam fortemente, e a enorme fenda no céu deixada pela Ruptura há mais de um milênio mantinha-se firme como sempre, uma lembrança constante da arrogância dos mortais. Uma marca ao mesmo tempo fúnebre e bela.
Eu gostaria de poder dizer o mesmo sobre este lugar.
Quanto mais eu adentrava as vielas desses arredores abandonados pelos espíritos, mais eu sentia falta do ar limpo dos desertos de Keranai. Talvez o centro de Noitenévoa fosse levemente menos fétido, mas a devassidão caótica ainda reinava não importasse o ponto da cidade que eu fosse.
Coloquei a mão em um de meus bolsos, tateando um objeto circular. O objeto, um disco vidrado com bordas de cobre, outrora inteiriço e belo, jazia agora estilhaçado, criando milhões de reflexos. Respirei fundo, com a sensação familiar de vidro rachado roçando nos meus dedos me acalmando, afiando minha mente. Me fazendo seguir em frente.
“Foco, Asharan. Você está aqui por um motivo”, pensei.
A mulher que eu estava seguindo, aparentemente, procurava por mim neste fim de mundo — bem, por Hastur. Uma líder rebelde azerai, se minhas informações estivessem corretas. Talvez nossos objetivos estivessem alinhados; e, com sorte, eu obteria informações sobre o que precisava.
“E quando conseguir o que quer, ela morre.” — Uma voz grave e penetrante reverberou em minha mente. Abaddon. Uma sensação repulsiva; com a qual eu desejava não ter sido obrigado a me tornar familiar.
“Silêncio” — retruquei. Eram raros os dias que o demônio decidia me importunar. Mas tais dias, para minha infelicidade, tornavam-se cada vez mais frequentes. Minha cabeça latejou e a marca que tomava meu braço direito e parte do meu pescoço ardeu, como se ele protestasse.
Continuei a seguindo; mas eu não era o único. Três figuras encapuzadas faziam o mesmo, e tive a impressão de que os objetivos destes eram um pouco mais hostis que o meu. Segui-os conforme as ruas tornavam-se cada vez mais densas e mal iluminadas, até que a mulher adentrou um beco, como se ciente de perseguidores.
Os perseguidores cautelosamente se dividiram, e dois seguiram à frente enquanto um circundou até a saída daquele beco, do outro lado do quarteirão. Decidi ir com o desgarrado.
Ao chegar, no entanto, percebi que não havia motivo para me preocupar. Olhei de soslaio pela quina da parede, e vi a mulher e um dos perseguidores — o último deles — em um duelo. Logo atrás, dois dos homens jaziam caídos e ensanguentados.
Até que ela se desequilibrou, tropeçando em um dos corpos.
Se havia um bom momento para me revelar, era agora — afinal, um pouco de teatralidade não fazia mal. Entrei naquele beco, esgueirando-me até o homem, e saquei a minha lâmina. Minha mão ardeu, brilhando e queimando junto com a espada. Transferi minha magia para ela e a cravei na lombar do homem, atravessando-o, e o descosei.
Tentei ignorar a sensação vil quando a espada e a marca em meu corpo pareceram se estremecer de satisfação com o sangue derramado.
À minha frente, a mulher que jazia caída há momentos levantou-se sem fazer nenhum barulho ou esforço, como se já se preparasse para tal. A pele azul como os céus, inerente aos elfos do vento de Epyffon, e o cabelo branco e escorrido, preso atrás da cabeça, eram visíveis na penumbra, assim como as mãos expostas cobertas de pequenas cicatrizes. Seus olhos roxos como um par de ametistas polidas me fitavam, sem nada dizer.
— Eu ouvi dizer que estava procurando por mim — eu disse a ela.
Ela apenas me observou com um olhar que, apesar de inicialmente assustado por uma fração de segundo, agora parecia apenas contemplativo e desafiador. Supus que o papel de intimidador não funcionaria. Tentaria ser cooperativo, então.
— Suponho que eu deva parabenizá-la. E então? — Falei.
— Eu estava planejando deixar esse vivo.
— É uma pena.
— Você é Hastur.
