A Queda dos Ancestrais
Um conto do universo de Ecos de Nyzoren
Um conto do universo de Ecos de Nyzoren
No início, é dito que na terra não havia nada além de um turbilhão de caos e chamas. Porções de terrenos vulcânicos e atormentados oceanos se espalhavam por toda a vastidão, ocupados por titânicos e mortais dragões e colossais e ferozes criaturas marinhas. Nada além de uma pura e primal guerra eterna entre abominações além da imaginação num mundo inóspito e entrópico.
Então, eles chegaram. Aqueles que viriam a ser chamados de Ancestrais. Deuses, soberanos; como preferir. Atraídos para cá por motivos há muito discutidos por escolares e pensadores.
Pouquíssimo se sabe sobre os antigos Ancestrais. Seres de absoluto e imenso poder, chegaram a nosso mundo vindos dos confins do infinito, lugares que nossa mente pode apenas tentar conceber. O primeiro ato deles foi purificar o mundo das bestas que o corroíam. Como, ou se houve alguma dificuldade, não se sabe. Depois, usando de uma fenomenal maestria arcana, usaram de seu próprio poder e da magia do mundo para moldar a terra como preferiram.
Fogo, obsidiana, solo seco e oceanos venenosos deram lugar a densas florestas, estepes nevadas, dunas deslumbrantes e calmos mares. Tal era o dom dos Ancestrais de tornar reais as suas vontades.
Mas por motivos que eles levariam consigo para a pós-vida, uma guerra foi iniciada entre eles. Dias de conflito se tornaram meses, que se tornaram anos, que se tornaram séculos. A discórdia não chegava ao fim, e vislumbres de esperança para um resultado pacífico não existiam.
Foi então que, após um longo de tempo de devaneios e experimentação, os Ancestrais chegaram à conclusão de que, ao entrelaçar sua própria vasta energia com a inata magia do mundo, poderiam usá-las de forma nunca imagina antes: a criação da vida. Ora, com o poder de criar vida às suas imagens, existiria algum outro passo até a divindade em si?
Com isto, e à medida que outros Ancestrais alcançavam tal conhecimento, se deu a concepção das primeiras raças sencientes de nosso plano: a nossa gênese.
Mas os Ancestrais nos viam não como pais veem sua prole, e sim como um ferreiro vê seu martelo ou um cavaleiro enxerga sua espada. Por anos fomos usados como ferramentas numa guerra fútil entre eles. Meros utensílios, criados apenas com o propósito de servir vaidosos mestres no caminho da autodestruição.
Porém, havia um Ancestral, o que chamamos de Nyzor, que nos via como mais que isso. Filhos, talvez; pobres criaturas presas à servidão de tiranos. E estas criaturas estavam cansadas de servirem como peças.
Foi quando nossa salvação viria. Foi quando, num ato de traição à sua própria espécie e de amor a nós, Nyzor tomou nosso lado, quebrando nossas correntes e transformando-as em armas para dominar nossos opressores. Como um caçador ensina o próprio filho a manusear o arco, Nyzor nos alimentou com conhecimento. Ciências, artes de guerra e, principalmente, como controlar a selvagem magia que permeava nosso mundo. Reuniu então os melhores de nós para comandar as massas, com fé na possibilidade de que, munidos destes novos aprendizados, poderíamos contrapor os chamados deuses.
E aqueles entre nós com a honra de liderar a frente da rebelião com Nyzor seriam:
Aela, que viria a ser chamada Rainha Aela dos Humanos, força imparável em batalha, cortava e extirpava oponentes com seu enorme machado de batalha com a mesma facilidade que um tigre-de-outro persegue e dilacera sua presa;
Drexadia, que viria a ser chamada Temahe, Grande Mãe, Drexadia dos Niyaru, manipulava com esplendor a magia de nossa terra e convocava o auxílio de feras de todo canto contra a crueza dos Ancestrais;
Signowr, que viria a ser chamado Rei Signowr dos Syraru, trouxe consigo a fúria dos oceanos contra aqueles que outrora o acalmaram, mas que agora o negligenciavam;
Karzkan, que viria a ser chamado Rei Karzkan dos Vultan, e com seus próprios punhos trazia contra nossos opressores o furor em sua forma mais cristalina;
Vaelir, que viria a ser chamado Chefe de Guerra Vaelir dos Amori, rompia a linha de frente com despreza disparatada, como se os próprios ventos tomassem forma em nossa égide;
Arkys, que viria a ser chamado Grão-Mestre Arkys dos Azerai, convocava todo o ímpeto dos elementos com maestria inimaginável, e fazia-se derramar arrasamento e destruição em forma de chamas descontroladas sobre as fileiras dos Ancestrais.
E assim o confronto tomou forma. Pela primeira vez em séculos, os Ancestrais deixaram suas diferenças de lado para enfrentar a nova ameaça. Foram dias e dias de batalha, e as forças em colisão que esta contenda gerou deixou cicatrizes que marcariam a terra por muito tempo a vir. Anos de opressão e abuso dos Ancestrais se chocaram contra a ira há muito reprimida dos mortais, estes agora providos com todo poder necessário para conjurá-la, graças a Nyzor.
No final, o triunfo veio a nós, mas não sem perda: pois o generoso Nyzor havia de faltar, dando sua vida em prol de suas crianças, e dizia-se que ele o fez com o sorriso em seu rosto.
Herdaríamos, então, a terra, e a batizaríamos de Nyzoren em tributo ao nosso redentor.
E esta é a história de como aqueles que eram nada mais que súditos superariam os tão chamados deuses, e o que marcaria o início de uma nova era: a nossa.