Conferência
[Salão de Nossa Senhora das Dores/Piso 0] [11h15]
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Bispo da Guarda, ordenado bispo a 16 mar 2025
No Patriarcado de Lisboa, foi vice-reitor e reitor do Seminário dos Olivais, vice-reitor no Seminário de Nossa Senhora das Graças e prefeito no Seminário de Caparide
Secretário do Secretariado de Ação Pastoral
Formador de diáconos permanentes
Membro de vários conselhos diocesanos e capítulos
Assistente espiritual de equipas e escutismo
Colaborador na pastoral paroquial
Diretor do Setor de Animação Vocacional
Alguns anos no Serviço de Nacional das Vocações
Participou em 2 Congressos Europeus das Vocações (um da Obra Pontifícia para as Vocações Eclesiásticas e outro da Congregação para o Clero)
I. O acompanhamento é diferente de uma animação.
Animação
Animar: uma palavra ambivalente: com alma, com ânimo; entreter, ocupar
"É preciso cativar os jovens". Mantê-los. Mas o discipulado é adesão dinâmica, com ritmos diferentes: às vezes é preciso deixar partir sem abandonar, para abraçar lá aonde se vai ou retornar mais decidido.
Foco: nas actividades e não tanto no percurso; nas mediações (a doutrina, o serviço, a criatividade) e não tanto no encontro com Cristo que elas devem favorecer (ex.: vigílias - música sem Palavra e silêncio, exposição do Santíssimo sem iniciação e condução, expressão sem impressão); na presença e não tanto no processo.
Modo: ao todo sem personalização. Por isso, tende-se a nivelar por baixo, sem distinguir (com medo de excluir ou fazer acepção). Em vez de comunidade interpessoal oferece-se um colectivo indistinto.
Agentes: mais animadores de actividades religiosas do que iniciadores aos dinamismos da fé.
Acompanhamento
Acompanhar: caminhar com; partilhar o pão (que a vida amassou e o Senhor consagrou)
"...Os jovens necessitam também de ser acompanhados..." (CV 242). É preciso oferecer momentos de encontro e escuta, diálogo significativo, experiência feliz de Cristo e de Igreja; itinerários de continuidade, redes de relação, protagonismo dos jovens; acompanhamento espiritual.
Foco: experiência feliz em Igreja com ressonância interior e rede de acolhimento, caminho (a fazer) e serviço.
Modo: atenção personalizada em contexto comunitário; com exigência adequada, a puxar para cima; com paciência e pedagogia progressiva.
Agentes: cristão fiel comprometido na Igreja e no mundo; em tensão contínua para a santidade; não julgador mas cuidador; capaz de escuta activa; gentil a responder; consciente de quem é e dos seus limites, qual pecador perdoado; conhecedor das alegrias e tribulações da vida espiritual. (CV 246) ‐ em suma um agente de evangelização. Mediações como instrumentos de qualidade, a seu tempo (iniciação à Escritura, iniciação e aprofundamento da oração e dos sacramentos, experiência do serviço e da caridade, protagonismo e liderança).
II. O acompanhamento exige o discernimento.
Discernimento o que é?
Aprender a ler segundo Deus. Distinguir o que vem de Deus, o que é apenas meu, o que é do Maligno. Entendimento ou inteligência
Aprender a decidir (-se) segundo Deus. A colocar-se na vontade de Deus, a mover-se em Deus. Conselho e Fortaleza
Discernimento pessoal e discernimento comunitário. Nas vocações ministeriais e nas vocações de sequela Christi, ambos têm lugar necessário, mas porventura pesos distintos.
Campos de discernimento.
1º Campo de discernimento: a etapa de maturação humana.
A) A adolescência (3º ciclo e secundário, 12 < 18).
Filhos de Deus, chamados para Ele, com planos de sentido e missão, que me estão confiados como a guias (comum às demais)
Etapa de formação e crescimento onde os interesses se alargam e se podem potenciar mais, às relações e ao mundo: saídas, projetos, amizades.
Etapa de começar a pôr em crise o que até aí era inquestionável: há nãos que são procuras e porquês. A sabedoria do testemunho e não o testemunho de si.
Etapa de variação de humores e inconstância, que pede sabedoria para cuidar da raiz e continuar a semear o perene (não ir na tentação de facilitar pelo cativante ou efémero sentimental). Muito importante aqui mudar de registo na vida da Graça (confissão, crisma): são dons e ferramentas de caminho e não diplomas.
Etapa da puberdade e descoberta da sexualidade. Importa aqui ter compreensão clara das coisas: antropologia cristã do amor e da sexualidade:
o valor do corpo e a descoberta deste na sua unidade pessoal,
a identidade sexual e as inseguranças de passagem numa cultura pan-erótica e activista,
as diferentes formas de relacionamento (amizade, amizade especial, namoro, noivado, casamento) e suas linguagens
paixão, desejo, carência, busca de si. Pulsão, não instinto.
amor, decisão, construção, fidelidade, discernimento.
Etapa de vulnerabilidade
As redes de socialização e aceitação, com exposições geradoras de aprisionamento (atenção às redes sociais)
Experiências intensas, rápidas e sucessivas, geradoras de ilusão e inebriamento.
A sexualidade digital, geradora de adições, perda de fronteiras, sentimento de impunidade, abusos iniciais.
Potenciação de sentimentos de rejeição: ausência da figura paterna, super presença da figura materna, autoritarismos, bullying escolar (por diferença física, psíquica ou espiritual), iniciações precoces, relações violentas, recusas.
B) A juventude (Universidade e primeiros empregos; 18 < 30).