— Perceptiva — respondi, e fiz menção de embainhar minha espada. Pude ver seu pulso se contraindo quando ela segurou a adaga mais firmemente. Levantei a mão vazia em resposta. — Apenas vou guardá-la. — E o fiz. Ela não repetiu o gesto. Era esperto ser precavida, supus.
— Não tenho problemas com você. Ainda. — Palavras provocadoras. Cautelosas, no entanto. — Apenas ouvi rumores de que você veio com a intenção de negociar com o imperador, e quero informações. E você ouviu rumores de que eu o procurava, ou não estaria aqui, então sem os joguinhos onde você se finge de desinteressado.
Direta. Bom.
Mesmo assim, virei minha atenção para o homem o qual dilacerei. Para o que pendia de sua cintura.
— Homens de Lodrus — falei.
— O Império ainda não chegou a Noitenévoa.
Abaixei-me, virando minhas costas para ela em uma demonstração sutil de confiança. Estendi minha mão até o corpo e agarrei o objeto. Um par de grilhões de aço-obsidiana. A magia em minhas mãos enfraquecia ao mero toque gelado do nefasto metal.
— Conhece mais alguém que use estas? — Perguntei à mulher, jogando as algemas para ela. E, de fato, não havia muitos outros que possuíam acesso às minas de aço-obsidiana no continente de Valyoth, muito menos a maneiras de moldá-lo.
Ela apenas observou o item por alguns momentos, guardando-o logo depois.
— E o que você quer com o Império? Não parece exatamente aliado deles — ela falou, indicando o corpo dilacerado com o queixo.
— Não. Realmente, não tenho interesse em me aliar com quem me cace. Cace... meu tipo. E nem Hastur tinha. Ou, pelo menos, foi o que ele deu a entender.
Levantei-me e a encarei, as sobrancelhas brancas franzidas, tentando entender. A esse ponto, supus que não fazia mal ser honesto. Éramos aliados, afinal, apesar de efemeramente. Com um objetivo momentaneamente semelhante.
— Não foi fácil o encontrar. Personificá-lo. Considerando a quantidade de negócios desprezíveis com os quais ele se envolvia... — O olhar confuso da elfa sumiu lentamente, dando lugar ao de esclarecimento. — O fato dele ser tão reservado ajudou. Não foi reservado o bastante a ponto de eu não o encontrar, no entanto. Ou não seria uma pilha de cinzas nesse momento.
— Gosta de contar histórias ou essa revelação significa que vai colaborar comigo? — Ela indagou abruptamente.
— É sempre tão franca?
— Quando posso.
Não pude evitar de bufar levemente com divertimento.
— Amanhã, no Festival da Aurora, um agente de Lodrus vai me encontrar para discutirmos. Não gosto de ir às cegas sozinho. Preciso que me vigie e me dê cobertura.
A elfa me olhava com uma sobrancelha erguida.
— É isso? Sem nenhuma informação útil antes de pressupor que vou trabalhar como sua guarda-costas?
— Se eu sair vivo de lá, dir-te-ei o que sei. Tem minha palavra. Chegarei ao pôr-do-sol, e estarei usando uma máscara de leão-desértico.
— E como sabe que pode confiar em mim?
— É simples. Não sei. — Dei de ombros. — E não me importo. Mas agradeceria o reforço.
Era verdade. Ajudando-me ou não, eu faria o que tinha de fazer e prosseguiria em meu caminho. Como eu já fiz muitas vezes antes: sem olhar para trás.
— Espera — a elfa me chamou a atenção, conforme eu ia embora. — Por que não se junta a nós?
— Não encaixo bem em grupos.
— E prefere dar a cara a tapa sozinho contra um dos maiores impérios que esse mundo já viu?
— Não tenho interesse em "dar a cara a tapa” contra ninguém. Nem em sua causa.
Ela me observou com uma expressão neutra antes de continuar, como se visse através do semblante de desinteressado.
— Você parece ser um viajante. Atravessa a terra durante as noites, vê o povo desolado e o que o império faz com aqueles que o desafiam. Não sente vontade de mudar isso?
Sem dúvida. Já havia visto batalhões imperiais cometerem atos indizíveis. E cada vez mais descaradamente, conforme encontravam pouca resistência em suas expansões territoriais e nas incursões da Caça aos Magos. Mas eu não devia me importar. Não podia. Não havia tempo.
