Na verdade, não tem como falar da minha profissão sem voltar lá pra infância. Desde pequeno fui diagnosticado com obesidade, assim como grande parte da minha família. Cresci em Campos dos Goytacazes-RJ em um ambiente onde o sedentarismo e os hábitos de vida pouco saudáveis faziam parte da rotina. Meu pai trabalhava como pipoqueiro e ajudante de obras, enquanto minha mãe se dividia entre cuidar da casa e estudar enfermagem. Com uma rotina puxada, eles decidiram me colocar em um projeto social de taekwondo, onde aprendi muito mais do que técnicas de luta.
A partir daí, o esporte passou a fazer parte da minha vida de forma natural. Brincava de futebol na rua e na escola, andava de patinete, bicicleta, skate e até me arrisquei no parkour. Fiz escolinha de natação, joguei vôlei de praia (cheguei até a competir!) e atuei como líbero no vôlei de quadra. Sempre gostei de tênis de mesa (acredita que fui campeão escolar? kkk), basquete e os esportes eletrônicos.
Já na adolescência, com o desejo de emagrecer e me sentir melhor comigo mesmo, me aproximei das lutas: treinei kung-fu, jiu-jitsu, arrisquei um pouco de MMA, iniciei na musculação e comecei a correr também. Foi aí que nasceu meu interesse pelo corpo humano e o sonho de fazer medicina.
Mas esse sonho não veio fácil. Enquanto estudava, trabalhava para ajudar a pagar os custos: fui garçom, barman, vendia bebidas em shows, descarreguei caminhão… fiz de tudo um pouco pra conquistar minha vaga na faculdade.
Aos 19 anos, me mudei para o Rio de Janeiro, onde fiz medicina. Foram momentos de muitos desafios, mas também de muito aprendizado. Conheci a Lyz, que hoje é minha noiva, e juntos adotamos o Marley, um maltês que virou parte da nossa família.
Desde o começo da faculdade, me envolvi com ensino, dando monitoria e aulas particulares para os colegas. Passei por estágios com bolsa em diversas áreas e instituições: atenção primária em Realengo, emergência em Botafogo, UTI no Hospital Albert Sabin na Tijuca e também em telemedicina na Conexa Saúde.
Mas onde entra a Medicina Esportiva nessa história?
Sempre fui apaixonado por entender o corpo humano e cuidar da saúde de forma integrada. Ao mesmo tempo, o esporte sempre esteve presente na minha vida. Quando descobri que existia uma residência específica em Medicina do Exercício e do Esporte — e que a referência nacional era a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) fui me aprofundar na área. Estudei, me identifiquei e tive certeza: era isso que eu queria. Disputar uma das cinco vagas da residência com colegas de todo o Brasil não foi fácil. Mas a recompensa veio: fui aprovado logo após me formar. Só que antes de começar, tive um novo desafio pela frente.
Fui convocado para o serviço militar obrigatório e precisei trancar minha vaga para servir na Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro. Após o período de formação militar, fui designado para o CEFAN (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes). Foi ali que vivi, de verdade, meu primeiro contato prático com a Medicina Esportiva: atendi atletas militares e acompanhei treinos de alto rendimento com nomes como José Aldo (MMA), Alison dos Santos (atletismo) e Ana Marcela (maratona aquática), entre outros. Além disso, fui responsável pela organização e cobertura médica de grandes eventos esportivos militares, como a Corrida do Corpo de Fuzileiros Navais, o 52º Campeonato Mundial Militar de Pentatlo Naval e a Regata a Remo do Corpo de Fuzileiros Navais.
Depois desse ano intenso, me mudei para São Paulo para iniciar a tão sonhada residência. Vivi intensamente a Medicina Esportiva em todos os seus níveis: do sedentário que quer dar o primeiro passo ao atleta de elite. Já atuei com a Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas no Comitê Paralímpico Brasileiro, com o Corinthians no Campeonato Brasileiro Juvenil de Natação em Recife e Uberlândia, no futebol social do São Paulo FC, como médico da base de Referência FC e também como médico da Seleção Brasileira de Basquete Sub-15/16 — tanto no Sul-Americano no Equador quanto na Copa América no México.
E claro… o amor pelo esporte segue firme na prática também. Hoje, estou treinando para minha primeira maratona, que vai ser no Rio de Janeiro, em junho de 2025. Porque não poderia ser em outro lugar, né?
Essa é a minha história. Uma jornada que começou com o desejo de mudar de vida e que, com o tempo, se transformou em missão: cuidar da saúde das pessoas por meio do melhor remédio que existe, o exercício físico.