· Muito do que é a adolescência, prolonga-se na juventude. Com maioria de razão na cultura de hoje, com processos de maturação e autonomização mais retardados.
· Experiências fortes de desenraizamento, reconfiguração de relações, autonomia (social e, por vezes, financeira); a solidão no meio de muita gente; as compensações ilusórias.
· Verificação das ilusões dos sonhos de criança diante da experimentação daquilo por que tanto se lutou (o curso não corresponde; o trabalho não dá o que se sonhava).
· Experiências fortes de encontro com Cristo, em contextos eclesiais já não de rotina; missões e amizades em Cristo: abertura para um novo questionamento existencial e vocacional.
· Necessidade de relações de estabilidade numa etapa onde o ímpeto de decisão, o contacto com múltipla possibilidades, o ardor de uma redescoberta de Jesus e da Igreja podem tender a decisões precipitadas; e muito sectorizadas (“aqui é que está a verdade e a salvação”).
· Oferta de relações de confiança para abertura e partilha do mundo interior que se foi construindo conforme se pôde (experiências precoces, medos e inseguranças inculcados, ansiedades e pânicos; o religioso como saídas ilusórias)
C) Vocações adultas (Adultos; > 30).
· Atenção ao percurso histórico feito: porque só agora surgiu a questão? Qual o itinerário de amadurecimento humano? Qual o horizonte de fé eclesial? (e não meramente religiosa, numa busca de autorrealização).
· Atenção a hábitos enraizados, forma mentis configurada, cristalizações.
2º Campo de discernimento: a vocação.
Compreensão
Universal e essencial: a vocação de cada um é a razão de ser acompanhante. É a pessoa e não a manutenção da Igreja.
Não natural, não espontânea ainda que interior. É preciso cuidar activamente
Com Pai e Mãe. Desvios do subjectivismo e do funcionalismo.
Da gramática da vida à dramática da salvação. A felicidade é uma consequência da redenção.
3º Campo de discernimento: a arte de acompanhar
Acompanhar
Educação humana e afectiva
Iniciação à fé teologal vocacional
Palavra personalizada: antes (atenção no olhar a quem dizer o quê); durante (proximidade sem substituição nem manipulação; muita liberdade do acompanhante para abrir espaço de liberdade ao acompanhado); depois (solicitude sem formação paralela em relação aos formadores)
Projeto de vida
Realista e adequado. 3 P's
Santidade: a radicalidade do quotidiano; a liberdade libertada; a justiça justificada; humanização sem afectações.
Moral sem moralismos; Aliança sem legalismos; Pureza sem puritanismos; Decálogo, síntese, bem-aventuranças.
· Etapas, ferramentas, lugares, passagens
III. A configuração vocacional do ambiente e da pastoral.
Catequese (também aos padres) sobre a realidade da vocação cristã:
Universal e essencial: a vocação de cada um é a razão de ser da transmissão da fé. É o sentido e a meta da pessoa e não a manutenção da Igreja, ou a transmissão de valores.
Não natural, não espontânea ainda que interior. É preciso cuidar activamente
Com Pai e Mãe. Desvios do subjectivismo e do funcionalismo.
Da gramática da vida à dramática da salvação. A felicidade é uma consequência da redenção.
Dimensão transversal da pastoral e não um sector pastoral: ou há preocupação vocacional na liturgia, na catequese, na pastoral juvenil, na pastoral familiar, ou tudo redundará em estratégias de captação, boas para equipas de futebol, válidas a prazo (como os jogadores)
Primeiro pesca em rede; Mas depois é à linha.
Criação de um ambiente vocacional: em tudo, escutar, discernir, responder, discernir, rever/confirmar, discernir, fidelizar...
Tornar claro que toda a etapa da vida é vocacional. Criança, adolescente, jovem, adulto, maduro, ancião, moribundo.
Multiplicar experiências vocacionais: o crisma como vocação, o namoro como vocação; encontros e visitas vocacionais
Interpelação pessoal: isto para ti, por isto e aquilo... Distinguir convite de apelo. Manter liberdade
A Deus não se diz não:
O sentido da liberdade.
O sentido da obediência.
O sentido da pobreza.
O sentido da realização.
Educar para o amor (oblativo)
A entrega e o compromisso (o outro e o definitivo)
A afectividade construtiva da unidade antropológica.
A castidade como alargamento e não aguentar-se.
Unidade de vida, com graça, vontade e ordenamento do desejo.
Procurar primeiro o Reino e a sua justiça. Além do que está dito sobre a felicidade, a purificação do voluntariado auto-centrado.
O acompanhamento pessoal e continuado (já desenvolvido acima)
IV. Iniciativas e itinerários.
Animadores paroquiais vocacionais. Constituição e sua formação. Com casais (e pais de consagrados/candidatos)
Mosteiro Invisível Vocacional.
Visitas a paróquias procurando suscitar animadores locais
Encontros fortes: JMJ; Peregrinações; JDJ; Projectos missionários.
Actividades vocacionais para jovens (em paróquias, diocesanas...) e grupos vocacionais - paroquiais/vicariais; diocesanos
Centro Juventude ou Universitário; NEC´s.
Seminário como ofertas espirituais e vocacionais (jovens, famílias, adultos). Missão Betânia.
Pré-Seminário e Luzeiros/Grupo Mais Além. 3as.com. Com itinerários de acompanhamento.
Itinerários de formação. Também devem assumir itinerários de acompanhamento, a partir das Ratii Formationis e das Constituições. (Por exemplo: Ser filho e ser irmão (etapa discipular); ser esposo, ser profeta, ser servo e ser sacerdote/pastor (etapa configuradora)).