Não notei a elfa se aproximando enquanto eu mergulhava em meus próprios pensamentos. Mas tive a impressão de que não notaria independentemente de onde meu foco estivesse.
— Não peço que se mate por nossa causa — ela insistiu. — Mas podemos usar mais pessoas dispostas a ajudar. Ainda mais uma como você.
No entanto, mesmo que eu não me interessasse pela causa, um grupo de rebeldes hábeis e sem empatia para com o Império poderia ser útil.
— Eu irei com você. Por hora. — Pude jurar que senti Abaddon bufar de insatisfação. Minha lâmina demoníaca ardeu em resposta, como se eu houvesse acertado no palpite.
— Não peço mais nada. Meu nome é Loryn, aliás. Acho que gostaria de saber a quem vai responder — ela me disse com uma piscadela. — Já que o seu não é Hastur, é...?
Fiquei um minuto em silêncio enquanto ela pareceu aceitá-lo com um dar de ombros e me guiava em alguma direção. Considerei não responder.
— Asharan. Asharan Zyara — disse por fim.
Começamos a cavalgar ao nascer do sol, há algumas horas. Atrás de mim, um pequeno batalhão de algumas dezenas de homens bem equipados me seguia. Se os deuses fossem bons, toda aquele reforço não seria necessário.
Mas era melhor prevenir do que remediar.
Eu ia à frente, atrás apenas de alguns batedores que foram ainda mais adiante. O dia, de céu limpo e nuvens esparsas, era quente, a luz do sol reluzindo fortemente nas armaduras dos soldados. Para leste e oeste, planaltos verdes de gramados com poucas árvores se estendiam até que terminassem em visões longínquas de florestas bem a fundo no horizonte.
Aqui e ali, ruínas eram avistadas ao longo do trajeto, tão comuns quanto as árvores e as nuvens que compunham a paisagem. Castelos engolidos pela terra, arruinados e esquecidos. Fortalezas pomposas de outras eras, agora reduzidas a pedaços de pedra e pilares quebrados de rochas há muito não utilizadas nas construções. Rios e lagos formados pela Ruptura, quando a catástrofe estilhaçou as fundações dos continentes, separando reinos, países e impérios e afogando milhões e milhões.
Seguindo a estrada mais à frente, o declive do terreno começava, dando para uma depressão cuja base era repleta de arbustos e cavernas em suas laterais. Além de diversos assentamentos dos feéricos felinos — os Amori —, e nosso destino: a tribo de Ishnar.
Chegamos à entrada da tribo, e me desci de Callista — minha égua, lustrosa e negra como ônix —, meu peso junto com o da armadura emitindo um baque audível no chão rochoso. Mandei meus homens aguardarem do lado de fora ao me direcionar à entrada, mesmo não convidado.
— Comporte-se, garota — eu disse à Callista. A égua bufou no que pareceu ser assentimento, e pisou com uma das patas frontais fortemente no chão.
Dois guardas bloqueavam a entrada, ambos armados com uma lança e um escudo cada. Um deles recuou, mas o outro, apesar de parecer nervoso, pôs sua lança entre mim e a passagem. O rapaz era jovem, ao menos para padrões feéricos. Sua juba castanho-escuro não era proeminente como a dos machos adultos da raça, e seu olhar transmitia uma experiência que ainda restava a ser obtida.
Retirei meu elmo. Eles provavelmente me reconheceriam de qualquer maneira. Não é qualquer um que chega com fileiras de soldados imperiais trajando uma armadura completamente negra, medindo quase dois metros de altura e com um braço de metal.
Ainda assim, a estranheza que minha aparência causava — especialmente para os feéricos Amori, pomposos e orgulhosos — era notável. Meu rosto denotava os traços de minha bastardia. Meio humano, meio felino. Meu cabelo cor vermelho-vinho, apesar de se assemelhar a uma juba, cheio e rebelde, era composto por fios de cabelo de um homem. Meus traços faciais também eram humanos. Traços de pelagem vermelha se alastravam pelo meu corpo e onde a barba dos humanos normalmente era, mostrando que ao menos em parte meu sangue Amori persistia.
— Se afaste, garoto. Isso não lhe diz respeito — falei ao rapaz. Ele estremeceu, mas permaneceu firme em sua posição. Suspirei e coloquei a mão em minha lâmina embainhada. — Por favor. Para o seu bem.
O outro guarda, mais velho e experiente, se aproximou dele, colocando uma mão em seu ombro. O rapaz se acalmou, abaixando sua lança.
— Vá em frente, bastardo. Faça o que tem de fazer. — O mais velho cuspiu as palavras com desgosto.
Burburinhos eram trocados e pessoas andavam para lá e para cá enquanto eu adentrava o assentamento com o elmo aberto, até que cheguei aonde queria: a tenda do chefe da tribo. Simples, porém enorme, e onde o líder deles, Dryhion, provavelmente estaria.
Cravei minha lâmina de aço-obsidiana no chão em frente à tenda e guardei meu escudo em minhas costas, usando meu braço mecânico. Eu conhecia aquele povo orgulhoso, cujo sangue corria em parte nas minhas veias. Eu sabia que, entrando ali sozinho, Dryhion não teria escolha senão me confrontar — seja por orgulho próprio, ou pelo orgulho que seu povo depositava nele.
E, como esperado, o amori saiu da tenda. A proeminente juba branca era remexida pelo pouco vento que chegava ali. Ele carregava uma espada em cada lado da cintura, ambas de cabo ornamentado com penas e de fio curvado. O próprio macho também se vestia adequadamente como um chefe, com um conjunto de couro enfeitado com marcas de tinta vermelha e desenhos rudimentares, além de cordões, brincos e anéis com penas e pedrinhas coloridas.
Dryhion, na língua tribal, começou a falar.
— O que o cachorrinho de Alerith veio fazer aqui?
— Eu vim em paz — respondi na língua comum de Valyoth, sabendo que ele entendia. — Em nome de Alerith Sicarion, Imperador de Lodrus, Primeiro de Seu Nome...
Dryhion cuspiu no chão aos meus pés, e me interrompi.
— Já chega, Dryhion — falei, agora também em tribal, para que seu povo também pudesse testemunhar minhas palavras. E para que, talvez, ele enxergasse o curso de ação mais sensato. — Você adia o inevitável. Eu não quero que seu povo tenha mais sangue derramado. Apenas dobre o joelho perante o Império.
E era verdade. Não havia necessidade de mais mortes. Mas o orgulho daquele povo, que preferia perder a própria vida a se ajoelhar perante a promessa de ordem e prosperidade...
Pois era isso que o Império trazia, não importassem os meios utilizados.
Ao redor de nós, um pequeno público se reunia, alguns me insultando, outros falando sobre apaziguar a situação. Mas, no geral, um silêncio temeroso.
— Tudo que vejo — Dryhion continuou — é um bastardo aleijado, que virou as costas para o próprio povo para virar uma puta dos humanos. Que invadiu nossas terras, e agora nos ameaça com derramamento de sangue, como se nós o devêssemos algo.
Alguns murmurinhos de aprovação entre a plateia, mas o medo e os olhares de apreensão eram palpáveis entre a maioria.
— Nosso sangue vai manchar a terra e nossos espíritos serão carregados pela Mãe — ele continuou. — Mas não vamos nos acovardar perante vocês, bando de desgraçados.
Olhei para a tenda atrás dele, donde uma fêmea e um garoto saíam abraçados e assustados. Tursa e Zyghon, se eu não estivesse enganado, esposa e filho de Dryhion.
Não dei atenção aos insultos, em vez disso pegando minha espada no chão, apontando-a para ele.
— Que me diz, Dryhion? — Falei, mantendo a conversa em tribal, e bem alto, para que seu povo continuasse ouvindo. — Você e eu. Se você vencer, eu instruí meus homens a recuarem e deixarem seu povo em paz.
Era mentira, e eu sabia disso. No improvável resultado de minha morte, meus homens voltariam com a notícia e o Imperador mandaria centenas de homens para arrasar o chão onde passassem e tomaria aquelas terras à força.
— Mas se eu vencer, seu sucessor vai decidir o destino de seu povo — lancei um sorriso sombrio ao garoto, Zyghon, que arregalou os olhos quando seu olhar se encontrou com o meu. — E... eu não sei você, mas eu tenho a impressão de que ele será bem mais maleável.
Mal terminei de proferir minhas palavras, Dryhion apenas rosnou de ódio e sacou suas lâminas gêmeas, cortando a distância entre nós como se fosse a personificação do vento.
Com o braço da prótese, peguei o mais rápido possível o meu escudo e o equipei, preparando-me para receber os golpes. Meu corpo tremeu quando fui atingido por um ataque com as duas lâminas ao mesmo tempo e, durante uns bons momentos, apenas fiquei na defensiva, enquanto Dryhion me atacava como uma tempestade.
Aguardei, defendendo-me com o escudo e ocasionalmente aparando um ataque ou outro com minha própria lâmina. O macho era impetuoso, mas eu me mantinha firme. Minha armadura, mais pesada do que qualquer equipamento comum, bloqueava os raros ataques que passavam pela minha defesa.
Dryhion, no entanto, estava acostumado a lutar contra oponentes cobertos de metal. Em seus lampejos de aço, ele atingiu as juntas nas minhas pernas, fazendo-me cambalear e precisar me apoiar com minha lâmina no chão.
Quando ele avançou, pensando ter visto uma oportunidade de acertar meu pescoço, eu me levantei com toda força que pude reunir. A ofensiva o surpreendeu, e consegui acertá-lo com meu ombro. Pude ouvir minha ombreira estalando os ossos em sua costela, onde o acertei.
Dryhion caiu, deixando ambas as lâminas escorregarem para longe. Foi quando, caído, ele estendeu uma das mãos para mim e proferiu palavras que eu não consegui escutar. Levantei meu escudo imediatamente, já imaginando o iminente.
Contra um oponente qualquer, a rajada de magia arcana que Dryhion lançou me empurrando para trás provavelmente causaria um grande estrago.
Mas eu estava completamente equipado com uma armadura e escudo de aço-obsidiana. O material, resistente contra magia, era extremamente difícil de ser manuseado, e eu poderia contar nos dedos quantas armaduras completas daquele material existiam, fosse devido ao preço exagerado ou pela falta de força daqueles que tentavam as usar.
E eu trajava uma delas.
Meus pés oscilaram e senti uma dor aguda ao longo de todo o corpo, conforme a energia mágica se chocava e se dissipava, mas logo pus um deles a frente e retomei meu equilíbrio, indo em direção ao macho.
E, usando meu escudo, bati com toda minha força em seu rosto.
Quando ergui o escudo, com sangue pingando dele, Dryhion sorriu, alguns dentes agora estilhaçados.
— Maldito sangue-ruim. Acha que está fazendo algo de bom, servindo a esses merdas — ele falou, quase balbuciando. Pedaços de dente caíam de sua boca, juntos com o sangue que ele cuspia. — “Cavaleiro Negro”. Que piada. Deviam ter matado você e a puta da sua mãe ao invés de terem te...
Incerto do porquê de eu ainda estar lhe dando atenção, encontrei a força que me restava e desci o escudo em seu rosto de novo.
E de novo.
E de novo.
Até que não sobrasse nada além de pedaços emaranhados de ossos, cérebro e sangue no chão abaixo de mim.
Me levantei, não percebendo que estava de joelhos sobre o corpo do chefe, e me virei para a família dele, mais especificamente para o filho.
Caminhei até ele, com o gosto de sangue ainda em minha boca e meus passos ecoando em meio ao silêncio absoluto que havia se instaurado no povo feérico. Ninguém tentou ficar em meu caminho. Tulsa, a mãe do garoto, pôs-se na frente dele, com lágrimas persistentes delineando delicadas linhas em suas bochechas. Eu a ignorei, olhando diretamente para ele ao falar.
— Em nome de Alerith Sicarion, Imperador de Lodrus, Primeiro de Seu Nome e Herdeiro das Terras de Aço e Fogo, se ajoelhe.
Quando ele hesitou, com lágrimas escorrendo dos olhos inocentes, sua mãe tomou a decisão por ele, empurrando-o gentilmente até o chão.